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Upton Sinclair e as mazelas da indústria frigorífica
“Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”
Em 1906, o escritor estadunidense e reformador social Upton Sinclair lançou o seu livro mais famoso. Intitulado The Jungle (A Selva), a obra que denuncia as mazelas da indústria frigorífica teve tanta repercussão nos Estados Unidos que o governo não viu outra saída, a não ser a criação da Food and Drug Administration (FDA), órgão responsável, dentre outras competências, pela fiscalização da produção alimentícia.
A riqueza de detalhes com que Sinclair descreve as más condições enfrentadas pelos trabalhadores e pelos animais explorados pela indústria fez com que milhares de pessoas se tornassem vegetarianas nas primeiras décadas do século 20. E com o tempo, e a popularidade mundial do livro traduzido em mais de 50 idiomas, o número de adeptos da alimentação livre de ingredientes de origem animal cresceu exponencialmente.
Convertido ao vegetarianismo por influência de John Harvey Kellogg, criador do famoso cereal matinal, o escritor produziu uma obra de denúncia que até hoje é apontada como a mais influente sobre a matança de animais nos Estados Unidos. Embora alguns pesquisadores defendam que após alguns anos Upton Sinclair abandonou o vegetarianismo, citando como exemplo um texto de 26 páginas intitulado Fasting and the Use of Meat, seu livro continuou influenciando muita gente a não consumir mais carne e a lutar por reformas sociais envolvendo as agroindústrias.
O protagonista da obra é o lituano Jurgis Rudkus, um imigrante que mal sabe falar inglês e vive com a família em um distrito de Chicago dominado por currais e fábricas de carne processada. Desempregado, Rudkus aceita um emprego em um matadouro. Mas a desilusão cresce quando ele se vê endividado. Às raias da miséria, é obrigado a se sujeitar aos trabalhos mais sórdidos, além de amargar experiências traumatizantes como a morte do pai, vítima da falta de segurança nas linhas de produção da indústria frigorífica. Em uma das passagens da página 38 de The Jungle, uma imigrante lituana se mostra chocada ao saber do destino de milhares de bois e vacas.
“E o que será de todas essas criaturas?”, chorou Teta Elzbieta.
“Esta noite, todos serão mortos e fatiados. E logo ali, do outro lado dos depósitos de acondicionamento, há mais ferrovias, e de lá vêm os vagões que vão levá-los embora”, respondeu Jokubas Szedvilas. No total, dez milhões de criaturas vivas eram transformadas em alimento a cada ano.
Assim como os animais, os trabalhadores também eram tratados como seres inferiores, já que suas vidas se resumiam às longas jornadas de trabalho. Exemplo disso é um adolescente que vencido pela exaustão e pela embriaguez dorme no trabalho, onde se torna comida para ratos na madrugada. Nesse trecho, Upton Sinclair denuncia ainda a falta de higiene nas linhas de produção. Também revela no livro que muitas vezes a carne bovina se misturava à carne dos ratos que morriam nas linhas de produção.
À frente, havia uma grande roda de ferro, de 20 pés de circunferência e com anéis por toda a sua borda. (…) Quando a roda virou, o porco teve seu pé arrancado e arremessado para o alto. Ao mesmo tempo, ouviu-se um grito aterrorizante; os visitantes ficaram alarmados; as mulheres empalideceram e recuaram, escreveu Sinclair na página 40 de The Jungle.
No livro-denúncia de viés socialista, o sofrimento dos animais e dos homens estão interligados; um não existe sem o outro num contexto em que na prática o sonho americano não passa de uma distopia velada pela inocente fantasia. E nesse cenário, o maior financiador é o consumidor que alheio à excruciante realidade aceita tudo na sua passividade.
A omissão do Estado também endossa e justifica a existência dessas práticas. Publicado há mais de cem anos, The Jungle é uma obra que, em síntese, não apenas flerta com a atualidade, mas diz muito sobre ela. “Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”, declarou Sinclair ao avaliar a recepção do livro.
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Upton Sinclair nasceu em 20 de setembro de 1878 em Baltimore, Maryland, e faleceu em 28 de novembro de 1968 em Bound Brook, Nova Jersey.
O livro Dragon’s Teeth (Dentes de Dragão), que garantiu o Prêmio Pulitzer a Upton Sinclair em 1943, narra o zeitgeist e o drama dos eventos registrados na Europa que resultaram no início da Segunda Guerra Mundial.
Referências
Harris, Leon. Upton Sinclair: American Rebel. Thomas Y. Crowell Company, New York (1975).
Mason, M. Diane. Mullins, T. Janet. Vegetarian 101: History, Health and Tips. University of Kentucky (2016).
Sinclair, Upton. The Jungle. Dover Publications; Unabridged Edition (2001).
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Como o vegetarianismo entrou na vida de Franz Kafka
“Agora posso olhar para vocês em paz. Eu não como mais vocês”, disse aos peixes no aquário
Um dos escritores mais influentes do século 20, o tcheco Franz Kafka, famoso por clássicos intrapessoais como A Metamorfose, O Processo e Um Artista da Fome, é um exemplo de ser humano que, contrariando todas as expectativas, se tornou vegetariano ainda na juventude. Seu pai, Hermann Kafka, vinha de uma linhagem de açougueiros que comercializavam carnes kosher. E foi justamente por causa dessa herança cultural que em 1910 ele ficou encolerizado quando soube que o filho não se alimentaria mais de animais.
Um dia, depois de se tornar vegetariano estrito, Kafka passeava em Berlim acompanhado da namorada do seu melhor amigo – Max Brod. Ele observou alguns peixes em um aquário e disse: “Agora posso olhar para vocês em paz. Eu não como mais vocês.” Declarações como essa podem ser encontradas na biografia que Brod escreveu sobre o amigo e publicou em 1937, baseando-se em cartas e diários.
O escritor tcheco comparava os vegetarianos aos primeiros cristãos, destacando que eles também eram perseguidos e insultados na sala de jantar. Apesar dos infortúnios, ele anotou em seu diário em dezembro de 1912 que não poderia estar mais satisfeito com a sua digestão depois de um jantar vegetariano. Tudo indica que Kafka conheceu o vegetarianismo por meio do seu tio e médico Siegfried Löwy.
Inspirado no livro Mein System, do atleta vegetariano dinamarquês Jorge Peder Müller, que ministrou uma palestra em Praga em 1906, ele adotou outros hábitos saudáveis, como a prática de atividades físicas. Também aprendeu a mastigar corretamente, seguindo os ensinamentos do especialista em alimentação saudável Horace Fletcher, conhecido como “O Grande Mastigador”.
De acordo com Jan Stastny, que ministrou a palestra “Franz Kafka – Vegetarian Activist” no Congresso da União Vegetariana Internacional em Dresden, na Alemanha, em 2008, quem também ajudou Kafka na transição foi o alemão Moriz Schnitzer, da União Vegetariana Internacional, que recomendou que ele seguisse uma dieta vegetariana, tomasse ar fresco, dormisse com a janela aberta e trabalhasse com jardinagem nas horas vagas. Kafka seguiu todas as sugestões. Sempre que terminava o seu expediente como advogado, ele atuava como ajudante de jardineiro, e sem cobrar nada em troca.
