David Arioch – Jornalismo Cultural

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Será que realmente é possível ser vegano?

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Considero o veganismo algo bem simples. Uma pessoa rejeita a ideia de consumir animais e faz o possível para não tomar parte nesse tipo de exploração. E, se possível, motiva outras pessoas a fazerem o mesmo. Mas então alguém aponta que isso é uma incoerência porque de algum modo a pessoa ainda continua endossando outras formas de exploração. Ou então aponta que o consumo de carne ainda é muito elevado. Sim, o consumo de carne ainda é elevado, levando em conta que vegetarianos e veganos ainda são minoria, mas isso está longe de significar algo que não seja um ascendente. O próprio CEO da Tyson Foods, uma das maiores “produtoras de carne” do mundo, reconheceu que a proteína vegetal é a proteína do futuro. Ademais, escândalos, crises econômicas, associações de conglomerados e frigoríficos com sonegação, exploração, corrupção e violência têm feito as pessoas refletirem como nunca fizeram antes.

Compare por exemplo com a realidade brasileira da década passada, ou então com a realidade da década de 1990. Pela primeira vez no Brasil qualquer pessoa com acesso à internet tem recebido nem que seja fortuitamente algum tipo de informação revelando mazelas associadas ao consumo de carne, laticínios e ovos. Admito que tenho visto um cenário bastante positivo e propício para a redução do consumo de produtos de origem animal e para o crescimento do vegetarianismo e do veganismo. Não preciso nem mesmo usar gráficos para reforçar isso. A realidade está aí para quem quiser analisá-la.
 
Gilles Lipovetsky escreveu na década passada que a pós-história seria marcada por um tempo de maior consciência por parcela significativa da população, e tudo isso graças à democratização da informação, que faria, e realmente tem feito, com que as pessoas se preocupem de fato em abandonar hábitos culturais nocivos. E essas pessoas têm condições axiomáticas de motivar outras pessoas.
 
Mas então alguém pode dizer que é insuficiente, que na realidade o que estamos fazendo é simplesmente substituição de produtos. Ou seja, as pessoas deixarão de consumir alimentos de origem animal, mas o sistema há de perseverar se adaptando a uma nova realidade exploratória. Há quem fale inclusive em um tipo de veganismo que atende aos piores interesses do capitalismo.
 
Desculpe-me, mas não acredito nisso, porque não vejo como não associar o veganismo com o consumo consciente em algum nível. Claro que temos divergências hoje em dia, como por exemplo a questão do consumo de transgênicos, de produtos da Unilever e de outros conglomerados. Alguns apontam a acessibilidade como vantagem, e outros apontam essa acessibilidade como a perpetuação da manipulação de uma massa consciente, mas ainda incapaz de não cair na capciosidade do mercado. Em situações como essa, recorra a sua consciência, será que estou fazendo tudo que eu poderia fazer? Ou será que eu poderia ir além? E decida por si mesmo.
 
Parto de uma reflexão bem simples. Empresas precisam de consumidores, e conforme esses consumidores se tornam mais críticos elas são obrigadas a reverem não apenas a elaboração de seus produtos, mas também suas políticas de trabalho, de impacto e de transparência em relação ao consumidor. Como isso pode não ser um avanço? Claro que um cenário ideal seria que não tivéssemos empresas engolindo empresas o tempo todo e se expandindo com dezenas de ramificações sob outros nomes. No entanto, precisamos partir de algum lugar se quisermos de fato alguma mudança. De certo, não será a anuência a essas práticas ou a desconsideração ao veganismo que mudará isso positivamente.
 
Não me exalto tanto com essas questões pirrônicas em relação ao veganismo porque acredito que o tempo descortinará realidades e trará novas verdades. Me chamem de iludido, mas vejo um futuro promissor. O veganismo tem se desenvolvido bem nos últimos anos e isso tem despertado dúvidas, conflitos e críticas; mas nada disso até hoje fez com que eu olhasse para o veganismo como uma impossibilidade ou uma filosofia de vida falha. Afinal, como reconhecer que os animais têm direito à vida pode não ser algo positivo? E um caminho para um futuro mais justo?
 
