David Arioch – Jornalismo Cultural

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Cheri Vandersluis: “Os animais usados nos testes [em laboratórios] não deveriam ter contato humano, porque isso faria com que tivessem vontade de viver”

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“Ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora”

O casal vegano Cheri e Jim administra o santuário Maple Farm no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos (Foto: Maple Farm Sacntuary)

Cheri Ezell-Vandersluis é a fundadora do santuário Maple Farm, criado em parceria com o marido Jim Vandersluis. O local situado na pequena Mendon, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, funciona como um refúgio seguro e amoroso para os chamados “animais de criação” ou seja, animais criados para consumo; criaturas que por diversos motivos escaparam de serem enviados para o matadouro. Lá, eles vivem suas vidas em paz e fazem tudo que têm vontade sob a tutela do casal vegano.

No entanto, Cheri admite que antes de fundarem um santuário, ela conheceu o lado mais obscuro e insensível da natureza humana no que diz respeito ao tratamento dispensado aos animais. “Sempre amei os animais, mas cresci em uma sociedade que os trata como bens, coisas. […] Eu não tinha ideia de que a carne que eu comia vinha de vacas de olhos arregalados e galinhas fofinhas e inocentes. Embora eu sempre quisesse trabalhar com animais, levou tempo e várias lições de vida para encontrar um emprego que realmente os beneficiasse”, relata.

O primeiro trabalho em que Cheri Ezell teve contato constante com os animais foi em um laboratório de testes de toxicidade de medicamentos. Ela atuava como técnica em histologia e autópsia: “Disseram-me que a pesquisa beneficiava a humanidade e que o assassinato de animais era um tipo de ‘sacrifício’. Nos diários de bordo onde gravávamos os dados da sala de autópsia, não havia o conceito de matar, mas apenas de “sacrificar números’.”

Essa dissimulação da realidade foi o que sempre facilitou o trabalho das pessoas em laboratórios. Ou seja, evita-se confrontar a realidade e refletir sobre as implicações das ações para as vítimas, nesse caso, os animais. Cheri se recorda de quando caminhava para as seções onde pequenos e doces beagles eram confinados e rotineiramente vitimados pela administração de compostos promotores de crescimento, antibióticos, dopamina e muitos outros fármacos.

“Eu queria conversar com eles, alcançar as gaiolas para acariciá-los, olhar em seus olhos confiantes e desconhecidos. Fiz isso por alguns dias antes de ser flagrada e repreendida por esse comportamento. Me disseram que os animais usados nos testes não deveriam ter contato humano. Deveriam apenas receber os medicamentos, serem examinados, limpos e alimentados, uma vez que qualquer expressão de carinho faria com que tivessem vontade de viver, afetando negativamente sua reação aos compostos”, revela.

Ela conviveu com essa justificativa por quatro anos até que pediu demissão. Então conseguiu um emprego em um aquário destinado a entreter visitantes. Em síntese, mais um trabalho em que “bolsos cheios significam o derramamento de sangue animal”, na perspectiva de Cheri. A sua função de “aquarista” incluía alimentar e monitorar a saúde dos milhares de peixes e mamíferos marinhos – supervisionando a qualidade da água e ajudando a equipe a cuidar dos mamíferos marinhos, além de auxiliar na realização de autópsias.

Um dia, o aquário recebeu quatro golfinhos nariz-de-garrafa. Cheri sentiu-se privilegiada pela oportunidade de nadar com eles durante a adaptação ao cativeiro. Mas a ideia romanesca de golfinhos vivendo muito bem em um ambiente artificial logo foi descortinada pela realidade: “No começo de uma manhã, ouvi gritos agudos. Nós não podemos falar a língua deles, mas a angústia, a tristeza e a frustração são facilmente traduzíveis. Um dos golfinhos machos prendeu seu nariz em uma rede e tentou se libertar. Ele estava retorcido e apertado – aprisionado sob a água. Na natureza, se um golfinho fica doente ou ferido, outros o auxiliam e o empurram para a superfície para conseguir ar. Nessa configuração cativa, eles só poderiam assistir o companheiro se afogando lentamente [os outros não atinham acesso ao local onde um dos golfinhos agonizava].”

Cheri e outro funcionário do aquário mergulharam com uma faca na esperança de cortar a rede onde o golfinho estava preso. Era tarde demais, e o corpo do animal já estava sem vida. Pouco tempo depois, o golfinho foi substituído por outro espécime capturado na natureza, e a rede substituída por uma corrente de metal. Assim o show prosseguiu. “Depois que saí do aquário, passei pouco tempo atuando como designer gráfica antes de entrar para o ramo de leite de cabra. Conheci meu marido, Jim, quando eu estava comprando cabras para o meu negócio. Ele estava vendendo suas vacas leiteiras e se preparando para adquirir novilhas. Nos tornamos inseparáveis”, revela.

