David Arioch – Jornalismo Cultural

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A ressonância magnética e a quimera dos metais

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Tive a impressão de que a máquina diminuía e me comprimia na mesma proporção que o som aumentava

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Até esqueci como aquela máquina pode ser grande (Foto: Steward Health)

Depois de mais de dez anos, voltei a fazer outro exame de ressonância magnética. Chegando na clínica, confirmei meus dados, assinei uma nova guia, recebi um crachá e sentei em uma confortável poltrona na sala ao lado enquanto o programa da Ana Maria Braga exibia a história de um arquiteto enfrentando problemas com cupins. Ao meu redor, ninguém falava nada. Todos se mantinham silenciosos, com a atenção voltada para a TV.

Tentei acompanhar o desfecho daquela tragédia moderna, mas foi impossível. Meus olhos se voltavam para a porta, aberta ou fechada, por onde as técnicas apareciam chamando os pacientes. Nessas circunstâncias a minha ansiedade se sobrepõe a qualquer outra sensação. Apesar da grande movimentação, logo ouvi meu nome. Ajeitei a touca e segui meu rumo porta adentro.

Caminhei até um vestiário e a moça disse que retornaria em dez minutos. Como de praxe, tirei minhas roupas e sentei na poltrona onde constatei outra vez como as clínicas figuram mais glaciais em dias de chuva. Até a mais sutil das brisas parece capaz de atravessar paredes e dar baforadas nos desavisados, lembrando que nada na vida é inatingível e que o momento pode ser tão duro quanto um arremedo de cimento.

Sobre a minha cabeça havia um pequeno cofre para guardar pertences como relógios, telefones celulares e outros objetos. O observei com atenção até que uma frase ecoou pela minha mente: “Deixe aí tudo que contenha metal porque senão pode acontecer alguma coisa ruim”, advertiu antes a técnica em ressonância magnética. Para corroborar, li um aviso ao lado da porta, informando que metais podem danificar a máquina e causar graves lesões nos pacientes.

Aquilo me preocupou tanto que mesmo nu continuei deslizando as mãos pelo meu corpo, tentando encontrar algum resquício de metal. “Será que não tem nada de metal no meu corpo? Será? Será?”, me questionei, tão angustiado que não descartei a possibilidade de brotar agulhas de chumbo debaixo das minhas unhas dos pés e fios de alumínio das minhas orelhas.

Cheguei a tirar a touca e esfregar as mãos nos cabelos para me certificar de que não havia granalha de aço no couro cabeludo. Depois de vestir a calça e a camiseta que me deram, fiquei pelo menos cinco minutos em insondável introspecção. E nesse ínterim divaguei tanto que meu corpo ficou dormente, tão letárgico que me senti como semente. Tentei levantar, mas não consegui me movimentar. Meus pés estavam presos num vazio imerso por um todo. “Que estranho! Parece um sinal!”, inferi.

De repente a técnica bateu na porta e me chamou. Então a segui até uma sala enorme. Fazia tanto tempo que eu não passava por uma ressonância que até esqueci como aquela máquina pode ser grande. Assim que deitei e sorri com brevidade, a moça franziu a testa e fez um esgar de desagrado. “Nossa, você usa aparelho! Não tem como tirar?” Respondi que não. Ela me observou por alguns segundos e consentiu.

“Olha, vai fazer um barulho tremendo, terrível, por isso vou colocar esses protetores no seu ouvido. Se você passar mal, é só acionar essa bolinha que tiro você lá de dentro, tudo bem?” Acenei positivamente com a cabeça, deitei fingindo tranquilidade e aguardei o início do exame, já enxergando aquele túnel branco como um crematório disfarçado.

Não me recordava como ele era pequeno visto de dentro. Após dois, três e quatro minutos, minha imaginação já tinha trabalhado como nunca. “Nem faz muito ruído. É um som paulatino e suave. Vou acabar dormindo”, ponderei depois de aproximadamente cinco minutos. Crente de que o exame chegava ao fim, ouvi um estrondo tão grande que meus olhos amiudados pelo sono se agigantaram.

