Archive for March, 2018
A criação de animais em regime industrial é um dos piores crimes da humanidade
O destino dos animais criados em regime industrial é uma das questões éticas mais urgentes do nosso tempo. Dezenas de bilhões de animais sencientes, cada um com sensações e emoções complexas, vivem e morrem em uma linha de produção. Os animais são as principais vítimas da história, e o tratamento dado em fazendas industriais aos animais domesticados é talvez o pior crime da história.
A marcha do progresso humano está repleta de animais mortos. Há dezenas de milhares de anos, nossos antepassados da idade da pedra já eram responsáveis por uma série de desastres ecológicos. Quando os primeiros humanos chegaram à Austrália há cerca de 45 mil anos, eles rapidamente promoveram a extinção de 90% dos grandes animais. Esse foi o primeiro impacto significativo que o Homo sapiens teve no ecossistema do planeta. E não foi o último.
Cerca de 15 mil anos atrás os humanos colonizaram a América, eliminando cerca de 75% dos mamíferos. Numerosas outras espécies desapareceram da África, da Eurásia e das miríades de ilhas ao redor de suas costas. O registro arqueológico de país a país conta a mesma triste história. A tragédia se abre com uma primeira cena que mostra uma população rica e diversificada de grandes animais, sem nenhum vestígio do Homo sapiens.
Na segunda cena, humanos aparecem, evidenciados por um osso fossilizado, um lança pontuda e talvez uma fogueira. A terceira cena se segue rapidamente, em que homens e mulheres ocupam o centro do palco e os animais mais grandes, juntamente com muitos pequenos, desaparecem. No total, os sapiens levaram à extinção cerca de 50% de todos os grandes mamíferos terrestres do planeta antes de cultivar o primeiro campo de trigo, moldar a primeira ferramenta de metal, escrever o primeiro texto ou cunhar a primeira moeda.
O próximo marco importante nas relações entre humanos-animais foi a revolução agrícola: o processo pelo qual nos transferimos de nômades caçadores-coletores para agricultores que viviam em assentamentos permanentes. Isso moldou uma forma de vida completamente nova na Terra: a dos animais domesticados. Inicialmente, esse desenvolvimento parece ter sido de menor importância, já que os humanos conseguiram domesticar menos de 20 espécies de mamíferos e aves, em comparação com inúmeras milhares de espécies que permaneceram “selvagens”.
No entanto, com o passar dos séculos essa nova forma de vida tornou-se uma norma. Hoje, mais de 90% de todos os animais grandes são domesticados (“grande” indica alguns animais que pesam pelo menos alguns quilogramas). Considere o frango, por exemplo. Há dez mil anos, era uma ave rara que se limitava a pequenos nichos do sul da Ásia. Hoje, bilhões de frangos vivem em quase todos os continentes e ilhas. O frango domesticado é provavelmente a ave mais difundida nos anais do planeta Terra. Se você medir o sucesso em termos de números, você vai perceber que frangos, bovinos e porcos são os animais mais rentáveis de todos os tempos.
Infelizmente, as espécies domesticadas pagaram pelo incomparável sucesso coletivo com um sofrimento individual sem precedentes. O reino animal conheceu muitos tipos de dor e miséria ao longo de milhões de anos. No entanto, a revolução agrícola criou tipos de sofrimento completamente novos, que só pioraram com o passar das gerações.
À primeira vista, os animais domesticados podem parecer muito melhores do que seus primos e ancestrais selvagens. Os búfalos selvagens gastam seus dias procurando comida, água e abrigo, e são constantemente ameaçados por leões, inundações e secas. O gato domesticado, ao contrário, goza de cuidados e proteção contra predadores e desastres naturais. É verdade que vacas e bezerros mais cedo ou mais tarde serão enviados para matadouros. No entanto, isso torna seu destino pior do que o dos búfalos selvagens? Os dentes do crocodilo são mais gentis do que as lâminas de aço?
O que torna a existência de animais domesticados e criados em fazendas particularmente cruel não é apenas a forma como eles morrem, mas sobretudo como vivem. Dois fatores concorrentes moldaram as condições de vida dos animais de fazenda: por um lado, os seres humanos querem carne, leite, ovos, couro, força animal e entretenimento; por outro, os humanos têm de garantir a sobrevivência e a produção a longo prazo dos animais de fazenda.