Em uma ocasião, quando Jim estava ordenhando uma vaca, Cheri entrou no celeiro e encontrou uma bezerra doente. O marido explicou que a novilha seria vendida para um comerciante de carne e logo mais reduzida a pedaços de carne. “Naquele tempo, eu tinha algum dinheiro e implorei para que ele me deixasse cuidar dela. Ele concordou relutantemente. A levei para uma clínica veterinária, onde aplicaram fluidos intravenosos e antibióticos, e disseram que mais um dia sem cuidados e ela teria morrido. Quando ficou boa o suficiente, eu a trouxe para a fazenda onde ela acabou se tornando uma vaca leiteira”, confidencia.

Com o tempo, Jim e Cheri não conseguiram mais continuar ordenhando vacas. Por isso, aumentaram o rebanho de cabras e começaram a vender leite de caprinos: “O infeliz subproduto disso é: ‘O que fazer com todas as crianças?” Não demorou, e o casal percebeu que em certas comunidades étnicas é uma tradição consumir carne de cabras ainda bebês, ou seja, cabritos, durante o feriado de Páscoa. Pessoas de descendência portuguesa e grega sempre os procuravam nessa época do ano.

“Nós pesávamos os pequenos de 11 a 15 quilos e os clientes pagavam. Eles eram recolhidos e jogados na parte de trás do porta-malas ou na carroceria de uma caminhonete como se fossem pedaços de bagagem. Esses bebês olhavam nos meus olhos com confiança, admiração e medo. Jim e eu sabíamos o destino deles. Trabalhando com laticínios a vida toda, Jim tentava endurecer as minhas emoções. […] Muitas vezes, ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora. Foi em um daqueles momentos terríveis que Jim e eu nos olhamos de esguelha e decidimos começar a nossa jornada a favor da vida.”

Cheri e Jim conheceram a organização não-governamental Pessoas Pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta) e receberam toda a ajuda necessária para fazer uma transição para uma vida em verdadeira conformidade com o bem-estar animal:

“Entre soluços, falei com uma pessoa maravilhosa que me tranquilizou e disse que estávamos fazendo a coisa certa. Para aliviar o fardo financeiro, nos deram uma lista de santuários para onde poderíamos levar algumas das cabras. Depois de fazer contato com vários santuários sem espaço para mais animais, encontramos o OohMahNee. Os fundadores Cayce Mell e Jason Tracy garantiram que estávamos realmente fazendo o que era certo. Meu coração estava doendo. Eu amava minhas cabras e mandá-las para longe foi difícil mesmo sabendo que seria um lugar seguro para elas. Depois de muito refletirmos, enviamos metade do nosso rebanho para os santuários OohMahNee e PIGs. Foi um dia de sentimentos mistos, mas Cayce e Jason foram meus anjos e nos confortaram durante esse momento angustiante.”

Referência

Satya Magazine. From goat farmer to sanctuary founder. Vandersluis, Cheri-Ezell (junho de 2007).





 

Por que a exploração de animais está na contramão da justiça social

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Harold Brown, o pecuarista que se tornou um defensor dos direitos animais

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Brown: “Até que questionemos esse relacionamento que existe há cerca de 10 mil anos, teremos dificuldade em ver os animais com novos olho” (Acervo: Farm Kind)

Filho de pecuaristas, Harold Brown cresceu em uma fazenda repleta de animais – bois, vacas, porcos e cabras. Começou a acreditar desde cedo que os animais existiam simplesmente para servirem aos seres humanos. “Cresci imerso em uma doutrinação de como os animais estão classificados no ciclo da vida. Também fui um caçador”, relata. Além da sua família, o que ajudava a reforçar a ideia de que Brown estava no “caminho certo” ao tomar parte na exploração animal era a sua própria comunidade, a igreja e a TV.

“Cada intervalo [na TV] tem pelo menos um comercial vendendo produtos com carne, laticínios ou ovos, e eles são inventivos. Quando via isso, eu pensava que estava fazendo uma coisa boa”, afirma. Aos 18 anos, Brown teve um ataque cardíaco, e na época não entendeu o que aconteceu. Ele estava assistindo a um filme e tomando meio galão de sorvete, até que o lado esquerdo do seu pescoço começou a doer. A dor se estendeu para a mandíbula, ombros e se espalhou pelo braço esquerdo. “Eu estava no chão e não conseguia respirar. Parecia uma eternidade, mas durou apenas alguns minutos. Eu não conhecia os sintomas de um ataque cardíaco”, enfatiza.

Mais tarde, seu pai teve dois ataques cardíacos, um acidente vascular cerebral (AVC) que o privou da fala e um aneurisma que quase o matou. Então o médico informou que levando em conta o histórico familiar, Brown, assim como o pai, tinha uma predisposição a desenvolver graves problemas cardíacos. “Disse que se eu não mudasse o meu estilo de vida, teria que usar um marca-passo aos 35 anos. Falou que eu deveria cortar o sorvete, que era um vício para mim, e a carne vermelha. Não sugeriu ser vegetariano. Além disso, eu não saberia o que isso significava. Nunca ouvi falar disso até então”, revela.