Apesar de não existir nenhuma prova de que ele era um membro da União Vegetariana Internacional, o escritor aparece na edição de junho de 1911 da revista alemã Reformblatt como um doador de uma campanha antivivissecção. “Seis meses depois, o vegetarianismo, aliado aos exercícios físicos, não apenas curou o meu sistema digestivo como permitiu que eu não tivesse mais vergonha do meu corpo ao frequentar a piscina pública”, escreveu em seu diário.
Na comemoração de ano-novo de 1911, ele jantou schwarzwurzeln, um tipo de raiz comestível conhecida no Brasil como escorcioneira, com espinafre e 250 ml de suco de frutas. Era hábito comum de Kafka falar sobre a sua alimentação cotidiana em cartas enviadas a amigos e familiares. “Estou comendo repolho recheado, sopa de frutas e bebendo suco de oxicoco”, contou à sua irmã Elli em 1911. Sua empolgação aumentava a cada dia. Em 1912, ele revelou em seu diário que gostaria de fundar uma organização de cura pela natureza.
Quando entrava de férias ou precisava se internar para tratamento médico em algum sanatório, Kafka sempre escolhia lugares com opções para vegetarianos estritos. E por isso teve muitos conflitos com a família, principalmente com o pai. O novo estilo de vida incomodava tanto Hermann que por meses ele se negou a olhar para o filho durante o jantar.
Sobre o vegetarianismo, não há dúvidas de que a escolha do jovem Franz foi motivada pelo seu frágil estado de saúde. Mesmo assim, Kafka daria grandes demonstrações de que a sua ética também tinha peso sobre a sua decisão. A maior prova disso é que frequentemente ele escrevia sobre a natureza e o estado de consciência dos animais – cães, chacais, ratos, cavalos, bois e toupeiras, entre outros.
Um exemplo é o conto Ein Bericht für eine Akademie (Um Relatório para a Academia), de 1917, que conta a história de um macaco que aprende a se comportar como um ser humano para fugir do cativeiro. Nesse ínterim, o animal escreve para a academia sobre a sua transformação.
“Quando em Hamburgo fui entregue ao primeiro adestrador, reconheci logo as duas possibilidades que me estavam abertas: jardim zoológico ou teatro de variedades. Não hesitei. Disse a mim mesmo: empregue toda a energia para ir ao teatro de variedades; essa é a saída. O jardim zoológico é apenas uma nova jaula, se você for para ele, estará perdido”, narra em Ein Bericht für eine Akademie.
Entre as mais surpreendentes experiências vividas por Kafka está uma registrada em outubro de 1918, quando ele contraiu a nefasta gripe espanhola, epidemia que dizimou aproximadamente 100 milhões de pessoas no mundo todo. Enquanto jovens saudáveis de sua idade morriam às centenas, Kafka conseguiu se recuperar rapidamente e atribuiu a vitória ao seu estilo de vida vegetariano.
“O açougueiro pensou que podia ao menos se poupar do esforço do abate, e uma manhã trouxe um boi vivo. Isso não deve se repetir. Fiquei uma hora estendido no fundo da oficina com todas as roupas, cobertas e almofadas empilhadas em cima de mim, tudo isso para não ouvir os mugidos do boi que os nômades atacavam de todos os lados para arrancar com os dentes pedaços de sua carne quente. Quando me atrevi a sair, já fazia silêncio há muito tempo. Como bêbados em tomo de um barril de vinho, eles estavam deitados e mortos de cansaço ao redor dos restos do boi”, registrou no conto Ein altes Blatt (Uma Folha Antiga).
Outra característica intrigante de Kafka é que em muitas de suas histórias seus personagens comem carne crua e ensanguentada, talvez um recurso usado pelo autor para avultar a barbárie que envolve o consumo de carne. Idealista, o escritor tcheco confidenciou em um de seus diários o desejo de se mudar para a então Palestina e abrir com sua namorada Dora um restaurante vegetariano em Tel Aviv. “Eu trabalharia como garçom. Gostaria de servir as pessoas”, informou.
Perto do fim da vida, e sofrendo em decorrência de uma tuberculose laríngea que o acompanhava desde 1917, ele foi pressionado a voltar a consumir carne. Desesperado e sentindo-se impotente, fez um acordo com a irmã Ottla, pedindo que ela se tornasse vegetariana para compensar sua iminente falha jamais concretizada. “Um de nós precisa continuar salvando os animais”, argumentou ele. A irmã manteve a promessa por toda a sua vida, até que foi executada em um campo de concentração nazista em 1943.
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Frank Kafka nasceu em Praga em 3 de julho de 1883 e faleceu em 3 de junho de 1924.
Seu pai também possuía uma loja de presentes para homens e mulheres em Praga.
Referências
Brod, Max. Franz Kafka, eine Biographie. Berlin S. Fischer Verlag (1937).
Kafka, Franz. Ein Landarzt – Ein Bericht für eine Akademie/Ein altes Blatt. Stroemfeld Verlag. (1920).
União Vegetariana Internacional. Stastny, Jan. Franz Kafka – Vegetarian Activist (2008).
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Esperando por Samuel Beckett
Waiting For Godot e a importância da Resistência Francesa na literatura de Beckett
Durante a Segunda Guerra Mundial, o dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett, famoso principalmente pela obra Waiting For Godot (Esperando Godot), um dos maiores clássicos do teatro do absurdo, foi um importante membro da Resistência Francesa, chegando a receber duas condecorações por serviços prestados em prol da humanidade.
Porém, antes da homenagem e do reconhecimento, Beckett por pouco não foi morto durante a guerra. No outono de 1942, um informante se infiltrou em seu grupo e forneceu valiosas informações aos nazistas, resultando na morte e na captura de muitos dos amigos do partisan irlandês. Percebendo que seu disfarce foi descoberto, Beckett e sua companheira Suzanne Deschevaux-Dumesnil vestiram seus casacos e deixaram o apartamento em Paris como se estivessem apenas saindo para uma caminhada.
Depois de dois meses vivendo em diversos esconderijos, o casal fugiu a pé em direção a uma remota montanha no sudeste da França. À época, eles andavam à noite e dormiam durante o dia. Até que se cansaram e optaram por esperar o final da guerra. Essa experiência marcou tanto a vida de Samuel Beckett que ele a usou como base para criar os dois personagens mais importantes de Waiting For Godot – Vladimir e Estragon.
Sobre a ideia do nome da obra, a hipótese mais aventada é a de que o irlandês um dia estava andando pelas ruas de Paris quando parou e perguntou a uma multidão o que eles estavam fazendo. “Estamos esperando por Godot”, disseram, em referência ao ciclista mais velho da Tour de France, e que ainda não havia passado por ali. “Ele escreveu uma das peças mais intrigantes do Século XX. Beckett nunca explicou o título dela. Ele preferia zombar de todos que tentassem explicar o seu significado”, comenta o escritor canadense e professor de literatura Steve King.
A verdade é que o dramaturgo era um exímio apreciador da privacidade, e não abria mão disso por nada. Também se tornou cético em relação à linguagem literária e passou a vida entre a agonia psicológica e filosófica. Há quem acredite que tentaram transformá-lo em um homem romântico, mas ele não era nada disso. “Não, ele não era um sujeito charmoso, caridoso ou com uma polidez típica do Velho Mundo. Na realidade, ele não fazia questão de saber o que as pessoas achavam de suas palavras ou de sua vida”, revela o escritor canadense.
