David Arioch – Jornalismo Cultural

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Programa federal canadense vai investir 150 milhões de dólares na indústria de alimentos à base de plantas

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Os fundos irão para o desenvolvimento de novos alimentos a partir de sementes de linhaça, cânhamo, aveia e leguminosas (Foto: Reprodução)

O Canadá está caminhando para desenvolver um sistema alimentar que depende mais de alimentos à base de plantas do que de animais. Um programa federal canadense vai investir 150 milhões de dólares na indústria sustentável de produtos baseados em vegetais. Esse valor é apenas uma parcela de um fundo de 950 milhões de dólares voltados à inovação no setor de alimentos e manufatura.

Chairman da Protein Industries Canada Group, uma aliança de 120 companhias que desenvolvem alimentos à base de plantas, Frank Hart disse a CTV News Canada que os fundos irão para a criação de novos alimentos a partir de sementes de linhaça, cânhamo, aveia e leguminosas. “É um mercado que espera se expandir de forma significativa”, disse Hart.

CEO da Pulse Canada, Gordon Bacon explica que os consumidores estão cada vez mais interessados em alimentos à base de plantas, o que tem relação com o crescimento do número de vegetarianos, veganos e de pessoas que querem consumir cada vez menos alimentos com ingredientes de origem animal. “É uma combinação de uma mudança no sistema de processamento, uma mudança na consciência do consumidor e também uma mudança de custos”, declarou Bacon. Ele explicou que até mesmo empresas que até então só produziam alimentos baseados em carne e laticínios pretendem criar produtos com proteínas baseadas em plantas.

Referência

Veg News





 

Written by David Arioch

March 2nd, 2018 at 12:14 pm

Por que a exploração de animais está na contramão da justiça social

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Senhor Boiada

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Foto: iStock

Um caminhão que levava o gado para o matadouro tombou na estrada. Nenhum dos animais se feriu gravemente. As pessoas se aglomeravam em torno dos bois tentando capturá-los e levá-los para casa. Um senhor desceu do carro armado e gritou:

— Pra lá! Ninguém vai tocar nesses bichos. Vim aqui para colocar ordem na situação.
Quando viram o revólver rutilando com a incidência do sol, todos se afastaram. Havia um grande espaço entre o interventor e os demais. Logo atrás dele estavam os animais – silenciosos.
— Vocês acham que podem chegar aqui e levar a boiada? Vocês são ladrões? Não têm vergonha na cara?
Ninguém respondeu, até que um velho retrucou:
— Caiu na rua não tem dono. Essa é a lei não escrita.
— Entendi. Então se o senhor cair na rua depois de um acidente a gente pode fazer o que quiser?
— Não, estou falando deles.
— Eles quem?
— Esses bichos aí, comida.
— Se o senhor não percebeu, eles estão bem vivos, e acredito que até mais do que o senhor.
O velho se calou.
— É o seguinte, o meu parceiro está chegando com outro caminhão. Vamos colocar esses animais na carroceria e seguir viagem. Se alguém chegar perto, não me responsabilizo pelo que vai acontecer. Não quero machucar ninguém, mas se for preciso, não vou hesitar.
Assim que o caminhão chegou, os animais foram realocados – um a um.
— E a gente, como fica agora?
— Vocês querem carne?
— Sim – gritaram em uníssono.
— Cortem um pedaço da perna de vocês e comam. Empresto a faca.
Mesmo notando tanta gente furiosa, o homem gargalhou e mostrou o revólver mais uma vez.
— Quem fizer graça vai acabar deitado, daí o churrasco está garantido. Problema resolvido. Que tal?
Só esgares. Nenhuma palavra.
O caminhão eclipsou no horizonte e uma F-1000 encostou.
— Cadê a boiada?
— Quem quer saber?
— Sou o dono da carga.
— Ora, seu funcionário acabou de levar a bicharada.
— Que funcionário? Não mandei ninguém aqui.
— Então danou-se.
 
Na carroceria do caminhão, um peão enxergou uma frase recém-escrita à faca: “Não importa a espécie, quem sente dor, não merece desamor, porque sem empatia a vida não serena, grita ao vento o que a ignorância condena.” – 21 de setembro de 1984.