Teoricamente, isso deve proteger os animais da crueldade extrema. Se um produtor de leite ordenhar a sua vaca sem oferecer comida e água, a produção de leite cairá, e a própria vaca morrerá rapidamente. Infelizmente, os seres humanos podem causar um tremendo sofrimento para criar animais de outras maneiras, mesmo garantindo sua sobrevivência e reprodução.
A raiz do problema é que os animais domesticados herdaram de seus ancestrais selvagens muitas necessidades físicas, emocionais e sociais que são superabundantes nas fazendas. Os criadores rotineiramente ignoram essas necessidades sem qualquer prejuízo econômico. Eles prendem animais em pequenas gaiolas, mutilam seus chifres e caudas, separam as mães da prole e criam seletivamente monstruosidades. Os animais sofrem muito, mas eles vivem e se multiplicam.
Isso não contradiz os princípios mais básicos da evolução darwiniana? A teoria da evolução sustenta que todos os instintos e movimentos evoluíram a partir do interesse pela sobrevivência e reprodução. Sendo assim, a reprodução contínua de animais criados para consumo provará que todas as suas necessidades reais são atendidas? Como uma vaca pode ter uma “necessidade” que não é realmente essencial para a sobrevivência e reprodução?
Certamente é verdade que todos os instintos e movimentos evoluíram para atender pressões evolutivas de sobrevivência e reprodução. Quando essas pressões desaparecem, no entanto, os instintos e unidades que se formaram não se evaporam instantaneamente. Mesmo que eles não sejam mais instrumentais para a sobrevivência e para a reprodução, eles continuam a moldar as experiências subjetivas do animal. As necessidades físicas, emocionais e sociais das vacas, cães e humanos atualmente não refletem suas condições atuais, mas sim as pressões evolutivas que seus antepassados encontraram há dezenas de milhares de anos.
Por que as pessoas modernas adoram tanto os doces? Não porque no início do século 21 devemos comer vorazmente sorvete e chocolate para sobreviver. Em vez disso, é porque quando nossos antepassados da idade da pedra encontravam frutos doces e amadurecidos, a coisa mais sensata a fazer era comer o maior número possível deles e o mais rápido possível [ponderando o contexto].
Por que os jovens dirigem imprudentemente, envolvem-se em protestos violentos e hackeiam informações confidenciais de sites? Porque eles estão obedecendo antigos decretos genéticos. Há 70 mil anos, um jovem caçador que arriscou sua vida a perseguir um mamute superou todos os seus concorrentes e ganhou a mão da mais bela jovem do lugar – e agora estamos presos aos seus genes.
Exatamente a mesma lógica evolutiva molda a vida de vacas e bezerros em nossas fazendas. Os antigos animais selvagens eram animais sociais. Para sobreviver e se reproduzir, eles precisavam se comunicar, cooperar e efetivamente competir. Como todos os mamíferos sociais, o gado selvagem aprendeu as habilidades sociais necessárias por meio desse jogo. Cachorrinhos, gatinhos, bezerros e crianças gostam de brincar porque a evolução implantou esse impulso neles.
Na natureza selvagem, eles precisavam brincar. Se eles não brincassem, eles não aprenderiam as habilidades sociais vitais para sobreviver e se reproduzir. Se um gatinho ou um bezerro nascesse com alguma mutação rara que os tornasse indiferentes às brincadeiras, eles provavelmente não gozariam de habilidades para sobreviver ou se reproduzir, assim como eles não existiriam se em primeiro lugar os seus antepassados não tivessem adquirido essas habilidades. Da mesma forma, a evolução implantada em cachorros, gatinhos, bezerros e crianças é um desejo irresistível de criar um vínculo com suas mães; uma mutação casual que enfraqueceu o vínculo mãe-bebê foi a sentença de morte.
O que acontece quando os criadores pegam uma novilha, a separam de sua mãe, a colocam em uma pequena gaiola minúscula, a vacinam contra várias doenças, dão-lhe comida e água, e então, quando ela tiver idade o suficiente, a inseminam artificialmente com o esperma de um touro? De uma perspectiva objetiva, essa novilha não precisa mais de vínculos maternos ou de companheiros para sobreviver ou se reproduzir. Todas as suas necessidades estão sendo atendidas por seus mestres humanos. Mas de uma perspectiva subjetiva, a novilha ainda sente um forte desejo de se unir à sua mãe e brincar com os outros bezerros. Se esses impulsos não forem satisfeitos, ela sofrerá muito.