Como a ideia de querer um animal ao nosso lado e não no nosso prato pode não ser um símbolo alvissareiro? Sim, há um longo caminho a ser trilhado, mas tenho certeza que quanto mais pessoas aderirem ao veganismo maiores serão nossas possibilidades de nos livrarmos dessa miríade de tentáculos que envolve as mais diferentes formas de exploração animal. E à medida que as pessoas questionam uma forma de exploração, acredito que suas mentes, seja hoje, amanhã ou daqui um ano, se abrirão para uma nova consciência.
 
Fique à vontade para discordar, mas acredito piamente que o veganismo é possível para qualquer pessoa. Sim, conheço de perto a realidade de comunidades pobres e marginalizadas, inclusive pretendo colocar em prática um projeto provando que qualquer pessoa pode ser vegana, não interessando onde ela more, como é a sua rotina ou quanto ganhe. Vejo inclusive as comunidades marginalizadas como as mais vulneráveis levando em conta que estão entre aquelas com pessoas que mais se alimentam mal, e não apenas por limitações financeiras, mas principalmente por falta de instrução e informação. No entanto, quem tem a informação pode contribuir de alguma forma com aqueles que não a têm.
 
Então alguém pode perguntar: “Mas e o tiozinho que só tem a grana para comprar a linguiça ou o salsichão do almoço?” Então, em vez de incentivá-lo a comer algo que pode debilitar a sua saúde, que tal mostrar que esses alimentos podem ser responsáveis por fazer com que ele desenvolva doenças cardiovasculares ou câncer? Por que não descartar isso? Compensa até mesmo ficar apenas no básico arroz e feijão. Afinal, a tal da “mistura” nada mais é do que um condicionamento cultural.
 
“Ah, mas tem vegano que compra produtos que não são testados em animais, mas que são de empresas que também fabricam alimentos baseados em laticínios, por exemplo.” Sim, você tem razão, até porque ainda não há tantas empresas veganas no Brasil se considerarmos dimensão territorial e densidade demográfica. Logo realmente a oferta ainda não é proporcional à demanda; e o ideal, claro, seria a redução no consumo de industrializados, ou pelo menos uma grande diversificação, até para não esbarrarmos no problema que é a oferta de produtos por poucas, mas grandes empresas.
 
Sim, na atualidade, as pessoas acabam considerando suas possibilidades em um contexto de acessibilidade e até mesmo de custo-benefício. Sendo assim, sou da opinião de que só a desaceleração no consumo de produtos de origem animal pode favorecer esse cenário em um primeiro momento, e realmente há que se ter o cuidado com outras esparrelas. Porém, tenho uma perspectiva positiva em relação a isso porque sei que a consciência de hoje já não é a de ontem. E isso deve melhorar.
 
Enfim, creio que o mais é importante agora é trabalharmos com as ferramentas que temos, disseminar informação e mostrar para as pessoas que todo mundo tem condições de fazer alguma diferença. Até porque não é novidade que onde há exploração animal também há outras formas de impacto negativo em oposição à justiça social. E claro, isso acontece também fora do contexto da exploração animal. Porém, se ainda não podemos abraçar o mundo, podemos pelo menos tentar abraçar aquele que já está ao nosso alcance.




 

Quando Tolstói condenou a caça e a exploração de mão de obra animal

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“O primeiro passo para reduzir essa dependência é não comer animais e não viajar sobre eles, mas sim a pé”(Acervo: Tolstoy Foundation)

O escritor russo Liev Tolstói, um dos maiores nomes da literatura mundial, admitiu ao seu cunhado Stepan Behrs que durante a sua juventude um de seus passatempos preferidos era a caça. Quando serviu ao Exército Russo no Cáucaso, ele perseguiu raposas, lebres, cervos e javalis, até que começou a refletir sobre isso e permitiu que os animais vivessem sem qualquer intervenção de sua parte.