 

Susana Romatz: “Não é difícil ficar sem carne ou laticínios. Difícil é ver as pessoas presas a uma mentalidade em desacordo com seus valores morais básicos”

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Susana: ” Demorei para fazer a conexão com o leite que acompanhava o meu cereal matinal” (Foto: Acervo Pessoal)

Susana Romatz conta que estava trabalhando em um PetSmart uma rede de petshop, quando conheceu Pinkie, uma pequena cadelinha preta com manchas brancas e olhos azuis. “Me apaixonei por ela e a adotei. Mas, infelizmente, os seus rins não se formaram corretamente e à medida em que ela crescia seus rins começaram a falhar. Ela viveu por apenas dois anos, mas naqueles dois anos aprendi o que era amar um cão. Fiquei devastada quando ela morreu”, explica.

O relato poderia ser apenas uma experiência comum de alguém amargando a perda de um animal doméstico. Porém, no caso de Susana, a experiência fez com que ela não conseguisse mais se alimentar de animais, embora não definitivamente. “Eu não conseguia ver a diferença entre a minha amada cachorra e os animais em meu prato. Comecei a assistir vídeos sobre bem-estar animal e doei dinheiro para grupos de ativismo animalista. Tentei ser vegana, mas não consegui por uma infinidade de razões, principalmente força de vontade e educação”, admite.

Quando se mudou para o Estado do Oregon em 2002, ela ouviu pela primeira vez alguém falando em animais “criados de forma humanitária”, em referência à carne e aos laticínios com “certificado humanitário”; e aquilo chamou a sua atenção, já que em Saginaw, Michigan, sua cidade natal, nunca ouviu tal termo, simplesmente porque as pessoas não pensavam em carne como partes de animais, mas apenas como algo para comer. “Tendo sido enganada pelo fascínio da carne abatida humanamente, vejo a grande ironia dessa estratégia de rotulagem. Os profissionais de marketing precisam trabalhar mais para dessensibilizar as pessoas que estão mais conscientes da verdade. Consumidores que têm alguma compreensão da injustiça de se matar animais, mas optam por pagar por isso, precisam trabalhar mais para rejeitarem a realidade de suas próprias escolhas”, diz.

Susana acredita que o asteísmo disso tudo é que as pessoas que optam por gastar dinheiro extra comprando produtos de origem animal que resultam do “abate com compaixão” são mais cúmplices da violência e da morte prematura de animais do que aqueles que nunca pensaram que seus hambúrgueres um dia foram indivíduos que desejavam viver: “No Oregon, comecei a comprar a mentira de que se pode matar um animal com humanidade para atender a preferência do paladar […] Claro, a voz mais suave da compaixão muitas vezes é difícil de ser ouvida.” Ela percebeu o próprio contrassenso vindo de alguém que não queria   machucar qualquer ser vivo, nem mesmo pequenos insetos que se afogavam em poças.

Antes de se tornar vegana, Susana Romatz aceitou um emprego em uma fazenda de “cabras felizes” e na mesma época comeu o seu primeiro hambúrguer preparado com carne de um animal supostamente abatido de forma humanitária. Foi mais além. Passou a comprar peitos e bifes orgânicos de frango. Para aliviar a consciência, pagou bem mais caro em pedaços de bacon com “certificado humanitário”:

“É incrível o que você consegue bloquear quando coloca força nisso. Eu, que dez anos antes tinha me reduzido às lágrimas, observando vídeos secretos de como os animais de criação eram tratados – privados, violentados, esfaqueados, degolados, eletrocutados – agora estava trabalhando em uma fazenda de produtos lácteos onde recém-nascidos eram tirados de suas mães logo após o nascimento, e seus gritos de aflição eram ignorados.”

Para não ter um grande conflito de consciência, Susana se esforçou para evitar pensar a respeito. Mas às vezes uma compreensão lancinante do que estavam fazendo era inevitável. Enquanto trabalhava, ela acreditava que os animais tinham seus chifres removidos para a sua própria segurança, e que o processo era indolor. Até que uma vez testemunhou como isso realmente era feito. “Os cabritos foram capturados e seus chifres queimados com ferro quente enquanto eles gritavam e chutavam tentando escapar. Depois de libertados, ficavam tão abalados que tropeçavam e saíam balançando a cabeça violentamente, confusos e com muita dor”, narra. Alguns deles nunca mais permitiram que qualquer pessoa se aproximasse sem que demonstrassem um terrível pavor.