Em casa, Harold conversou sobre a sugestão do médico com a esposa e os dois decidiram fazer uma transição para uma alimentação livre de alimentos baseados em calorias vazias e livre de carne vermelha. Em pouco tempo, ingressaram no Clube Vegetariano de Cleveland e se tornaram realmente vegetarianos. À época, Brown conheceu o trabalho dos médicos Caldwell Esselstyn e Michael Greger, defensores da alimentação livre de ingredientes de origem animal.

Alguns anos depois, Harold considerou insuficiente ser vegetariano, inclusive essa etapa de sua história foi registrada no documentário “Peaceable Kingdom – The Journey Home” ou “Reino Pacífico – A Jornada Rumo ao Lar”, lançado por Jenny Stein em 2009. Segundo Harold Brown, mesmo convivendo com animais desde muito cedo, ele não tinha percebido como desenvolveu um mecanismo que o impedia de ver os animais como sujeitos de uma vida.

“Eu tinha uma imagem imediata na minha cabeça de uma luz sobre o meu coração que eu poderia ligar ou desligar dependendo com quem eu estava lidando. Também percebi que a sugestão para esse mecanismo de desconsideração era a frase: ‘Não me importo’”, frisa. No seu entendimento, o ato de negar-se a se importar com os animais permitiu que ele vivesse desconectado emocionalmente, psicologicamente e espiritualmente em relação a eles.

Harold Brown chegou a um ponto em que não considerava mais correto continuar imerso nessa crença de desconsideração. “O que aprendi então foi que ao escolher não dizer que não me importo, então não haveria alternativa a não ser dizer: ‘Eu me importo’. Chamarei isso de cuidado condicional, mas pode ser melhor entendido como compaixão incondicional, que mudou profundamente a minha vida. Tive que trabalhar duro para aprender a praticar a honestidade emocional; algo que nossa cultura não ensina às pessoas, e particularmente aos homens”, avalia.

Um grande problema na perspectiva de Harold, e que dificulta o entendimento de que o respeito à vida animal deve estar muito além de “tratar bem” para explorá-los e matá-los, é que a honestidade emocional é substanciada como contraintuitiva para os homens em nossa cultura, sendo vista inclusive como sinal de fraqueza: “Mas no coração do meu coração eu sabia que era onde eu precisava estar. Se eu quisesse fazer qualquer tipo de diferença em prol de um mundo melhor, eu teria que viver essa verdade.”

Brown admite que não se tornou vegano apenas pela própria força de vontade. Ele teve muito apoio da esposa e de amigos da comunidade vegetariana de Cleveland: “Se eles não me proporcionassem um espaço seguro para explorar os traumas da minha vida, provavelmente eu não teria aprendido a entender verdades muito importantes. Uma dessas verdades é a ahimsa, a não violência.” O ex-pecuarista crê que não há ação sem reação no que diz respeito ao tratamento que dispensamos aos animais. Se os exploramos e os matamos em algum ponto isso também há de gerar consequências para nós.

Para Harold Brown, a forma como vivemos nossas vidas, e as coisas que fazemos ou não fazemos, têm tudo a ver com a realidade que criamos. Ele se recorda que na infância observou que os animais criados para consumo buscavam conforto, prazer, boa comida, abrigo e senso de comunidade. “Mas não permiti que essas observações atingissem a cultura dominante em que vivi. Quando me permiti incluir esses animais no meu universo moral, ficou claro que as observações mais simples que fazemos sobre os animais que chamamos de ‘animais de estimação’ não são diferentes das que poderíamos fazer sobre os ‘animais de fazenda’”, confidencia.

Brown, que antes de se tornar vegano trilhava os passos do pai, ou seja, já atuava na criação de animais para consumo, defende que os animais devem ser respeitados como seres sencientes que são. “Isso significa que eles estão na Terra por suas próprias razões, não pelas nossas. Eles têm seus próprios interesses, assim como os humanos, e devem ser respeitados. Por enquanto, são vistos como propriedade legal dos seres humanos, e essa dinâmica os coloca em grande desvantagem; particularmente em um sistema capitalista de livre mercado, onde os animais são comercializados nitidamente como commodities, unidades econômicas. Até que questionemos esse relacionamento que existe há cerca de 10 mil anos, teremos dificuldade em ver os animais com novos olhos”, acredita. Desde que se tornou vegano, Brown ministra palestras contando a sua própria história e motivando mais pessoas a seguirem o mesmo caminho contra a exploração de animais.

Saiba Mais

Harold Brown vive em Cleveland, em Ohio, nos Estados Unidos.