Como fui tolo! O exame nem tinha começado. Junto com o barulho, tive a impressão de que a máquina diminuía e me comprimia na mesma proporção que o som aumentava, fora de cadência. E para agravar mais a situação, um barulho desconcertante soou como uma explosão.

“Caramba, será que aconteceu alguma coisa? E se essa máquina pegar fogo comigo aqui dentro?”, fantasiei, já notando as costas quentes e cogitando mudar de posição. Pior foi quando me recordei do aparelho nos dentes e não encontrei espaço o suficiente para levar a mão à boca. Me limitei a sentir a gengiva esbraseada.

Naquele momento uma salada de filmes macabros e distópicos percorreram minha mente. De “Eraserhead”, de David Lynch, ao trash “O Incrível Homem que Derreteu”, de William Sachs, que assisti escondido na Boca do Inferno quando era criança, divaguei por um universo intempestivo de tragédias.

Não foram poucas as vezes que encostei a língua no meu aparelho para ter certeza de que continuava tudo normal. E o barulho se intensificava. A ansiedade aumentava entre os intervalos porque o silêncio me desconcertava. Havia um tipo satírico de claustrofobia que fazia da minha mente uma refém. Respirei fundo, fechei os olhos e tentei restabelecer a serenidade. Não demorou e percebi que pode existir algo mais até na crua dissonância dos ruídos.

Então o barulho se transformou em música quando associei o que ouvi a filmes como “Corra, Lola, Corra” e “Trainspotting”, e bandas como Ministry, Atari Teenage Riot, Nine Inch Nails e KMFDM. Quando o exame terminou, tive a mais venusta das sensações de quem vê uma luz no fim do túnel. Levantei com o coração acalentado, me despedi da técnica e caminhei ao vestiário, onde uma moça que fez o mesmo exame gargalhava em frente a uma das portas. Vi que ela também usava aparelho nos dentes. Nem nos cumprimentamos. Somente rimos, reconhecendo na criatividade da ficção uma piada em forma de redenção.

O amor de Zoltán

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Preferia cultivar um amor platônico, talvez às avessas na sua peculiaridade heteróclita

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Naquele dia, saí de casa e ouvi através do som ruidoso e sorumbático dos trovões a voz de Zoltán (Arte: Imagine B3liebers)

Foi num dia das mães que perdi o meu melhor amigo, Zoltán, um poeta vegetariano que nunca se considerou poeta. Embora morássemos na mesma cidade, o conheci por meio da internet em 1999. Tínhamos a mesma idade e inúmeras afinidades. Era um jovem de aspecto tranquilo, mas existencialmente buliçoso. Vivia mais dentro da própria mente do que fora dela. Amava as pessoas, só não fazia muita questão de se aproximar delas. Preferia cultivar um amor platônico, talvez às avessas na sua peculiaridade heteróclita. Começou a escrever sobre os animais e os seres humanos na adolescência, e mesmo com o passar dos anos e centenas de obras arquivadas nunca considerou nada do que produziu como “bom o bastante”. Na realidade, não se via como escritor, mesmo escrevendo melhor do que muitos autores profissionais. Apesar da minha insistência, Zoltán nunca quis participar de concursos, festivais ou procurar editoras que pudessem se interessar pelo seu trabalho. Nutria justa mágoa pelo mercado editorial.

“Eles sempre vão privilegiar os escritores das metrópoles, sujeitos que possam trazer-lhes benefícios em curto prazo. Eles defendem que lá é o berço da universalização. Se debruçam sobre o próprio reflexo, ignorando tudo que é produzido fora dos grandes centros, independente de qualidade. E esse tipo de pensamento é partilhado por muitos escritores, logrados pelo próprio pedantismo. Eu particularmente pouco consigo distinguir entre os chamados grandes autores da atualidade. O que vejo com frequência é o enfadonho excesso de academicismo ou escritores que saíram das ‘páginas literárias’ dos grandes veículos de comunicação. Ou seja, gente do meio que nenhuma dificuldade teve em incluir-se mais ainda nele. E muitas vezes soam elitistas e distantes da população em geral com seu hiperbólico requinte. Não é de se admirar que os brasileiros leiam pouco, se quem produz literatura já cria esse distanciamento. Também temos aqueles que se colocam como baluartes da contracultura e publicam tudo que escrevem, sem o menor critério – coisas que não somos capazes de avaliar porque basicamente não possuem estrutura definida. Há quem qualifique isso como arte revolucionária. A história se repete à exaustão. Não existe espaço para quem segue na contramão disso, então não vejo motivo para que eu me meta em algo assim”, desabafou em uma conversa que tivemos em 2003 em uma rede de Internet Relay Chat (IRC).