Um dia, quando chegou ao trabalho, ela percebeu que uma das cabras de quem ela mais gostava tinha sido morta porque estava com um abscesso e uma mastite. Alegaram que o abscesso era possivelmente contagioso e que ela não estava produzindo uma boa quantidade de leite: “Tentei não pensar sobre o fato de que ela era uma cabra engraçada e brincalhona que me fazia rir o tempo todo.”

Em outra ocasião, Susana encontrou uma cabra grávida deitada e com os olhos fechados. Logo suspeitou que havia algo de errado. A cabra estava morta. Abriram-na com uma lâmina de barbear e tiraram três cabritos pálidos. “Eu podia sentir seu coração batendo tão rápido sobre a minha mão. Todos eles morreram. A mulher [proprietária da fazenda] começou a chorar balançando a cabeça e lamentou: “Oh, minha melhor provedora. Meu belo prêmio.” No entanto, não foi esse episódio que levou Susana definitivamente para o veganismo. Mais tarde, ela resgatou um chihuahua e a sua namorada disse que não poderia mais continuar se alimentando de animais. Então as duas fizeram a transição para o veganismo.

Susana Romatz era viciada em queijo. Para se ter uma ideia, ela consumia mais de dois quilos de cheddar por semana. “Experimentei alguns queijos veganos e eles eram realmente bons, mas decidi fazer o meu próprio, encontrar uma receita diferente usando ingredientes mais acessíveis. Estar no Oregon foi uma benção por causa das incríveis avelãs que crescem em todos os quintais e cantos. Os queijos ficaram tão deliciosos que decidimos criar um negócio. Como amamos a palavra latina para avelãs, Avellana, assim nasceu a Avellana Creamery”, revela em referência à sua pequena fábrica de queijos veganos baseados em avelãs orgânicas e cultivadas localmente.

Depois que se tornou vegana, Susana passou a refletir com mais clareza inclusive sobre os sinais que recebeu na infância, indicando que havia algo de errado em explorar animais. Com 10 ou 11 anos, ela testemunhou quando sua tia comprou uma máquina brilhante para a ordenha mecânica das vacas:

“Eles colocaram os tubos e a ligaram. Ela [a vaca] era bastante serena, mas me lembro de uma sensação de tristeza em sua situação. Parecia-me errado forçá-la a entregar o seu próprio leite. Embora não tenha ficado visivelmente ferida, isso me marcou profundamente. Demorei para fazer a conexão com o leite que acompanhava o meu cereal matinal. […] Em nossa cultura, temos o hábito de afastar-nos de coisas que nos trazem dor. Estou aprendendo que se afastar não ajuda em nada. Encarar de frente o que nos aflige nos dá a oportunidade de transformar o que é prejudicial em algo bonito. Não é difícil ficar sem carne ou laticínios. Difícil é ver as pessoas presas a uma mentalidade em que suas decisões diárias estão fundamentalmente e violentamente em desacordo com seus valores morais básicos. Nós podemos e devemos fazer o melhor.”

Referência

Romatz, Susana. My journey from “humane” dairy farmer to vegan cheese maker. Humane Facts (março de 2017).





 

“Tentei não pensar sobre o fato de que ela era uma cabra engraçada e brincalhona que me fazia rir o tempo todo”

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Foto: Tras Los Muros

Um dia, quando chegou ao trabalho, Susana Romatz, funcionária de uma fazenda de “cabras felizes” percebeu que uma das cabras de quem ela mais gostava tinha sido morta porque estava com um abscesso e uma mastite. Alegaram que o abscesso era possivelmente contagioso e que ela não estava produzindo uma boa quantidade de leite. “Tentei não pensar sobre o fato de que ela era uma cabra engraçada e brincalhona que me fazia rir o tempo todo.”

 

 

 





 

Relato de uma ex-funcionária de uma fazenda de “cabras felizes”

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Foto: Weed ’em & Reap

Para não ter um grande conflito de consciência, Susana Romatz se esforçava para evitar pensar a respeito. Mas às vezes uma compreensão angustiante do que estavam fazendo era inevitável. Enquanto trabalhava em uma fazenda de criação de cabras, ela acreditava que os animais tinham seus chifres removidos para a sua própria segurança, e que o processo era indolor. Até que uma vez testemunhou como isso realmente era feito.