Referência

FarmKind.org

 

 





 

Alguém diz: “Cara, ser vegano é ridículo, colocar os animais em um pedestal enquanto muita gente passa fome”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Alguém diz:

— Cara, ser vegano é ridículo, colocar os animais em um pedestal enquanto muita gente passa fome.

— Você sabe que nós também somos animais, certo? E não sei até que ponto você se “aprofundou” no veganismo, mas veganismo não tem nada a ver com colocar animais em um pedestal. O cerne da questão é o direito à vida, algo muito simples. Ou seja, se é possível coexistir pacificamente com outras espécies, por que explorá-las, violentá-las, matá-las? Ainda mais levando em conta que ninguém morre por não consumir carne, ovos, laticínios, mel e outros produtos baseados em animais.

— Mesmo assim isso não significa que o veganismo seja tão relevante.

— Bom, não sei o que você qualifica como relevante, mas matamos por ano mais de 60 bilhões de animais terrestres e mais de um trilhão de animais marinhos. Há inclusive estimativas da Fish Count, uma ONG britânica bastante respeitada, que estima que é possível que estejamos matando até 2,7 trilhões de peixes por ano. Sim, só de peixes. Isso parece irrelevante? Além disso, enquanto os seres humanos consomem cerca de 9,5 bilhões de quilos de alimentos por ano, mais de 61 bilhões de alimentos são destinados anualmente aos animais de criação. Isso parece justo e coerente pra você? Levando em conta que são animais que são mortos e reduzidos a produtos. Se me alimento de animais basicamente ajudo a endossar esses valores que realçam com bastante discrepância as nossas prioridades frente à miséria que testemunhamos e ao mesmo tempo ignoramos porque não diz respeito a nós; logo entendemos que não temos qualquer obrigação em relação a isso.

— Ainda acho que veganos não dão a mínima para as pessoas, cara. Eles se preocupam só com os animais.

— Sim, veganismo é sobre os direitos animais, mas não é difícil entender que a partir do momento que enxergamos os animais como sujeitos de uma vida abrimos um precedente para nos aproximarmos um pouco mais de um mundo com mais justiça social. Afinal, que tipo de mensagem essa luta a favor da não violência passa? Essa luta que questiona o lucro baseado na mortandade? A mensagem de que o dinheiro não é mais importante do que a vida. E a partir do momento que entendemos isso, passamos a questionar nossos valores e a caminhar na contramão das mais diversas facetas da exploração e da selvageria.

— Mas legislação a favor dos animais enquanto precisamos de novas leis em benefício da coletividade humana é o cúmulo.

— Bom, eu não vejo razão para colocar seres humanos e não humanos em posição de antagonismo, já que não existe concorrência nesse sentido. Há espaço para as mais diferentes lutas, sem necessidade de rivalidade. Outra coisa, você conhece assassinos veganos? Eu não. Claro, você pode até citar algum vegetariano, e provavelmente tenham existido assassinos vegetarianos, mas não assassinos que sejam adeptos do vegetarianismo ético. Afinal, não existe ética no assassínio. Você já percebeu também como desde sempre muitos assassinos começaram praticando violência contra pequenos animais? Podemos citar agora Richard Chase, que torturou e matou muitos animais, até que em 1977, enjoado de ferir não humanos, assassinou uma mulher grávida e toda a sua família. Imagine se tipos como esse ou seus pais tivessem sido responsabilizados por isso desde cedo. Será que não teríamos evitado problemas? Será realmente que legislação específica contra esse tipo de violência não é necessária? Em um mundo ideal, claro, não deveríamos infligir privação ou dor aos animais sob qualquer circunstância, mas por enquanto infelizmente ainda é preciso trabalhar com as poucas ferramentas à disposição.

— Tudo bem, mas já conheci veganos que odeiam pessoas.

— Se essas pessoas socializam com outras, mesmo que ocasionalmente, elas não odeiam pessoas. No máximo, podem odiar certos tipos de pessoas. Ainda assim isso não é uma prerrogativa do veganismo, mas sim uma prerrogativa individualmente humana. O veganismo não se volta para o ódio; nem poderia, já que se você odiar as pessoas dificilmente você vai conseguir motivá-las a entenderem como o veganismo pode ser realmente positivo para os animais e até mesmo para elas. Sendo assim, que resultado teríamos? Não sou capaz de estimular ninguém a ouvir ou ler o que tenho a informar sobre o veganismo se eu tiver um comportamento ou discurso violento ou odioso. Por outro lado, as pessoas terem momentos de ódio, de cólera, é normal. Isso não significa que elas acordem anotando em um caderninho quem elas planejam exterminar. E se fizessem isso, claro que não teria qualquer relação com o veganismo, já que o veganismo em si não endossa esse tipo de conduta.





 

Written by David Arioch

February 28th, 2018 at 11:36 pm

O veganismo também é uma questão de justiça social

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Por que você não se alimenta de animais?