Waiting for Godot foi uma evasiva na vida de Samuel Beckett. Ele decidiu escrever a peça para se distrair e fugir de uma “horrível prosa” que estava concebendo em 1948. “Samuel Beckett queria criar algo divertido e fácil de produzir, uma obra para pagar as contas. Waiting For Godot não foi apenas uma mudança de ritmo e gênero, mas de linguagem. Ele esperava escrever a peça em francês para tentar desencadear algo novo”, comenta King.
A peça foi um divisor na vida do escritor. Um crítico chegou a dizer que, diante de Waiting For Godot, todas as peças francesas pareciam escritas com espinhos, não com canetas. Próximo da meia-idade, Beckett inovou ao aproximar o público da realidade do teatro do absurdo.
Com uma peça baseada em dois atos, e onde nada acontece duas vezes, os personagens mais parecem foragidos de um teatro de variedades. “É como se trancassem os Irmãos Marx, Charlie Chaplin e um palhaço em um horror tão absurdo que, sem nenhum tipo de antídoto, só restaria ao público as gargalhadas”, avalia Steve King.
Por anos, Suzanne Descheveaux-Dumesnil fez o trabalho que o dramaturgo depreciava. Ou seja, foi ela quem ofereceu a obra para mais de 40 produtores que se mostraram confusos e medrosos em relação à viabilização da peça. Quando realmente conseguiram encontrar alguém interessado no projeto, o desespero veio à tona através do elenco. Os atores sempre perguntavam o que Beckett queria dizer com os diálogos. E ele simplesmente encolhia os ombros, sem dar respostas.
Na noite de abertura, no dia 5 de janeiro de 1953, houve um burburinho sem precedentes no Théâtre de Babylone, em Paris. Os espectadores chegaram a disputar as cadeiras dobráveis de um café que ficava ao lado do teatro. Alguns qualificaram a peça como um embuste, uma fraude. Deixou muita gente confusa. Só que a maioria concordou com as impressões publicadas na primeira resenha: “Uma peça que faz jus ao nosso tempo”, escreveram.
Àquela altura, a pressão sobre Beckett cresceu muito. Todos queriam vê-lo, inclusive a imprensa e o diretor do espetáculo. No entanto, embora o escritor tenha comparecido a todos os ensaios, ele não prestigiou a estreia. Samuel Beckett desapareceu por duas semanas. Com o crescimento das controvérsias e da repercussão de Waiting for Godot, o dramaturgo foi cuidadoso e evitou a fama o máximo que pôde. “Estou cansado de todos esses mal-entendidos. Por que as pessoas têm que complicar uma coisa tão simples?”, lamentou.
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Samuel Beckett nasceu em Dublin, na Irlanda, em 13 de abril de 1906 e faleceu em Paris em 28 de dezembro de 1989.
Vivendo em Paris em 1937, o escritor sobreviveu por quase uma década traduzindo obras de outros escritores. Durante esse período, publicou alguns poemas, ensaios e seu romance Murphy, lançado em 1938, depois de tantas dificuldades para encontrar um editor que acreditasse em seu trabalho.
Entre seus melhores trabalhos estão Waiting For Godot, Murphy, Molloy, Malone Dies, The Unnamable e Endgame.
Diálogo da página 23 de Esperando Godot
POZZO – (Cortante) Quem é Godot?
ESTRAGON – Godot?
POZZO – Vocês me tomaram pelo Godot.
VLADIMIR – Oh, não senhor! Nem por um momento, senhor.
POZZO – Quem é?
VLADIMIR – Pois é um …, é um conhecido.
ESTRAGON – Mas, vamos, não o conhecemos quase.
VLADIMIR – Evidentemente…, não lhe conhecemos muito bem…; não obstante…
ESTRAGON – Eu, certamente, não lhe reconheceria.
POZZO – Vocês me confundiram com ele.
ESTRAGON – Bem…, a escuridão…, o cansaço…, a debilidade…. a espera…; reconheço…que por um momento… acreditei…
VLADIMIR – Não leve em conta, senhor, não faça caso!
POZZO – A espera? Então, esperavam-lhe?
VLADIMIR – Quer dizer…
POZZO – Aqui? Em minhas terras?
VLADIMIR – Não pensávamos fazer nada de mau.
ESTRAGON – Tínhamos boas intenções.
POZZO – O caminho é de todos.
VLADIMIR – É o que nós dizíamos.
POZZO – É uma vergonha, mas é assim.
ESTRAGON – Não HÁ NADA A FAZER.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
http://www.samuel-beckett.net/speople.html
Bair, Deirdre. Samuel Beckett: A Biography. Vintage. (1978).
Fletcher, John. About Beckett. Faber and Faber, London (2006).
Beckett, Samuel. Waiting for Godot: A Tragicomedy in Two Acts. Grove Press (2011)
Balzac e o seu apetite voraz pela escrita
A morte do escritor foi atribuída a uma parada cardíaca após muito café e tantas noites sem dormir

Balzac: “Se eu não alcançar a grandeza com La Comédie humaine, vou pelo menos obtê-la de outra forma no fim de minha vida” (Imagem: Reprodução)
Os últimos meses de vida do prolífico escritor francês Honoré de Balzac foram tão agitados quanto todos os anos de sua vida, o que diz muito sobre a sua inspiração para criar 17 volumes de La Comédie humaine, além de muitos outros trabalhos. São obras que entraram para a história da literatura mundial e influenciaram autores como Marcel Proust, Émile Zola, Charles Dickens, Fiódor Dostoiévski, Henry James, Italo Calvino, Machado de Assis e Camilo Castelo Branco.
“A condessa polonesa com quem Balzac se correspondeu ao longo de seis anos se comprometeu em se casar com ele assim que ficou viúva. Mas ela preferiu agir com cautela quando soube das dívidas, decepções e apetites do autor”, narra o escritor canadense e professor de literatura Steve King. Ainda assim, faltando cinco meses para o falecimento do francês, a condessa Ewelina Hańska concordou com o casamento, declinando uma proposta também recebida do compositor húngaro Franz Liszt.
Ao saber da boa notícia, Balzac se apressou e a visitou em sua propriedade, onde ele esteve pela primeira vez em 1943 e ficou impressionado ao saber que ela possuía uma área de aproximadamente 21 mil acres, três mil serfs (escravos), 300 empregados, a sua própria orquestra e um hospital. “Ele levou consigo quatro dúzias de pares de luvas para as belas mãos da condessa”, informa King.
Honoré de Balzac passou a maior parte da sua vida adulta oscilando entre os extremos da riqueza e da pobreza. Com peculiar personalidade, um dos motivos que o levou à falência foi sua tentativa em transformar sua casa em Paris numa fazenda de abacaxis. Ele escrevia incessantemente, tanto que seu médico atribuiu sua morte a um coração fraco que parou de funcionar depois de tantas noites sem dormir, consumindo grandes quantidades de café.
