David Arioch – Jornalismo Cultural

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Elemento Principal conquista espaço no cenário nacional de música independente

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Destaque no SP Music Festival e WebFestValda, banda de Paranavaí vai gravar o primeiro álbum no icônico Da Tribo Studio  

Elemento Principal foi um dos destaques do maior festival de música independente do Brasil (Foto: WebFestValda)

Elemento Principal foi um dos destaques do maior festival de música independente do Brasil (Foto: WebFestValda)

De Paranavaí, no Noroeste do Paraná, a banda Elemento Principal vem se destacando desde 2014 no cenário nacional de música independente. Com uma proposta moderna de mesclar rock, rap, reggae e MPB, Miojow, Arthur Pelego, Bana, Narbona e Mano Bell viajam para São Paulo este mês, onde, entre os dias 21 e 27, vão gravar sete músicas no icônico Da Tribo Studio, por onde já passaram bandas como Sepultura, Raimundos, Krisiun e Claustrofobia.

Três gravações fazem parte da premiação conquistada em agosto de 2015, quando o Elemento Principal ficou em segundo lugar entre mais de 600 bandas de todo o Brasil no SP Music Festival. “Vamos sair de São Paulo com o nosso primeiro álbum produzido pelo lendário Ciero, um grande produtor com 22 anos de experiência e mais de 200 discos gravados. Por enquanto o nosso maior dilema é escolher quais das nossas 15 músicas vão entrar no CD”, informa o guitarrista e vocalista Arthur Pelego.

Banda foi premiada no 50º Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup)

Banda foi premiada no 50º Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) (Foto: Amauri Martineli)

Levando em conta que o Da Tribo Studio é especializado em rock e heavy metal, a banda optou por priorizar músicas com mais “pegada” – como “Pira”, “Pronto Pra Qualquer Parada” e “Positive Vibration”. “Nossas composições são bem agitadas e abordam bastante a questão da autoestima. Gostamos de mandar mensagens de paz e respeito. O Elemento Principal é aquilo que está em você, que te permite ter condições de fazer a diferença na vida de alguém”, destaca Arthur Pelego.

Depois de São Paulo, a banda viaja para o Rio de Janeiro, a convite da produtora do WebFestValda, o maior festival de música independente do Brasil, para a gravação de um programa veiculado no YouTube. “Vai ser uma ‘live session’ em que tocamos nossas músicas e conversamos um pouco sobre o nosso trabalho. Com certeza vem por aí mais uma experiência fantástica”, avalia o guitarrista.

Após o lançamento do álbum até julho deste ano, o Elemento Principal vai divulgar o material em todo o país e também fechar novas parcerias para a participação do grupo em festivais europeus em 2017.

Revelação no WebFestValda

Em 2014, a banda Elemento Principal foi escolhida como uma das 24 melhores de um total de 1218 inscritas no WebFestValda, o que garantiu ao grupo o direito de participar da final no Circo Voador, um dos espaços culturais mais célebres do Rio de Janeiro. Para se ter uma ideia da importância da classificação, só duas bandas do Paraná foram selecionadas.

Grupo pretende excursionar pela Europa em 2017 (Foto: Elemento Principal)

Grupo pretende excursionar pela Europa em 2017 (Foto: Elemento Principal)

“A experiência de tocar no Valda foi incrível. Ele agrega uma grande equipe de profissionais renomados da área de produção e direção musical, e tudo a seu dispor. Outro ponto alto é o intercâmbio com artistas de todo o país. Sem dúvida, foi um momento de grande reconhecimento do nosso trabalho”, comenta o guitarrista e vocalista Arthur Pelego.

No ano passado, o Elemento Principal participou novamente do WebFestValda. Embora não tenha chegado à final, a banda foi convidada para gravar a música tema do festival. O resultado pode ser conferido no making off de 2015, disponível no YouTube.

O surgimento da banda

Formada no início de 2012, a banda Elemento Principal surgiu no Estúdio Garagem, de Paranavaí, onde o vocalista Guilherme Miojow conheceu os irmãos Arthur e Lucas Bellanda – Arthur Pelego e Mano Bell. Logo o trio apresentou a proposta de fusão de estilos musicais para o contrabaixista Fernando Bana e o guitarrista Rodrigo Narbona. “Eles concordaram em participar e estamos aí até hoje. Somos amigos e parceiros de banda”, relatam Arthur Pelego e Mano Bell.

Desde 2014, a banda tem conquistado o público com músicas como “Salve a Rua”, “Paraná”, “Como Um Sonho”, “O Bagulho é Doido”, “Sempre Mais” e “Ação e Reação”. “São músicas que falam principalmente sobre o cotidiano e a situação do país”, explicam. Em Paranavaí, o Elemento Principal foi um dos grupos que mais cativou a plateia do 50º Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), realizado no ano passado.

Formação do Elemento Principal

Guilherme Miojow – Vocal

Arthur Pelego – Guitarra e vocal

Rodrigo Narbona – Guitarra solo

Fernando Bana – Contrabaixo

Mano Bell – Bateria

A importância do ensino superior de música

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Em trabalho acadêmico, Rafael Torrente defende que saber tocar não é o suficiente para lecionar música

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“É preciso compreender a educação sob aspectos filosóficos, antropológicos, sociológicos e pedagógicos para lecionar” (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2015, quando precisou escolher o tema de um artigo, o músico profissional Rafael Torrente, então acadêmico do curso de licenciatura em música-MPB, do UniCesumar, de Maringá, decidiu fazer uma pesquisa sobre a formação do professor de música e a área de atuação em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que mostra a importância do ensino superior de música.

Em 2008, com a criação da lei 11.769, o governo federal abriu espaço para a inclusão de música como disciplina ou conteúdo da disciplina de artes nas escolas. Porém a responsabilidade sobre a aplicação foi repassada aos estados e municípios. “Foi uma boa iniciativa, visando beneficiar principalmente as escolas de tempo integral. O problema é que no Brasil esbarramos na falta de profissionais com formação superior em música”, explica Torrente.

Tendo como referência pesquisadores como Cláudia Bellochio, Vânia Malagutti e Maura Penna, o músico declara que a qualificação do professor é um assunto sempre controverso, até porque em âmbito acadêmico há uma constante preocupação em ampliar a percepção de que para ensinar música já não basta simplesmente saber tocar um instrumento. “Esse é um modelo tradicional que muitos estudiosos apontam como insuficiente porque é preciso compreender a educação sob aspectos filosóficos, antropológicos, sociológicos e pedagógicos para lecionar”, argumenta.

No artigo apresentado como trabalho de conclusão de curso em 2015, Rafael Torrente realizou em Paranavaí uma pesquisa com 21 músicos profissionais que atuam em projetos de oferta de ensino gratuito de música – a maioria com faixa etária de 24 a 40 anos. Desse total, 94% têm interesse em cursar música. “Quando fiz a pesquisa, havia apenas dois professores com graduação. Descobri que 30% já cursaram ensino superior e outros 30% estão cursando, mas em outras áreas. O ponto positivo é que são profissionais interessados em buscar conhecimento. Não estão acomodados. E 90% deles trabalham com música há pelo menos seis anos”, garante.