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— Por que você não se alimenta de animais? O que existe de tão errado nisso?

Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

— Você já viu um boi, uma vaca e um bezerro pastando livremente? Um peixe serpenteando pelas águas? Um porco rolando na relva? Uma galinha ciscando sem pressa?

— Algumas dessas coisas, sim.

— O que você acha disso?

— É divertido, bonito de ver.

— Pois então. Se eu fosse um animal, provavelmente eu não ficaria feliz de ser privado dessas coisas que me trariam algum tipo de satisfação. Se me alimento de animais, não consigo ignorar minha culpa sobre aqueles que são privados de uma vida natural. Eu não gostaria de nascer, viver e morrer para atender supostas necessidades dos outros. Seria como viver sem um propósito próprio.

— Mas animais são criados com essa finalidade. Você não os veria se não fosse por causa da demanda por produtos de origem animal.

— Você tem razão, mas aqueles que vivem merecem gozar de uma vida sem exploração, privação ou sofrimento. Os animais que são reduzidos à comida depreciam a vida bem menos do que nós. Jamais deixariam de lutar diante da iminência da morte. Isso não é um exemplo de vontade de viver? Maior prova disso é que no chamado bem-estarismo os enganamos antes de matá-los. E claro, para parecermos mais humanos aos nossos olhos. Quero dizer, sou um sujeito tão bom que não o mato violentamente, apenas dissimulo uma situação antes do golpe final. Penso que enganar um ser vivo para matá-lo sem que supostamente ele sofra também é triste, porque é uma forma de traição, já que o animal segue seus comandos em confiança. Você já viu um animal oferecer alguma parte do corpo para que você a retalhe? Se um dia eles deixarem de existir, não será algo tão aberrante, penso. E por que seria? A vida deve seguir seu curso natural, e não existe nada de natural, por exemplo, em manipulação genética para atender caprichos humanos. Muitas vezes os animais nem se reconhecem como animais por causa da interferência humana. Tornam-se seres confusos, deslocados de sua própria vocação. Isso não é triste e preocupante?

— É…acho que faz sentido.

— Imagine se alguém o criasse e o colocasse para trabalhar o dobro do que você trabalharia normalmente, em sua capacidade natural. Como você se sentiria?

— Não concordo com essa comparação, é desleal.

— Tudo nos parece desleal quando observamos os outros como se estivessem abaixo dos nossos pés. Nos recusamos a exercer a empatia ou o reconhecimento do valor da vida animal porque isso exige uma revisão de valores. E também porque isso significa mastigar com a boca aberta e olhos esgazeados diante de um espelho convexo que mostra quem somos e o que fazemos; que revela a face que negamos na nossa relação com os animais.





 

O fazendeiro sueco que abandonou a criação “humanitária” de animais e se tornou vegano

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Gustaf Söderfeldt e a esposa Caroline se dedicam à produção de vegetais orgânicos (Foto: Metro.se)

O fazendeiro sueco Gustaf Söderfeldt é uma prova viva do quanto a chamada “criação humanitária de animais” é uma contradição em essência. Em 2006, já fazendo parte de um movimento emergente na Suécia chamado “Grow Your Own”, ele criava porcos, ovelhas, cabras e galinhas. Tudo que ele produzia, incluindo o que ele chamava de “carne ética”, era comercializado em sua loja em Åmmeberg, na municipalidade de Askersund.

“Enquanto eu gerenciava a minha loja, minhas ideias e opções de uma ‘carne ética’ começaram a desmoronar. Logo percebi que produzir carne é tão desnecessário quanto violento. A ‘carne ética” é uma impossibilidade enquanto cultivar alimentos abundantes à base de plantas é sempre possível”, diz.

Söderfeldt notou que os rótulos que ele colocava em seus produtos, destacando-os como alimentos baseados no “bem-estar animal” serviam para convencer os consumidores de que eles estavam comprando produtos “éticos”, e isso os incentivava a jamais deixarem de consumi-los.

A consequência disso, na própria perspectiva do fazendeiro, era que ele contribuía para que os animais fossem vistos não apenas como seres inferiores, mas existencialmente inúteis. Afinal, segundo Söderfeldt, o seu trabalho ajudava a perpetuar a crença de que se os “criamos bem” podemos explorá-los e mata-los por razões completamente desnecessárias.

“Isso pode soar engraçado, mas descobri o veganismo no YouTube, e foi lá que aprendi que era uma opção saudável e viável. Meu mundo como um produtor de ‘carne ética’ em pequena escala foi totalmente virado de cabeça para baixo. Fechei a minha loja, parei de criar animais e me tornei ativo na comunidade vegana. Agora, com minha esposa Caroline, comando uma fazenda totalmente orgânica, sem manejo animal, sem sangue, sem ossos ou quaisquer outros insumos de origem animal. Acho importante considerar que [antes] matei muitos, muitos animais, além de enviá-los para numerosos matadouros”, revela Gustaf Söderfeldt.

