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Bukowski: “Não vou deixar muito, só algo para ler, quem sabe”
“Depois que eu partir, haverá mais dias para os outros, outros dias, outras noites, cães caminhando…”
Após publicar mais de 50 livros de poesia e prosa ao longo de meio século, Charles Bukowski se tornou o Grand Old Man da literatura marginal dos Estados Unidos. Abordando a rotina dos trabalhadores de colarinho azul e a realidade das áreas urbanas mais pobres de Los Angeles, habitadas por andarilhos, mendigos, usuários de drogas e outros tipos de rejeitados sociais, ele mergulhou em um universo onde homens de mau hálito e pés grandes parecem sapos e hienas. Eles caminham como se a melodia nunca tivesse sido inventada, e ao final ainda são execrados.
Depois de ser mandado ao inferno, Bukowski observava os braços gordos e suados do senhorio exigindo o pagamento do aluguel. “O mundo tinha falhado com nós dois”, escreveu. O jeito era abrir uma nova garrafa retirada da sacola enquanto ela se sentava na esquina fumando e tossindo como uma velha tia de Nova Jersey. Nos anos 1970, a vida de Charles Bukowski mudou.
Fez várias aparições com Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti. Deu entrevistas à Rolling Stone e todas as suas leituras pela Europa estavam com ingressos esgotados. Ele trocou as duas caixinhas de seis unidades de cerveja por quatro garrafas de bom vinho francês. Assim que sua história deu origem ao filme Barfly, de 1987, protagonizado por Mickey Rourke, com direção de Barbet Schroeder e roteiro do próprio Bukowski, ele se distanciou ainda mais da miserável realidade que o acompanhou por tanto tempo.
O seu deteriorado fusquinha 1967, com o qual viveu tantas aventuras, inclusive um dia sua namorada fez um furo no para-brisas com o salto, foi substituído por um novo BMW com teto solar. Em seus tempos de bebedeira, Bukowski deixava os atendentes baterem nele em troca de bebidas. Em 1992, com tuberculose, câncer e sentindo o peso da idade, foi convencido por sua esposa a experimentar uma das chamadas curas da nova era. Mesmo aceitando tudo, Bukowski não deixava de ser irônico.
Um dia, às 8h, enquanto estava sentado nu e sua esposa passava óleo de gergelim pelo seu corpo, o Grand Old Man comentou: “Jesus, como cheguei a esse ponto?” Mesmo na iminência da morte, sua mulher prosseguiu tentando purificá-lo. E pra isso contou com alguns monges budistas que conduziram o serviço. O seu bom humor o acompanhou até o fim.
“Depois que eu partir, haverá mais dias para os outros, outros dias, outras noites, cães caminhando, árvores balançando com o vento. Não vou deixar muito, só algo para ler, quem sabe. Uma cebola selvagem numa estrada eviscerada. Paris no escuro”, escreveu antes do último suspiro. Ele pediu que colocassem em seu túmulo a inscrição: ‘Don’t Try’ [Não tente]. Bom, a interpretação vai até onde a sua mente te conduz.
Saiba Mais
Charles Bukowski nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920 e faleceu em 9 de março de 1994 em San Pedro, Los Angeles.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
http://bukowski.net/
Miles, Barry. Charles Bukowski. Random House (2009).
Supino e o direito de ser marombeiro
“Olha o naipe desse cara. Que otário! Muito músculo e pouco cérebro”, ocasionalmente dizia alguém
Na década passada, eu sempre encontrava um amigo no mesmo horário na academia. Era um sujeito bem animado, sorridente e que gostava de ser notado. Quando não percebiam sua presença, ele encontrava um jeito de chamar a atenção – dava um urro sorrateiro, falava alto ou causava algum atrito ruidoso entre as anilhas. Jamais o percebi conversando sem arquear os braços, chacoalhar a cabeça, espichar as veias do pescoço ou fazer movimentos curiosos com as mãos. Era um exibicionista de boa índole.
Ao sair da academia depois de um treino de peito ou braços, tirava a camiseta, aproveitando para mostrar o pump – aquele aspecto que faz todo cara parecer maior após os exercícios por causa do aumento do fluxo sanguíneo bombeado no músculo. “Agora vou ‘apavorar’ na rua”, comentou um dia. Nessas circunstâncias, eu apenas ria. Aquela era a sua alegria, e se ele tinha algum tipo de prazer nisso, era o que importava, não cabendo a mim nem a ninguém julgá-lo.
Supino, como eu o chamava porque ele treinava mais peito do que qualquer outro grupo muscular, tinha o costume de atravessar o centro da cidade com a camiseta sobre o ombro, ignorando comentários e olhares desdenhosos, principalmente de quem menosprezava marombeiros. Se alguém fizesse careta ou criticasse e ele percebesse, não era raro Supino reagir de forma inesperada.
“Olha o naipe desse cara. Que otário! Muito músculo e pouco cérebro”, ocasionalmente dizia alguém. Sua reação instantânea era retribuir com um sinal de joia e uma contração muscular elevando a cabeça do bíceps. “Fica sossegado, irmão! É só entrar na academia, seguir dieta e treinar certinho por anos que você chega lá”, comentava sorrindo e finalizando a breve interação com uma piscadela provocativa e um tapinha no próprio deltoide.
Quando ele atravessava a movimentada Rua Getúlio Vargas, algumas mulheres também o depreciavam às vezes, incomodadas em vê-lo na sua caminhada fruitiva, com o torso à mostra enquanto o sol aquecia o asfalto, atravessava vitrines e exasperava os mais afoitos. “Nossa, o tipo! Se acha demais! Tem gente que faz de tudo pra aparecer! Pensa que é bonito ser vagabundo e andar seminu na rua!”, ouviu numa tarde.