Esta é a lição básica da psicologia evolutiva: uma necessidade formada ao longo de milhares de gerações continua a ser sentida subjetivamente, mesmo que não seja mais necessária para a sobrevivência e para a reprodução no tempo presente. Tragicamente, a revolução agrícola deu aos humanos o poder de garantir a sobrevivência e reprodução de animais domesticados, ignorando suas necessidades subjetivas. Em consequência, os animais domesticados são coletivamente os animais mais bem-sucedidos do mundo e, ao mesmo tempo, são individualmente os animais mais miseráveis que já existiram.
A situação piorou nos últimos séculos, período em que a agricultura tradicional cedeu à agricultura industrial. Nas sociedades tradicionais, como a do Antigo Egito, do Império Romano ou da China Medieval, humanos tinham uma compreensão muito parcial da bioquímica, genética, zoologia e epidemiologia. Consequentemente, seus poderes de controle e manipulação foram limitados. Nas aldeias medievais, as galinhas corriam livremente entre as casas, colhendo sementes e minhocas com o bico, e criando ninhos no celeiro. Se um campesino ambicioso tentasse confinar mil galinhas, mantendo-as em um espaço lotado, uma epidemia mortal de gripe aviária provavelmente teria eliminado todas as galinhas, assim como muitos aldeões.
Nenhum padre, xamã ou feiticeiro poderia ter impedido isso. Mas uma vez que a ciência moderna decifrou os segredos de aves, vírus e antibióticos, os seres humanos começaram a sujeitar os animais a condições de vida extremas. Com a ajuda de vacinas, medicamentos, hormônios, pesticidas, sistemas de ar condicionado e alimentadores automáticos, agora é possível colocar dezenas de milhares de frangos em pequenas gaiolas e produzir carne e ovos com uma eficiência sem precedentes.
O destino dos animais em tais instalações industriais tornou-se uma das questões éticas mais urgentes do nosso tempo, certamente em termos de números. Hoje em dia, a maioria dos grandes animais vive em fazendas industriais. Imaginamos que nosso planeta é povoado por leões, elefantes, baleias e pinguins. Isso pode ser verdade para o canal National Geographic, filmes da Disney e contos de fada infantis, mas já não é verdade para o mundo real. O mundo possui 50 mil leões. Em contraste, há cerca de um bilhão de porcos domesticados, 500 mil elefantes e 1,5 bilhão de bovinos domesticados; 50 milhões de pinguins e 20 bilhões de frangos.
Em 2009, havia 1,6 bilhão de aves selvagens na Europa, contando todas as espécies juntas. No mesmo ano, a indústria europeia de carne e ovos aumentou a produção de frangos para 1,9 bilhão. No total, os animais domesticados do mundo pesam cerca de 700 milhões de toneladas em comparação com 300 milhões de toneladas para humanos e menos de 100 milhões de toneladas para grandes animais selvagens.
É por isso que o destino dos animais de fazenda não é uma questão ética unilateral. Refere-se à maioria das grandes criaturas da Terra: dezenas de bilhões de seres sencientes, cada um com um mundo complexo de sensações e emoções, mas que vivem e morrem em uma linha de produção industrial. Há 40 anos, o filósofo moral Peter Singer publicou o seu livro canônico “Libertação Animal”, que fez muito para mudar a mente das pessoas sobre essa questão. Singer afirmou que a agropecuária é responsável por mais dor e miséria do que todas as guerras da história juntas.
O estudo científico dos animais tem desempenhado um papel sombrio nesta tragédia. A comunidade científica usou seu crescente conhecimento sobre os animais principalmente para manipular suas vidas de forma mais eficiente a serviço da indústria humana. No entanto, esse mesmo conhecimento demonstrou, sem qualquer dúvida razoável, que os animais de fazenda são seres sencientes, com relações sociais intrincadas e padrões psicológicos sofisticados. Eles podem não ser tão inteligentes quanto nós, mas certamente conhecem a dor, o medo e a solidão. Eles também podem sofrer, e eles também podem ser felizes.
Já é tempo de levar essas descobertas científicas ao coração, porque, à medida que o poder humano cresce, a nossa capacidade de prejudicar ou beneficiar outros animais cresce com ela. Por quatro bilhões de anos, a vida na Terra foi governada pela seleção natural. Agora é governada cada vez mais pelo design inteligente. Biotecnologia, nanotecnologia e inteligência artificial permitirão aos seres humanos remodelar os seres vivos a partir de novas formas ainda mais radicais, que redefinirão o próprio significado da vida. Quando chegarmos a projetar esse admirável mundo novo, devemos levar em consideração o bem-estar de todos os seres conscientes, e não apenas do Homo sapiens.