A loja do fazendeiro sueco também tinha contrato com outros matadouros. Ele contava não apenas com um constante fornecimento de “carne ética”, mas também de queijos, ovos, laticínios e outros produtos de origem animal que recebiam o selo de “produto ético”: “Então, realmente matei muitos animais e, bem, sinto muito em dizer que na época isso não me afetou muito. Ou pelo menos não no nível do qual eu tenho consciência hoje.”

Mas como isso foi possível? O exemplo de Söderfeldt é muito comum nesse meio. Ele explica que a normalização da morte dos animais criados para consumo por parte de quem lucra nesse meio tem uma justificativa bem simples e usual. Os seres humanos têm formas muito efetivas de bloquear emoções negativas e se concentrar em aspectos positivos, mesmo que para isso seja necessário ignorar ou evitar a conscientização a respeito do impacto de nossas ações sobre os outros. Afinal, considera-se essencialmente o benefício para si mesmo.

“Eu estava recebendo tanto feedback positivo dos outros criadores quanto dos meus clientes que compravam a minha ‘carne feliz’. As pessoas realmente querem acreditar que matar animais é uma coisa boa. Então se você disser isso a elas, bem, então você tende a formar um clube (ou culto) em torno dessa mensagem em que você concede a si mesmo uma validação moral contínua. E assim surgem argumentos típicos como: ‘os animais são necessários para a agricultura sustentável’ ou ‘o pasto é bom para a biodiversidade’, etc”, enfatiza.

De acordo com Gustaf, só aos 34 anos ele abriu os olhos para a realidade dos animais, despertando para a empatia e o respeito independente de espécie. O que também o levou para o veganismo foi o fato de que ele já tinha uma predisposição em tentar minimizar o sofrimento animal. Porém, buscou refúgio na ilusão do chamado “abate humanitário”, que considera que se você cria animais proporcionando-lhes algum tipo de “qualidade de vida”, qualidade esta que é dúbia, porque é reconhecida assim por você, não pelo animal, isso te leva a crer que você tem o “direito” de matá-los:

“Em primeiro lugar, eu era alguém da cidade, e toda a razão pela qual comecei a criar animais de forma ‘humanitária’ era que eu odiava a ideia das fazendas industriais e queria desenvolver uma alternativa viável. Eu genuinamente me importava com os animais e queria fazer o certo para eles. Queria que eles tivessem melhores vidas do que no sistema convencional. Essa era a minha motivação como fazendeiro. Veganismo não era um conceito com o qual eu estava familiarizado.”

Quando começou a aprender mais sobre o veganismo, Söderfeldt percebeu que os veganos se importam verdadeiramente com os animais e, mais do que ele na época em que criava animais para consumo sob o sistema “humanitário”: “Veganos eram mais logicamente e moralmente rigorosos e responsáveis do que eu. Eles chegaram a uma conclusão lógica a partir dessa ideia, que é: se você se preocupa com os animais, você não deve explorá-los.”

Outro testemunho de grande importância do fazendeiro sueco é o de que se você cria animais para consumo ou como fonte de matéria-prima a violência e a crueldade integram a sua rotina, não importando se você trabalha em um sistema considerado “mais humano” ou “menos humano”. Isto porque, segundo ele, o sangue, a coragem, o medo, o sofrimento, a separação das famílias, a degradação da mercantilização dos corpos e da vida em geral são parte da sua realidade:

“Com mais pesquisas, aprendi que o veganismo é uma opção mais saudável e realista. […] Se o veganismo fosse viável, isso significaria que eu poderia realmente fazer o tipo de mudança significativa e positiva na minha vida e na minha relação com os outros, que até então eu pensava estar fazendo quando me tornei um fazendeiro “ético”. Então dei uma chance ao veganismo.”

Gustaf Söderfeldt não nega que no início foi difícil transformar o seu negócio totalmente baseado na exploração de animais em uma fazenda orgânica e vegana. O problema maior não era ele ou a sua força de vontade, mas a típica realidade do mundo ocidental, onde as pessoas são muito habituadas a se alimentarem basicamente com poucos vegetais, muita carne, muita gordura e muito açúcar.

Porém, hoje o fazendeiro afirma com orgulho que ele e a esposa Caroline conseguem sobreviver com a renda de uma fazenda orgânica e vegana: “Cultivamos tomates, batatas, feijões, ervilhas, cenouras, alface, cebolas, repolho, brócolis, flores e muito mais. Vendemos tudo em vários mercados para produtores por meio de subscrições.”