Sem titubear, caminhou até a moça que fez o comentário com a amiga e a observou nos olhos por alguns segundos. “Com licença, senhorita. Tu paga as minhas contas? Lava minha roupa? Prepara minha comida? Acho que não, né? Então pode parar de admirar que aqui não tem nada de graça”, declarou sorrindo e dando dois tapas no próprio peito. Constrangida, a moça puxou a amiga pelo braço e caminhou apressada até o fundo de uma loja.
Supino agiu assim por muito tempo, na sua tenra espontaneidade. Um dia, logo que saiu da academia, quando já não treinávamos mais no mesmo horário, foi surpreendido e atropelado. Ele rolou sobre o capô do carro e caiu deitado com as costas contra o asfalto tórrido de uma manhã altaneira de verão. No chão, sentiu uma luz quente bloqueando sua visão.
O motorista fugiu e Supino continuou deitado no chão. Não gemia nem agonizava. Somente ria de si mesmo e do seu próprio azar, ignorando os ferimentos pelo corpo. Surpreendendo quem testemunhou a cena, ele se levantou e limpou os ferimentos com a própria camiseta branca transfigurada em vermelha.
Joelhos e cotovelos esfolados, muitas escoriações nas costas e no peito, um corte superficial na testa e outro no topo da cabeça, nada disso o impediu de soerguer-se para assistir o autor já distante, fugindo pela Rua Pernambuco. Na manhã seguinte, Supino estava na academia praticando musculação.
E mais, na mesma semana, tomou uma decisão. Foi até uma loja no centro de Paranavaí e pediu para uma vendedora mostrar-lhe algumas camisetas. Enquanto ele as observava, em dúvida sobre quais escolher, as mãos da moça tremiam e as frases saíam incompletas de sua boca. “Você precisa tomar um copo de água com açúcar ou maracugina, moça. Não parece nada bem!”, sugeriu.
De repente, ela começou a chorar e a pedir desculpas. Supino não disse nada. Complacente, assistiu a reação dela em silêncio. Comprou três camisetas e saiu da loja com a consciência tranquila. Lá fora, a observou pela última vez antes de partir. Ele sabia e ela sabia. Supino descobriu que a mesma jovem que antes se incomodou com sua presença, fazendo um comentário preconceituoso que ele retribuiu quando ela o viu sem camiseta, pediu ao namorado que o atropelasse, alegando que Supino deu em cima dela.
À época, o questionei sobre o porquê de não ter procurado a polícia. Ele deu uma de suas respostas minimalistas e filosóficas: “Sua consciência é o seu único e verdadeiro guia.” O episódio me traz lembranças de uma subjetiva frase escrita por Balzac no século 18: “Quando todo o mundo é corcunda, o belo porte torna-se a monstruosidade.”
O dilema da carne
Passei por duas situações curiosas ontem. Como fiquei praticamente a maior parte do dia em outra cidade, e estava com pressa, tive que procurar algo de consumo rápido perto do horário do almoço.
Na minha primeira tentativa, passei em uma padaria e perguntei se eles serviam algum alimento sem nenhum tipo de carne. Daí a atendente me respondeu:
“Temos sim. Opções de presunto, frango…” Tudo bem, agradeci educadamente e saí.
Depois entrei em uma lanchonete que também funciona como restaurante e fiz a mesma pergunta. Daí outra moça disse o seguinte:
“Claro que sim! Temos um cardápio que inclui frango, calabresa…” Ok.
Acho que muita gente tem um conceito bem distorcido do que significa carne.
Earthlings, o que os olhos veem e o coração precisa sentir
Documentário mostra a realidade nua e crua por trás da produção de carnes, laticínios, roupas e calçados
Lançado em 2005, Earthlings – Make the Connection (Terráqueos – Faça a Conexão) é um documentário escrito, dirigido e produzido pelo ambientalista estadunidense Shaun Monson que mostra até que ponto a humanidade chegou em relação aos maus-tratos de animais.
Pesado e chocante, o filme apresenta a realidade nua e crua por trás da produção de carnes, laticínios, roupas e calçados. Também traz informações e imagens impactantes sobre espécies usadas como entretenimento ou cobaias em laboratórios farmacêuticos e da indústria da beleza.
Do início ao fim, o documentário, baseado em uma grande compilação de imagens de dezenas de autores, é narrado pelo ator hollywoodiano e vegano Joaquin Phoenix, o que ajudou muito na popularização do filme, assim como a trilha sonora assinada pelo compositor Moby, também vegano.
Logo nos primeiros minutos é difícil não se sentir mal com as cenas exibidas, e o que parece prestes a acabar, na verdade está apenas começando. E não é difícil entender qual é o propósito de Monson ao gerar esse mal-estar nos espectadores. É uma reação naturalmente saudável e esperada. Afinal, estranho seria se assistíssemos ao filme e não nos permitíssemos sentir empatia por tantos animais explorados e violentados.
E o sentimento vai ao encontro de uma frase muito bem colocada por Joaquin Phoenix em Earthlings: “Se todos tivessem que matar os animais com as próprias mãos para consumir carne, provavelmente muito mais pessoas se tornariam vegetarianas.” Então como isso é impossível de acontecer, o autor optou por chocar de outra forma, nos convidando a conhecer esse universo como cúmplices, responsáveis em maior ou menor grau pela existência de um mercado baseado na exploração e extermínio de terráqueos não humanos.
Earthlings é visceral? Com certeza! E levando isso em conta alguém pode alegar que as imagens do filme não representam a realidade de todos os animais. Sim, é uma justificativa a se considerar, já que o tratamento oscila de acordo com objetivos, consumidor final, recursos e preceitos morais e éticos.
No entanto, nada altera o fato de que independente de cidade, estado ou país, estamos sempre diante de animais relegados a uma vida breve ou longa de servidão. Sem dúvida, são seres que mais cedo ou mais tarde vão morrer, claro, assim que servirem a um propósito que não foi escolhido por eles.