Nas poucas vezes que saímos juntos pelas ruas de Paranavaí, alguns conhecidos perguntavam se éramos irmãos, tão insólita era a semelhança, já que além dos traços mediterrâneos e da mesma estatura, tínhamos também postura e comportamento bem parecidos. O cenho sisudo, o olhar insondável, entranhado, e um andar lesto e hermético, de quem percorre mais o próprio interior do que o mundo. Zoltán era tão ponderado que até seu sorriso era versado. Nada nele era exagerado, a não ser o amor que descobriu pela primeira vez em 2007 quando conheceu uma moça de São Paulo da mesma idade. Seu nome era Linda e ela se aproximou dele porque gostou de uma prosa poética que ele publicou em seu blog. No texto, Zoltán abordou o amor genuíno como uma livre forma de existir, isenta de posses, e a partir daí desenvolveu uma parábola sobre um peixe que vivia em um aquário e num dia de enchente saltou da janela, partindo com a correnteza.

“O amor para ser verdadeiro não pode ser afugentado. Ele tem vida própria e está acima dos nossos anseios, da nossa existência. Quer maior prova do que a sobrevivência do amor de um Montecchio e um Capuleto após centenas de anos? O amor é uma das poucas coisas da nossa natureza que resiste à morte porque ele não é palpável, é intangível, pode ser imortal, ao contrário de nós. O ódio nunca vai superar o amor porque ele não frutifica na mesma proporção. Além disso, o que o amor enaltece a cólera corrói; e tudo que é deletério mortifica o homem em vida enquanto o amor na sua pureza o sublima”, dizia meu amigo no paradoxal arrebatamento da serenidade.

Zoltán e Linda conversavam todos os dias pela internet e pelo telefone celular. Sua confiança em mim era tão grande que fazia questão de me relatar em detalhes o que sentia por aquela jovem que despertou nele sentimento inédito. Conforme eu o ouvia, seus olhos rutilavam como bolinhas de serendibite. Ele sorria e ruborizava como um bebê reconhecendo o poder da vida nos olhos da mãe. Em todos os sentidos, Linda fazia jus ao nome, e o que mais extasiava Zoltán era o fato de ter encontrado uma moça que mergulhava em sua essência como ninguém. Sobre ela, começou a escrever todos os dias. Criou obras dos mais diferentes formatos e gêneros. Mas nem tudo ele mostrava ou publicava. “Só envio à Linda o que me afaga o coração”, justificou um dia. A conexão entre os dois era tão profunda que um dia estávamos na rua e Zoltán teve um mau pressentimento, uma sensação ruim que o fez transpirar subitamente numa manhã fria.

Quando ligou para Linda, ele soube que ela estava internada em um hospital por causa de um problema gástrico. Algumas semanas depois, Linda sentiu um mal-estar na casa da tia e teve de se deitar. Mais tarde, ela soube que naquele horário Zoltán se envolveu em um acidente perto do Porto São José, quando seu carro quase foi engolido por uma cratera velada por um amontoado de terra. Apesar da distância, se respeitavam e se amavam, entregues a um relacionamento sem contato físico, alimentado por palavras rapidamente transformadas em emoções, sentimentos e sensações.