Em 1887, Behrs registrou em uma carta que “por compaixão, ele [Tolstói] desistiu abruptamente da caça, e me contou que não apenas perdeu completamente o seu desejo de caçar, como também se espantara por ter gostado disso anteriormente”, a considerando uma prática bárbara e incompatível com uma vida equilibrada, harmoniosa e respeitosa.

Em correspondência de 1893, Tolstói escreveu que os homens não deveriam causar sofrimento aos animais e fez questão de mencionar a Inglaterra como um país europeu que se destacava por uma “atitude poderosa” em contrariedade a isso – algo que ele atribuiu à força do humanitarismo inglês, que à época era defendido por pensadores e reformadores como Henry Salt, pioneiro dos direitos animais referenciado por Peter Singer na obra “Animal Liberation”, de 1975.

Porém, ao contrário dos muitos vegetarianos ingleses da época, com exceção daqueles que partilhavam da mesma perspectiva do vegetarianismo ético de Salt, Tolstói, que abdicou não apenas do consumo de todos os tipos de carne, mas também de leite, manteiga e ovos, escreveu que era preciso encontrar uma forma de reduzir a dependência humana dos animais como fonte de mão de obra no campo.

Behrs registrou que Tolstói ficou eufórico quando soube que máquinas estavam sendo desenvolvidas com esse propósito. Ele vislumbrou um cenário em que animais não sofreriam em decorrência de um esforço físico em benefício humano que custasse a redução de suas expectativas de vida.

“Pode-se regular os desejos de alguém por meio da moderação, restrição e trabalho árduo. O primeiro passo para reduzir essa dependência é não comer animais e não viajar sobre eles, mas sim a pé. E todos nós deveríamos começar a fazer isso agora”, registrou o escritor russo. Tolstói disse que, embora não tivesse abdicado do consumo de animais visando a sua saúde, ele percebeu inúmeros benefícios quando se limitou a uma alimentação frugal baseada em aveia, kasha, arroz, pão de centeio e sopas de vegetais.

“A confusão e, acima de tudo, a imbecilidade de nossas vidas, surge principalmente do constante estado de intoxicação em que a maioria das pessoas vive”, criticou Tolstói no ensaio “Por que os homens se entorpecem?”, publicado originalmente em 1890. Dois anos depois, Tolstói registrou no ensaio “O Primeiro Passo”, que o ser humano só cumpre o seu verdadeiro papel quando assume o compromisso de seguir uma sequência de realizações morais que são essenciais para o real estabelecimento da ordem no mundo, e isso inclui o respeito à vida independente de espécie, o autocontrole e a libertação de desejos que são nocivos a nós mesmos e aos outros.

Referências

R.F. Summers. Tolstoy and the natural world. The Vegetarian. The Vegetarian Society (Janeiro/fevereiro de 1987).

Troyat, Henri. Tolstoy. Grove Great Lives. First Grove Press Edition. Grove Press (2001).





 

Uma pizza vegetariana para um morador de rua, o último pedido de um condenado

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Fotos: Reprodução

Em 5 de agosto de 1981, Philip Workman, que vivia com a esposa e uma filha de oito anos em Columbus, na Geórgia, decidiu assaltar um restaurante em Memphis. Durante a ação, um funcionário acionou o alarme. Então três policiais logo chegaram ao Wendy’s.

Quando percebeu que não restaria outra alternativa a não ser fugir, Workman, que à época era viciado em cocaína, correu até o estacionamento e durante a perseguição atirou e matou o tenente Ronald Oliver. Por esse crime, Workman foi condenado à pena de morte e executado por injeção letal em 9 de maio de 2007, no Estado do Tennessee.

Porém, o seu último pedido entrou para a história dos pedidos mais surpreendentes já feitos por um condenado antes da morte, pelo menos nos Estados Unidos. Workman disse que o seu último desejo era que servissem uma pizza vegetariana para um morador de rua. Como o Estado do Tennessee não permitia que pedidos fossem realizados em benefício de terceiros, o desejo de Philip Workman não foi atendido.