Balzac acreditava que todo ser humano tem a seu dispor uma finita reserva do fluido da vitalidade, e ela diminui de acordo com nossas ações e desejos. No caso do escritor francês, foi condenado a morrer precocemente por causa do seu apetite voraz pela escrita.
Mas não sem antes passar os últimos meses de vida buscando a realização pessoal. “Se eu não alcançar a grandeza com La Comédie humaine, vou pelo menos obtê-la de outra forma no fim de minha vida”, comentou Balzac já com a saúde debilitada, em referência ao casamento com a condessa.
A comédia humana ia além das obras de Balzac; era a sua própria vida. Para abordar os aspectos sociais nos seus romances, ele vagava à noite pelas mais famigeradas ruas de Paris, hábito que manteve por anos, assim como fez Dickens em Londres. Ele também gostava de sair de madrugada porque a prisão de devedores era proibida entre o pôr e o nascer do sol, e assim ele não corria riscos.
Como se a vida imitasse a arte, Honoré de Balzac foi enterrado no Cemitério do Père-Lachaise em um túmulo próximo de onde um de seus personagens mais famosos, o jovem Eugène de Rastignac, do romance Le Père Goriot (O Pai Goriot), derramou a última lágrima no velório do velho Goriot.
Trecho de O Pai Goriot (páginas 236-237)
Às seis horas, o corpo do pai Goriot desceu à cova, em torno da qual estavam os criados das filhas, que desapareceram com os religiosos logo que foi pronunciada a curta oração devida ao bom velho através do dinheiro do estudante. Os dois coveiros, depois de atirarem algumas pás de terra em cima do caixão, para ocultá-lo, ergueram-se, e um deles, dirigindo-se a Rastignac, pediu-lhe uma gorjeta. Eugênio revistou os bolsos e, não tendo encontrado nada, foi obrigado a pedir vinte soldos emprestados a Cristóvão.
Esse fato, tão insignificante em si mesmo, causou a Rastignac um horrível acesso de tristeza. Caía a tarde. Um crepúsculo úmido irritava os nervos. Eugênio contemplou a sepultura e enterrou nela sua derradeira lágrima de rapaz, aquela lágrima arrancada pelas puras emoções de um coração puro, uma dessas lágrimas que, da terra onde caem, se elevam até o céu. Cruzou os braços e admirou as nuvens. Vendo-o nessa atitude, Cristóvão o deixou.
Ficando só, Rastignac encaminhou-se para a parte alta do cemitério e de lá viu Paris, tortuosamente deitada ao longo das duas margens do Sena, onde as luzes começavam a brilhar. Seus olhos fixaram-se quase avidamente entre a coluna da Place Vendôme e os Invalides, no ponto em que vivia aquela bela sociedade na qual quisera penetrar. Lançou àquela colmeia sussurrante um olhar que parecia sugar-lhe antecipadamente o mel e proferiu esta frase suprema: — Agora, é entre nós dois! E como num primeiro ato de desafio à sociedade, Rastignac foi jantar à casa da sra. de Nucingen.
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Honoré de Balzac nasceu em 20 de maio de 1799 em Tours, na França, e faleceu em Paris em 18 de agosto de 1850.
Entre suas principais obras estão La Comédie humaine, Eugénie Grandet, La Peau de chagrin, Le Père Goriot, Colonel Chabert, La Rabouilleuse, Le Lys Dans la Vallée, Illusions Perdues e Splendeurs et Misères des Courtisanes.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
http://balzac-museum.com/
Graham, Rob. Balzac: A Biography – W. W. Norton & Company; Reprint edition (1996).
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Virginia Woolf e a improvável amizade com T.S. Eliot
À época, Virginia e o marido se recusaram a publicar Ulysses, de James Joyce
“Acabo de terminar de formatar o conjunto do poema do Sr. Eliots [sic] com minhas próprias mãos. Veja como elas tremem”, escreveu a escritora britânica Virginia Woolf em 8 de julho de 1923, em carta endereçada a uma amiga. Ela se referia à finalização da versão britânica do poema modernista The Waste Land, do estadunidense T.S. Eliot, considerado um dos melhores do século 20.
Os tremores de Virginia, que à época tinha 41 anos, foram provocados pela exaustão causada pela dedicação em tempo integral a Hogarth Press, editora que ela fundou com o marido Leonard Woolf em Londres em 1917. O que é até curioso levando em conta que Virginia quis fundar uma editora como hobby, uma forma de ocupar o tempo no período da tarde e ajudá-la a lidar com a depressão. Também era um meio de dar uma oportunidade a novos escritores.
Mesmo que todos os livros da Hogarth não tenham passado pelas mãos dos Woolf, a verdade é que a popularidade de Virginia e sua editora cresceu tanto que logo sua casa ficou muito movimentada e seu tempo dedicado à escrita foi preenchido completamente.
A prensa era operada na despensa da residência enquanto os livros eram encadernados na sala de jantar. A sala de estar era usada na realização de entrevistas com escritores, encadernadores e operadores de prensa, de acordo com a autobiografia de Leonard Woolf publicada em 1967.
Em 1923, o trabalho da editora foi qualificado pelo marido de Virginia como uma tentativa de fazer o impossível. E assim eles assumiram o compromisso de não abandonar a Hogarth Press nem vendê-la. No entanto, Virginia foi se desinteressando pelo trabalho até que em 1938 ela vendeu sua parte na sociedade. Leonard ainda continuou trabalhando como gerente de negócios até 1946, ano em que a Hogarth Press se tornou associada da Chatto & Windus, uma das mais importantes editoras britânicas da era vitoriana.
Embora tenham recusado a publicação de Ulysses, de James Joyce em 1918, o casal Woolf publicou nomes como Vita Sacksville-West, John Maynard Keynes, Robert Graves, Katherine Mansfield, Clive Bell, C. Day Lewis, E.M. Forster e Christopher Isherwood. Todos os escritores tornavam-se amigos deles, inclusive o genioso T.S. Eliot, com quem Virginia, que também era uma autora de personalidade recheada de ambiguidades, teve momentos conflituosos.
A Hogarth Press publicou pela primeira vez um trabalho de Eliot em 1919, e o mais intrigante é que um diário de Virginia com data de agosto do mesmo ano trouxe interessantes informações registradas após um jantar. Nele, ela declara que ainda não via o poeta estadunidense como um amigo, mas se divertia ao notar como ele era perspicaz e fazia questão de demonstrar que não gostava dela.
A intimidade do casal com T.S. Eliot só evoluiu no início dos anos 1920, quando o poeta deixou de ser pomposo e pedante, segundo Leonard Woolf. Um dia, caminhando pelo jardim da casa dos Woolf, Leonard se afastou deles para ir ao banheiro. Quando retornou, encontrou Eliot constrangido e chocado. Acostumado às convenções e formalidades, o autor nunca se viu numa situação como aquela. “Tom disse que nunca seria capaz nem de se barbear na presença da própria esposa”, escreveu Leonard Woolf em sua autobiografia.
Por outro lado, Virginia registrou em seu diário que Eliot não mostrou a menor inibição quando pediram para que ele declamasse a segunda parte de The Waste Land ao final de um jantar. E assim ele o fez:
Que hei de fazer agora? Que hei de fazer?
Vou sair tal como estou, e andar pela rua
Com o cabelo solto, assim. Que havemos de fazer amanhã?