É provável que muita gente não acredite que faça parte do processo que envolve a indústria da exploração animal, porém não há como negar que se gostamos de cães e gatos, por exemplo, mas consumimos produtos de origem animal, somos negligentes e ilógicos porque temos uma conduta assentada no especismo, uma crença de viés cultural que cria a falsa ilusão de que somos justos mesmo quando não somos.
Nos baseamos na ilusão de que somos superiores, logo melhores, e todos os demais seres da natureza existem apenas para satisfazer nossas pretensas necessidades. É exatamente nisso que subsiste o argumento do documentário. Em Earthlings, presenciamos inclusive a perda da identidade dos animais. Quando confinados por longos períodos, eles enlouquecem e já não se reconhecem mais como semelhantes.
Exemplos são os porquinhos que praticam canibalismo após longos períodos de cárcere. O documentário se esforça para privilegiar a diversidade, e por isso aborda desde a realidade dos animais domésticos em situação de abandono, vítimas de eutanásia e outros tipos de execuções que visam conter as superpopulações, até golfinhos brutalmente assassinados para que os japoneses possam comercializar sua carne como “carne de baleia”.
E se a violência contra os animais se perpetua é porque infelizmente ainda há muitos consumidores que pouco se importam com a procedência e o custo real, para além do dinheiro, daquilo que consomem. “Enquanto houver matadouros, haverá campos de guerra”, escreveu Liev Tolstói, como bem citado em Earthlings, em referência ao infame anseio humano de estar sempre suplantando algo ou alguém – o que ainda pouco aprendemos a controlar.
“Nós chegamos como senhores da Terra, com estranhos poderes de terror e misericórdia. O ser humano devia amar os animais como o experiente ama o inocente, e como o forte ama o vulnerável. E quando somos tocados pelo sofrimento dos animais, aquele sentimento fala bem de nós, mesmo se o ignoramos. E aqueles que dispensam o amor pelas outras criaturas, como o puro sentimentalismo, ignoram uma parte importante e boa da humanidade. Mas nenhum humano vai perder nada ao ser gentil com um animal. E, na verdade, faz parte de nosso propósito dar-lhes uma vida feliz e longa. Na floresta, o Rei Lear pergunta a Gloster: ‘Como você vê o mundo?’ E Gloster, que é cego, responde: ‘Vejo-o porque o sinto.’”, narra Joaquin Phoenix, parafraseando “Rei Lear”, de Shakespeare, no final de Earthlings.
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Como Nora Barnacle inspirou James Joyce
Camareira de Galway influenciou o dublinense a escrever Ulysses

James Joyce (à esquerda) e Nora (à direita), um relacionamento que impediu a decadência do escritor (Foto: Reprodução)
Foi a partir de um encontro com a camareira Nora Barnacle, de Galway, na Irlanda, que o escritor James Joyce teve a ideia de criar o seu icônico Ulysses, obra tão influente que os irlandeses decidiram instituir em 1954 o Bloomsday, um dia dedicado ao personagem Leopold Bloom, protagonista do romance.
Celebrado no dia 16 de junho, o evento ganhou popularidade mundial. Já foi comemorado nos Estados Unidos, Hungria, Itália, Austrália, Canadá, República Tcheca, Reino Unido e França. “Acredito que se o encontro entre James Joyce e Nora Barnacle não tivesse acontecido, provavelmente não teríamos o Bloomsday nem mesmo Ulysses. Ainda assim há pesquisadores que até hoje discutem até que ponto Nora é ou não é Molly Bloom”, diz o escritor canadense e professor de literatura Steve King.
Apesar das controvérsias levantadas em livros como Nora: The Real Molly Bloom, de Brenda Maddox, e também no filme Nora, de Pat Murphy, uma verdade irrefutável é a de que James Joyce teve com ela um relacionamento insubstituível. Ela era a única que podia chamá-lo de Jim.
Quando se conheceram nas ruas de Dublin, Joyce era um beberrão de 22 anos com um discurso cativante que o deixou conhecido em círculos de poetas e em inúmeros pubs. Nora, uma camareira de 20 anos que buscava um futuro melhor na “cidade grande”, não tinha a mínima ideia de quem ele era ou o que fazia.
“Naquele encontro em 16 de junho de 1904, durante uma caminhada ao longo do Rio Liffey [no Condado de Wicklow], quem causou a maior impressão foi ela. Nora disse algumas coisas que o sabe-tudo Joyce desconhecia. Após quatro meses, eles retornaram ao porto e viajaram juntos pela Europa”, relata King.
Ao saber que seu filho favorito fugiu com uma jovem de Galway, John Joyce comentou o seguinte: “Barnacle? Ela nunca vai deixá-lo!” Logo que James Joyce terminou de produzir Ulysses, Nora se recusou a ir além das primeiras páginas, o qualificando como um livro nonsense. “Ela não era uma companheira do tipo tranquila”, comenta o professor de literatura. Ainda assim, Nora Barnacle foi quem conseguiu preservar a lucidez de Joyce. Ela era um ponto de equilíbrio em sua vida.
Décadas de pobreza, rejeição literária, um filho alcoólatra e uma filha considerada louca, tudo isso Nora suportou ao lado do marido que também se sentia frustrado por considerar a si mesmo como um expatriado, alguém sem raízes. “Ela foi a âncora na vida de um errante”, define Steve King.
Não foram poucas as vezes que Nora teve de buscar Joyce tarde da noite em um pub enquanto ele conversava, ouvia algum medley de baladas irlandesas e esperava outra garrafa de vinho branco. Quando não conseguia convencê-lo a partir, ela ameaçava abandoná-lo. Porém, assim como o pai John Joyce previu em 1904, Nora nunca o deixou.
A origem do Bloomsday
James Joyce sempre falava de seu desejo em ficar longe de Dublin. O fazia como um filho magoado com o pai que nunca deu-lhe o devido valor. Ao longo de décadas, a considerou a cidade das injustiças, do rancor e da infelicidade. E ela talvez o visse de forma similar, já que seu livro foi menosprezado por tanto tempo. Entretanto, tudo começou a mudar em 16 de junho de 1954, quando um grupo de escritores irlandeses se reuniu na torre de Sandycove, a nove quilômetros de Dublin.