O artigo “Industrial farming is one of the worst crimes in history”, de autoria do professor de história israelense Yuval Noah Harari, foi publicado em 25 de setembro de 2015 no jornal britânico “The Guardian”. Harari conquistou fama internacional após a publicação do best-seller “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, lançado oficialmente em 2014.
Tradução: David Arioch
Breve reflexão contra a vivissecção (experimentação animal)
A vivissecção passou a ser considerada “prática comum” no mundo ocidental a partir do século 19. Muito tempo se passou, estamos em 2018 e animais continuam sendo torturados e mortos desnecessariamente em nome da ciência. O que ajuda a postergar o banimento dessa prática já considerada obsoleta é o lobby e a politicagem que caminham lado a lado.
O vegetarianismo na vida de Nikolai Ge, um dos mais importantes pintores russos da história

Nikolai Ge não concordava com a exploração animal nem humana (Pintura: Nikolaj Alexandrowitsch Jaroschenko)
Em 1913, quando o 1º Congresso Vegetariano Russo foi realizado em Moscou, fazia quase 20 anos que o pintor realista russo Nikolai Ge havia falecido. Ainda assim, em sua homenagem, a “exposição vegetariana”, que ficou em exibição entre os dias 16 e 21 de abril, foi baseada em suas pinturas.
Foi uma justa homenagem a um dos vegetarianos russos mais respeitados pelo escritor Liev Tolstói. Em 8 de junho de 1910, Ge escreveu, em referência ao ensaio “Первая ступень” , “O Primeiro Passo”, de Tolstói, que “para que o primeiro passo se torne realmente um primeiro passo é necessário que outras etapas venham em seguida, porque o vegetarianismo em si é apenas uma limpeza que leva à hipocrisia e à exaltação da autoestima se não assumir a forma primordial de uma vida humana mais justa e inteligente.”
O ensaio, em que Tolstói qualifica a abstenção do consumo de animais como um sinal da aspiração séria e sincera da humanidade em direção a uma evolução moral que beneficie seres humanos e não humanos, atraiu a atenção de Ge no início de junho de 1892, quando ele o leu pela primeira vez. O pintor russo, que já se correspondia com Tolstói, passou a elogiar a sua defesa de uma vida moral que rejeita a exploração animal por entender as implicações dessa violência para a vida humana e não humana. Em uma das cartas, informou que estava satisfeito com suas modestas plantações de milho, batata e feijão.
A identificação de Nikolai Ge com Tolstói começou em 1882, quando o pintor leu um artigo de Tolstói sobre o censo em Moscou, publicado no jornal “Sovremennye Izvestia”. Após visitar adegas e observar o comportamento de seus infelizes frequentadores, o escritor russo escreveu uma passagem jamais esquecida por Ge: “Nosso desagrado e indiferença pelos desfavorecidos é a causa de seu estado de pobreza”. O pintor então se aproximou de Tolstói e os dois se tornaram amigos e confidentes. Nos seus últimos doze anos de vida, Nikolai Ge visitou Tolstói em Moscou e depois em Yasnaya Polyana, no Oblast de Tula.
Tatiana Sukhotina-Tolstaya, a filha mais velha de Tolstói, registrou que Nikolai Ge, que foi um bom amigo de seu pai, era um sujeito bastante peculiar – um vegetariano estrito completamente indiferente ao dinheiro, e se vestia não raramente como um indigente. De modestas predileções alimentares, o pintor russo gostava de kasha de trigo mourisco preparado com água e milho cozido.
“Muitas vezes, minha irmã e eu precisamos remendar as suas roupas. Minha mãe costurou um par de calças que o deixou muito orgulhoso. Ele vestia camisas simples e uma blusa velha e desgastada. Ficou conhecido por ir de Moscou a São Petersburgo assim, e nunca mudou seus hábitos, mesmo transitando por diferentes círculos sociais. Fiz um colete que ele usou na ocasião de seu falecimento”, narrou Tatiana.