“Os cabritos foram capturados e seus chifres queimados com ferro quente enquanto eles gritavam e chutavam tentando escapar. Depois de libertados, ficavam tão abalados que tropeçavam e saíam balançando a cabeça violentamente, confusos e com muita dor”, narra. Segundo Susana, alguns deles nunca mais permitiram que qualquer pessoa se aproximasse sem que demonstrassem um terrível pavor.

Susana Romatz foi funcionária de uma fazenda de “cabras felizes” no Estado do Oregon, nos Estados Unidos.

Referência

My Journey from ‘Humane’ Dairy Farmer to Vegan Cheese Maker

 

 





 

Harold Brown, o pecuarista que se tornou um defensor dos direitos animais

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Brown: “Até que questionemos esse relacionamento que existe há cerca de 10 mil anos, teremos dificuldade em ver os animais com novos olho” (Acervo: Farm Kind)

Filho de pecuaristas, Harold Brown cresceu em uma fazenda repleta de animais – bois, vacas, porcos e cabras. Começou a acreditar desde cedo que os animais existiam simplesmente para servirem aos seres humanos. “Cresci imerso em uma doutrinação de como os animais estão classificados no ciclo da vida. Também fui um caçador”, relata. Além da sua família, o que ajudava a reforçar a ideia de que Brown estava no “caminho certo” ao tomar parte na exploração animal era a sua própria comunidade, a igreja e a TV.

“Cada intervalo [na TV] tem pelo menos um comercial vendendo produtos com carne, laticínios ou ovos, e eles são inventivos. Quando via isso, eu pensava que estava fazendo uma coisa boa”, afirma. Aos 18 anos, Brown teve um ataque cardíaco, e na época não entendeu o que aconteceu. Ele estava assistindo a um filme e tomando meio galão de sorvete, até que o lado esquerdo do seu pescoço começou a doer. A dor se estendeu para a mandíbula, ombros e se espalhou pelo braço esquerdo. “Eu estava no chão e não conseguia respirar. Parecia uma eternidade, mas durou apenas alguns minutos. Eu não conhecia os sintomas de um ataque cardíaco”, enfatiza.

Mais tarde, seu pai teve dois ataques cardíacos, um acidente vascular cerebral (AVC) que o privou da fala e um aneurisma que quase o matou. Então o médico informou que levando em conta o histórico familiar, Brown, assim como o pai, tinha uma predisposição a desenvolver graves problemas cardíacos. “Disse que se eu não mudasse o meu estilo de vida, teria que usar um marca-passo aos 35 anos. Falou que eu deveria cortar o sorvete, que era um vício para mim, e a carne vermelha. Não sugeriu ser vegetariano. Além disso, eu não saberia o que isso significava. Nunca ouvi falar disso até então”, revela.

Em casa, Harold conversou sobre a sugestão do médico com a esposa e os dois decidiram fazer uma transição para uma alimentação livre de alimentos baseados em calorias vazias e livre de carne vermelha. Em pouco tempo, ingressaram no Clube Vegetariano de Cleveland e se tornaram realmente vegetarianos. À época, Brown conheceu o trabalho dos médicos Caldwell Esselstyn e Michael Greger, defensores da alimentação livre de ingredientes de origem animal.

Alguns anos depois, Harold considerou insuficiente ser vegetariano, inclusive essa etapa de sua história foi registrada no documentário “Peaceable Kingdom – The Journey Home” ou “Reino Pacífico – A Jornada Rumo ao Lar”, lançado por Jenny Stein em 2009. Segundo Harold Brown, mesmo convivendo com animais desde muito cedo, ele não tinha percebido como desenvolveu um mecanismo que o impedia de ver os animais como sujeitos de uma vida.

“Eu tinha uma imagem imediata na minha cabeça de uma luz sobre o meu coração que eu poderia ligar ou desligar dependendo com quem eu estava lidando. Também percebi que a sugestão para esse mecanismo de desconsideração era a frase: ‘Não me importo’”, frisa. No seu entendimento, o ato de negar-se a se importar com os animais permitiu que ele vivesse desconectado emocionalmente, psicologicamente e espiritualmente em relação a eles.

Harold Brown chegou a um ponto em que não considerava mais correto continuar imerso nessa crença de desconsideração. “O que aprendi então foi que ao escolher não dizer que não me importo, então não haveria alternativa a não ser dizer: ‘Eu me importo’. Chamarei isso de cuidado condicional, mas pode ser melhor entendido como compaixão incondicional, que mudou profundamente a minha vida. Tive que trabalhar duro para aprender a praticar a honestidade emocional; algo que nossa cultura não ensina às pessoas, e particularmente aos homens”, avalia.