Que havemos de fazer alguma vez?
A água quente às dez.
E se chover, um carro coberto às quatro.
E jogaremos uma partida de xadrez,
A apertar olhos sem pálpebras e à espera que batam à porta.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Woolf, Leonard. Downhill all the way: an autobiography of the years 1919–1939 (1st American ed.). New York: Harcourt, Brace & World (1967).
Bell, Quentin. Virginia Woolf: A Biography. Rev. ed. New York: Harcourt Brace Jovanovich (1996).
T.S. Eliot. The Waste Land (1922) (Norton Critical Editions) 1st Edition (2000).
O livreiro da Rua Artur Bernardes
De longe, ele parecia um personagem suspeitoso, saído de uma das histórias de Charles Dickens
Pelo menos uma vez por mês, o livreiro João Romani passava em casa, na Rua Artur Bernardes, quando eu tinha nove anos. Por entre os galhos da sete-copas, eu o via atravessando a Rua Silvio Meira e Sá Bezerra e descendo em minha direção, carregando a mesma mala acastanhada, adornada com nomes de dezenas de escritores.
De longe, ele parecia um personagem suspeitoso, saído de uma das histórias de Charles Dickens. Não tinha mais de 35 anos, estatura mediana, pele cor de oliva, um andar peculiar e se vestia como um homem da década de 1920, com seu chapéu fedora cuidadosamente alinhado e paletó cinturado. Junto à mala, sempre trazia um guarda-chuva que podia ser desmontado e usado como bengala.
Quando o conheci, ele estava no portão de casa conversando com minha mãe, oferecendo uma coleção de 16 volumes da Enciclopédia Barsa. Conforme o livreiro falava, num crescente paroxismo, tudo ganhava vida e se tornava mais importante do que realmente era. Ele sorria, gesticulava e movia os pés de um lado para o outro, fazendo da apresentação da enciclopédia uma performance teatralmente didática.
E foi assim que João Romani a convenceu a comprar a coleção numa negociação mais motivada pelos seus métodos de venda do que pela qualidade do produto. Seu poder de convencimento talvez só não superasse suas qualidades humanas mais virtuosas. E naquele dia, ele pediu autorização da minha mãe para descansar por alguns minutos na varanda. Ela consentiu sem pestanejar.
Convidado a entrar, ele sentou em uma cadeira com cordas de nylon e minha mãe foi até a cozinha buscar uma xícara de café enquanto a garoa resplandecia serena sobre o nosso jardim. Antes de abrir a mala, tirou o chapéu da cabeça e o manteve sobre a ponta do guarda-chuva escorado na grade da janela. Ajeitou os cabelos castanhos e ondulados e perguntou meu nome. Respondi e ele deu um grito entusiasmado:
“Uau! Estupendo! David! Será que se seus pais escolheram seu nome por causa do jovem David Copperfield? Você conhece a história dele?” Sorri e, entusiasmado com o seu carisma, questionei se ele falava do mágico ou do menino. “Isto! O menino!”, comentou. Com a simplicidade inerente às crianças, relatei que ele era órfão e sofreu muito porque vivia sozinho no mundo. Apesar disso, acreditava no ser humano, em um mundo melhor.
Muito bom! Sabe de uma coisa, David? Sou de origem romani, cigana, e nós nunca acreditamos que nomes são escolhidos ao acaso. Tenho certeza que o seu diz muito sobre quem você é e vai ser. David Copperfield era extremamente perseverante, um sonhador, e embora eu tenha conhecido você há pouco, acredito que você também será assim. Este nosso encontro tem um significado especial que um dia talvez faça mais sentido na sua vida – declarou o livreiro com uma expressão enigmática que destacou ainda mais seu rosto quadrado e seus olhos grandes e amendoados como o fruto da sete-copas.
Tão rápido minha mãe retornou com o café, João Romani agradeceu e o bebeu em silêncio, observando Happy e Chemmy brincando no jardim, rolando na grama úmida, com olência de jasmim, e teimosamente saltando sobre o canteiro de plantas. Com olhar curioso, o livreiro sorria diante do espetáculo da vida cotidiana. Perscrutava com tanto rigor o trivial que até a mais ordinária das cenas parecia transmitir algo de surreal.
Quando ameacei tirar Happy e Chemmy da grama, evitando que se sujassem mais, ouvi um som duplo e sincronizado. O livreiro estava abrindo a mala. No mesmo instante, me afastei dos dois poodles e me aproximei, intrigado em saber o que ele carregava.
“Olhe, vou contar um segredo. Não costumo mostrar para ninguém o tesouro que carrego comigo, mas como acredito que você seja um genuíno David Copperfield, sei que não há problema”, argumentou, em seguida pedindo que eu fechasse os olhos e estendesse os braços. Logo senti algo plastificado entre meus dedos pequenos.
Sobre as minhas mãos estava um exemplar esmerado de David Copperfield. A capa era esverdeada e trazia instigantes ilustrações das aventuras vividas pelo jovem órfão. Embora eu não entendesse em profundidade a importância daquele momento, fiquei muito feliz em segurar a obra nas mãos. E o semblante de Romani deixou subentendido que eu estava diante de uma oportunidade inestimável.
“É diferente do livro da Escola São Vicente de Paulo. Parece que esse é mais velho e menos colorido. Lembra uma revista antiga, uma cartilha”, comentei sem velar a inocência. O livreiro deu uma breve gargalhada, tirou a obra da embalagem que a protegia e pediu que eu lesse o que estava escrito na capa. “O senhor me desculpe, não sei tanto assim de inglês”, justifiquei. Então ele explicou que não era para eu ler tudo e me mostrou o ano grafado – 1849.
Aquela era a primeira edição de David Copperfield, o maior tesouro da família de João Romani. Seu bisavô Vladimir recebeu o exemplar das mãos do próprio Charles Dickens pouco tempo após o lançamento. “Ele fugiu para a Inglaterra em 1846 e mais tarde conheceu o autor na esquina da Editora Bradbury e Evans, em Londres. Meu bisavô trabalhava como engraxate, e um dia Charles Dickens conversou com ele. Se não me falhe a memória, falou o seguinte antes de entregar David Copperfield: ‘Aqui está uma semente. Quem sabe se torne um presente’”, narrou o livreiro sorrindo.
O jovem cigano encontrou Dickens mais três vezes. No último encontro, o autor fez o garoto de 15 anos chorar quando comentou que talvez tivesse escrito uma história melhor se David Copperfield fosse baseado na vida de Vladimir. Nascido na Romênia, o bisavô de João Romani foi um serf, escravo de um boiardo valaquiano – aristocrata da Transilvânia. Órfão, passou a maior parte da infância realizando serviços domésticos e trabalhando no garimpo em troca de comida, até que um dia conseguiu fugir.
Mesmo ainda criança, fiquei boquiaberto com o relato, e a desenvoltura do livreiro garantia mais realismo à história. O exemplar de David Copperfield, que segurei com as duas mãos, tinha uma dedicatória, e o nome de Vladimir escrito por Charles Dickens figurava sobre o nome do protagonista, num singelo gesto de afeição.