Depois que se tornou vegetariano em 1885, e aparentemente por influência de Tolstói, Ge se preocupou em ir um pouco mais além, evitando usar mão de obra assalariada ou requerer o serviço de servos ou camponeses sob os padrões da época. Ele chegou a construir fogões para que os campônios mais desafortunados pudessem preparar pães em suas próprias casas. No início, esse novo estilo de vida singelo gerou grande desconforto na casa do artista, já que suas ações não eram muito bem vistas por sua família acostumada a um padrão mais elevado.
Um homem imerso em princípios, Ge, que foi considerado um dos maiores pintores de seu tempo, dizia que a arte não pode ser um meio de renda porque a arte não deve ser negociável sob o risco de ser maculada pelas implicações da mercantilização. Curiosamente, esse mesmo raciocínio foi partilhado no século XI pelo poeta sírio Al-Ma’arri, que também condenava a exploração e o consumo de animais e se recusava a escrever panegíricos, odes aos ricos patronos, por considerar isso uma forma de “prostituição artística”. Então Nikolai Ge adotou como profissão o trabalho de agricultor e o ofício de “fabricante de fogões”, atividade que exerceu em várias localidades. Assim ele poderia dar continuidade à sua arte em seu tempo livre, sem ter de se submeter a ninguém.
Em 1876, antes da amizade com Tolstói, Ge abandonou o conforto de sua casa em São Petersburgo e migrou para a aldeia de Ivanovo, na Província de Chernigov, no Oblast de Chernihiv, atual Ucrânia. Sobre o motivo dessa mudança, ele escreveu que quatro anos conciliando a arte e a vida agitada e cara em São Petersburgo mostrou que não valia a pena continuar vivendo daquela maneira. “Qualquer coisa que pudesse constituir meu bem-estar material estava em franca oposição ao que senti no fundo de minha alma. Como amo a arte como ocupação espiritual, tenho que encontrar um caminho para mim, independente da arte. Fui para a aldeia e pensei: “Com uma vida mais barata e mais fácil, conseguirei viver essa realidade, e a arte será livre’”, justificou.
Com o crescimento da amizade entre Tolstói e Ge, os dois se tornaram cada vez mais semelhantes no que diz respeito à aspiração de uma vida voltada à evolução moral e espiritual. Em agradecimento a Tolstói, o pintor fez um retrato do escritor em 1884 na famosa casa em Kharmovniki, em Moscou, obra que pode ser vista na Galeria Tretyakov, em Moscou, nas proximidades do Kremlin.
Na pintura reconhecida como uma das mais simples e verdadeiras do autor, Tolstói está sentado diante de uma mesa. Em suas pinturas que fugiam à recorrente pretensão de muitos artistas da época, Nikolai Ge passou a imprimir um realismo cada vez mais bucólico, que remetia ao despojamento e lhaneza – traduzindo as transparências de sua própria essência artística e anseio em transmitir nada mais do que a singeleza.
Até mesmo temas espirituais eternizados em seus quadros descortinavam e quebrantavam a ideia de uma realidade em que o ser humano está acima de tudo e de todos. Ainda assim, jamais deixou de revelar esperança no ser humano ou de direcionar sua energia para a fé utópica em um tipo de protesto espiritual que vê no sofrimento humano, físico ou não, um chamado para a renovação e evolução. Ge transmitia o conceito de uma unidade que habita todos nós, humanos, não humanos e a própria natureza.
Nikolai Ge ficou conhecido em seu tempo como um “pregador da beleza espiritual” que manipulava com rara habilidade as cores, as sombras, a composição e a complexidade do despertar humano. Por causa dessas características, que fatalmente o colocavam na contramão do apreço em voga, Ge era visto como uma figura solitária não apenas da arte russa como da arte europeia em geral. Se por um lado, ele evocava em certas obras um romantismo inabalável em relação à sua interpretação espiritual da natureza, por outro, Ge retratava também uma natureza inexpugnável, concreta ou mutável, e completamente diferente. Em 1886, ele renunciou à sua propriedade e comunicou a sua decisão à esposa Anna Petrovna e aos filhos, assim vivendo os seus últimos anos despojado de qualquer bem material.
Nikolai Ge
Nikolai Nikolaevich Ge nasceu em 15 de fevereiro de 1831 em Voronezh. Em 1841, ele foi levado a Kiev onde estudou a maior parte da sua juventude e ingressou na Faculdade de Física e Matemática da Universidade de Kiev. Depois transferiu os estudos para a Universidade de São Petersburgo, até que em 1850 ingressou na Academia de Artes, onde dedicou sete anos.