Em Paranavaí, uma das grandes dificuldades para esses profissionais é a ausência de um curso superior de música. No Paraná, apenas nove instituições de ensino oferecem graduação na área. “95% dos músicos entrevistados defendem que Paranavaí deveria ter curso superior de música – 71% buscam licenciatura e 23% o bacharelado. Os indecisos somam só 6%. E mais da metade prefere curso presencial. Paranavaí é uma cidade que ‘respira’ música, então isso diz muito sobre a nossa realidade. Você encontra aulas em 9 escolas regulares, 11 projetos sociais, igrejas e inúmeros conservatórios”, enfatiza, lembrando que iniciativas sociais têm beneficiado centenas de jovens interessados em aprender música.

No artigo, Torrente enaltece o trabalho da Fundação Cultural de Paranavaí que incentiva o interesse pela música através do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), Orquestra de Sopros Paranavaí, Banda Sinfônica Clave de Luz, oficinas da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade e Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado, além do projeto Oficinas nos Bairros. “Optei por fazer esse trabalho como uma maneira de dar um retorno para minha cidade, onde tenho o privilégio de trabalhar com música. É uma pesquisa pequena, mas já é um começo”, avalia.

Saiba Mais

Dos 17 músicos profissionais da Orquestra de Sopros Paranavaí, 12 trabalham exclusivamente com música.

Dos 21 entrevistados, apenas dois exercem outra atividade que contribui de forma significativa na complementação de renda.

Do total, 19 fazem freelance em eventos e 14 têm formação em cursos livres de música.

Written by David Arioch

February 18th, 2016 at 6:14 pm

Vírus 27, um dos embriões do movimento skinhead brasileiro

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Uma das poucas bandas a unir carecas, punks (skunks) e pessoas sem ligação com qualquer movimento 

Capa do disco "Brasil Oi", lançado pela banda em 1988 (Arte: Reprodução)

Capa do disco Brasil Oi”, lançado pela banda em 1988 (Arte: Reprodução)

O Vírus 27 é uma banda brasileira fundada em São Paulo em 1982 por fãs do Dead Kennedys – até hoje um dos maiores nomes do punk rock graças à criatividade e imprevisibilidade de seu líder Jello Biafra. Infelizmente, pouco tempo após a criação da banda, dois integrantes do Vírus 27, Ademilson, que inclusive escolheu o nome do grupo, e Di, morreram.

Embora nos primeiros anos do Vírus 27 tenha restado apenas o baixista Pezão da formação original, a banda já estava se afastando do punk rock tradicional, se tornando um dos embriões do movimento skinhead brasileiro e um dos poucos grupos a unir carecas, punks (skunks) e até pessoas sem ligação com qualquer movimento ideológico, que apenas se identificavam com a proposta musical. A importância do Vírus 27 durante a Ditadura Militar é incontestável, ainda mais levando em conta o teor de suas canções de protesto em shows, atraindo multidões de jovens insatisfeitos.

Mais tarde, desempregado e enfrentando sérias dificuldades financeiras, Pezão teve de trocar a difícil realidade proletária do meio urbano pela área rural, onde começou a trabalhar como cortador de cana, sendo obrigado a deixar definitivamente o Vírus 27. Com a nova mudança de formação, Braz continuou na bateria e ingressaram na banda o baixista Lula (ex-Negligentes), o guitarrista Júnior e o vocalista e guitarrista Joe 90 que se tornaria um dos compositores mais importantes do oi! brasileiro.

A estreia nacional do Vírus 27 veio com o convite para participar da coletânea “Ataque Sonoro” que reuniu os maiores nomes do punk rock nacional. No ano seguinte, empolgados com a boa repercussão, lançaram o álbum “Parasita Obrigatórios”, baseado em 16 composições e um bônus que se tornou um hino: “Vida Longa aos Skinheads”.

Em 1987, participaram da hoje rara coletânea “Ronda Alternativa”, uma iniciativa da saudosa Devil Discos. No ano seguinte, o disco “Brasil Oi!” reafirmou a posição de destaque do grupo como expoente do oi! nacional, com letras que exaltavam tanto as virtudes brasileiras, com viés patriótico, quanto a invisibilidade social e outros problemas vividos pela maior parte da população. “Caso Sério”, de 1996, foi o último álbum lançado pelo Vírus 27, um ano depois de terem participado da compilação “Oi! Um Grito de União”, da extinta Rotten Records.

Com uma longa trajetória iniciada no início da década de 1980, a banda conquistou projeção nacional e internacional com a sua formação mais clássica – Joe 90 (vocal e guitarra), Emerson Flocks (baixo) e Léro (bateria). A música do Vírus 27 sempre foi simples e coesa, como o próprio gênero oi!, uma ramificação do punk rock, demandava, e a produção também era independente e underground, limitações que inclusive agregaram novo status e conceito do ponto de vista estético. Incrível como uma música Oi! – “Caminhos Incertos”, lançada nos anos 1980, continua tão atual.

“Quanto tempo faz,
Que o povo não se entende
Quanto tempo faz,
que vocês não me compreendem”…

Curiosidade

O nome Vírus 27 é uma referência ao selo Alternative Tentacles, fundado por Fello Biafra, dos Dead Kennedys, em 1979.

Saiba Mais

Historicamente, a cultura skinhead em essência nunca defendeu o uso de violência, muito menos qualquer forma de racismo ou preconceito. Esse tipo de conduta é inerente aos boneheads, um movimento completamente diferente que inclusive se apropria de forma equivocada e ilícita da palavra skinhead, um termo hoje totalmente vulgarizado e descontextualizado por causa da desinformação.

Written by David Arioch

February 12th, 2016 at 11:29 pm

A partida de Lemmy Kilmister

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Lemmy marcou demais a minha adolescência e início da fase adulta (Foto: Reprodução)

Lemmy marcou demais a minha adolescência e início da fase adulta (Foto: Reprodução)

É uma pena que o Lemmy Kilmister tenha falecido hoje, aos 70 anos, em decorrência de um câncer no cérebro recém-descoberto. Fiquei realmente chateado. O cara marcou demais a minha adolescência e início da fase adulta. Lembro quando conheci Motörhead em uma locadora de CDs perto da casa da minha tia na década de 1990. À época, eu tinha 14 anos e me surpreendi ao ver três caras na capa com os rostos ocultos no deserto, usando um traje que misturava estilos – uma fusão de cowboy e motoqueiro.