Houve um momento em que o notei com os olhos marejados, se esforçando para não lacrimejar. Fez tanta força que as veias do pescoço saltaram e revelaram uma tatuagem discreta, porém vivida, perto do pescoço. Era baseada em uma combinação de cores que não consegui identificar. Não havia desenho, somente duas palavras – Pacha Dron que descobri há alguns anos que significa O Caminho da Vida.
Logo que a garoa se dissipou, João Romani embalou novamente David Copperfield e o ajeitou dentro da mala com o mesmo esmero que uma mãe dedica ao filho na hora de colocá-lo para dormir no berço. Quando a mala se fechou, senti um ar morno e fugaz acariciando minhas maçãs. O livreiro se levantou, se despediu da minha mãe e eu o acompanhei até o portão. Lá fora, ele estalou os dedos, apontou para mim e falou: “Até logo, David Copperfield!” Deu uma piscadela e desceu a Rua Artur Bernardes como um singular personagem. Se na vinda, e de longe, ele me parecia um tipo de Uriah Heep, na volta, mais lembrava um híbrido de Ham Peggotty e Dr. Strong.
João Romani me visitou ao longo de um ano. Independente de clima e tempo, ele sempre retornava. Um dia, chovia muito quando o livreiro bateu palmas em frente de casa – estava encharcado, desprotegido pelo próprio guarda-chuva tornado arredio pela violência das águas. “Compromisso é compromisso!”, alegou sorrindo. Depois de ouvir uma boa reprimenda de minha mãe, dessas que os pais dão nos filhos mais travessos, ele velou o riso e aceitou cabisbaixo o reproche, até que começamos a rir.
Afeiçoado a um ofício que entrou na sua família por meio do seu bisavô Vladimir, sua maior satisfação era percorrer as ruas vendendo livros. Para ele, nada era mais importante do que o prazer de contar histórias e despertar sensações. Em uma ocasião, quando foi assaltado, entregou todo o dinheiro e se debruçou sobre a mala no meio do asfalto, protegendo os livros; até que os bandidos desapareceram como se nunca tivessem se aproximado dele.
No nosso último encontro, perto do Natal, João Romani me deixou como guardião de uma caneta Fountain que seu bisavô entregou ao seu avô horas antes de falecer. “David Copperfield, essa caneta foi usada por Charles Dickens no rascunho de Grandes Esperanças. Qual maior exemplo de esperança do que ter nas mãos algo que existe desde 1860 ou até antes? Pois é…”, enfatizou. Aquela foi a última vez que vi o livreiro para quem ainda guardo a Fountain.
Oxalá, quando a realidade cessar de existir para mim, como as sombras vaporosas de que a minha imaginação se separa voluntariamente nesta ocasião, eu possa encontrar o que há de verdadeiramente mais importante ao pé de mim, com o dedo levantado a apontar-me o céu! – escreveu Dickens em David Copperfield, num trecho transfigurado por mim.
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O mundo sombrio dos Irmãos Grimm
Na versão original, os contos dos Irmãos Grimm são recheados de canibalismo, infanticídio e incesto

Wilhelm and Jacob Grimm se interessaram em estudar o folclore germânico na juventude (Imagem: Hermann Blow)
Acredito que seja difícil encontrar alguém que nunca tenha lido ou ouvido algum conto dos Irmãos Grimm na infância, principalmente pela facilidade com que povoam o ideário das crianças. São histórias que se tornaram ainda mais populares depois das adaptações feitas pela Disney. A primeira e mais icônica continua sendo Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937, inspirada no conto Schneewittchen, de 1812.
Também famosos por histórias como Hänsel und Gretel (João e Maria), Rapunzel, Aschenputtel (Cinderela) e Dornröschen (A Bela Adormecida), entre outros, os alemães escreveram e editaram 35 livros. O primeiro, baseado em contos domésticos, foi publicado em 1812 com o título de Kinder- und Hausmärchen. No entanto, até hoje a questão da autoralidade nas obras dos Irmãos Grimm desperta muitas controvérsias porque suas histórias já existiam no folclore germânico e na cultura popular de outros países e regiões da Europa.
Jacob e Wilheilm Grimm cursaram direito na juventude, porém como não tinham interesse em seguir carreira, optaram por estudar o folclore germânico. Jacob foi um pouco além, se interessando também pela filologia, o estudo da linguagem através de fontes históricas. Por isso, mais do que escritores, os Irmãos Grimm foram pioneiros na aplicação de métodos científicos na pesquisa da tradição oral.
Movidos por um misto de anseio acadêmico e patriotismo, enveredaram pela pesquisa de contos folclóricos porque estavam preocupados com a preservação da cultura germânica. Assim que perceberam que havia um filão literário a ser explorado, endossado pela crescente quantidade de leitores que queriam somente ler boas histórias, os Irmãos Grimm começaram a se afastar do academicismo.

“Eles expandiam ou suavizavam a narrativa na tentativa de fazer algum apontamento moral” (Arte: Ludwig Emil Grimm)
A primeira ação foi descartar as notas de rodapé. Também tornaram as histórias mais romanescas, claras, simples e incluíram lições de moral que pudessem ser compreendidas até por crianças, uma manobra para facilitar a aceitação dos contos e torná-los mais comerciais através da caracterização da fábula.
Com a disneyficação, as histórias dos Irmãos Grimm ganharam mais espaço no Novo Mundo. Contudo, ao final da Segunda Guerra Mundial, autoridades do alto escalão dos países aliados aproveitaram a queda do Terceiro Reich para banir por tempo indeterminado as obras dos Irmãos Grimm, alegando que seus contos influenciaram a violência praticada pelos nazistas até 1945.
O que pareceu um despautério, se levarmos em conta que seus contos eram amados por tantas crianças, começou a fazer mais sentido quando a escritora estadunidense Maria Tatar, expert em literatura infantil, germânica e folclore, publicou em 1987 o livro The Hard Facts of the Grimms’ Fairy Tales. De acordo com a autora, quem tiver interesse em ler as obras originais dos Irmãos Grimm precisa estar preparado para descrições gráficas de assassinatos, mutilações, canibalismo, infanticídio e incesto.
“Crianças são decapitadas e servidas em um ensopado para a apreciação dos pais. Há príncipes e princesas que fazem muito mais do que dormir. Meninas más são obrigadas a rolarem pelas colinas dentro de barris cravejados de unhas. E se elas recusarem, suas mãos e seios são fatiados”, informa Tatar que qualificou Wilhelm como alguém com uma visão literária mais comercial enquanto Jacob era mais acadêmico.
Em alguns contos dos Irmãos Grimm a violência e a sexualidade são mais explícitas do que no material oral que utilizaram como fonte. “Eles expandiam ou suavizavam a narrativa na tentativa de fazer algum apontamento moral. Às vezes fizeram mudanças bem pessoais por razões pouco claras”, declara a escritora. Na primeira edição do conto Die zwölf Brüder (Doze Irmãos), um rei misógino diz à esposa que se o décimo terceiro filho do casal for uma menina, os meninos têm de morrer.
“Eu prefiro cortar todas as suas cabeças do que deixar uma menina entre eles”, esbraveja o rei. Já na segunda edição o discurso muda quando o rei enfatiza que os meninos devem morrer para que sua filha seja a única a herdar o trono, sem qualquer concorrência.