Söderfeldt, que se tornou vegano em 2013, garante que o veganismo foi uma das melhores escolhas de sua vida. Além de reconhecer que os animais não merecem ser explorados, ele defende, valendo-se da sua experiência como agricultor, que o futuro da agricultura sem a exploração de animais é muito promissor tratando-se de eficiência de recursos, uso da terra, sustentabilidade e bem-estar emocional do próprio agricultor. “Tudo isso além de poupar trilhões de animais por ano. Minha fazenda, minha consciência e minha saúde melhoraram imensamente desde que me tornei vegano, e fico grato por compartilhar essa história”, destaca.

Referência

Söderfeldt, Gustaf. I Became a ‘Humane Farmer’ to Help Animals; I Should Have Gone Vegan . Free From Harm (Agosto de 2017).  





 

As armadilhas e a perspectiva capciosa do “bem-estar animal”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Você já percebeu como quando se fala em exploração animal sempre aparece alguém dizendo que há situações em que os animais não sofrem, que eles não são privados de nada, que não há nada de errado nisso? Esse fato tem relação direta com algo que eu chamo de “malícia da produção”. E o que é a malícia da produção?

É quando, por gozarmos de uma inteligência superior a dos animais, manipulamos a inocência não humana visando a lucratividade. Não quero discorrer sobre casos óbvios de crueldade explícita contra animais na produção industrial. Quero versar sobre algo relacionado à “cegueira do justo”, que surge quando somos incapazes de visualizar algo que por uma questão cultural, conveniente e unilateral não nos pareça evidente nem concreto.

Não é incomum alguém que considera o veganismo radical citar o exemplo de uma bela fazenda modelo, onde os animais são supostamente bem tratados. Sei que esses chamados locais existem. Mas essa concepção de bem tratado é definida por quem? Por quem explora ou por quem é explorado?

Se exploro um animal e sou eu que digo se ele é bem tratado ou não, quem define o que é aceitável ou bom para ele sou eu, obviamente, e levando em conta em primeiro lugar o que esse animal tem a me oferecer. Humanos que exploram animais têm sempre uma perspectiva um tanto quanto capciosa do que é o chamado “bem-estar animal”, porque eles entendem que qualquer oposição ao que fazem representa em algum nível um risco aos seus lucros.

Sendo assim, não acho que a única baliza para considerar o que é certo ou errado em relação à nossa intervenção na vida dos animais seja o sofrimento óbvio, a tortura, a crueldade baseada na violência física. Na realidade, existe um ponto que não costuma ser muito considerado, embora seja de suma importância nessa conscientização. Que ponto é esse? É a malícia da produção fundamentada no condicionamento animal.

Caso você seja contra a exploração de animais, em algum momento da sua vida alguém vai querer te apresentar uma “vaca feliz”, um animal supostamente bem-tratado e que dizem nunca ter passado por nenhum tipo de privação. Sim, pode ser que ela não tenha sofrido nenhum tipo de violação que nos pareça óbvia. No entanto, isso não significa que esse animal não tenha sido privado de ser mais do que uma fonte de alimento ou produto. Mas como assim?

Imagine uma situação. Você é criado para ser objetificado, para ser explorado desde o momento em que nasce. Essa é a sua realidade e isso é tudo que você conhece. Então é claro que a menos que você passe por uma situação mais explícita de privação e violência pode ser que você não manifeste contrariedade em relação à forma como vive, mas isso porque te condicionaram a aceitar uma vida para a qual você não deveria ter nascido, porque não diz respeito, de fato, a quem você é, e às suas reais necessidades. Porém, se você está imerso nessa realidade, e isso é tudo que você conhece, como esperar que você veja isso com estranhamento?

Em vários momentos da minha vida, conheci diversos animais criados para consumo que aos meus olhos pareciam ter uma bela qualidade de vida em uma fazenda. Mas por que tive essa impressão? Porque normalmente partimos da constatação mais evidente. Quero dizer, se um animal não está fisicamente ferido, se ele não está visivelmente estressado, se não aparenta precisar de nada, isso significa que está tudo bem. Esse é um exemplo clássico que serve para endossar o discurso comum dos produtores de leite quando alegam que se “suas vacas” não estivessem satisfeitas elas “esconderiam o leite”.

Para ser honesto, isso na minha opinião não diz nada. Mas por que? Porque se uma vaca foi criada para ser ordenhada, ela foi condicionada a isso, e você vai usar tudo que sabe sobre ela a seu favor para manter o controle da situação. Você leva vantagem sobre esses animais, e vai usar isso como parâmetro para potencializar a produção de tudo que, aos seus olhos, eles têm a oferecer enquanto fontes de produtos; mesmo que jamais tenham dado tal autorização, já que animais claramente não existem para nos servir, nós que os condicionamos a isso, seja por meio da violência inequívoca ou não.

Ou seja, a intervenção humana iniciada no princípio da vida de uma vaca, por exemplo, leva à normalização de algo que não deveríamos entender como aceitável, e claro que porque estamos falando de um alimento que não existe naturalmente para seres humanos, mas sim para bezerros. Ademais, vamos considerar que vacas sejam, de fato, bem tratadas nesse sistema.

