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Partido ANIMAIS precisa de 500 mil assinaturas para concorrer às eleições

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“Temos uma pauta clara, a ampla defesa de todos os animais nas suas representações biológicas”

Qualquer pessoa que entenda que a criação do partido é um direito democrático pode contribuir, seja preenchendo uma ficha de apoio ou ajudando a coletar assinaturas (Foto: Partido ANIMAIS)

No final de 2015, integrantes de mais de 20 organizações não-governamentais (ONGs) e representantes de 18 estados do Brasil se reuniram e concluíram que o Brasil precisa de um partido voltado à defesa dos direitos animais, já que praticamente todos os partidos ignoram essa causa. Como resultado de uma série de discussões, o grupo elaborou um estatuto e fundou o Partido ANIMAIS em agosto de 2016 mediante publicação no Diário Oficial da União.

Atualmente o partido já conta com o apoio de partidos e iniciativas que atuam na defesa dos direitos animais nos Países Baixos, Espanha, Portugal, Itália, Reino Unido, Estados Unidos e Austrália. Porém, para que o partido possa atuar como ferramenta política, ou seja, disputar as eleições nas esferas municipal, estadual e federal, é necessário que pelo menos 500 mil assinaturas válidas sejam entregues pelo partido ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Sendo assim, o Partido ANIMAIS precisa de ajuda do maior número possível de pessoas que veem essa iniciativa como um bom ponto de partida para a defesa contínua dos direitos animais em âmbito político. Na realidade, qualquer pessoa que entenda que a criação do partido é um direito democrático pode contribuir, seja preenchendo uma ficha de apoio ou ajudando a coletar assinaturas. “A assinatura de qualquer pessoa é importante. Esse apoio não é filiação, quem colabora não tem qualquer compromisso com o partido. Apenas reconhece que o partido tem o direito de atuar como ferramenta política. As pessoas não precisam se preocupar, todos os dados são confidenciais e enviados apenas para o TSE”, explica o porta-voz Frank Alarcón.

O Partido ANIMAIS é o primeiro projeto político animalista latino-americano que conseguiu vencer todas as etapas burocráticas que o Tribunal Superior Eleitoral exige, desde o cadastro na Receita Federal, publicação no Diário Oficial e obtenção de CNPJ. Ou seja, todas as exigências do poder público. “Estamos agora na fase final e mais trabalhosa que é a obtenção das 500 mil assinaturas válidas. Queremos chegar a três milhões de fichas de apoio, porque isso seria um excelente sinal de que existe uma massa crítica, uma parcela significativa da sociedade civil que tem interesse genuíno na discussão e defesa dessas pautas que nos são caras, e que se voltam principalmente para a defesa dos animais não humanos”, relata Alarcón.

Na prática, o apoio ao Partido ANIMAIS ocorre de forma bem simples, bastando o apoiador informar dados como o nome completo, número do título de eleitor, zona de votação e assinatura semelhante a do título. Os dados devem ser precisos senão a ficha pode ser considerada inválida pelo Tribunal Superior Eleitoral. “Temos uma pauta clara e de fácil compreensão, a ampla defesa de todos os animais nas suas mais diversas representações biológicas. Além disso, estamos realmente focados na proteção do meio ambiente e na implantação de soluções que amenizam o imenso impacto humano causado sobre o planeta. Lembre-se: nós seres humanos também somos animais”, enfatiza Frank Alarcón.

O partido fundado em 2016 tem conquistado boa aceitação, inclusive de muitas pessoas sem qualquer relação com a causa animal. A explicação para isso é bem simples. “Elas entendem que é justo que um partido animalista também tenha a sua expressividade, espaço de manifestação dentro do cenário político”, justifica o porta-voz do Partido ANIMAIS.

Para quem quer contribuir coletando assinaturas, o site do partido disponibiliza as fichas de apoio e a Cartilha de Coleta de Assinaturas (CCA) com todas as diretrizes de coleta e preenchimento das fichas de apoio. Oferece também sugestões de abordagem para se obter resultados mais eficazes. É uma cartilha indicada para qualquer pessoa, sem restrições. “Temos até a metade de 2018 para fornecer as assinaturas. Poderíamos tentar fazer isso até março para termos candidatos concorrendo ao pleito de outubro, porém no momento a nossa atenção está completamente voltada para a conquista das 500 mil assinaturas válidas”, revela Frank Alarcón.