Partiram de lá com o objetivo de refazer a trajetória de Leopold Bloom, ou pelo menos ficar bêbado tentando. A iniciativa voluntária deu origem ao Bloomsday, que hoje se tornou uma comemoração com duração de vários dias. É praticamente uma Bloomsweek, e o evento está entre as celebrações que mais levam turistas à Irlanda. Em meio ao mercantilismo, o mais importante é que a causa essencial ainda sobrevive. No Bloomsday, as pessoas continuam lendo Ulysses em voz alta, como Joyce sempre quis. É a maior prova de que o livro pertence às ruas, não ao meio acadêmico.
Saiba Mais
James Joyce e Nora Barnacle se casaram em 1931.
Em 1924, James Joyce narrou e gravou um trecho de quatro minutos de Ulysses em áudio.
James Joyce nasceu em Dublin em 2 de fevereiro de 1882 e faleceu em 13 de janeiro de 1941 em Zurique, na Suíça, após uma cirurgia para úlcera.
Nora Barnacle nasceu entre 21 e 24 de março de 1884 e faleceu em 10 de abril de 1951.
Ulisses, página 909
Em Ulisses, um mergulho no mundo íntimo de Molly Bloom nos revela as suas reações extremamente femininas, provocadas pelas últimas palavras de Bloom antes de adormecer. De fato, ele pede a Molly que lhe traga o café da manhã na cama, fato inusitado que não ocorria desde a morte do filho Rudy, havia onze anos. Durante todo aquele tempo, fora ele que se incumbira dessa tarefa. Revela ainda este episódio que, embora não seja o modelo de virtude conjugal do original grego, Molly não é aquela mulher devassa e desonesta, decantada por alguns. É, na verdade, acima de tudo, uma criatura espontânea, romântica, extrema e inconformadamente solitária, assim como sedenta de carinho, que não receia dizer sim à vida e ao amor.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Ellman, Richard. James Joyce (1959).
Maddox, Brenda. Nora: Biography of Nora Joyce. Hamish Hamilton (1988).
Joyce, James. Ulisses. Círculo de Leitores (2010).
Esperando por Samuel Beckett
Waiting For Godot e a importância da Resistência Francesa na literatura de Beckett
Durante a Segunda Guerra Mundial, o dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett, famoso principalmente pela obra Waiting For Godot (Esperando Godot), um dos maiores clássicos do teatro do absurdo, foi um importante membro da Resistência Francesa, chegando a receber duas condecorações por serviços prestados em prol da humanidade.
Porém, antes da homenagem e do reconhecimento, Beckett por pouco não foi morto durante a guerra. No outono de 1942, um informante se infiltrou em seu grupo e forneceu valiosas informações aos nazistas, resultando na morte e na captura de muitos dos amigos do partisan irlandês. Percebendo que seu disfarce foi descoberto, Beckett e sua companheira Suzanne Deschevaux-Dumesnil vestiram seus casacos e deixaram o apartamento em Paris como se estivessem apenas saindo para uma caminhada.
Depois de dois meses vivendo em diversos esconderijos, o casal fugiu a pé em direção a uma remota montanha no sudeste da França. À época, eles andavam à noite e dormiam durante o dia. Até que se cansaram e optaram por esperar o final da guerra. Essa experiência marcou tanto a vida de Samuel Beckett que ele a usou como base para criar os dois personagens mais importantes de Waiting For Godot – Vladimir e Estragon.
Sobre a ideia do nome da obra, a hipótese mais aventada é a de que o irlandês um dia estava andando pelas ruas de Paris quando parou e perguntou a uma multidão o que eles estavam fazendo. “Estamos esperando por Godot”, disseram, em referência ao ciclista mais velho da Tour de France, e que ainda não havia passado por ali. “Ele escreveu uma das peças mais intrigantes do Século XX. Beckett nunca explicou o título dela. Ele preferia zombar de todos que tentassem explicar o seu significado”, comenta o escritor canadense e professor de literatura Steve King.
A verdade é que o dramaturgo era um exímio apreciador da privacidade, e não abria mão disso por nada. Também se tornou cético em relação à linguagem literária e passou a vida entre a agonia psicológica e filosófica. Há quem acredite que tentaram transformá-lo em um homem romântico, mas ele não era nada disso. “Não, ele não era um sujeito charmoso, caridoso ou com uma polidez típica do Velho Mundo. Na realidade, ele não fazia questão de saber o que as pessoas achavam de suas palavras ou de sua vida”, revela o escritor canadense.
Waiting for Godot foi uma evasiva na vida de Samuel Beckett. Ele decidiu escrever a peça para se distrair e fugir de uma “horrível prosa” que estava concebendo em 1948. “Samuel Beckett queria criar algo divertido e fácil de produzir, uma obra para pagar as contas. Waiting For Godot não foi apenas uma mudança de ritmo e gênero, mas de linguagem. Ele esperava escrever a peça em francês para tentar desencadear algo novo”, comenta King.
A peça foi um divisor na vida do escritor. Um crítico chegou a dizer que, diante de Waiting For Godot, todas as peças francesas pareciam escritas com espinhos, não com canetas. Próximo da meia-idade, Beckett inovou ao aproximar o público da realidade do teatro do absurdo.
Com uma peça baseada em dois atos, e onde nada acontece duas vezes, os personagens mais parecem foragidos de um teatro de variedades. “É como se trancassem os Irmãos Marx, Charlie Chaplin e um palhaço em um horror tão absurdo que, sem nenhum tipo de antídoto, só restaria ao público as gargalhadas”, avalia Steve King.