Aquilo parecia badass e gostei tanto que insisti para que o dono da locadora me vendesse aquele CD intitulado Ace of Spades. Depois de tanta perturbação, ele concordou. Saí todo feliz daquela locadora, desesperado para colocar aquele CD prateado num CD player. Conforme a bolachinha girava, eu tentava memorizar os nomes das músicas – começando com Ace of Spades e terminando com a versão ao vivo de Motörhead. Fiquei tão hipnotizado pelo álbum que até no aniversário da minha prima convenci a minha tia a deixar eu e meus amigos ouvi-lo um pouco durante a comemoração.

Foi divertido, inesquecível e histórico, ainda mais levando em conta que tudo isso aconteceu quando ainda não existia mp3 (tínhamos apenas Midi e Wave, mas faltavam bons compressores). Meus amigos ficaram tão animados que pediram que eu tirasse cópias para eles em fita K7. Basicamente esta é a minha história com uma das maiores lendas do rock e do heavy metal.

Written by David Arioch

December 29th, 2015 at 1:26 am

O Quintal Mágico de Sergio Torrente

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“Não tinha como não transformar o lugar onde moro naquilo que vivo diariamente, a arte popular”

Colorido cenário na Rua Antônio Felippe, onde funciona a casa e o escritório de Sergio Torrente (Foto: David Arioch)

Casa na Rua Antônio Felipe que abriga o escritório e o Quintal Mágico de Sergio Torrente (Foto: David Arioch)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, quem passa pela Rua Antônio Felipe em direção à Praça dos Pioneiros se depara com uma residência bem chamativa à direita. É lá, no número 1676, que vive o artista popular Sergio Torrente. Num colorido cenário, Sergio prova que na vida poucas coisas são realmente descartáveis, ainda mais quando um artista tem a sensibilidade de dar um novo sentido até para objetos que cabem na palma da mão e já não funcionam mais, como um velho despertador à corda.

Depois de passar por uma sala, onde também fica o escritório de Torrente, vou mais adiante, atravesso a cozinha e a última porta da casa. Então encontro meu destino, o motivo da visita, o Quintal Mágico, dividido em três espaços. “Não tinha como não transformar o lugar onde moro naquilo que vivo diariamente, a arte popular”, justifica o artista sorrindo.

Em pouco tempo chegaram peixinhos, flores e gira-giras, penduricalhos criados por Sebastião Torrente (Foto: David Arioch)

Em pouco tempo, chegaram peixinhos, flores e gira-giras, penduricalhos criados por Sebastião Torrente (Foto: David Arioch)

Entre pinceladas de tinta verde, amarela e azul, há três anos surgiu um palco e alguns bancos doados por uma igreja do Jardim São Jorge, agora pintados num azul anilado. Em pouco tempo, chegaram peixinhos, flores e gira-giras, penduricalhos criados por Sebastião Torrente, pai de Sergio, que hoje adornam uma bela e frutífera jabuticeira. “Começou a se transformar e vimos que ele estava mágico, então surgiu a ideia de dar o nome de Quintal Mágico, um espaço onde a arte popular floresce, onde artistas autorais podem se apresentar”, enfatiza.

Pelo local já passaram compositores locais como o próprio Sergio Torrente, Marquinhos Diet, Fernando Bana, Rogério Esquivel e João Henrique. Todos os fazedores de música de Paranavaí podem se apresentar no Quintal Mágico. Ao final da performance é passado um chapéu e quem quiser pode contribuir. “Tem que aproveitar o espaço que é nosso”, comenta. Depois peço que me leve até SáD´Zabumbê, onde uma pequena e estreita abertura no muro exige que cada convidado se abaixe para entrar, fazendo uma reverência ao rei, um boneco grande que tem pés no lugar das mãos e mãos no lugar dos pés.

Após sair de uma limítrofe cobertura de lona escura, piso no solo de SáD´Zabumbê, que é melhor aproveitado se você estiver descalço, sentindo a energia da terra. Há um palco bem rústico, que remete ao início da civilização, delimitado por duas ripas e um tronco fino. No muro se vê sapatos pendurados, uma analogia de que tudo que cobre os pés deve ficar suspenso. As trepadeiras também crescem livremente em várias direções. “A energia foi chamando”, acredita Sergio.

Após sair de uma limítrofe cobertura de lona escura, piso no solo de SáD´Zabumbê (Foto: David Arioch)

Após sair de uma limítrofe cobertura de lona escura, piso no solo de SáD´Zabumbê (Foto: David Arioch)

O local conta somente com a iluminação de uma fogueira, lampião ou luz de velas para criar um clima mais tribal, intimista e informal. Torrente não se preocupa com a ordem das coisas no ambiente, pois elas se ajeitam naturalmente. “Terminamos de tomar uma garrafa de vinho e simplesmente a colocamos aqui, junto com todas as outras que fazem parte de uma simbologia do sangue e da despreocupação”, revela e acrescenta que ao trocar a água pelo vinho o homem deixa de ser motivado pela razão e se guia pela emoção.

Por dois a três minutos, Sergio manipula os personagens, encenando em espanhol um fragmento criterioso de “Oração” (Foto: David Arioch)

Por dois a três minutos, Sergio manipula os personagens, encenando em espanhol um fragmento criterioso de “Oração” (Foto: David Arioch)

O palco de SáD´Zabumbê também foi criado para a encenação do espetáculo “Oração”, do renomado escritor, dramaturgo e cineasta espanhol Fernando Arrabal, de quem Sergio Torrente conseguiu autorização para a montagem da peça. “A minha ‘Oração’ tem direção do capixaba Wilson Coêlho, grande dramaturgo e pesquisador que possui os direitos do espetáculo no Brasil. Apresentei ‘Oração’ na versão original, em espanhol, em 2010 em três festivais na Argentina. Agora quero marcar uma reestreia para 30 a 40 pessoas, discutindo as questões da culpa e da des…culpa, da origem do conhecimento”, pontua enquanto empurra sobre o solo de SáD´Zabumbê um carrinho de bebê com três bonecos que fazem parte do espetáculo, representando Fídio, Lilbé e seu filho.

Por dois a três minutos, Sergio manipula os personagens, encenando em espanhol um fragmento criterioso de “Oração”, a busca do casal por um sentido em suas vidas. Em frente ao modesto palco há uma mamoneira envolta por fitas e uma pinheira. A primeira é uma árvore de recordações em que as fitas representam as histórias, a trajetória humana. “A vida nada mais é do que momentos de felicidade e esses momentos são criados por nós, seja na intenção de viver, ouvir coisas boas ou estar presente. E o Quintal Mágico celebra isso”, argumenta. Sobre o nome, SáD´Zabumbê é um neologismo da junção dos termos regionalistas “sassinhora” e “zabumbê” que juntos significam senhora felicidade. “Se você entrar por baixo, ela vai te levantar. A ideia aqui é manter o espírito de luz, a boa energia em alta”, defende.

A Ação B, o segundo e maior espaço do Quintal Mágico, que fica entre SáD´Zabumbê e a futura Fábrica de Brinquedos, possui um palco com três palmos de altura, usado para apresentações musicais de duas ou três pessoas. Foi construído a partir de cacos de telhas, sobras de lajotas, tijolos e outros restos de entulho. “Assim que mudei pra cá, fui limpando e colocando tudo num canto. Quando vi aquele monte de tranqueira feia pra danar, armei uns palanques, espalhei tudo isso e compactei. Assim surgiu outro palco”, narra.