Eles faziam planos, mas temiam o que poderia acontecer. Talvez a iminente felicidade os amedrontasse. Linda trazia no coração cicatrizes de um velho relacionamento em que flagrou o ex-namorado a traindo com a melhor amiga. Zoltán, que nunca se interessava por ninguém, tinha uma trajetória de vida em que sempre se viu como o lobo da estepe. Com o passar dos anos, e sem jamais terem se encontrado, continuavam se resguardando. Em 2012, Linda adoeceu e nenhum médico descobriu qual era o seu problema de saúde. Temendo ser um fardo para Zoltán, ela o evitava, chegando a passar meses sem usar o celular. Preocupado, ele enviava mensagens e e-mails demonstrando interesse no bem-estar dela.

Continuou escrevendo sobre Linda, não com a mesma intensidade, porém o suficiente para provar que seu sentimento perseverava imaculado. Um dia testemunhei Zoltán com o rosto umedecido quando Linda publicou um novo comentário em seu blog. Alanceados e sensíveis demais, os dois se completavam como ouro e platina no subsolo dos Montes Urais. “Mesmo com as incertezas do futuro, prefiro ter no coração a plenitude de um sentimento lídimo, que faz de mim um ser humano melhor do que um oco pertinaz motivado a buscar nas noites sinuosas o prazer efêmero que nada toca além da carne”, escreveu.

Zoltán era um Werther maduro, com motivações muito mais genuínas do que o protagonista de Goethe, vencido por uma disforme e equivocada concepção do amor. A maior prova disso foi o que aconteceu no dia das mães de 2014. Vivendo em Curitiba, Zoltán foi encontrado morto em seu apartamento, vitimado por um ataque cardíaco. Só consegui localizar Linda um mês depois e entreguei a ela um e-mail que ele me enviou duas semanas antes de sua morte.

Zoltán tinha um problema cardíaco congênito. E ele sabia que não viveria muito. Porém, optou por não dizer nada a ninguém. Passou seus últimos dias de vida fazendo o que mais gostava – escrevendo. Linda caiu em prantos quando soube da tragédia. Sem saber o que dizer, contei a ela que o céu também desabou quando ele morreu. Naquele dia, saí de casa e ouvi através do som ruidoso e sorumbático dos trovões a voz de Zoltán. A chuva parecia especialmente salgada, como lágrima concentrada. “Meu melhor amigo, como protagonista de uma epopeia, não teve a chance de formar sua própria alcateia. Ainda assim, amando morreu como um tipo superior de Romeu”, concluí.

Hoje me surpreendi com o dia das mães porque com muita chuva e uma sequência de trovões não deixei de ver no céu o rosto de Zoltán carinhosamente descortinado por um véu. “O amor de verdade é uma concessão, sobrevive sem vida e até fora do coração. Ele é nosso enquanto vivemos e torna-se imortal quando morremos. Amar você foi o meu maior presente porque através dele mergulhei no mais sublime sonho fremente”, registrou em um pequeno trecho de um e-mail enviado à Linda.

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Dio, a descoberta do bombachinha

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Me surpreendi ao ver no quintal um gavião-bombachinha empoleirado no galho da jabuticabeira

Vivia solto, percorrendo todo e qualquer espaço que lhe agradasse ou atiçasse sua curiosidade

Eu tinha oito ou nove anos. Cheguei em casa e me surpreendi ao ver no quintal um gavião-bombachinha empoleirado no galho da jabuticabeira. Ele era filhote e minha mãe o encontrou ferido nas imediações de um terreno baldio. Cuidou dele e logo ele se recuperou, mas não quis partir. Vivia solto em casa, percorrendo todo e qualquer espaço que lhe agradasse ou atiçasse sua curiosidade. Sua penugem plúmbea contrastava com o céu claro em dias quentes. Eu dizia que ele era o senhor da chuva porque suas penas acinzentadas eram como o firmamento nuvioso. Sempre que alguém me perguntava porque Diodon tinha as penas próximas do pé direito alaranjadas, eu repetia a mesma história que inventei:

“Num dia de pouca claridade ele voou tão alto que o Sol ficou com raiva e apareceu de repente queimando apenas uma pequena porção de suas penas. O susto foi tão grande que até seus olhos azuis mudaram de cor – uma lembrança sem fim de sua teimosia.” Dio era tranquilo e silencioso, porém não gostava de interagir com outros animais. Apenas os assistia à distância, como se do galho onde repousava observasse os súditos de seu reino. Tinha um olhar inquiridor e ao mesmo tempo singelo e lhano. Não era capaz de caçar, então recaía sobre nós a responsabilidade de alimentá-lo com carne moída com carbonato de cálcio em pó.