Trecho da primeira versão de Schneewittchen (Branca de Neve), publicado em 1812
Ela caminhou até o príncipe e, feliz em vê-la, ele não conteve a alegria ao ter certeza de que ela estava viva. Então se sentaram à mesa e comeram com satisfação.
Seu casamento foi marcado para o dia seguinte e sua mãe também foi convidada. Naquela manhã, sua mãe deu um passo em direção ao espelho e disse:
Espelho, espelho na parede,
Quem nesta terra é a mais bela de todas?
O espelho respondeu:
Você, minha rainha, é justa, é verdade.
Mas a jovem rainha
É mil vezes mais justa do que você.
Ela ficou horrorizada em ouvir aquilo, tão assustada que não foi capaz de dizer mais nada. Ainda assim o ciúme a motivou a ir ao casamento ver a jovem rainha. Quando ela chegou, viu que era a Branca de Neve. Em seguida, colocaram um par de sapatos de ferro no fogo, até brilhar em brasas, e obrigaram a velha rainha a usá-los e a dançar com eles. Seus pés ficaram terrivelmente queimados, mas ela não conseguia parar e continuou dançando até a morte.
Saiba Mais
Jacob Ludwig Carl Grimm nasceu em 4 de janeiro de 1785 e seu irmão Wilhelm Carl Grimm em 24 de fevereiro de 1786 em Hanau, a 25 quilômetros de Frankfurt. Wilhelm faleceu em Berlim em 1859 em decorrência de uma infecção. Com a morte do irmão, Jacob se tornou recluso até falecer na mesma cidade em 1863.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Grimm, Jacob; Grimm, Wilhelm. Zipes, Jack, ed. The Original Folk and Fairy Tales of the Brothers Grimm: the complete first edition (2014). Princeton: Princeton University Press.
Tatar, Maria. The Hard Facts of the Grimms’ Fairy Tales (1987). Princeton University Press.
Flaubert e o julgamento que popularizou Madame Bovary
O escritor dividiu a bancada dos réus com “batedores de carteira” e jovens acusados de pederastia

Flaubert não gostou quando a Revue de Paris fez alterações substanciais em sua novela (Imagem: Reprodução)
O escritor francês Gustave Flaubert publicou Madame Bovary em 12 de abril de 1857. Mas a obra jamais despertaria tanta atenção na época se não tivesse sido considerada subversiva, o que levou o autor a um dos julgamentos mais famosos da literatura francesa.
Com tanto alarido em torno do livro, Flaubert conseguiu publicidade gratuita e Madame Bovary rapidamente se tornou um sucesso. A primeira novela exigiu cinco anos de dedicação do escritor e um retorno de 800 francos, uma quantia insignificante se levarmos em conta que só o estenógrafo que atuou em seu julgamento cobrou o mesmo valor por duas semanas de trabalho.
Porém, apesar do prejuízo, a novela e o julgamento fizeram a reputação de Gustave Flaubert, mais tarde reconhecido como criador de um novo estilo de escrita, com rítmica versada e precisão que remetia à linguagem científica. Com o veredito a seu favor, o escritor conseguiu assegurar que ninguém comprometesse o retrato detalhista e inédito na literatura francesa de uma realidade considerada “ignóbil” e tão costumeiramente velada em Paris.
Tudo começou quando Flaubert quis publicar sua obra na revista Revue de Paris e recebeu a resposta de que Madame Bovary precisava passar por cortes. “Você enterrou seu romance sob uma pilha de detalhes supérfluos. Ele não é claro o suficiente, porém é uma tarefa fácil que daremos a alguém experiente e inteligente. O trabalho vai custar 100 francos”, informaram.

Durante o julgamento, o escritor foi obrigado a ouvir como o seu trabalho era de “mau gosto” (Arte: Reprodução)
A revista acabou publicando o livro em partes e fez alterações que não foram aprovadas pelo escritor. Quando soube, Flaubert exigiu que a Revue de Paris divulgasse uma nota em que ele deixava clara a sua reprovação. Logo que a crítica foi publicada, as autoridades francesas acusaram todos os envolvidos de ofensa à moral pública.
No dia do julgamento, Flaubert dividiu a bancada dos réus com “batedores de carteira” e jovens acusados de pederastia. Durante a sessão, o escritor foi obrigado a ouvir como o seu trabalho era de “mau gosto”, um tipo desprezível de “poesia do adultério”. Ainda assim conseguiu a absolvição e sua obra acabou eternizada na história da literatura mundial.
De acordo com o escritor canadense e professor de literatura Steve King, dentro de um ano, mais uma vez a vida imitou a arte. Em Hamburgo, na Alemanha, os veículos que transportavam as prostitutas começaram a ser chamados de Bovaries.
Madame Bovary
Saiba Mais
Gustave Flaubert nasceu em 12 de dezembro de 1821 e faleceu em 8 de maio de 1880 em decorrência de uma hemorragia cerebral.
Além de Madame Bovary, outras obras que fizeram a fama de Flaubert são Salambô e A Educação Sentimental.
O livro Madame Bovary foi adaptado para o cinema pela primeira vez em um filme de Albert Ray, lançado em 1932. Porém, aquela que ficou conhecida como a melhor versão surgiu em 1949 com o cineasta Vincente Minnelli. Em 2014, e sob direção de Sophie Barthes, a obra foi relançada no cinema com um elenco composto por Mia Wasikowska, Henry Lloyd-Hughes, Paul Giamatti e Ezra Miller.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Laurence M. Porter, Eugène F. Gray. Gustave Flaubert’s Madame Bovary: a reference guide. Greenwood Publishing Group (2002).
Gustave Flaubert’s Life, Madame Bovary, Alma Classics edition (2010).
Gustave Flaubert, Francis Steegmüller (1980). The Letters of Gustave Flaubert: 1830–1857. Harvard University.
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Goethe e a busca pelo conhecimento
Para o escritor, o universo se expandia através das ciências e das artes

Goethe acompanhou uma batalha entre o Exército Revolucionário Francês e as Forças Prussianas de Intervenção na juventude (Arte: Georg Melchior Kraus)
No dia 22 de março de 1832, Johann Wolfgang von Goethe, um dos mais célebres nomes da literatura alemã, estava em sua casa em Weimar, na Turíngia, segurando a mão de sua nora Otília. Na data, ele falou dos passeios que daria nos meses seguintes e se recordou de uma moça de sua juventude. Também balbuciou o nome de seu grande amigo, o igualmente famoso poeta Friedrich von Schiller, falecido em 9 de maio de 1805.
Ansiando para que as persianas se abrissem para o sol da manhã, o autor de Fausto pediu a um empregado: “Mais Luz!” E então seu dedo tracejou uma palavra no ar e ele mudou de posição em sua cadeira, caindo no sono e sucumbindo em um momento que ninguém imaginava que ele morreria.
Quarenta anos antes, Goethe acompanhou uma batalha entre o Exército Revolucionário Francês e as Forças Prussianas de Intervenção. Ele viu no conflito bélico uma oportunidade para conduzir uma pesquisa sobre uma inédita teoria de luz e cor, que mais tarde se transformaria no livro Teoria das Cores, publicado em 1810, e que inspirou os artistas pré-rafaelistas.