Torrente: "Armei uns palanques, espalhei tudo isso e compactei. Assim surgiu outro palco” (Foto: David Arioch)

Torrente: “Armei uns palanques, espalhei tudo isso e compactei” (Foto: David Arioch)

Nas “Terças Encantadas”, a partir das 19h30, a diversão no local é baseada em prosa, viola, violão, risos e fogueira. “A gente brinca até as 22h, é o suficiente, até porque o vizinho tem que dormir e nós precisamos trabalhar no dia seguinte”, avisa. No sábado e no domingo os encontros começam às 15h e terminam por volta das 19h. O sinal de que o Quintal Mágico está aberto para quem quiser entrar são as luzinhas acesas na entrada da casa. “Viu a luz? É só vir pro fundo”, sugere.

O céu aberto permite que os convidados tenham um visão privilegiada da Lua e das estrelas enquanto se divertem em torno da fogueira. Nos finais de semana o Quintal Mágico convida todos a retornarem à infância, em rodas de brincadeiras e de cirandas, tocando tambores. “’Esta ciranda quem me deu foi Lia que mora na ilha de Itamaracá…’ E assim por diante. A gente pede que as pessoas se sintam à vontade, pisem no chão, façam coisas que não estão acostumadas a fazer todos os dias”, recomenda o artista que também pretende realizar rodas de congo e coco.

No terceiro espaço do Quintal Mágico, Sergio e o músico Rogério Esquivel vão coordenar pesquisas para a fabricação de brinquedos populares. A ideia é futuramente oferecer oficinas para adultos e crianças. “Queremos incentivar todo mundo a brincar como antigamente. Chegou a hora de desligar um pouco a TV, o computador e o celular. Aqui eles vão aprender a fazer um traca-traca, um mané gostoso – aquele que pula, um jogo de trilhas, damas. Enfim, joguinhos que meu pai brincava comigo quando criança e o pai dele brincou com ele”, explica.

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Antes de eu ir embora, Sergio abraça a viola, canta a plenos pulmões e toca percussão com os pés (Foto: David Arioch)

Cada oficineiro vai assumir o compromisso de produzir três ou quatro brinquedos, feitos principalmente de materiais recicláveis, para doações em comunidades carentes. Além disso, o Quintal Mágico está recebendo brinquedos quebrados para serem consertados e doados. E como diz a letra da música de Torrente: “Uma cidade tem que ter uma canção, um santinho padroeiro para lhe dar proteção. E tem que ter uma bodega sempre aberta, uma cachaça esperta e um louco de plantão. Vamos fazer a nossa bodega aqui”, canta e informa Sergio.

Coordenada por Sol Púrpura, a bodega deve promover ainda mais a interação e a valorização mútua dos frequentadores do Quintal Mágico. “Em breve vamos oferecer pizza, docinhos caseiros, um vinhozinho, uma cachacinha artesanal, os penduricalhos do Seu Tião, brinquedos populares e o que vier. Todo mundo pode trazer alguma coisinha pra expor e vender, inclusive você. Precisamos de pessoas que venham somar, ajudar para que as coisas aconteçam”, declara.

Antes de eu ir embora, Sergio me serve um café fresco, abraça a viola, canta a plenos pulmões e toca percussão com os pés. A cantoria é acompanhada de uma interpretação singular repleta de trejeitos e caretas. A cada batida o chão treme, os objetos passeiam pela estante azul, os penduricalhos se agitam e as cores vibrantes nas paredes reforçam a alegria emanada de um cenário naturalmente festivo. “As cores, a brisa, o olho vibrando, tudo isso faz com que a alma cresça. É muito bom ver que você voltou com vontade de conhecer ainda mais o Quintal Mágico. É bacana. O Quintal Mágico, SáD´Zabumbê, já pegou você!”, anuncia ao notar a minha satisfação em divulgar a magia de um lugar que contrasta com a tecnologia e a célere realidade da vida urbana.

Saiba Mais

Para mais informações sobre os eventos do Quintal Mágico, curta a página no Facebook.

Uma vida dedicada à música

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Paulo Magalhães, um dos saxofonistas mais requisitados do Brasil nos anos 1960 a 1980

Paulo Magalhães com o Volume 8, de Roberto Leal, de quem foi parceiro por 13 anos (Foto: David Arioch)

Paulo Magalhães com o Volume 8, de Roberto Leal, de quem foi parceiro por 13 anos (Foto: David Arioch)

Em 1948, Paulo Magalhães Lima tinha seis anos quando saiu para comprar um doce com o pai. Naquele dia, dentre as opções por trás de uma vitrine, escolheu uma guloseima que veio colada a uma gaitinha. “Dei o doce a um colega e lambi o que sobrou em volta. Mesmo sem jamais ter tido contato com algum instrumento, toquei “Asa Branca” [de Luiz Gonzaga] e surpreendi meu pai”, conta.

Dias depois, muitos comerciantes de Itaguajé, no Noroeste do Paraná, o convidaram para tocar “Asa Branca” em troca de doces e presentes. O episódio transformou a vida de Paulo que descobriu a vocação para a música e se tornou um dos saxofonistas mais requisitados do Brasil nos anos 1960, 1970 e 1980.

A trajetória como músico começou muito cedo. Aos 13 anos, Paulão, como era mais conhecido no auge da carreira, tocou em seus primeiros bailes em Paranacity e Itaguajé, no Noroeste do Paraná, além de Porecatu, na divisa com São Paulo. “Não demorou e fiz meu primeiro carnaval em Guaraci [na região de Astorga]. Já toquei em 56 carnavais e o mais recente foi este ano aqui em Paranavaí e também em Goiás”, diz.

De 1950 a 1960, Paulo Magalhães se apresentou no Paraguai, principalmente em Coronel Oviedo, a 150 km de Assunção, com o respeitado grupo Los Ases del Ritmo. “Me desenvolvi como músico no quartel, na Banda do Primeiro Batalhão de Fronteira. Foi uma época boa porque saí de lá tocando melhor, lendo partitura e escrevendo, mas minha formação mais sólida veio do que aprendi nas boates e nas zonas”, afirma sorrindo.

A primeira experiência tocando em boate foi em Cascavel, no Oeste Paranaense, onde subiu no palco com Orestes, o primo trompetista. Naquele tempo, Paulão trocou a bateria pelo saxofone. “Lá, conheci o jazz e a bossa nova, os meus gêneros musicais preferidos”, garante. Mais tarde, morando em São Paulo, ao longo de dois anos fez shows em casas noturnas da Rua Augusta.

"Não posso reclamar. Tudo que fiz na vida foi muito especial, então só tenho a agradecer.”