Quando a notícia veio à tona, somente na cidade de Nashville, onde Workman foi executado, foram distribuídas centenas de pizzas vegetarianas para moradores de rua. Segundo dados da Union Rescue Mission, só eles receberam 170 pizzas. Doações para moradores de rua também foram realizadas em outros estados.





 

Written by David Arioch

March 21st, 2018 at 11:17 pm

Um papo com Pedro Mirabete

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Foto: David Arioch

Hoje, bati um papo com Pedro Mirabete, que conheci no final do ano passado quando ministrei uma palestra em que falei um pouco sobre veganismo na Escola Curitiba. Pedro usa o desenho como sua principal forma de expressão. Já foi premiado em dois concursos. Além da satisfação, a atividade o ajuda a lidar com a ansiedade.

Written by David Arioch

March 21st, 2018 at 8:05 pm

Breve reflexão sobre ativismo e veganismo

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Acredito que é sempre mais interessante as pessoas fazerem ativismo da forma que melhor condiz com suas personalidades, com quem são. Pra mim o mais importante é ser você mesmo, basear-se em suas boas características e potencialidades para conscientizar e sensibilizar pessoas. Claro, creio que uma pessoa pode sempre aperfeiçoar suas competências. Porém, não acredito em tal coisa como uma fórmula eficaz de ativismo a ser seguida por todo mundo, e exatamente porque pessoas são diferentes – tanto quem emite uma informação quanto quem recebe. Afinal, seres humanos não são conscientizados e sensibilizados pelas mesmas razões. Pra mim o mais importante é a honestidade em relação ao que se faz. Isso sim faz a diferença na minha opinião. A única sugestão que faço é ter ponderação, não se deixar dominar pela passionalidade.





 

Written by David Arioch

March 21st, 2018 at 1:31 pm

Sobre boas notícias que fazem o meu trabalho valer a pena

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Written by David Arioch

March 21st, 2018 at 1:32 am

A contradição da realidade e o veganismo – Sobre críticas à alimentação de veganos

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A Consumers International publicou uma pesquisa informando que 80% da população brasileira ignora o impacto da alimentação em suas vidas. Mesmo assim, muitas pessoas, que por improvidência levam um estilo de vida censurável do ponto de vista nutricional, julgam como sendo impraticável ser vegano.

Ou seja, não tenho condições de ser vegetariano ou vegano, de consumir alimentos menos industrializados ou mais baratos do que alimentos de origem animal, mas tenho condições de consumir laticínios, carnes e alimentos baseados em calorias vazias.

A partir disso, desenvolvo uma reflexão sobre a contradição da realidade e o veganismo, e porque as críticas à alimentação dos veganos se resume normalmente a um ponto convergente e conflituoso – a primazia do paladar e a relação de conveniência com nossos hábitos históricos e culturais que perpassam gerações.





 

A contradição da realidade e o veganismo

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Arte: Steve Cutts

A Consumers International publicou uma pesquisa informando que 80% da população brasileira ignora o impacto da alimentação em suas vidas. Ou seja, isso significa que temos 80% de uma população que não se preocupa, de fato, em se alimentar errado, caso esses dados sejam realmente precisos.

E para além disso, segundo a CI, apenas 12% da população brasileira acredita que a má alimentação é responsável por mais mortes humanas do que guerras, álcool, tabagismo e doenças como Aids e malária – o que, independente de percentual, é um fato, já que vivemos em um mundo em que lidamos copiosamente com dois tipos de morte frequente – pessoas que têm condições se alimentando mal o tempo todo (por opção) – logo contraindo graves doenças em decorrência desses maus hábitos, e vulneráveis ou desvalidos que não têm condições morrendo por não ter o que comer. Estúrdio, não?