Um grande problema na perspectiva de Harold, e que dificulta o entendimento de que o respeito à vida animal deve estar muito além de “tratar bem” para explorá-los e matá-los, é que a honestidade emocional é substanciada como contraintuitiva para os homens em nossa cultura, sendo vista inclusive como sinal de fraqueza: “Mas no coração do meu coração eu sabia que era onde eu precisava estar. Se eu quisesse fazer qualquer tipo de diferença em prol de um mundo melhor, eu teria que viver essa verdade.”

Brown admite que não se tornou vegano apenas pela própria força de vontade. Ele teve muito apoio da esposa e de amigos da comunidade vegetariana de Cleveland: “Se eles não me proporcionassem um espaço seguro para explorar os traumas da minha vida, provavelmente eu não teria aprendido a entender verdades muito importantes. Uma dessas verdades é a ahimsa, a não violência.” O ex-pecuarista crê que não há ação sem reação no que diz respeito ao tratamento que dispensamos aos animais. Se os exploramos e os matamos em algum ponto isso também há de gerar consequências para nós.

Para Harold Brown, a forma como vivemos nossas vidas, e as coisas que fazemos ou não fazemos, têm tudo a ver com a realidade que criamos. Ele se recorda que na infância observou que os animais criados para consumo buscavam conforto, prazer, boa comida, abrigo e senso de comunidade. “Mas não permiti que essas observações atingissem a cultura dominante em que vivi. Quando me permiti incluir esses animais no meu universo moral, ficou claro que as observações mais simples que fazemos sobre os animais que chamamos de ‘animais de estimação’ não são diferentes das que poderíamos fazer sobre os ‘animais de fazenda’”, confidencia.

Brown, que antes de se tornar vegano trilhava os passos do pai, ou seja, já atuava na criação de animais para consumo, defende que os animais devem ser respeitados como seres sencientes que são. “Isso significa que eles estão na Terra por suas próprias razões, não pelas nossas. Eles têm seus próprios interesses, assim como os humanos, e devem ser respeitados. Por enquanto, são vistos como propriedade legal dos seres humanos, e essa dinâmica os coloca em grande desvantagem; particularmente em um sistema capitalista de livre mercado, onde os animais são comercializados nitidamente como commodities, unidades econômicas. Até que questionemos esse relacionamento que existe há cerca de 10 mil anos, teremos dificuldade em ver os animais com novos olhos”, acredita. Desde que se tornou vegano, Brown ministra palestras contando a sua própria história e motivando mais pessoas a seguirem o mesmo caminho contra a exploração de animais.

Saiba Mais

Harold Brown vive em Cleveland, em Ohio, nos Estados Unidos.

Referência

FarmKind.org

 

 





 

Alguém diz: “Cara, ser vegano é ridículo, colocar os animais em um pedestal enquanto muita gente passa fome”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Alguém diz:

— Cara, ser vegano é ridículo, colocar os animais em um pedestal enquanto muita gente passa fome.

— Você sabe que nós também somos animais, certo? E não sei até que ponto você se “aprofundou” no veganismo, mas veganismo não tem nada a ver com colocar animais em um pedestal. O cerne da questão é o direito à vida, algo muito simples. Ou seja, se é possível coexistir pacificamente com outras espécies, por que explorá-las, violentá-las, matá-las? Ainda mais levando em conta que ninguém morre por não consumir carne, ovos, laticínios, mel e outros produtos baseados em animais.

— Mesmo assim isso não significa que o veganismo seja tão relevante.

— Bom, não sei o que você qualifica como relevante, mas matamos por ano mais de 60 bilhões de animais terrestres e mais de um trilhão de animais marinhos. Há inclusive estimativas da Fish Count, uma ONG britânica bastante respeitada, que estima que é possível que estejamos matando até 2,7 trilhões de peixes por ano. Sim, só de peixes. Isso parece irrelevante? Além disso, enquanto os seres humanos consomem cerca de 9,5 bilhões de quilos de alimentos por ano, mais de 61 bilhões de alimentos são destinados anualmente aos animais de criação. Isso parece justo e coerente pra você? Levando em conta que são animais que são mortos e reduzidos a produtos. Se me alimento de animais basicamente ajudo a endossar esses valores que realçam com bastante discrepância as nossas prioridades frente à miséria que testemunhamos e ao mesmo tempo ignoramos porque não diz respeito a nós; logo entendemos que não temos qualquer obrigação em relação a isso.