“Não posso reclamar. Tudo que fiz na vida foi muito especial, então só tenho a agradecer.”

Na Boate Lancaster, considerada o templo musical da juventude paulistana, conheceu o célebre Hermeto Pascoal, de quem se tornou amigo nos anos 1960. Após o expediente, os dois reuniam alguns músicos para darem uma “palhinha” antes do dia amanhecer. “Foi o melhor momento da minha carreira. Nas boates, eu tocava o que gostava”, destaca. Em São Paulo, também se apresentou no icônico João Sebastião Bar, quando o local recebia artistas como Chico Buarque, Elis Regina, Cesar Camargo, Toquinho, Geraldo Vandré, Ana Lúcia, Claudette Soares, Pedrinho Mattar, Sambalanço Trio e Alaíde Costa.

Paulo Magalhães teve importantes passagens pela TV Tupi, Cultura, Bandeirantes e Record. Trabalhou com o diretor Luiz Aguiar e os maestros Osmar Milani e Edmundo Peruzzi. “Nos tempos da Tupi, toquei muito com o Manito, dos ‘Incríveis’, um clássico do rock brasileiro e da jovem guarda. Fiquei na TV até 1965, quando me mudei para Foz do Iguaçu”, relata. Lá, formou o grupo “Los Brasileños” que fez muito sucesso na Argentina.

No mesmo ano, Paulão trocou o clarinete pelo saxofone. De volta a São Paulo, entrou para a banda da famosa Boate Mugi, onde fez muitos shows com Martha Mendonça. Acostumado a se aventurar por novos projetos, voltou a Cascavel, onde a família morava, e fundou a banda Alta Tensão. “No final da turnê, larguei a banda e fiquei em Itumbiara, Goiás. Logo me chamaram para fazer parte da Orquestra da Chevrolet. Toquei com eles até 1968”, revela.

À época, as irmãs Nalva Aguiar e Norma Aguiar eram as cantoras da orquestra, até que Nalva foi convidada a fazer parte da banda do cantor Roberto Carlos. “Também recebi o convite. Trabalhei com ele até 1973, quando decidi ficar em Uberlândia, Minas Gerais. Um dia, me entregaram um recado do próprio Roberto Carlos me pedindo pra retornar, falando que precisava de mim. Não voltei porque não queria mais aquela vida”, declara.

Por causa da rotina atribulada, Paulo Magalhães enfrentou uma crise no casamento. E para piorar, mal tinha tempo para os dois filhos pequenos. “No fim, perdi a mulher e tive que cuidar das crianças”, enfatiza, deixando claro que até então não tinha vida pessoal, já que a banda fazia pelo menos 20 shows por mês.

Em 1977, se tornou o saxofonista do cantor português Roberto Leal, com quem trabalhou durante 13 anos e gravou 13 LPs. No auge da carreira, Paulão viajou por dezenas de países. Guarda muitas lembranças dos shows por todas as regiões do Brasil, além de Estados Unidos, Alasca, Bélgica, Canadá, Portugal, França, Inglaterra, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, Áustria, Austrália e África do Sul. “Conheci muita gente e muitos lugares. Fiquei pertinho até de mafiosos italianos [prova o que diz mostrando uma foto]. Minha vida no Brasil só normalizou depois de 1990. Estava muito cansado e optei por sair da banda”, justifica.

Nos anos 1980, Paulão participou de trilhas sonoras de filmes. Um exemplo é “As Aventuras de Mário Fofoca”, de Adriano Stuart, lançado em 1982 e protagonizado por Cassiano Gabus Mendes. Na obra, o saxofonista aparece tocando, assim como no filme “O Milagre”, sobre a vida de Roberto Leal. Com muitas histórias para contar, Paulo Magalhães se recorda com carinho dos tempos de Mugstones.

Com a banda, um dos maiores clássicos do rock brasileiro dos anos 1960, gravou um LP, dois compactos e ficou em cartaz na Casa de Espetáculos Canecão, no Rio de Janeiro, por mais de seis meses. “Também fiz parte das bandas Flintstones, Fantômas, The Music of Society e muitas outras. Passei por diversos estilos musicais. Ainda me lembro de quando gravei alguns trabalhos com o Amado Batista”, acrescenta.

Embora não tenha lançado nenhum álbum solo, Paulão se orgulha de ter escrito pelo menos 100 músicas ao longo da carreira. Em Paranavaí e região, só para citar mais alguns nomes, integrou as bandas Condor, MR, Corpo e Alma, Cactus, Oásis, Santa Mônica e Fonte Luminosa. Lecionou na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade e ensinou muita gente a tocar saxofone, trompete, clarinete e gaita.

“Não posso reclamar. Tudo que fiz na vida foi muito especial, então só tenho a agradecer”, comenta. Aos 72 anos, Paulo Magalhães continua na ativa, tanto como músico quanto professor de saxofone e trompete. Para entrar em contato com ele, basta ligar para (44) 9838-4581.

Frase de destaque

“Me tornei músico há muito tempo, mas ainda me considero um eterno aprendiz.”

Curiosidades

Paulo Magalhães Lima nasceu em Presidente Vensceslau, na região de Presidente Prudente, mas passou parte da infância e adolescência em Itaguajé, onde tocou bateria na Orquestra Continental de Itaguajé, sob regência do Maestro Lincoln.

Ao longo da carreira, Paulão teve o privilégio de conhecer Luiz Gonzaga, o homem que o inspirou na infância a tornar-se músico.

Um filme sobre o fim da liberdade romani

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A história de uma família roma que foi perseguida durante a Segunda Guerra Mundial 

Korkoro se passa na França em 1943 (Foto: Reprodução)

Korkoro se passa na França em 1943 (Foto: Reprodução)

Lançado em 2009, Korkoro, palavra romani que significa sozinho, é um filme do cineasta franco-argelino Tony Gatlif que retrata a realidade de uma família roma que perdeu a liberdade enquanto viajava pelo interior da França em 1943, quando o país estava sob o domínio Vichy.

Logo no início, a música, a paisagem bucólica e o lirismo introduzem o espectador a uma cena em que as notas de um piano são representadas pela movimentação de arames farpados em paralelo. A princípio, a única perspectiva real que se tem é de um primeiro plano enuviado pelas incertezas de não sabermos o que há antes e depois daquela divisa. É um prólogo referencial do estilo de vida nômade.

Tony Gatlif apresenta uma família romani composta por pessoas de personalidades bem distintas, mas que carregam na essência algumas afinidades que envolvem companheirismo, abnegação, hospitalidade, amor à música, fé e desapego material. Não é uma obra que se limita a combater estereótipos ou simplesmente construir uma imagem bonita sobre a cultura cigana. É bem mais do que isso. Em alguns casos, Gatlif ironiza os clichês justamente para reforçar uma ideia ou parodiar um pensamento comum obtuso.