Em 1855, recebeu uma medalha de ouro, o seu primeiro prêmio como artista pela pintura “Aquiles lamenta a Morte de Pátroclo”. Em 1857, foi novamente premiado – dessa vez com uma grande medalha de ouro e uma viagem para a França e para a Itália. Em 1860, deixou Roma e se mudou pra Florença, onde produziu diversas obras, até que decidiu retornar a São Petersburgo em 1870.
Então passou a se dedicar a temas históricos e lançou em 1817 uma de suas pinturas mais famosas – “Pedro O Grande interrogando o Tsarevich Alexei Petrovic”, que mais tarde alcançaria projeção internacional. Em 1875, Ge tomou a decisão de migrar para a área rural de Chernigov, na Ucrânia, onde, mais tarde rejeitou a exploração animal e humana, assumindo a sua responsabilidade de levar uma vida mais ética e mais espiritual. O artista viveu assim até falecer em 13 de abril de 1894.
Saiba Mais
Entre as suas obras mais famosas estão “O Julgamento de Sanhedrin”, “A Última Ceia”, “Quod Est Veritas?”, “Pedro O Grande Interrogando o Tsarevich Alexei Petrovich”, “Liev Tolstói”, “Consciência: Judas”, “Sophia Tolstói”, “Alexei Potechin” e “Calvário”.
Referências
Sukhotin-Tolstoy,T.L. Memoirs. Moscou. Páginas 262-263 (1976).
Golovko, Oxana. 10 картин Николая Ге, которые стоит увидеть Pravmir (2014).
Tolstói, Natalia. Николай Ге: жизнь в поисках истины. Наука и жизнь (2012).
Н. Н. Ге. Толстовец avant-la-lettre. Vegetarian.ru (2007).
Россия неизвестная. История культуры вегетарианских образов жизни от начала до наших дней (2006).
Ге Николай Николаевич. (1831-1894). Продолжение. Artsait.ru (2014)
Quase 40% dos canadenses da Colúmbia Britânica com menos de 35 anos se identificam como vegetarianos ou veganos
Uma pesquisa realizada pelo professor e cientista canadense Sylvain Charlebois, da Universidade Dalhousie, mostrou que quase 40% dos canadenses da Colúmbia Britânica com menos de 35 anos se identificam como vegetarianos ou veganos.
O trabalho de Charlebois, conduzido com o suporte do coletor de dados Qualtrics, contou com entrevistas com 1049 adultos. O pesquisador disse que o resultado foi realmente surpreendente, porque são os números mais altos do país se tratando de vegetarianos e veganos em uma região específica.
O percentual de vegetarianos e veganos na Colúmbia Britânica é três vezes superior à média canadense. Vancouver foi considerada a melhor cidade para veganos no Canadá, com o maior número de estabelecimentos e opções para veganos.
Saiba Mais
Sylvain Charlebois é um cientista da área de nutrição e atua como colaborador dos jornais Montreal’s La Presse e Toronto’s The Globe and Mail. Ele já publicou cinco livros sobre sistemas alimentares globais.
Referência
Alemanha abre as portas da sua primeira escola vegana em agosto
Em agosto, a Alemanha abre as portas da sua primeira escola vegana. O Jardim de Infância Mokita, sediado em Frankfurt, vai levar informações para os seus alunos sobre nutrição e meio ambiente, além da importância e dos benefícios éticos de um estilo de vida vegano.
De acordo com declaração feita pela diretoria da instituição, o objetivo da escola é fornecer um conceito nutricional vegetariano sustentável e responsável em relação aos animais, seres humanos e meio ambiente. Inclusive as crianças terão acompanhamento – assim se certificando de que vão receber todos os nutrientes necessários.
Com isso, a escola também quer provar que o veganismo é seguro para pessoas de todas as idades. Mesmo depois do Jardim de Infância Mokita apresentar um projeto de ensino bastante detalhado, políticos locais fizeram oposição à iniciativa alegando que as crianças podem ficar subnutridas se não consumirem produtos de origem animal.
Vale lembrar que Suzy Amis Cameron e seu marido, o famoso cineasta James Cameron, fundaram em 2015 a escola primária MUSE em Calabasas, na Califórnia, a primeira instituição de ensino vegana dos Estados Unidos.