Segundo a diretoria do partido, assim que o ANIMAIS for reconhecido pelo TSE como um partido em condições de atuar como ferramenta política, o movimento nacional em defesa dos direitos animais terá uma nova opção nas eleições, assim como todos os eleitores que buscam renovação. “Poderemos colocar em curso práticas que normalmente ONGs não conseguem, como um mandado de segurança junto ao STF [Supremo Tribunal Federal] contra qualquer um dos absurdos relativos à exploração animal que você possa imaginar. É algo que nos dará a possibilidade de expandir a nossa linha de atuação em relação à questão animal e ambiental. Afinal, somos um partido animalista que prega a completa abolição da exploração e do uso animal. Todos nós somos veganos e entendemos os animais como indivíduos”, argumenta Alarcón.

De acordo com o porta-voz do Partido ANIMAIS, é preciso de uma vez por todas ocupar um espaço político de forma séria e definitiva no que diz respeito à questão animal. “Devemos nos lembrar que aqueles que não gostam ou não se interessam por política estão condenados a serem governados por aqueles que se interessam. Se nós não tomarmos a frente nessa luta, outros o farão, e são grupos ou interesses contrários aos que temos, que é a defesa de animais não humanos, meio ambiente, enfim, vulneráveis de um modo geral. Se não tomarmos a dianteira e coletarmos as assinaturas que precisamos dentro do prazo estabelecido, estaremos perdendo uma grande oportunidade”, alerta Frank Alarcón.

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Quando for preencher a ficha de apoio, caso o apoiador não esteja com o título à mão, aconselha-se entrar no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e resgatar essas informações. Para isso, basta informar o nome completo, nome completo da mãe e data de nascimento. Com essas informações, o TSE fornece instantaneamente o número do título de eleitor e o número da zona de votação. Caso o apoiador não possa fazer esse resgate, ele pode fornecer os seus dados a lápis no verso da ficha para uma equipe de colaboradores do Partido ANIMAIS. Assim eles poderão resgatar no site do TSE os dados que faltam.

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Entre em contato para participar: partido@animais.org.br

 





 

Não existe heroísmo quando um animal é criado para ser explorado ou morto

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Se uma pessoa cria um animal com finalidade de consumo, ou atribui a ele uma função de objeto, ela nunca o está, de fato, salvando, independente de motivação (Arte: Jackson Thilenius)

Durante uma reportagem, o narrador diz: “A luta desses homens em salvar os animais.” Uma semana depois, eles matam os animais e comem. É uma inequívoca contradição, não? Se uma pessoa cria um animal com finalidade de consumo, ou atribui a ele uma função de objeto, ela nunca o está, de fato, salvando, independente de motivação.

Mesmo ao impedir que um animal não humano morra antes “da hora”, se a relação de uma pessoa com ele é de dominância, a ação desse indivíduo é isenta de um caráter moral não especista, até porque essa “hora” foi estabelecida por agente humano, logo animal de outra espécie, em ato baseado em interesses próprios que não pesam o mal causado ao outro, seja por exercício de privação ou violência fatal, logo uma facciosidade.

E, evidentemente, isso independe de como essa pessoa interprete a própria intenção nesse ínterim, já que suas ações são exortadas pela conveniência. Ou seja, pela preocupação em salvaguardar nada mais que os próprios interesses. Citarei um exemplo. Se sou mantido cativo em um lugar até o momento de minha injusta execução, e de repente corro um risco iminente de morte que não a planejada, não faz a menor diferença a intenção daquele que me mantém cativo.

O fato de um sujeito impedir que eu morra antes do prazo estabelecido por ele não faz dele um herói ou um indivíduo menos autocrático, mas simplesmente alguém que está romaneando apenas o seu próprio prejuízo, exercendo um poder indébito sobre uma vida que não lhe pertence. Sendo assim, não existe heroísmo quando uma pessoa cria um animal reduzido a fonte de alimentos ou produtos, não importando o que ela faça antes que esse animal pereça de forma indigna.





 

Comer animais, sobre o impacto de nossas escolhas: a opção baseada na arbitrariedade

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O problema da exploração animal está no silêncio dos que poderiam rejeitá-la

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Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur

Não é difícil encontrar pessoas usando qualquer justificativa que lhes é conveniente para continuarem explorando animais ou tomando parte nessa exploração por meio do consumo; ou para causarem danos ao meio ambiente – ou defenderem ou ignorarem esses danos.