Tony Gatlif não se limita a combater estereótipos (Foto: Reprodução)

Tony Gatlif vai além do combate aos estereótipos (Foto: Reprodução)

Em uma das viagens, o cigano Taloche (James Thiérrée) percebe que estão sendo seguidos por um garoto – Claude (Mathias Laliberté). Sem família, o menino se junta a eles. Durante o percurso, colocam saquinhos de estopa nas patas dos cavalos para não deixarem rastros. Quando chegam a um vilarejo, onde montam acampamento, são informados de que o nomadismo está proibido em todo o território francês, sob pena de prisão.

Então uma professora, Mademoiselle Lundi (Marie-Josée Croze) – partisan, integrante da resistência francesa, sugere que eles parem de viajar até o fim da guerra. Por ora, continuam no local, embora não tenham planos de fixar residência. Na escolinha, um dos estudantes comenta com Claude, a quem Taloche chama ironicamente de Chororo (garoto pobre), que os romani roubam crianças. Admirador dos ciganos, o ignora.

O filme é pautado por muita música do início ao fim, corroborando a ideia de que não há vida sem música no mundo roma. Bem comunicativos, os ciganos vão até o centro comercial do vilarejo vender produtos e oferecer serviços. Na tentativa de ganhar algum dinheiro consertando panelas, Taloche diz em tom bem humorado: “Todos têm utensílios com buracos em casa, o que acontece é que às vezes os buracos estão escondidos.”

Mademoiselle Lundi é uma professora que faz parte da resistência francesa (Foto: Reprodução)

Mademoiselle Lundi, professora que faz parte da resistência francesa (Foto: Reprodução)

Em uma cena, o médico veterinário e prefeito do vilarejo, Théodore Rosier (Marc Lavoine), socorre um dos cavalos do acampamento na ausência dos ciganos. Por azar, Rosier é mordido pelo animal e cai com o braço ensanguentado. Pouco tempo depois, chegam para socorrê-lo. Enquanto uns cuidam de seu ferimento, outros prestam atendimento ao equino. Movidos pela fé, tradição e superstição, tratam do braço do veterinário com uma pasta de estrume. Ao mesmo tempo, oram pelo cavalo caído que em um rompante se levanta como se jamais tivesse adoecido.

Mais tarde, Rosier, o prefeito que deu abrigo a petit Claude, evitando que os ciganos tivessem problemas por terem entre os seus um jovem de origem desconhecida, pede ao garoto para perguntar qual foi o remédio usado em seu tratamento. “Foi estrume de cavalo. Mas diga a ele que até uma vassoura pode lançar fogo se for o desejo de Deus”, enfatiza um dos roma.

James Thiérrée interpreta o cigano Taloche (Foto: Reprodução)

James Thiérrée interpreta o cigano Taloche (Foto: Reprodução)

É profunda a relação dos ciganos com outras formas de vida não humanas. Em outra situação, a família toca uma canção festiva para elevar o ânimo de dezenas de galinhas. No filme, a música ajuda a superar muitos problemas – um recurso que manifesta uma liberdade frugal.

Em contraste ao paisagismo rústico, Gatlif parte de uma condição coletiva para a individual quando aborda o lirismo de Taloche, personagem cuja inocência, aparente dislexia e hiperatividade, parece experimentar um incessante conflito existencial. Há uma exaltação da hipersensibilidade do cigano que destoa da idade e, por vezes, remete ao humor pastelão dos tempos do cinema mudo.

Mas não há nada mais bem representado em Korkoro do que a necessidade de liberdade, até nas cenas mais simples. Outro momento inesquecível surge quando Taloche vai até a casa de Rosier. No banheiro, ele se inebria com a água que sai da torneira. Enche a pia e a faz deslizar por todo o cômodo, como se a conduzisse à emancipação. Quando a água desce em abundância, Taloche se lança escada abaixo, sem o menor temor de se ferir.

Rosier explica que uma lei francesa proíbe o nomadismo durante a guerra (Foto: Reprodução)

Rosier explica que uma lei francesa proíbe o nomadismo durante a guerra (Foto: Reprodução)

O filme assume um caráter documental em algumas cenas-chave. Traídos pelo amigo Pierre Pentecôte (Carlo Brandt), um simpatizante dos nazistas, a família é levada para um campo de concentração, onde há centenas de romani. Lá, Darko (Arben Bajraktaraj) pergunta a Pentecôte por que estavam trancando eles como cachorros. O traidor então responde: “Para livrar a França de seus vermes.”

Ao saberem o que houve, Rosier e Mademoiselle Lundi decidem intervir. O prefeito transfere a escritura de uma propriedade familiar para o patriarca roma. Em seguida, os dois vão até o campo de concentração e apresentam o documento, obrigando que a família seja libertada. Quando retornam ao vilarejo, os ciganos se surpreendem com a nova morada. Alguns concordam em viver provisoriamente no local, já outros preferem partir. No fim, prevalece a decisão do patriarca que considera mais prudente continuar no povoado.

Taloche é o último a entrar na casa. Para ele, a ideia de viver entre paredes é uma forma de privação, embora não manifeste isso com palavras. Dias depois, Rosier os visita e encontra a propriedade abandonada. Novamente na estrada, rumam para a Bélgica, acompanhados mais uma vez por Claude. Não chegam tão longe. São surpreendidos pelos homens do Governo Vichy, a serviço dos nazistas.

Na obra, os romani são perseguidos pelo Governo Vichy (Foto: Reprodução)

Um dos momentos da perseguição do Governo Vichy (Foto: Reprodução)

Enquanto são obrigados a formarem uma fila e apresentarem registros de identificação, Taloche se esconde. O arrastam, mas ele estapeia o líder da operação – uma versão de Adolf Hitler, em uma cena caricata digna de Charlie Chaplin. Foge em direção à floresta e sobe em uma árvore enorme. É alvejado a tiros, até que numa queda poética e acrobática cai sobre um córrego. Deitado, mas ainda vivo, é vítima de um tiro certeiro na testa.

A morte de Taloche simboliza o fim da liberdade romani e a iminência do Porajmos, o genocídio cigano perpetrado na Segunda Guerra Mundial. O desespero da família é geral, mas, apesar dos prantos, nada pode ser feito diante de tantos homens armados. O corpo é abandonado, assim como os animais e os pertences. Dali, não levam nada. Um longo tempo passa em questão de segundos. Aquela família não retorna mais. Em uma cena estática, tudo se esvai: o som, o fogo, a fumaça, a luz e a vida.

É muito interessante o cuidado que Tony Gatlif teve aos detalhes das expressões e particularidades de alguns personagens, embora talvez fosse mais impactante tornar outros romani da obra igualmente menos anônimos. De qualquer modo, fica clara a intenção de não deixar o individual, por mais peculiar que seja, se sobressair ao coletivo. O cineasta não tem intenção de se aprofundar na guerra. O foco é outro. É um filme sobre pessoas tentando exercer o direito de existir, não apenas habitar o mundo. Há uma bela construção do espaço em profundidade.