Referências
Diga não aos testes em animais
Reflexão sobre a importância de sermos contra a realização de testes em animais. Estamos em 2018 e há inúmeras alternativas que não envolvem exploração, sofrimento e morte de animais.
Sabe qual é realmente o melhor indicativo de que as grifes estão parando de usar peles de animais?
Sabe qual é realmente o melhor indicativo de que as grifes estão parando de usar peles de animais? O desaparecimento de fazendas onde animais são criados com essa finalidade. Enquanto elas existirem, isso significa que grifes continuam lucrando com a morte de animais para atender a demanda do mercado da moda. É o mesmo raciocínio da receptação de mercadoria. Se tem gente roubando é porque tem gente comprando. Muito simples.
Não adianta achar que todas estão mudando para “cruelty free” enquanto animais continuam sendo capturados ao montes e morrendo nessas fazendas para atender caprichos humanos. Acha linda a pele de um animal? Então, pertence a ele, assim como a sua pele pertence a você. Imagine se alguém achasse que sua pele daria um belo casaco ou tapete.
Ativista canadense denuncia crueldade por trás de grifes como Dolce & Gabbana
O ativista dos direitos animais canadense Malcolm Klimowicz, da Kitchener Ontario Animal Liberation Alliance, divulgou recentemente imagens que ele registrou no ano passado em cinco das 40 fazendas em que visons são criados e mortos na região de Ontário para serem usados como matéria-prima na indústria de peles.
No vídeo registrado em diversas localidades é evidente o estado de privação e sofrimento desses animais confinados em pequenas gaiolas cobertas de ferrugem e cheias de excrementos. Em vários momentos, eles lutam para tentar escapar do confinamento. O registro audiovisual também mostra infestações de vermes próximos dos visons. Inúmeros animais, visivelmente estressados por serem privados de seu habitat, aparecem com diversos ferimentos na cabeça e no corpo.
Esse tipo de situação é incentivada por algumas das grifes mais famosas do mundo, como é o caso da Dolce & Gabbana que compra matéria-prima dessas fazendas para a confecção de bolsas, sapatos, casacos e outros itens baseados na pele dos visons.
Kavici lança “Ferrero Rocher” versão vegetariana
Estão à venda no Reino Unido os bombons Kavici Choco Spheres, que tem chamado a atenção pela semelhança com os famosos bombons Ferrero Rocher.
A diferença é que a versão britânica não é baseada em nenhum ingrediente de origem animal. Também é considerada eco-friendly por não ser baseada em transgênicos nem em ingredientes provenientes de áreas de degradação ambiental.
Comercializado nas lojas Poundstretcher, existe a possibilidade de que em breve os bombons Kavici poderão ser vendidos em outros países, até pela positiva repercussão entre vegetarianos e veganos. A caixa do “Ferrero Rocher Vegetariano” custa £ 2,99 no Reino Unido, o equivalente a cerca de R$ 13,48.
Veganos estão transformando bairro de Toronto em um bairro vegano
Um grupo intitulado 5700, liderado por Hellenic Vincent de Paul, promete transformar o bairro de Parkdale em Toronto, no Canadá, em um bairro vegano até o final de 2018. O objetivo é oferecer um grande espaço para que a população e os turistas possam encontrar o maior número possível de opções veganas – o que inclui desde alimentos até entretenimento.
Por causa desse projeto, o Parkdale já está sendo chamado de Vegandale, um destino para veganos, vegetarianos e simpatizantes. Segundo de Paul, a iniciativa reúne empresas veganas locais interessadas em transferirem ou abrirem algum novo estabelecimento comercial no bairro. “Este destino é o único do gênero, promovendo um mundo onde a exploração animal é coisa do passado”, explicou o grupo 5700 em seu site, acrescentando que o objetivo é ajudar a promover o abolicionismo animal.
O grupo é conhecido por iniciativas bem-sucedidas de divulgação do veganismo por meio de festivais e incentivo a empresas veganas. Anualmente, o 5700 realiza o Vegandale Food Drink Festival, antigo Vegan Food & Drink Festival, que já se tornou internacional e chega a Houston, nos Estados Unidos, em 2 de junho. “Estamos preparados para dar mais um passo em direção à dominação vegana mundial com a nossa próxima temporada de festivais”, garante Hellenic Vincent de Paul. Até o final deste ano, o grupo deve abrir mais algumas empresas veganas, como a Vegandale Bracitorium, Prohibition Pie e Not Your Mother (NYM).