— Ainda acho que veganos não dão a mínima para as pessoas, cara. Eles se preocupam só com os animais.

— Sim, veganismo é sobre os direitos animais, mas não é difícil entender que a partir do momento que enxergamos os animais como sujeitos de uma vida abrimos um precedente para nos aproximarmos um pouco mais de um mundo com mais justiça social. Afinal, que tipo de mensagem essa luta a favor da não violência passa? Essa luta que questiona o lucro baseado na mortandade? A mensagem de que o dinheiro não é mais importante do que a vida. E a partir do momento que entendemos isso, passamos a questionar nossos valores e a caminhar na contramão das mais diversas facetas da exploração e da selvageria.

— Mas legislação a favor dos animais enquanto precisamos de novas leis em benefício da coletividade humana é o cúmulo.

— Bom, eu não vejo razão para colocar seres humanos e não humanos em posição de antagonismo, já que não existe concorrência nesse sentido. Há espaço para as mais diferentes lutas, sem necessidade de rivalidade. Outra coisa, você conhece assassinos veganos? Eu não. Claro, você pode até citar algum vegetariano, e provavelmente tenham existido assassinos vegetarianos, mas não assassinos que sejam adeptos do vegetarianismo ético. Afinal, não existe ética no assassínio. Você já percebeu também como desde sempre muitos assassinos começaram praticando violência contra pequenos animais? Podemos citar agora Richard Chase, que torturou e matou muitos animais, até que em 1977, enjoado de ferir não humanos, assassinou uma mulher grávida e toda a sua família. Imagine se tipos como esse ou seus pais tivessem sido responsabilizados por isso desde cedo. Será que não teríamos evitado problemas? Será realmente que legislação específica contra esse tipo de violência não é necessária? Em um mundo ideal, claro, não deveríamos infligir privação ou dor aos animais sob qualquer circunstância, mas por enquanto infelizmente ainda é preciso trabalhar com as poucas ferramentas à disposição.

— Tudo bem, mas já conheci veganos que odeiam pessoas.

— Se essas pessoas socializam com outras, mesmo que ocasionalmente, elas não odeiam pessoas. No máximo, podem odiar certos tipos de pessoas. Ainda assim isso não é uma prerrogativa do veganismo, mas sim uma prerrogativa individualmente humana. O veganismo não se volta para o ódio; nem poderia, já que se você odiar as pessoas dificilmente você vai conseguir motivá-las a entenderem como o veganismo pode ser realmente positivo para os animais e até mesmo para elas. Sendo assim, que resultado teríamos? Não sou capaz de estimular ninguém a ouvir ou ler o que tenho a informar sobre o veganismo se eu tiver um comportamento ou discurso violento ou odioso. Por outro lado, as pessoas terem momentos de ódio, de cólera, é normal. Isso não significa que elas acordem anotando em um caderninho quem elas planejam exterminar. E se fizessem isso, claro que não teria qualquer relação com o veganismo, já que o veganismo em si não endossa esse tipo de conduta.





 

Written by David Arioch

February 28th, 2018 at 11:36 pm

O veganismo também é uma questão de justiça social

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Desde os tempos da Grécia Antiga nos alertavam sobre as implicações do consumo de animais

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Desde os tempos da Grécia Antiga nos alertavam sobre as implicações do consumo de animais, e não falo das implicações para a saúde, mas sim das implicações morais. Não tivemos meia dúzia, nem dezenas de pensadores nos alertando sobre isso, mas centenas, talvez milhares ao longo da história.

A literatura que versa sobre as injustiças em relação aos seres não humanos e à necessidade de empatia em relação às outras espécies é extremamente vasta, tanto no campo ficcional como não ficcional. Há muito material relevante nesse sentido. Até mesmo os clássicos estão cheios de referências.

A verdade é que muito disso sempre passou despercebido pela maioria por uma questão de disfunção narcotizante. Ou seja, há uma imersão tão profunda em uma realidade desajustada em relação às outras formas de vida que é mais fácil ignorar ou apenas assimilar como uma alegoria – ou uma historieta que se desvanece da nossa mente com a velocidade de uma página folheada.