Por anos, Suzanne Descheveaux-Dumesnil fez o trabalho que o dramaturgo depreciava. Ou seja, foi ela quem ofereceu a obra para mais de 40 produtores que se mostraram confusos e medrosos em relação à viabilização da peça. Quando realmente conseguiram encontrar alguém interessado no projeto, o desespero veio à tona através do elenco. Os atores sempre perguntavam o que Beckett queria dizer com os diálogos. E ele simplesmente encolhia os ombros, sem dar respostas.
Na noite de abertura, no dia 5 de janeiro de 1953, houve um burburinho sem precedentes no Théâtre de Babylone, em Paris. Os espectadores chegaram a disputar as cadeiras dobráveis de um café que ficava ao lado do teatro. Alguns qualificaram a peça como um embuste, uma fraude. Deixou muita gente confusa. Só que a maioria concordou com as impressões publicadas na primeira resenha: “Uma peça que faz jus ao nosso tempo”, escreveram.
Àquela altura, a pressão sobre Beckett cresceu muito. Todos queriam vê-lo, inclusive a imprensa e o diretor do espetáculo. No entanto, embora o escritor tenha comparecido a todos os ensaios, ele não prestigiou a estreia. Samuel Beckett desapareceu por duas semanas. Com o crescimento das controvérsias e da repercussão de Waiting for Godot, o dramaturgo foi cuidadoso e evitou a fama o máximo que pôde. “Estou cansado de todos esses mal-entendidos. Por que as pessoas têm que complicar uma coisa tão simples?”, lamentou.
Saiba Mais
Samuel Beckett nasceu em Dublin, na Irlanda, em 13 de abril de 1906 e faleceu em Paris em 28 de dezembro de 1989.
Vivendo em Paris em 1937, o escritor sobreviveu por quase uma década traduzindo obras de outros escritores. Durante esse período, publicou alguns poemas, ensaios e seu romance Murphy, lançado em 1938, depois de tantas dificuldades para encontrar um editor que acreditasse em seu trabalho.
Entre seus melhores trabalhos estão Waiting For Godot, Murphy, Molloy, Malone Dies, The Unnamable e Endgame.
Diálogo da página 23 de Esperando Godot
POZZO – (Cortante) Quem é Godot?
ESTRAGON – Godot?
POZZO – Vocês me tomaram pelo Godot.
VLADIMIR – Oh, não senhor! Nem por um momento, senhor.
POZZO – Quem é?
VLADIMIR – Pois é um …, é um conhecido.
ESTRAGON – Mas, vamos, não o conhecemos quase.
VLADIMIR – Evidentemente…, não lhe conhecemos muito bem…; não obstante…
ESTRAGON – Eu, certamente, não lhe reconheceria.
POZZO – Vocês me confundiram com ele.
ESTRAGON – Bem…, a escuridão…, o cansaço…, a debilidade…. a espera…; reconheço…que por um momento… acreditei…
VLADIMIR – Não leve em conta, senhor, não faça caso!
POZZO – A espera? Então, esperavam-lhe?
VLADIMIR – Quer dizer…
POZZO – Aqui? Em minhas terras?
VLADIMIR – Não pensávamos fazer nada de mau.
ESTRAGON – Tínhamos boas intenções.
POZZO – O caminho é de todos.
VLADIMIR – É o que nós dizíamos.
POZZO – É uma vergonha, mas é assim.
ESTRAGON – Não HÁ NADA A FAZER.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
http://www.samuel-beckett.net/speople.html
Bair, Deirdre. Samuel Beckett: A Biography. Vintage. (1978).
Fletcher, John. About Beckett. Faber and Faber, London (2006).
Beckett, Samuel. Waiting for Godot: A Tragicomedy in Two Acts. Grove Press (2011)
A negação do passado não é um caminho saudável
Não entendo o que leva as pessoas a negarem a história de violência do lugar onde vivem. A partir do momento que você nega esse passado, você está automaticamente legitimando que tudo é o que é porque deveria ser assim. Ou seja, no meu entendimento isso é tanto uma forma de resignação quanto de preservação de um status quo.
O Paraná tem uma história de colonização extremamente violenta e sempre que alguém tenta negar isso de algum modo tenho a impressão de que não estamos falando do mesmo estado. Pesquiso sobre a história regional há apenas sete anos, mas é algo que não posso deixar de dizer que me causa um grande estranhamento.
Abordar o que aconteceu de ruim no passado não tem nada a ver com reverberar coisas negativas, despertar sentimentos ruins, muito pelo contrário. Acredito verdadeiramente que isso é uma forma de luta, de incitação à transformação através da reflexão.
Balzac e o seu apetite voraz pela escrita
A morte do escritor foi atribuída a uma parada cardíaca após muito café e tantas noites sem dormir

Balzac: “Se eu não alcançar a grandeza com La Comédie humaine, vou pelo menos obtê-la de outra forma no fim de minha vida” (Imagem: Reprodução)
Os últimos meses de vida do prolífico escritor francês Honoré de Balzac foram tão agitados quanto todos os anos de sua vida, o que diz muito sobre a sua inspiração para criar 17 volumes de La Comédie humaine, além de muitos outros trabalhos. São obras que entraram para a história da literatura mundial e influenciaram autores como Marcel Proust, Émile Zola, Charles Dickens, Fiódor Dostoiévski, Henry James, Italo Calvino, Machado de Assis e Camilo Castelo Branco.
“A condessa polonesa com quem Balzac se correspondeu ao longo de seis anos se comprometeu em se casar com ele assim que ficou viúva. Mas ela preferiu agir com cautela quando soube das dívidas, decepções e apetites do autor”, narra o escritor canadense e professor de literatura Steve King. Ainda assim, faltando cinco meses para o falecimento do francês, a condessa Ewelina Hańska concordou com o casamento, declinando uma proposta também recebida do compositor húngaro Franz Liszt.