Isso é evidentemente previsível levando em conta a realidade diante dos nossos olhos. Porém, animais devem ou merecem ser mortos para serem reduzidos a alimentos e outros produtos? A natureza deve ou merece continuar sendo espoliada? Admito que sou contra a exploração de animais e também contra o mal causado ao meio ambiente, seja em decorrência dessa exploração ou não. Creio que se há interesse em continuar perpetuando essas formas de exploração, isso se dá simplesmente por conveniência, até porque alternativas que não envolvam essas práticas não faltam.

Não raramente, pessoas dizem, pelos mais diferentes motivos, que toda a preocupação com os animais não humanos e com o meio ambiente não passa de bobagem, sensacionalismo barato. Será que realmente os ativistas dos direitos animais e os ativistas ambientais têm tanta grana assim para fazerem esse massivo sensacionalismo global? E se isso é verdade por que ativistas recebem ameaças? Por que todos os anos são publicadas inúmeras notícias de assassinatos de ativistas? Se o que eles fazem ou dizem está em desacordo com a verdade ou com a realidade por que matá-los?

Será que há mais grandes empresas e políticos com interesses em defender a exploração animal ou em antagonizá-la? Há mais grandes empresas e políticos com interesses favoráveis ou contra a exploração do meio ambiente? Não tenho dúvida alguma de que empresas que lucram com a exploração animal ou com a agressão ao meio ambiente têm muito mais recursos para criarem factoides contra a defesa dos direitos animais e do meio ambiente do que os defensores dos animais e do meio ambiente em produzirem conteúdo contra essas explorações.

Enquanto de um lado há uma inesgotável quantidade de recursos que pode facilmente manipular a opinião pública, do outro há pessoas se dedicando de forma voluntária a causas em benefício dos animais ou do meio ambiente, ou dos dois. Em muitos casos, são pessoas que têm apenas a própria voz, a própria consciência e a vontade de usar também suas habilidades e profissões a favor de quem não tem voz.

Felizmente, não é tarefa difícil descortinar as dissimulações que envolvem a exploração de animais e do meio ambiente. Por outro lado, infelizmente é doloroso reconhecer que mesmo diante dessas informações muitos preferem se calar ou se omitir. Acredito que o que dificulta muito o entendimento da defesa dos direitos animais é o olhar de estranheza, um olhar fundamentado no desconhecimento, em algum pré-conceito que dependendo do grau de entranhamento não é tão fácil de ser extirpado.

Há uma ideia equivocada de que a luta pelos direitos animais é a luta por garantir mais direitos a seres não humanos, o que tanto na teoria quanto na prática não faz o menor sentido. A verdade é que direitos animais é em primeiro lugar sobre o direito de assegurar, de fato, que um ser não humano possa viver sem sofrer em decorrência da intervenção humana. Em síntese, um direito simples e básico.

Outro ponto a se considerar é que há muitas pessoas imersas em uma condição egoica incentivada pela própria formação educacional, cultural e social, e também por um nível entorpecente de desinformação que lhes parece sempre admissível, porque segundo suas interpretações condicionadas da realidade – o mundo é como deveria ser, logo o que outros animais sofrem, por exemplo, não lhe diz respeito. O que, sobretudo, está longe de ser verdade. Afinal, o mundo é o que fazemos dele, e se não vemos necessidade em fazer o bem, menos ainda temos de fazer o mal.

Essa banalização da exploração, da violência, do que é vil e sua aceitação foi categorizada há muito tempo por Lazarsfeld e Merton como disfunção narcotizante. E, além da contumaz indiferença sedimentada pela disfunção, há também muitos casos em que o reconhecimento do óbvio passa a ser um exercício tortuoso, incognoscível e inalcançável. Exemplo disso é a indiferença em relação ao destino de animais reduzidos a alimentos e produtos.

Tudo isso endossa o que qualificamos como “parte de uma realidade que não nos interessa”, porque somos incapazes de pesar ou entender o que isso representa para o outro, e também o que isso diz sobre as nossas relações com a vida, com o mundo e com outras espécies que exploramos e matamos sem qualquer necessidade.





Por que animais criados para consumo chegam a praticar canibalismo

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Você já pensou em quais circunstâncias um animal domesticado e criado pelo ser humano com finalidade de consumo pratica canibalismo?