Ela vai ter a chance de envelhecer ao lado do bezerro? Não, porque prioritariamente o leite é destinado aos seres humanos. Ela vai ter a oportunidade de pelo menos envelhecer? Não, e por um fator mercadológico ululante – a drástica queda na produção de leite culmina no envio da vaca para o matadouro, e não raramente o seu destino são as pequenas porções de hambúrgueres dispostas na seção de frios dos mercados.

Não esqueça também que muitas das doenças modernas que acometem esses animais têm relação com o sistema de produção. A verdade é que qualquer doença severa e onerosa já resulta no sacrifício do animal, porque nenhum produtor vai deixar de ponderar a relação entre preservação da vida x lucro. Existe alguma legislação que assegure que um animal não morra nessa circunstância? Não. Então como podemos falar em bem-estar animal quando isso mascara fatos irrefutáveis de que a vida do outro não é uma prioridade?

Creio que o condicionamento animal é uma das maiores barreiras dos direitos animais e do veganismo, porque o condicionamento, tanto humano quanto não humano, endossa a aceitação à exploração animal. Animais criados para consumo estão entre os mais inocentes, ingênuos e previsíveis. Claro, não foi por acaso que seus ancestrais foram domesticados. Com base nesse potencial, a humanidade criou ao longo dos séculos “versões” ainda mais dóceis e facilmente condicionáveis. Afinal, isso explica por que no passado escolhemos criar bois e porcos para consumo e não leões e tigres, não é mesmo?

Se você analisar mesmo que superficialmente a história dos muitos povos escravizados pela humanidade, você verá que entre eles sempre existiram muitos que, em decorrência de terem sido escravizados desde a tenra idade, e tendo pouco ou nenhum contato com outra realidade, não viam isso como uma arbitrariedade, mas apenas um triste destino, uma infelicidade, um desamor proveniente de Deus ou até mesmo uma danação baseada na sua própria condição física ou étnica.

Então, te pergunto: “Se tivemos muitos seres humanos que mesmo sendo ostensivamente e visceralmente privados de qualquer direito ainda se conformavam com isso, por que animais não humanos, que sequer partilham do mesmo código comunicativo que nós, não se conformariam? Ou pelo menos não teriam sua conformação condicionada?” Animais humanos e não humanos têm níveis de resistência equiparáveis em alguns níveis e aspectos, porém toda resistência tem limites.

Animais que já não reagem diante da morte, como o boi que aceita o dardo da pistola pneumática em seu cérebro sem tentar escapar da caixa, o porco que passa horas com o olhar disperso sem mudar de posição em uma fazenda, o frango que deixa de bater as asas durante a viagem ao matadouro dentro de uma gaiola de plástico – nenhum desses são exemplos de que está tudo bem em matar e consumir animais, mas sim de que aproveitamos de suas vulnerabilidades para fazermos o que quisermos com eles. E como somos mais inteligentes, usamos isso a nosso favor, mesmo que em ações notoriamente imorais se partimos da perspectiva de que, mais cedo ou mais tarde, obliteramos a vida de quem não quer morrer, assim que o seu “propósito” de proporcionar lucro for cumprido.

Sim, somos ardilosos quando matamos pintinhos machos porque eles não têm valor comercial; quando fazemos debicagem de aves; quando extraímos ou desbastamos dentes de suínos, tradicionalmente sem anestesia; quando eletrocutamos o gado a caminho do matadouro ou de um navio para exportação de “carga viva”; quando marcamos animais com ferro quente; quando usamos iluminação artificial para enganar o relógio biológico das galinhas poedeiras visando ganho em produtividade; quando alimentamos “muito bem” animais que serão mortos em poucos meses.

Afinal, não os alimentamos “muito bem” para satisfazê-los, mas simplesmente para obter melhor produtividade. Mas não somente isso. E o que dizer das abelhas? Pequenos animais que têm sua rotina manipulada pela intervenção humana para que possamos garantir uma quantidade de mel considerada aceitável para os nossos padrões. Toda a apicultura é baseada na artificialização da rotina das abelhas. Ou seja, o ser humano aproveitando-se da ingenuidade animal. E nesse processo, quando elas são acometidas por parasitas, matamos até as saudáveis, porque seria muito trabalhoso identificar as enfermas.

Pergunte-se: “Por que abelhas dariam naturalmente mel aos seres humanos se esse alimento é produzido por elas para atender suas necessidades nutricionais quando são incapazes de saírem para buscar mais néctar e pólen?” Seja em situação de adversidade climática, queda de temperatura ou carência de floradas. E mais importante, não se engane, mesmo que um animal criado para consumo pareça extremamente saudável e satisfeito, isso não significa que ele seja ou esteja, e muito menos que isso seja certo. Afinal, o que você está testemunhando é apenas resultado de mais um condicionamento visando aquilo que é sempre prioritário – o lucro.





 

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