Ao saber da boa notícia, Balzac se apressou e a visitou em sua propriedade, onde ele esteve pela primeira vez em 1943 e ficou impressionado ao saber que ela possuía uma área de aproximadamente 21 mil acres, três mil serfs (escravos), 300 empregados, a sua própria orquestra e um hospital. “Ele levou consigo quatro dúzias de pares de luvas para as belas mãos da condessa”, informa King.
Honoré de Balzac passou a maior parte da sua vida adulta oscilando entre os extremos da riqueza e da pobreza. Com peculiar personalidade, um dos motivos que o levou à falência foi sua tentativa em transformar sua casa em Paris numa fazenda de abacaxis. Ele escrevia incessantemente, tanto que seu médico atribuiu sua morte a um coração fraco que parou de funcionar depois de tantas noites sem dormir, consumindo grandes quantidades de café.
Balzac acreditava que todo ser humano tem a seu dispor uma finita reserva do fluido da vitalidade, e ela diminui de acordo com nossas ações e desejos. No caso do escritor francês, foi condenado a morrer precocemente por causa do seu apetite voraz pela escrita.
Mas não sem antes passar os últimos meses de vida buscando a realização pessoal. “Se eu não alcançar a grandeza com La Comédie humaine, vou pelo menos obtê-la de outra forma no fim de minha vida”, comentou Balzac já com a saúde debilitada, em referência ao casamento com a condessa.
A comédia humana ia além das obras de Balzac; era a sua própria vida. Para abordar os aspectos sociais nos seus romances, ele vagava à noite pelas mais famigeradas ruas de Paris, hábito que manteve por anos, assim como fez Dickens em Londres. Ele também gostava de sair de madrugada porque a prisão de devedores era proibida entre o pôr e o nascer do sol, e assim ele não corria riscos.
Como se a vida imitasse a arte, Honoré de Balzac foi enterrado no Cemitério do Père-Lachaise em um túmulo próximo de onde um de seus personagens mais famosos, o jovem Eugène de Rastignac, do romance Le Père Goriot (O Pai Goriot), derramou a última lágrima no velório do velho Goriot.
Trecho de O Pai Goriot (páginas 236-237)
Às seis horas, o corpo do pai Goriot desceu à cova, em torno da qual estavam os criados das filhas, que desapareceram com os religiosos logo que foi pronunciada a curta oração devida ao bom velho através do dinheiro do estudante. Os dois coveiros, depois de atirarem algumas pás de terra em cima do caixão, para ocultá-lo, ergueram-se, e um deles, dirigindo-se a Rastignac, pediu-lhe uma gorjeta. Eugênio revistou os bolsos e, não tendo encontrado nada, foi obrigado a pedir vinte soldos emprestados a Cristóvão.
Esse fato, tão insignificante em si mesmo, causou a Rastignac um horrível acesso de tristeza. Caía a tarde. Um crepúsculo úmido irritava os nervos. Eugênio contemplou a sepultura e enterrou nela sua derradeira lágrima de rapaz, aquela lágrima arrancada pelas puras emoções de um coração puro, uma dessas lágrimas que, da terra onde caem, se elevam até o céu. Cruzou os braços e admirou as nuvens. Vendo-o nessa atitude, Cristóvão o deixou.
Ficando só, Rastignac encaminhou-se para a parte alta do cemitério e de lá viu Paris, tortuosamente deitada ao longo das duas margens do Sena, onde as luzes começavam a brilhar. Seus olhos fixaram-se quase avidamente entre a coluna da Place Vendôme e os Invalides, no ponto em que vivia aquela bela sociedade na qual quisera penetrar. Lançou àquela colmeia sussurrante um olhar que parecia sugar-lhe antecipadamente o mel e proferiu esta frase suprema: — Agora, é entre nós dois! E como num primeiro ato de desafio à sociedade, Rastignac foi jantar à casa da sra. de Nucingen.
Saiba Mais
Honoré de Balzac nasceu em 20 de maio de 1799 em Tours, na França, e faleceu em Paris em 18 de agosto de 1850.
Entre suas principais obras estão La Comédie humaine, Eugénie Grandet, La Peau de chagrin, Le Père Goriot, Colonel Chabert, La Rabouilleuse, Le Lys Dans la Vallée, Illusions Perdues e Splendeurs et Misères des Courtisanes.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
http://balzac-museum.com/
Graham, Rob. Balzac: A Biography – W. W. Norton & Company; Reprint edition (1996).
Contribuição
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Virginia Woolf e a improvável amizade com T.S. Eliot
À época, Virginia e o marido se recusaram a publicar Ulysses, de James Joyce
“Acabo de terminar de formatar o conjunto do poema do Sr. Eliots [sic] com minhas próprias mãos. Veja como elas tremem”, escreveu a escritora britânica Virginia Woolf em 8 de julho de 1923, em carta endereçada a uma amiga. Ela se referia à finalização da versão britânica do poema modernista The Waste Land, do estadunidense T.S. Eliot, considerado um dos melhores do século 20.
Os tremores de Virginia, que à época tinha 41 anos, foram provocados pela exaustão causada pela dedicação em tempo integral a Hogarth Press, editora que ela fundou com o marido Leonard Woolf em Londres em 1917. O que é até curioso levando em conta que Virginia quis fundar uma editora como hobby, uma forma de ocupar o tempo no período da tarde e ajudá-la a lidar com a depressão. Também era um meio de dar uma oportunidade a novos escritores.
Mesmo que todos os livros da Hogarth não tenham passado pelas mãos dos Woolf, a verdade é que a popularidade de Virginia e sua editora cresceu tanto que logo sua casa ficou muito movimentada e seu tempo dedicado à escrita foi preenchido completamente.
A prensa era operada na despensa da residência enquanto os livros eram encadernados na sala de jantar. A sala de estar era usada na realização de entrevistas com escritores, encadernadores e operadores de prensa, de acordo com a autobiografia de Leonard Woolf publicada em 1967.