Nesse contexto absurdo, de um mundo rico e ao mesmo tempo miserável com população mundial de 7,6 bilhões e que movimenta mais de 80 trilhões de dólares em Produto Mundial Bruto (PMB), temos também uma massa de pessoas com acesso à informação e condições de fazer alguma diferença no mundo que não entendem ou preferem não entender que o seu organismo funciona como uma máquina, e que se você negligenciar as necessidades dessa máquina, você vai comprometê-la mais cedo ou mais tarde. E muitas dessas pessoas, que por improvidência levam um estilo de vida censurável do ponto de vista nutricional, julgam como sendo impraticável ser vegano.

Ou seja, não tenho condições de ser vegetariano ou vegano, de consumir alimentos menos industrializados ou mais baratos do que alimentos de origem animal, mas tenho condições de consumir laticínios, carnes e alimentos baseados em calorias vazias. Afinal, tudo isso custa barato e calorias vazias são essenciais à nossa vida, não? Imagine se os maus alimentos que consumimos no cotidiano fossem substituídos por uma alimentação mais ética para nós e para os animais não humanos? Ou seja, que não custasse privação, sofrimento e morte de criaturas sencientes. Todos sairiam ganhando. Não digo que salvaríamos o mundo, mas já reduziríamos significativamente o nosso impacto.

Então, realmente, sou da opinião de que a rejeição ao veganismo por parte de quem tem acesso à informação parte basicamente da mesma premissa de sempre – o paladar e a primazia da conveniência. Quero dizer, pessoas morrem todos os dias em decorrência da fome ou da má alimentação voluntária, mas ser vegano continua sendo considerado ínvio por tanta gente que se recusa a ver que seus hábitos nunca foram seus, mas apenas resultado de um condicionamento industrioso e deletério que ultrapassa gerações.

Ademais, em um contexto mundial, esses hábitos significam a morte de mais de 60 bilhões de animais terrestres por ano. Isso não deveria exortar alguma reflexão? Para além da primacial questão ética, é importante ponderar também que pessoas não adoecem ou morrem por não se alimentarem de animais, mas sim por negligenciarem suas necessidades nutricionais. Afinal, se isso não fosse verdade, não teríamos pessoas se recusando a se alimentar de animais desde os tempos da Grécia Antiga, e até antes.





 

Quando você recebe uma notícia mais do que boa

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A criação de animais em regime industrial é um dos piores crimes da humanidade

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A marcha do progresso humano está repleta de animais mortos (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

O destino dos animais criados em regime industrial é uma das questões éticas mais urgentes do nosso tempo. Dezenas de bilhões de animais sencientes, cada um com sensações e emoções complexas, vivem e morrem em uma linha de produção. Os animais são as principais vítimas da história, e o tratamento dado em fazendas industriais aos animais domesticados é talvez o pior crime da história.

A marcha do progresso humano está repleta de animais mortos. Há dezenas de milhares de anos, nossos antepassados da idade da pedra já eram responsáveis por uma série de desastres ecológicos. Quando os primeiros humanos chegaram à Austrália há cerca de 45 mil anos, eles rapidamente promoveram a extinção de 90% dos grandes animais. Esse foi o primeiro impacto significativo que o Homo sapiens teve no ecossistema do planeta. E não foi o último.

 Cerca de 15 mil anos atrás os humanos colonizaram a América, eliminando cerca de 75% dos mamíferos. Numerosas outras espécies desapareceram da África, da Eurásia e das miríades de ilhas ao redor de suas costas. O registro arqueológico de país a país conta a mesma triste história. A tragédia se abre com uma primeira cena que mostra uma população rica e diversificada de grandes animais, sem nenhum vestígio do Homo sapiens.

Na segunda cena, humanos aparecem, evidenciados por um osso fossilizado, um lança pontuda e talvez uma fogueira. A terceira cena se segue rapidamente, em que homens e mulheres ocupam o centro do palco e os animais mais grandes, juntamente com muitos pequenos, desaparecem. No total, os sapiens levaram à extinção cerca de 50% de todos os grandes mamíferos terrestres do planeta antes de cultivar o primeiro campo de trigo, moldar a primeira ferramenta de metal, escrever o primeiro texto ou cunhar a primeira moeda.