Korkoro se divide em dois ritmos. Onde existe alegria, há movimento e velocidade. Onde há tristeza, prevalece a lentidão de retratos quase estáticos das agruras de um tempo nefasto. Outro diferencial é a trilha sonora sempre pontual, um belíssimo trabalho capitaneado por Gatlif e a compositora Delphine Mantoulet.

Cena em que os roma chegam ao centro comercial do vilarejo (Foto: Reprodução)

Cena em que os roma chegam ao campo de concentração (Foto: Reprodução)

Tony Gatlif é um dos poucos cineastas que se dedica a produzir obras que evidenciam ou flertam com a cultura romani. Como autor de filmes de longa-metragem, o primeiro grande destaque surgiu com Latcho Drom, de 1993; seguido por Mondo (1995), Gadjo Dillo (1997), Je Suis Né D’une Cigogne (1998), Vengo (2000), Swing (2001), Exils (2004), Transylvania (2006), Korkoro (2009) e Indignados (2012). Vale a pena se aprofundar um pouco mais na filmografia desse autor de origem roma.

Saiba Mais

Não há dados precisos, mas acredita-se que de 250 a 500 mil ciganos foram assassinados pelos nazistas até o fim da Segunda Guerra Mundial.

Curiosidades

Korkoro é baseado em uma história real. A professora Lundi é inspirada na combatente da resistência Yvette Lundi.

James Thiérrée que interpreta Taloche é filho de Victoria Chaplin e neto de Charlie Chaplin.

Um artista dos bastidores

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Adauto Soares, do alto se sua cabine é sempre uma extensão de quem está no palco

Soares é o responsável técnico pelo Teatro Altino Costa

Há oito anos, Adauto Soares é o responsável pelo Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, onde atua como iluminador, técnico de som, cenógrafo e maquinista. É um artista dos bastidores que leva mais vida aos espetáculos por meio de cenários, luzes e sons que manipula para transmitir sensações e sentimentos. “Tenho que me atentar ao figurino de quem está no palco. Preciso escolher a iluminação certa para transmitir a essência de um momento”, explica Soares que do alto de sua cabine é sempre uma extensão de quem está no palco.

Não é à toa que quando surge algum imprevisto ou problema na montagem de um espetáculo, Adauto é a pessoa mais procurada para resolvê-lo. Nem poderia ser diferente, pois é o único profissional da região de Paranavaí que tem o DRT, registro profissional, de todas as funções que exerce concedido pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated) do Paraná. Admirador e aluno de Jorginho de Carvalho, considerado o maior iluminador do Brasil, conhecido como “O Velho da Luz”, Soares gosta da liberdade de criação, de surpreender o público e de brincar com cores quentes e frias. “Quando o diretor de um espetáculo deixa tudo por minha conta é mais fácil, faço a minha maneira. Quando ele vem com a ideia pronta é mais complicado”, comenta e acrescenta que a criação é a parte da produção que exige mais tempo.

Todo ano, Adauto participa da realização de dezenas de eventos. Já assinou a iluminação e parceria conjunta na criação de cenários de vários espetáculos de dança. “Além do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), as apresentações de dança são as que mais me dão liberdade. Sempre digo que meu trabalho é criar a moldura no quadro do artista, deixar algo mais bonito”, declara o profissional que recebeu três excelentes propostas de trabalho, mas recusou porque prefere continuar morando em Paranavaí.

Adauto Soares também cita como referência a iluminadora Nadja Naira e a cenógrafa Isabele Bittencourt, e se recorda que foi introduzido ao universo das artes quando na adolescência morava em Curitiba. “Tinha um amigo que era relações públicas da Petrobrás e sempre conseguia ingressos para os melhores espetáculos, então a gente não perdia um, fosse de música ou teatro. Assistia peças com o Matheus Nachtergaele, Giulia Gam, Wagner Moura, Luís Melo e muitos outros”, exemplifica.

Em cada apresentação, enquanto a maioria prestava atenção aos artistas, Adauto ia além, ficava maravilhado com os detalhes cenográficos. Ainda em Curitiba, assistiu a interpretação de “Morte e Vida Severina”, do Teatro Estudantil de Paranavaí (TEP). Anos depois, retornou a Paranavaí para dar continuidade aos estudos. Em 2003, ingressou no Grupo Tasp, do Sesc, atuando na peça “Quando as Máquinas Param”, de Plínio Marcos. “Gostava de dar palpites e logo decidi não interpretar. Percebi que gostava mais dos bastidores”, admite.

O rock regionalista de Rodolfo Lemys

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Compositor se inspira no estilo de vida de quem vive no Noroeste do Paraná

Rodolfo Lemys apresenta um trabalho simples, mas sólido (Foto: Amauri Martineli)

Rodolfo Lemys apresenta um trabalho simples, mas sólido (Foto: Amauri Martineli)

O roqueiro Rodolfo Lemys, de Paraíso do Norte, já compôs 60 canções ao longo de dez anos de carreira. O diferencial do compositor é a abordagem regionalista, já que boa parte de suas composições trata da cultura e do estilo de vida de quem vive no Noroeste do Paraná.

Enquanto muitos músicos da atualidade abusam dos clichês para caírem no gosto do público em geral, há quem prefira seguir na contramão apresentando um trabalho simples, mas sólido. É o caso do músico Rodolfo Lemys que mesmo vivendo numa região sem tradição quando o assunto é rock ‘n’ roll se mantém fiel à proposta desde os 12 anos.

“Com essa idade me tornei um ouvinte e amante do rock. Já meu interesse por tocar surgiu aos 15 anos”, lembra o músico autodidata que além do contrabaixo também toca outros instrumentos de corda e harmônica.

Um dos temas preferidos do artista é a cultura e o estilo de vida de quem vive no interior do Paraná, o que se relaciona com a identidade musical de Rodolfo Lemys. “Também já escrevi sobre autoconfiança, viagens, amor e assuntos sobrenaturais”, confidencia e acrescenta que só nos primeiros dez anos de carreira compôs cerca de 60 músicas.

Dentre as composições de destaque estão “Capital Monotonia”, “O Homem Nasceu pra Sonhar”, “Associação dos Suicidas”, “O Sonho de Liberdade”, “Um Whisky Antes Um Cigarro Depois” e “A Verdade Virou Lenda”. “Com o amadurecimento tomei apreço pelo rock das décadas de 1960, 1970 e também MPB”, assegura Lemys que começou a tocar há 15 anos.

Dentre as influências do músico estão Zé Geraldo, Arnaldo Antunes, Engenheiros do Hawaii, The Beatles, Creedence Clearwater Revival e Lynyrd Skynyrd. “Atualmente estou escutando ZZ Top, Johnny Cash, Neil Young, Blindagem e Vera Loca”, exemplifica. Durante alguns anos, Lemys integrou uma banda de Maringá com a qual excursionou pelo interior do Paraná, São Paulo e Santa Catarina.