O escritor britânico Christopher Middleton escreveu em sua introdução à poesia de Goethe que durante a Batalha de Valmy o alemão foi visto divagando, estudando os efeitos das ondas de choque na visão, levando em conta a luz sobre a poeira. Os resultados desse trabalho contribuíram em vários ramos da ciência – anatomia, biologia, botânica e geologia.
Goethe também teve um importante papel no governo alemão como administrador de artes. Todas essas atividades alimentaram sua paixão pela busca de sinais que pudessem levá-lo a um plano maior na história. Goethe se empenhou ainda em fazer com que a língua alemã fosse vista como uma “textura viva”, o que justifica porque ele é considerado na Alemanha não apenas um grande poeta, mas também um símbolo nacional.

O escritor caiu no sono e sucumbiu em um momento que ninguém imaginava que ele morreria (Arte: Reprodução)
Se dedicando a temas cósmicos ao longo de toda a carreira, o escritor concluiu a última etapa de seus trabalhos autobiográficos nos últimos meses de vida, quando finalizou a segunda parte da obra-prima Fausto. “Agora posso olhar a minha vida como o mais puro presente”, declarou Goethe prevendo o próprio fim.
O drama poético em que o protagonista faz um pacto com o diabo em troca de sabedoria e conhecimento para entender a vida exigiu 60 anos do alemão. A história autobiográfica reflete o próprio anseio de Goethe na busca por luz em um universo que se expande por meio das ciências e das artes.
Ao contrário da obra inglesa The Tragical History of Doctor Faustus, de Christopher Marlowe, em que Fausto é condenado ao inferno, na obra romântica de Goethe o protagonista que vendeu sua alma a Mefistófeles tem direito à redenção.
Fragmento de Fausto II
Ay, neste pensamento eu prometo minha fé inabalável
Aqui a sabedoria diz sua palavra final e verdadeira
Ninguém tem a liberdade ou a vida que merece
A menos que a conquiste diariamente e como se fosse a primeira vez
Fausto morre e Mefistófeles aparece para reclamar seu prêmio. Todo o espaço é preenchido com anjos, e ouve-se um coro durante o enterro, de acordo com a última cena do último ato da obra-prima.
Rode mais uma vez as chamas do amor
A pura luz se revela
Aqueles que foram deplorados pela vida
A verdade ainda curará
Resgatados, não mais serão escravos de maus cuidados
Em breve e de tudo por tudo
A felicidade será deles
Saiba Mais
Johann Wolfgang von Goethe nasceu em 28 de agosto de 1749 e faleceu em 22 de março de 1832.
Suas maiores obras são “Fausto”, Os Sofrimentos do Jovem Werther, “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”, “As Afinidades Eletivas”, “Prometeus” e “Teoria das Cores”.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Lewes, George Henry. The Life of Goethe (1855). Adamant Media; 2000.
Williams, John. The Life of Goethe. A Critical Biography. Wiley-Blackwell; 2001.
Middleton, Christopher. Goethe, Volume 1: Selected Poems. Princeton University Press; 1994.
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Quando William Faulkner trabalhou em Hollywood
O escritor só reapareceu depois de nove dias, confidenciando que vagou pelo Vale da Morte

Entre idas e vindas, o escritor trabalhou em Hollywood ao longo de 20 anos (Cortesia de Robert Hamblin, Center for Faulkner Studies, Southeast Missouri State University)
Em 7 de maio de 1932, William Faulkner chegou a Hollywood para atuar como roteirista, um trabalho que entre idas e vindas durou 20 anos. Na época o escritor estadunidense estava com apenas 34 anos e já tinha publicado quatro de suas novelas baseadas no Condado de Yoknapatawpha, incluindo The Sound and the Fury (O Som e a Fúria) e As I Lay Dying (Enquanto Agonizo).
Embora ainda estivesse distante de se tornar popular, Faulkner foi considerado por seus pares como o mais talentoso dos jovens escritores dos Estados Unidos. Àquela altura, ele tinha vivido a maior parte de sua vida em Oxford, Mississippi, e recentemente havia se casado e comprado a velha mansão Rowan Oak, de inspiração neogrega e construída antes da Guerra de Secessão.
Faulkner não era um homem sociável, nem gostava de trabalhar em equipe. O que o fez aceitar o contrato de 500 dólares por semana oferecido pela MGM foi uma experiência que ele teve em uma loja de artigos esportivos, onde o balconista se recusou a receber um cheque dele no valor de três dólares.
Depois que o escritor alegou que sua assinatura ainda valeria mais do que isso, o dono da loja se aproximou e disse a toda a sua equipe para não permitir que o jovem Faulkner pagasse por nenhum artigo que o interessasse. De acordo com o biógrafo Joseph Blotner, os primeiros dias de Faulkner em Hollywood foram incríveis.

Faulkner: “Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um” (Foto: Reprodução)
Em um sábado, ele se aproximou do seu chefe, Sam Marx, e o homem logo percebeu que o escritor cheirava a álcool e tinha um corte na cabeça. Então Faulkner explicou que ele foi atingido por um táxi quando estava trocando de trem em Nova Orleans. Apesar de tudo, justificou que se sentia bem e queria começar o seu trabalho corretamente.
“Nós vamos colocá-lo em uma foto com o Wallace Beery”, disse Marx. Confuso, Faulkner perguntou quem era o sujeito. “Eu tenho uma ideia de quem seja o Mickey Mouse”, comentou o escritor, recebendo a explicação de que os filmes do Mickey Mouse são feitos nos estúdios da Disney.
Em seguida, Sam Marx pediu que o seu office boy levasse Faulkner até a sala de projeção para ver Beery atuando como um pugilista em The Champ, de King Vidor, e no recente Flesh, de John Ford, em que Wallace interpreta um lutador alemão. Faulkner se recusou a assisti-los e preferiu bater um papo com o office boy.
Quando o escritor perguntou se o garoto tinha um cachorro, ele respondeu que não. Faulkner estranhou e enfatizou que todo garoto deveria ter um cão. “Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um”, insistiu. Sem muita demora, Faulkner saiu da sala de projeção justificando que sabia o final da história.
Quando Marx foi informado que o escritor já tinha saído do estúdio, ele iniciou uma busca sem sucesso. William Faulkner só reapareceu depois de nove dias, confidenciando que vagou pelo Vale da Morte. “Mas agora já estou pronto para o trabalho”, garantiu.
A atuação de Faulkner como roteirista incluiu também adaptações de To Have and Have Not (Uma Aventura na Martinica), de Ernest Hemingway, e The Big Sleep (À Beira do Abismo), de Raymond Chandler. Muitos aspectos de sua vida em Hollywood foram incorporados ao filme Barton Fink, dos Irmãos Coen, lançado em 1991.
No outono, o escritor retornou para sua casa em Oxford, Mississippi, onde corrigiu as provas tipográficas do seu novo romance gótico sulista – Light in August (Luz em Agosto) enquanto comia melancia e assistia a chuva caindo ao redor da varanda. Com o dinheiro que ganhou da MGM, fez importantes reparos na mansão Rowan Oak.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Blotner, Joseph. Faulkner: A Biography. New York: Random House, 1974.
Blotner, Joseph. Faulkner: A Biography. New York: Random House, 1984.
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