O próximo marco importante nas relações entre humanos-animais foi a revolução agrícola: o processo pelo qual nos transferimos de nômades caçadores-coletores para agricultores que viviam em assentamentos permanentes. Isso moldou uma forma de vida completamente nova na Terra: a dos animais domesticados. Inicialmente, esse desenvolvimento parece ter sido de menor importância, já que os humanos conseguiram domesticar menos de 20 espécies de mamíferos e aves, em comparação com inúmeras milhares de espécies que permaneceram “selvagens”.

No entanto, com o passar dos séculos essa nova forma de vida tornou-se uma norma. Hoje, mais de 90% de todos os animais grandes são domesticados (“grande” indica alguns animais que pesam pelo menos alguns quilogramas). Considere o frango, por exemplo. Há dez mil anos, era uma ave rara que se limitava a pequenos nichos do sul da Ásia. Hoje, bilhões de frangos vivem em quase todos os continentes e ilhas. O frango domesticado é provavelmente a ave mais difundida nos anais do planeta Terra. Se você medir o sucesso em termos de números, você vai perceber que frangos, bovinos e porcos são os animais mais rentáveis de todos os tempos.

Infelizmente, as espécies domesticadas pagaram pelo incomparável sucesso coletivo com um sofrimento individual sem precedentes. O reino animal conheceu muitos tipos de dor e miséria ao longo de milhões de anos. No entanto, a revolução agrícola criou tipos de sofrimento completamente novos, que só pioraram com o passar das gerações.

À primeira vista, os animais domesticados podem parecer muito melhores do que seus primos e ancestrais selvagens. Os búfalos selvagens gastam seus dias procurando comida, água e abrigo, e são constantemente ameaçados por leões, inundações e secas. O gato domesticado, ao contrário, goza de cuidados e proteção contra predadores e desastres naturais. É verdade que vacas e bezerros mais cedo ou mais tarde serão enviados para matadouros. No entanto, isso torna seu destino pior do que o dos búfalos selvagens? Os dentes do crocodilo são mais gentis do que as lâminas de aço?

O que torna a existência de animais domesticados e criados em fazendas particularmente cruel não é apenas a forma como eles morrem, mas sobretudo como vivem. Dois fatores concorrentes moldaram as condições de vida dos animais de fazenda: por um lado, os seres humanos querem carne, leite, ovos, couro, força animal e entretenimento; por outro, os humanos têm de garantir a sobrevivência e a produção a longo prazo dos animais de fazenda.

Teoricamente, isso deve proteger os animais da crueldade extrema. Se um produtor de leite ordenhar a sua vaca sem oferecer comida e água, a produção de leite cairá, e a própria vaca morrerá rapidamente. Infelizmente, os seres humanos podem causar um tremendo sofrimento para criar animais de outras maneiras, mesmo garantindo sua sobrevivência e reprodução.

A raiz do problema é que os animais domesticados herdaram de seus ancestrais selvagens muitas necessidades físicas, emocionais e sociais que são superabundantes nas fazendas. Os criadores rotineiramente ignoram essas necessidades sem qualquer prejuízo econômico. Eles prendem animais em pequenas gaiolas, mutilam seus chifres e caudas, separam as mães da prole e criam seletivamente monstruosidades. Os animais sofrem muito, mas eles vivem e se multiplicam.

Isso não contradiz os princípios mais básicos da evolução darwiniana? A teoria da evolução sustenta que todos os instintos e movimentos evoluíram a partir do interesse pela sobrevivência e reprodução. Sendo assim, a reprodução contínua de animais criados para consumo provará que todas as suas necessidades reais são atendidas? Como uma vaca pode ter uma “necessidade” que não é realmente essencial para a sobrevivência e reprodução?