A primeira vez que ele subiu no meu dedo, senti cócegas. Quando comecei a rir, Dio abriu o bico e emitiu um guincho oxítono e estiolado. Tive a impressão de que ele quis retribuir minhas gargalhadas à sua maneira. Conforme Diodon crescia, meus dedos se tornaram insuficientes para resguardá-lo, e ele decidiu se aninhar em meu braço e ombro, principalmente perto do pescoço, onde aprendeu a me cutucar sutilmente com as garras. Sobre a minha espádua, Dio sempre chamava a atenção de curiosos no centro de Paranavaí. Vez ou outra abria as asas como um leque, reafirmando sua imponência. Seus olhos estalados me davam a impressão de que sua visão atilada contemplava tudo que o cercava, a exemplo de sua audição. Nada passava despercebido, nem mesmo uma folha solitária arrastada pela brisa para dentro de uma boca de lobo.

Ocasionalmente ele se encolhia na presença de estranhos, velando parte do corpo atrás de mim. Era inevitável sentir cócegas e gargalhar ao perceber seu bico ruço ponteando a minha cabeça. Então ele movia os pezinhos à esquerda, até tocar meu deltoide, e me observava com atenção, já ignorando as visitas que ele encarava como intrusão. Apesar do estranhamento que durou meses, os poodles Happy e Chemmy já não eram mais vistos por Dio como ameaças. Ao analisá-los, seu comportamento mudou consideravelmente. Me recordo quando flagrei o caritativo Chemmy lambendo as penas de Diodon. Silencioso, o bombachinha mirava o bico em direção ao céu índigo com ar contemplativo.

Naquele final de tarde, assim que o estrepitoso Happy se aproximou para lamber seu bico, Dio não se posicionou para bicar seu focinho como de costume. A verdade é que não se importou. Talvez nem tivesse notado o que aconteceu e continuou admirando a amplidão celeste, abstraído da terra e lançado aos céus por onde flutuava sob sonhos maviosos como suas penas. Happy estranhou a passividade do gavião e o examinou com expressão exultante e enleada. Os poodles recuaram quando o bombachinha agitou as asas e caminhou até o quintal, em direção à jabuticabeira. Subindo de galho em galho, chegou ao topo. Hesitou por quase um minuto e de repente saltou com as asas abertas.

Durante o voo, Dio guinchava com tanta excitação que chamou a atenção de vizinhos e estranhos que passavam pela Rua Artur Bernardes. Ele estava feliz e até os mais airados percebiam isso. Era como se o céu desanuviado ganhasse um novo dono, um jovem animalzinho que descobriu através da observação que o sopro da vida também subsiste na concessão. Todos os dias à tarde ele voava no mesmo horário. Achando aquilo curioso, comecei a cronometrar a duração de seus passeios e incursões. Uma hora, duas horas, três horas, quatro horas. A cada semana que passava eu notava que menos tempo em casa Diodon ficava. Foi quando me dei conta que seu lar já não era um lugar, mas um espaço inestimado por onde suas asas balouçavam com a pureza de um cavalo alado.

Na última vez que o encontrei em casa, ele bicou carinhosamente a minha cabeça. Suas penas estavam mais vibrantes, assim como seus olhos rutilantes de citrino que me transmitiam astúcia e convicção. Diodon não era mais o miúdo bombachinha que chegou em casa ferido, desnutrido e com poucas penas. Embora não gostasse de abraços, permitiu que eu o envolvesse rapidamente entre os meus, sem sequer apontar suas longas e afiadas garras. O soltei e ele reproduziu o mesmo guinchado da primeira vez em que subiu em meu dedo. Em poucos minutos, Dio foi embora e nunca mais voltou. Não o procuramos porque não há o que encontrar quando a partida é motivada pelo anseio intempestivo de voar.