“Hoje em dia é mais difícil fazer algo assim porque estou me dedicando a um projeto autoral”, se referindo à banda Exscabelos que além de canções próprias toca covers de bandas das décadas de 1960 e 1970, e rock gaúcho. O músico, que participa do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) há anos, está se preparando para gravar o primeiro disco independente com previsão de lançamento para o final deste ano ou início de 2011. “Recentemente entrei em estúdio para gravar mais algumas faixas”, enfatiza.

Contato

Para entrar em contato com Rodolfo Lemys, basta enviar e-mail para rodolfolemys@hotmail.com

Written by David Arioch

August 14th, 2010 at 5:44 pm

Fundação Cultural homenageia Emir Mancia

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Advogado foi um dos grandes entusiastas da arte paranavaiense

Arte da placa em homenagem ao artista

Em homenagem ao falecido advogado e artista Emir Mancia, a Fundação Cultural revitalizou uma antiga placa que carrega um fragmento do poema “Totó Guda”. A placa está exposta em frente a Casa de Cultura Carlos Drummond de Andrade e faz parte do projeto Paranavaí Cidade-Poesia que dá visibilidade ao trabalho de artistas locais.

Emir Mancia, natural de Curitiba, mas radicado em Paranavaí, foi um dos grandes colaboradores e incentivadores da arte e cultura local. Várias de suas músicas e poemas foram selecionados no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup). “Ele também dirigia peças de teatro, inclusive foi o fundador do grupo Chaplin”, explica a atriz e professora de teatro, Rosi Sanga.

Embora tinha a advocacia como profissão, Emir Mancia passava muito tempo envolvido com cultura, principalmente música, literatura e teatro. Era um escritor prolífico, no entanto teve tempo de publicar apenas uma obra; “Rastros Recolhidos”, de poemas e crônicas, escrito em parceria com o escritor Roberto Kalil e publicado em 1987.

A classe artística local sempre vira Mancia como um artista polivalente. Tal dedicação fez surgir o convite para presidir a Fundação Cultural em 1988. Naquele mesmo ano, o artista abriu o Femup com uma frase histórica. “Repete-se a alegria de ver a cidade invadida por artistas desse imenso Brasil que, como aves de arribação em tempo certo, aparecem para compartilhar a imensa alegria do conto, da música e da poesia em momentos tão efêmeros, e por isso tão esperados e gratificantes”.

Além de entusiasta do Femup, Mancia foi professor de muita gente que na atualidade se destaca trabalhando com arte e instruindo outras pessoas. “Na minha primeira declamação eu ensaiei com ele”, lembra a professora de teatro. O artista movimentava a classe cultural com idéias inovadoras. Graças ao advogado surgiu em Paranavaí o Centro Cultural Chaplin. Mas, infelizmente, o artista faleceu antes de ver tudo pronto. “Então decidimos homenageá-lo dando ao teatro o nome Emir Mancia”, explica Rosi, acrescentando que Mancia ajudou a escolher o espaço e se responsabilizou pelo registro do centro cultural.

À época, o Teatro Emir Mancia, fundado em 1995, se situava ao final da Rua Rio Grande do Norte em um velho barracão de beneficiamento de café. O espaço atendeu a comunidade por um período de um ano e meio, servindo de reduto para grupos de estudo, oferecendo espetáculos e oficinas para estudantes. Toda semana era apresentada pelo menos uma peça no local. “Lembro que a Elmita Simonetti e o Adriano Morais ajudaram bastante. Realmente havia muita gente envolvida na iniciativa”, destaca Rosi Sanga.

O Centro Cultural era totalmente independente, mantido com recursos dos associados e renda dos espetáculos. Lá, foram apresentadas peças que ficaram em cartaz por um bom tempo como “Mão na Luva”, de Oduvaldo Viana Filho, dirigida por Emir Mancia; “Liberdade, Liberdade”, de Flávio Rangel e Millôr Fernandes; e “A Noite Escura e Mais Eu”, de Lygia Fagundes Telles. Muitas peças infantis também foram encenadas no Teatro Emir Mancia que teve de fechar as portas em função de dificuldades financeiras. “Havia muitas despesas e não conseguíamos mais pagá-las. O aluguel era bem caro”, reitera Rosi.

Segue abaixo o poema do qual foi extraído fragmento para a criação da placa em homenagem ao advogado e artista Emir Mancia

Totó Guda (Femup/1985)

Atrás do morro do Feiticeiro

na cabeceira do Coatinga

rodeoado de ipê, uvaia e cacheta

e guarimirim, no meio de sambaqui,

ergueu cabana, criou porco e galinha,

Heitor Bento e Luiza, naquele rincão guarani.

E matou-se veado, tateto, lontra e paca,

bananal crescendo, por bicho cobra vigiado,

caminho de tigre e onça,

daí tiraram o sustento, mais farinha de mandioca.

Tinhoso de rio, manhoso de mato,

filho de outro casamento, mas não enjeitado,

cresce com igual cuidado e de Deus a ajuda,

o índio caboclo, de apelido Totó Guda

Até os quinze, de corpo mirrado,

tanto remo, subida de morro, corte de gissara,

palmito às costas, aos dezesseis afamado

cerveja em casa de mulher dama

e muita lição a safado.

Em festa de Navegantes, de remo ou de vela,

pescador festejado no cerco à tainha,

matador de robalo, badejo e cardume de pescadinha.

Também na batalha diária da maré

era moço conhecido de Antonina a barra do Jacaré.

Anos que passam, águas que rolam,

rapaz feito e casador, levou mulher pro rancho,

erguido de pau-a-pique, rejuntado de sapé.

Comendo a caça abatida no armado mundéu,

mergulho na água fria, corpo pelado secando ao céu,

picura na banha fritando, no poço bonito, passou lua de mel

Mas os tempos mudaram, plantação definhou,

as crianças chegaram, bananal acabou.

Palmito não corta é lei do Governo,

a caça arribou e o peixe do rio, veneno matou.

Larga o rio vem prá cidade, com tralha e filharéu.

Trabalho é pouco na estiva da Marinha,

porisso as horas perdidas no Chiquito Bordel

Do jogo e da cachaça não larga

filhos crescem e ninguém ajuda,

biscate não tem, volta ao mar, Totó Gudá.

Na noite enluarada, bêbado e briguento,

apanha e surra João Peitudo e Nascimento.

Daí em diante, vingança jurada, à traição

Ou mão armada, só na morte a expiação, prometem os desafetos.

A Páscoa se aproxima, semana santa,

se avizinha, em noite de maré alta,

Totó Gudá as redes lança, em nome de Iemanjá

na procura de peixe bom,

prá comemorar a ressurreição do filho de Oxalá.

Na volta grande folia, na venda do pescado

em roda de amigos e até tantas a cantoria.

Perto de casa, não escapa do atentado,

da faca e da navalha, dos inimigos a autoria.

Parte pro mar, parte pro mar, Totó Guda.

Com teu peito agonizante, das ondas

verdes outro eterno viajante.