Certamente é verdade que todos os instintos e movimentos evoluíram para atender pressões evolutivas de sobrevivência e reprodução. Quando essas pressões desaparecem, no entanto, os instintos e unidades que se formaram não se evaporam instantaneamente. Mesmo que eles não sejam mais instrumentais para a sobrevivência e para a reprodução, eles continuam a moldar as experiências subjetivas do animal. As necessidades físicas, emocionais e sociais das vacas, cães e humanos atualmente não refletem suas condições atuais, mas sim as pressões evolutivas que seus antepassados encontraram há dezenas de milhares de anos.

Por que as pessoas modernas adoram tanto os doces? Não porque no início do século 21 devemos comer vorazmente sorvete e chocolate para sobreviver. Em vez disso, é porque quando nossos antepassados da idade da pedra encontravam frutos doces e amadurecidos, a coisa mais sensata a fazer era comer o maior número possível deles e o mais rápido possível [ponderando o contexto].

Por que os jovens dirigem imprudentemente, envolvem-se em protestos violentos e hackeiam informações confidenciais de sites? Porque eles estão obedecendo antigos decretos genéticos. Há 70 mil anos, um jovem caçador que arriscou sua vida a perseguir um mamute superou todos os seus concorrentes e ganhou a mão da mais bela jovem do lugar – e agora estamos presos aos seus genes.

Exatamente a mesma lógica evolutiva molda a vida de vacas e bezerros em nossas fazendas. Os antigos animais selvagens eram animais sociais. Para sobreviver e se reproduzir, eles precisavam se comunicar, cooperar e efetivamente competir. Como todos os mamíferos sociais, o gado selvagem aprendeu as habilidades sociais necessárias por meio desse jogo. Cachorrinhos, gatinhos, bezerros e crianças gostam de brincar porque a evolução implantou esse impulso neles.

Na natureza selvagem, eles precisavam brincar. Se eles não brincassem, eles não aprenderiam as habilidades sociais vitais para sobreviver e se reproduzir. Se um gatinho ou um bezerro nascesse com alguma mutação rara que os tornasse indiferentes às brincadeiras, eles provavelmente não gozariam de habilidades para sobreviver ou se reproduzir, assim como eles não existiriam se em primeiro lugar os seus antepassados não tivessem adquirido essas habilidades. Da mesma forma, a evolução implantada em cachorros, gatinhos, bezerros e crianças é um desejo irresistível de criar um vínculo com suas mães; uma mutação casual que enfraqueceu o vínculo mãe-bebê foi a sentença de morte.

O que acontece quando os criadores pegam uma novilha, a separam de sua mãe, a colocam em uma pequena gaiola minúscula, a vacinam contra várias doenças, dão-lhe comida e água, e então, quando ela tiver idade o suficiente, a inseminam artificialmente com o esperma de um touro? De uma perspectiva objetiva, essa novilha não precisa mais de vínculos maternos ou de companheiros para sobreviver ou se reproduzir. Todas as suas necessidades estão sendo atendidas por seus mestres humanos. Mas de uma perspectiva subjetiva, a novilha ainda sente um forte desejo de se unir à sua mãe e brincar com os outros bezerros. Se esses impulsos não forem satisfeitos, ela sofrerá muito.

Esta é a lição básica da psicologia evolutiva: uma necessidade formada ao longo de milhares de gerações continua a ser sentida subjetivamente, mesmo que não seja mais necessária para a sobrevivência e para a reprodução no tempo presente. Tragicamente, a revolução agrícola deu aos humanos o poder de garantir a sobrevivência e reprodução de animais domesticados, ignorando suas necessidades subjetivas. Em consequência, os animais domesticados são coletivamente os animais mais bem-sucedidos do mundo e, ao mesmo tempo, são individualmente os animais mais miseráveis que já existiram.

A situação piorou nos últimos séculos, período em que a agricultura tradicional cedeu à agricultura industrial. Nas sociedades tradicionais, como a do Antigo Egito, do Império Romano ou da China Medieval, humanos tinham uma compreensão muito parcial da bioquímica, genética, zoologia e epidemiologia. Consequentemente, seus poderes de controle e manipulação foram limitados. Nas aldeias medievais, as galinhas corriam livremente entre as casas, colhendo sementes e minhocas com o bico, e criando ninhos no celeiro. Se um campesino ambicioso tentasse confinar mil galinhas, mantendo-as em um espaço lotado, uma epidemia mortal de gripe aviária provavelmente teria eliminado todas as galinhas, assim como muitos aldeões.