Arte: Jackson Thilenius

Quando ele passa por um processo visceral de despersonalização, de completa perda de identidade e individualidade. Ele se torna algo desconhecido para os outros e para ele mesmo. E como isso acontece? Como consequência de níveis constantes e excruciantes de privação, ansiedade e estresse, entre outros fatores que podem envolver ou não agressão física.

Animais não humanos, diferentemente de nós, não verbalizam o que sentem e por isso podem sofrer mais perante a incomunicabilidade no contato com seres humanos. Afinal, o seu desespero e ânsia pela vida podem ser facilmente desconsiderados levando em conta as diferenças no código de comunicação. E, evidentemente, podem ser interpretados ou distorcidos à revelia.

Essa incomunicabilidade com o ser humano, logo animal de outra espécie, amplifica o desespero e o sofrimento no esteio de uma vida não natural que tem como consequência ordinária a figuração da violência em suas mais diferentes formas. Afinal, a violência contra um animal está muito além de espancá-lo ou de matá-lo.

A violência pode ser manifestada a partir do simples e iterado ato de privá-lo de sua natureza, do trivial e pernicioso ato de não permitir que ele seja ele mesmo; de não permitir que ele crie vínculos sociais à sua maneira, nem mesmo desenvolva uma rotina condizente com seus anseios inerentes ou atávicos.

A natureza de um animal criado para consumo, logo objetificado, é comumente suplantada para dar lugar a uma natureza de viés mecanicista, em que ao animal não é permitido nenhum direito de escolha no decorrer de sua vida, nem mesmo o direito de escolher com quem se relacionar, como se alimentar. Enfim, nenhum direito em relação a nada.

Assim, seus hábitos são precocemente suprimidos e sua natureza inerente gradualmente obliterada. Dependendo do nível de obliteração, ele pode praticar ou não o canibalismo, que neste caso talvez seja um dos símbolos maiores do aviltamento e da degradação não humana em uma sociedade imersa na desconsideração e na negação de direitos não humanos.

 





Por que comemos animais?

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Retrospectiva 2017 – Será que o ano foi bom para os animais?

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Será que 2017 foi bom para os animais? Matamos mais de 56 bilhões de animais terrestres em 2017, contabilizando apenas os animais executados em matadouros; e mais de um trilhão de animais marinhos, ou seja, sem contar os animais de água doce (Fotos: We Animals/Jo-Anne McArthur/Tommaso Ausili)

Imagine a sensação…

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Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur

Imagine a sensação de ter o seu pescoço puxado violentamente por uma corda. Imagine a sensação de carregar cicatrizes pelo corpo que são resultados de violência que membros de outra espécie animal perpetraram contra você simplesmente por diversão.

Imagine a sensação de não viver de acordo com a sua natureza e ainda ter o seu sofrimento exposto para uma multidão. Imagine a sensação de cair no chão, ter a face afundada na terra suja ou na lama e ouvir gritos, berros e risos daqueles que o assistem.

Imagine a sensação de não encontrar empatia por onde quer que você direcione os seus olhos que já não são os mesmos em decorrência da vida que  impuseram-lhe. Imagine em que ponto estaria o seu coração?





Written by David Arioch

December 31st, 2017 at 1:55 pm

Não, realmente não está tudo bem em explorar animais

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Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer (Foto: Jan van IJken)

De acordo com a interpretação clássica do direito, basicamente os animais não têm direitos, enfatizou um camarada, referindo-se à nossa Constituição que realmente não assegura direitos aos animais. Sim, de fato, o que temos são leis subjetivas (alguns podem interpretar como limitadas, dúbias, capciosas ou falhas) de proteção aos animais contra a crueldade, o que em si é uma contradição em essência, já que a exploração animal, praticada neste momento contra milhões de animais só no Brasil, é um ato de crueldade em si – levando em conta dois fatores – a exploração precoce que culmina em morte precoce, ou a exploração precoce prolongada que também culmina em morte. A morte em si é um ato de crueldade refletido nos olhos da vítima que não quer ceder.

— Mas se a lei diz que não é crime explorar esses animais na indústria frigorífica ou leiteira, significa que está tudo dentro da lei, dentro do senso de justiça ocidental, logo não há nada de errado nessa prática.