Em 1923, o trabalho da editora foi qualificado pelo marido de Virginia como uma tentativa de fazer o impossível. E assim eles assumiram o compromisso de não abandonar a Hogarth Press nem vendê-la. No entanto, Virginia foi se desinteressando pelo trabalho até que em 1938 ela vendeu sua parte na sociedade. Leonard ainda continuou trabalhando como gerente de negócios até 1946, ano em que a Hogarth Press se tornou associada da Chatto & Windus, uma das mais importantes editoras britânicas da era vitoriana.
Embora tenham recusado a publicação de Ulysses, de James Joyce em 1918, o casal Woolf publicou nomes como Vita Sacksville-West, John Maynard Keynes, Robert Graves, Katherine Mansfield, Clive Bell, C. Day Lewis, E.M. Forster e Christopher Isherwood. Todos os escritores tornavam-se amigos deles, inclusive o genioso T.S. Eliot, com quem Virginia, que também era uma autora de personalidade recheada de ambiguidades, teve momentos conflituosos.
A Hogarth Press publicou pela primeira vez um trabalho de Eliot em 1919, e o mais intrigante é que um diário de Virginia com data de agosto do mesmo ano trouxe interessantes informações registradas após um jantar. Nele, ela declara que ainda não via o poeta estadunidense como um amigo, mas se divertia ao notar como ele era perspicaz e fazia questão de demonstrar que não gostava dela.
A intimidade do casal com T.S. Eliot só evoluiu no início dos anos 1920, quando o poeta deixou de ser pomposo e pedante, segundo Leonard Woolf. Um dia, caminhando pelo jardim da casa dos Woolf, Leonard se afastou deles para ir ao banheiro. Quando retornou, encontrou Eliot constrangido e chocado. Acostumado às convenções e formalidades, o autor nunca se viu numa situação como aquela. “Tom disse que nunca seria capaz nem de se barbear na presença da própria esposa”, escreveu Leonard Woolf em sua autobiografia.
Por outro lado, Virginia registrou em seu diário que Eliot não mostrou a menor inibição quando pediram para que ele declamasse a segunda parte de The Waste Land ao final de um jantar. E assim ele o fez:
Que hei de fazer agora? Que hei de fazer?
Vou sair tal como estou, e andar pela rua
Com o cabelo solto, assim. Que havemos de fazer amanhã?
Que havemos de fazer alguma vez?
A água quente às dez.
E se chover, um carro coberto às quatro.
E jogaremos uma partida de xadrez,
A apertar olhos sem pálpebras e à espera que batam à porta.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Woolf, Leonard. Downhill all the way: an autobiography of the years 1919–1939 (1st American ed.). New York: Harcourt, Brace & World (1967).
Bell, Quentin. Virginia Woolf: A Biography. Rev. ed. New York: Harcourt Brace Jovanovich (1996).
T.S. Eliot. The Waste Land (1922) (Norton Critical Editions) 1st Edition (2000).
Como a pecuária contribui com o aquecimento global
Documentário apresenta a verdade inconveniente negligenciada por Al Gore em 2006

Cowspiracy aponta a pecuária como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia (Foto: Divulgação)
Lançado em 2014, Cowspiracy – The Sustainability Secret é um documentário de Kip Andersen e Keegan Kuhn que mostra de que forma a pecuária tem contribuído com o aquecimento global, inclusive sendo apontada como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia.
E para endossar a denúncia, os realizadores usam como referência o relatório anual da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) que cita a pecuária como uma das grandes culpadas pela degradação do solo, mudanças climáticas, poluição, esgotamento de água e perda da biodiversidade.
Quando o assunto veio à tona em 2006, a ONU iniciou um trabalho de defesa da reeducação alimentar baseada em dietas vegetarianas, ou pelo menos a redução do consumo de carne e laticínios, uma transformação que pode desacelerar a produção e ajudar a combater o aquecimento global.
Com o relatório em mãos, o documentarista Kip Andersen questiona os porta-vozes de grandes organizações de proteção ao meio ambiente, como Green Peace, Sierra Club, Rain Forest Action Network, 350.org, Amazon Watch e Oceana, sobre o motivo de jamais terem falado sobre o papel da agroindústria no aquecimento global.
Insistente, Andersen faz com que a diretora da Amazon Watch, Leila Salazar Lopez, abra o jogo em um segundo encontro, quando ele a questiona sobre o silêncio dessas entidades. Antes ele ressalta a gravidade da situação ao informar que a Amazônia Brasileira, o lugar com a maior biodiversidade do planeta e que já perdeu 80% de sua área original, pode desaparecer nos próximos dez anos por causa da desenfreada produção de gado e soja.
“Podemos ver o que aconteceu no Brasil depois da aprovação do Código Florestal. Quem falava contra os lobistas e os interesses das agroindústrias era assassinado. Um exemplo é o caso do José Cláudio Ribeiro da Silva [falecido em 2011], um dos ativistas que dizia que a agropecuária estava destruindo a Amazônia. Veja o exemplo de Dorothy Stang, a freira que morava no Pará e foi assassinada. Muita gente fala, mas muitos ficam calados porque não querem acabar com uma bala na cabeça”, argumenta Leila.
A freira Dorothy Stang se opôs ao desmatamento praticado pela agropecuária durante anos. Certa noite, ao entrar em casa foi brutalmente baleada à queima-roupa por um matador de aluguel. Além dela, mais de 1100 ativistas foram mortos no Brasil nos últimos 20 anos, de acordo com o filme.

Keegan Kuhn e Kip Andersen, responsáveis pela produção de um dos documentários mais controversos dos últimos anos (Foto: Divulgação)
“Quem se beneficia e faz lobby para este sistema agrícola são os maiores produtores alimentares, os maiores produtores de carne. Quando eles crescem e enriquecem, eles usam o poder político que possuem para ditar as políticas federais quanto à produção de alimentos”, destaca Wenonah Hauter, diretora executiva da ONG Food & Water Watch.