Nenhum padre, xamã ou feiticeiro poderia ter impedido isso. Mas uma vez que a ciência moderna decifrou os segredos de aves, vírus e antibióticos, os seres humanos começaram a sujeitar os animais a condições de vida extremas. Com a ajuda de vacinas, medicamentos, hormônios, pesticidas, sistemas de ar condicionado e alimentadores automáticos, agora é possível colocar dezenas de milhares de frangos em pequenas gaiolas e produzir carne e ovos com uma eficiência sem precedentes.

O destino dos animais em tais instalações industriais tornou-se uma das questões éticas mais urgentes do nosso tempo, certamente em termos de números. Hoje em dia, a maioria dos grandes animais vive em fazendas industriais. Imaginamos que nosso planeta é povoado por leões, elefantes, baleias e pinguins. Isso pode ser verdade para o canal National Geographic, filmes da Disney e contos de fada infantis, mas já não é verdade para o mundo real. O mundo possui 50 mil leões. Em contraste, há cerca de um bilhão de porcos domesticados, 500 mil elefantes e 1,5 bilhão de bovinos domesticados; 50 milhões de pinguins e 20 bilhões de frangos.

Em 2009, havia 1,6 bilhão de aves selvagens na Europa, contando todas as espécies juntas. No mesmo ano, a indústria europeia de carne e ovos aumentou a produção de frangos para 1,9 bilhão. No total, os animais domesticados do mundo pesam cerca de 700 milhões de toneladas em comparação com 300 milhões de toneladas para humanos e menos de 100 milhões de toneladas para grandes animais selvagens.

É por isso que o destino dos animais de fazenda não é uma questão ética unilateral. Refere-se à maioria das grandes criaturas da Terra: dezenas de bilhões de seres sencientes, cada um com um mundo complexo de sensações e emoções, mas que vivem e morrem em uma linha de produção industrial. Há 40 anos, o filósofo moral Peter Singer publicou o seu livro canônico “Libertação Animal”, que fez muito para mudar a mente das pessoas sobre essa questão. Singer afirmou que a agropecuária é responsável por mais dor e miséria do que todas as guerras da história juntas.

O estudo científico dos animais tem desempenhado um papel sombrio nesta tragédia. A comunidade científica usou seu crescente conhecimento sobre os animais principalmente para manipular suas vidas de forma mais eficiente a serviço da indústria humana. No entanto, esse mesmo conhecimento demonstrou, sem qualquer dúvida razoável, que os animais de fazenda são seres sencientes, com relações sociais intrincadas e padrões psicológicos sofisticados. Eles podem não ser tão inteligentes quanto nós, mas certamente conhecem a dor, o medo e a solidão. Eles também podem sofrer, e eles também podem ser felizes.

Já é tempo de levar essas descobertas científicas ao coração, porque, à medida que o poder humano cresce, a nossa capacidade de prejudicar ou beneficiar outros animais cresce com ela. Por quatro bilhões de anos, a vida na Terra foi governada pela seleção natural. Agora é governada cada vez mais pelo design inteligente. Biotecnologia, nanotecnologia e inteligência artificial permitirão aos seres humanos remodelar os seres vivos a partir de novas formas ainda mais radicais, que redefinirão o próprio significado da vida. Quando chegarmos a projetar esse admirável mundo novo, devemos levar em consideração o bem-estar de todos os seres conscientes, e não apenas do Homo sapiens.

O artigo “Industrial farming is one of the worst crimes in history”, de autoria do professor de história israelense Yuval Noah Harari, foi publicado em 25 de setembro de 2015 no jornal britânico “The Guardian”. Harari conquistou fama internacional após a publicação do best-seller “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, lançado oficialmente em 2014.

Tradução: David Arioch