— Realmente, mas todas as suas ações se sustentam em parâmetros legais? Quero dizer, se a lei não diz que alguns de nossos atos não são criminosos, então devemos cometê-los? Sabemos que tudo que é ilegal é considerado errado, mas nem tudo que é errado é considerado ilegal. Se bato em um carro parado de madrugada e fujo, posso escapar da punição caso não haja nenhuma testemunha, mas a minha inclinação moral me impede de desaparecer sem dar satisfação ou me predispor à reparação. Assim como uma pessoa pode esquecer uma carteira ao meu lado, eu poderia pegá-la, guardar no bolso e ir embora. Mas eu não faria isso. Por quê? Porque reconheço que é errado. Entendo as implicações disso para o outro, me coloco em seu lugar. Uso a mesma baliza moral quando se trata de animais explorados diuturnamente como fontes de matéria-prima, alimentos e produtos. Sim, eles não são como nós, mas são seres viventes e sencientes que, de maneira diversa, expressam interesse em não sofrer ou morrer.

— Mas, mais cedo ou mais tarde, eles morrerão de qualquer forma.

— Você tem razão, mais cedo ou mais tarde, eu também morrerei de qualquer forma, mas nem por isso você me vê oferecendo o pescoço para ser degolado. Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer. Sendo assim, não, realmente não está tudo bem em explorar animais.

— Tudo bem, mas o próprio Aristóteles foi uma grande influência para a base moral cristã ocidental, e ajudou a endossar o uso de animais. Quero dizer, ele rejeitava a ideia da racionalidade animal, pesando contra os animais a concepção da “racionalidade matemática”, que o levava a ver os animais como sujeitos sem qualquer direito que justificasse não consumi-los ou usá-los.

— Sim Aristóteles fez isso, e teve influência inegável sobre o antropocentrismo. Mas ao citar Aristóteles, você desconsidera Pitágoras, Plutarco, Plotino, Empedócles, Platão, Teofrasto, Apolônio de Tiana, entre outros da Grécia Antiga que, embora divergissem em alguns aspectos, convergiam para a questão moral da vida não humana em algum nível. É importante não ignorar que a moralidade e a ética independem da legalidade, porque versam sobre o que clama à integridade e à virtude humana. É sobre quem você é como sujeito que reconhece o êthos de suas ações para além do que lhe é concernente. Ou seja, há a prática e o reconhecimento de uma atribuição de valor, e é isso que fazemos, por exemplo, quando rejeitamos a ideia de que animais não são sujeitos de direitos. Isto porque o direito no caso dos animais, não é uma prerrogativa para assegurar privilégios a seres não humanos, mas sim direitos básicos como existir sem correr o risco de sofrer em decorrência da intervenção humana. Tenha em mente que direitos animais não envolvem humanização, não dizem respeito a isso; porque o ato de humanizar animais em si é, na minha concepção, um ato reprovável. Mas por que? Porque reverbera especismo a partir do momento que ansiamos por aproximá-los de nós na tentativa de atribuir valores humanos às suas existências; e isso considero evidentemente errado. Animais não precisam de valores humanos, precisam do reconhecimento de seus valores não humanos, que é o que realmente condiz com quem são, não com quem os tornamos ou queremos que eles sejam.





O que eu acho do projeto de lei da “Segunda Sem Carne”?

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Fotos: Jo-Anne McArthur/G1

O projeto de lei que estabelece a “Segunda Sem Carne” foi aprovado na Assembleia Legislativa de São Paulo, mas acho difícil ser sancionado pelo governador Geraldo Alckmin. Ele vetou até o projeto de lei que proibia o uso de animais vivos no ensino. Sendo que hoje em dia essa prática não é apenas comprovadamente desnecessária como ultrapassada. Além disso, tem o lobby da indústria frigorífica. Mesmo que isso represente apenas um dia, e em órgãos públicos, os frigoríficos farão alguma pressão.

Acho interessante o projeto de lei porque chama atenção para o assunto, ou seja, leva à reflexão até pessoas que nunca deram atenção para essa questão da abstenção do consumo de carne; mas não sei se isso realmente funcionaria. Tenho visto uma confusão em relação à divulgação nos meios de comunicação. Porque se trata apenas de não fornecer carne em estabelecimentos públicos em um dia da semana, mas isso não significa que esses servidores deixarão de consumir carne nesse dia.