A partir daí tudo fica claro para os documentaristas. Kip Andersen, que se inspirava em Al Gore para se tornar ambientalista, se decepcionou quando soube que esse foi o motivo pelo qual o ex-vice-presidente não citou a pecuária no documentário An Inconvenient Truth, sobre as causas do aquecimento global.
De acordo com o ambientalista e escritor Will Tuttle, diariamente a população humana, que chegou a sete bilhões em 2011, consome 20 bilhões de litros de água e 9,5 bilhões de quilos de comida. Enquanto isso, 1,5 bilhão de bovinos, de um total de 70 bilhões de animais criados no mundo todo, consomem 170 bilhões de litros de água e 61 bilhões de quilos de comida. “Quase um bilhão de pessoas passam fome todos os dias”, acrescenta Tuttle, realçando o absurdo da situação.
Além disso, 50% da produção de legumes e vegetais é destinada aos animais. Só nos Estados Unidos, 90% da soja é para o consumo das criações. “Comparando com a carne, podemos produzir, em média, 15 vezes mais proteínas a partir de fontes vegetais, e usando o mesmo tipo de terra, seja fértil ou não. Hoje, 82% das crianças que passam fome vivem em países onde a comida é dada aos animais. O mais incrível é que temos condições de alimentar todos os seres humanos”, revela o pesquisador Richard Oppenlander, autor do livro Food Choice and Sustainability.
Em uma de suas pesquisas, Andersen descobriu que um hambúrguer de 110 gramas requer mais de 2,5 mil litros de água se for levado em conta todo o processo antes de chegar ao consumidor final. “Equivale a tomar banho por dois meses”, compara. E para a produção de quatro litros de leite são necessários 3,8 mil litros de água. E a demanda desproporcional à produção se acentua a cada dia. John Taylor, proprietário da Bivalve Organic Dairy, informa que não há terras o suficiente no mundo para que leiterias orgânicas como a sua ganhem espaço. Ele acredita que os laticínios não são sustentáveis.
“A não ser que comecemos a substituir as casas por pasto. E isso só pode acontecer se a população diminuir. E como sabemos que ela vai continuar a crescer, o jeito é buscar alternativas. Vemos por aí leite de soja, de amêndoas, e muitos outros produtos com misturas diferentes. Levam insumos e proteínas. Acredito que veremos mais disso no futuro”, avalia Taylor.
O ativista vegano Howard Lyman, autor do livro Mad Cowboy, passou 45 anos envolvido com a agropecuária. Há alguns anos, quando participou do programa Oprah Winfrey Show, ele denunciou as mazelas do setor e teve de responder a dezenas de processos. Em entrevista a Kip Andersen, confidenciou que levou cinco anos para se livrar das ações movidas pelas agroindústrias. “Tenho certeza de que se eu fosse novamente ao programa, hoje eu seria condenado, mesmo falando a verdade”, lamenta.
Lyman também deixa claro que Andersen e Keegan Kuhn corriam riscos ao abordarem um assunto tão controverso. Após quase 60 minutos de documentário, eles recebem uma ligação de uma patrocinadora avisando que não vai mais investir em Cowspiracy. “A maioria fica chocado ao saber que ativistas ambientais são considerados a pior ameaça terrorista de acordo com o FBI. Acredito que porque, mais do que qualquer outro movimento social, ameaçam diretamente os lucros empresariais”, enfatiza o jornalista Will Potter, autor do livro Green Is The New Red, e que há anos é monitorado pelo FBI.
A maior parte do documentário, os realizadores não acompanham de perto a realidade dos animais, principais vítimas da agroindústria. Quando decidem fazê-lo, ficam surpresos com o que veem e aprendem. “Não importa se as galinhas são de fazendas orgânicas ou não. A verdade é que a partir do momento que a produção diminui elas são mortas”, relata Marji Beach, diretora de educação do santuário Animal Place.
O autor do best-seller In Defense of Food, Michael Pollan, prevê que quando a população mundial chegar a nove bilhões de pessoas o consumo de carne vai diminuir. “Não teremos como produzir tantos cereais para alimentar os animais de corte”, argumenta, crente de que o futuro está na sustentável dieta vegetariana.
No encontro com Lyman, Andersen ouve o ativista afirmando que um ambientalista não pode consumir produtos de origem animal. “Engane-se se quiser. Aliás, se quiser alimentar o seu vício, faça-o, mas não chame a si mesmo de ambientalista ou protetor dos animais”, assinala.
O discurso tem tanto impacto que Kip Andersen decide se aprofundar no veganismo. Para isso, ele visita o médico Michael A. Kepler, vegano há 32 anos e que leva uma vida saudável. Kepler inclusive faz o acompanhamento de gestantes veganas. “Nascem 216 mil pessoas no mundo a cada dia, e assim precisamos de 14 mil hectares de terra cultivável todos os dias. O que é impossível de se conseguir”, reconhece o produtor de vegetais orgânicos John Jeavons, autor do livro How to Grow More Vegetables.
Enquanto um vegano requer 0,6 hectare de terra por ano para se alimentar, um ovolactovegetariano precisa do triplo e uma pessoa com dieta onívora necessita de uma área 18 vezes maior que essa. “Isto porque pode-se produzir 16 mil quilos de vegetais em 0,6 hectare e apenas 170 quilos de carne na mesma área. Uma dieta vegana também produz a metade de CO2 de uma dieta onívora. E ainda gasta só 9% de combustíveis fósseis, 8% de água e 5% do solo”, frisa Kip Andersen.
Will Tuttle acredita que em grande escala a adoção do veganismo poderia contribuir muito para a recuperação do ar, das florestas, rios e oceanos, além do próprio restabelecimento da saúde humana. “Nenhuma outra escolha é tão abrangente e tem um impacto tão positivo sobre a vida na Terra do que deixar de consumir produtos de origem animal e adotar o estilo de vida vegano”, pontua o escritor.
Curiosidade
Ao final do documentário, Skip Andersen decide adotar o estilo de vida vegano.
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