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Minhas reportagens em projeto de incentivo à leitura

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Inclusão das reportagens no projeto foi feita pelo escritor e professor Antonio Neto (Fotos: Reprodução)

Ontem, fiquei muito feliz ao saber que as minhas reportagens “Sou prostituta sim, acompanhante não” e “Latinha, infância fragmentada pelo crack?” estão sendo usadas no projeto Descobrindo o Ato de Ler o Mundo, de incentivo à leitura, de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, por sugestão do professor e escritor Antonio Neto. O trabalho é desenvolvido com estudantes do último ano do Ensino Médio. Incrível como a textualidade é capaz de transpor fronteiras. Em breve sai reportagem sobre o assunto no meu blog.

As duas reportagens estão nos links abaixo:

//davidarioch.com/2013/02/07/sou-prostituta-sim-acompanhante-nao/

//davidarioch.com/2011/07/13/latinha-infancia-fragmentada-pelo-crack/

Uma lição de amor à vida

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João Mariano surpreende pela capacidade de ver beleza naquilo que passa despercebido pela maioria

João Mariano

O documentário mostra o estilo de vida minimalista do aposentado João Mariano (Foto: David Arioch)

Lançado ontem no YouTube, o documentário João Mariano, um curta-metragem de menos de 15 minutos, produzido com um Nokia Lumia 1020, é o meu mais novo trabalho audiovisual. Em meio a muitas reflexões e lembranças, principalmente reminiscências da juventude e das tragédias familiares, o documentário mostra o estilo de vida minimalista do aposentado João Mariano.

Um senhor de 87 anos que ainda tem muita vontade de viver, apesar de tantas perdas e das limitações impostas pela idade, Mariano surpreende pela sensibilidade e capacidade de ver beleza naquilo que passa despercebido pela maioria. Sente prazer na simplicidade de existir e no privilégio de pensar com a mesma acuidade de quando era mais jovem.

Radicado em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, desde 1955, o aposentado que trabalhou até os 84 anos relembra a infância e a adolescência no interior do Ceará. Também fala sobre a tranquila rotina e as experiências mais impactantes de sua vida. João Mariano tem uma relação especial com a natureza e a vida, e isso nem mesmo os problemas de saúde que surgiram na idade avançada são capazes de desqualificar.

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João Mariano tem uma relação especial com a natureza e a vida (Foto: David Arioch)

O aposentado celebra a vida diariamente à sua maneira e prova que mesmo quando nos tornamos idosos ainda somos crianças e adolescentes. O maior exemplo disso é a passagem em que cita as muitas vezes na infância da década de 1930 em que o pai o chamou para balançar na rede com ele. “Era muito gostoso”, declara sorrindo como petiz o homem de 87 anos.

João Mariano diz como conheceu Clarinda, a namorada com quem fugiu para se casar em 1955, seu primeiro e único amor. Após a separação e o falecimento dela em 2008, o aposentado nunca mais se relacionou com ninguém. “Eu sinto falta dela, de ver ela. Fiquei sozinho e estou até hoje”, enfatiza sensibilizado. Se emociona ao se recordar da morte do filho José Cláudio, vítima de câncer com apenas 42 anos. “Morreu nos braços da irmã dele. Pra mim foi um choque. É uma coisa que tem hora que parece que é mentira, não uma realidade”, lamenta.

O aposentado conta ainda uma exemplar história de honestidade vivida no início da década de 1940, quando era jóquei na região de Iguatu, no Centro-Sul do Ceará. “Meu gosto mesmo era viver até 100 anos. Aproveitar bem do nosso país”, revela rindo. Em seguida, comenta que às vezes fica abalado com o fato de ter visto tanta gente partindo, já que não resta mais ninguém dos seus tempos de infância e adolescência.

Por outro lado, reconhece que estar vivo é uma vitória. Em síntese, o documentário é uma lição de amor à vida. João Mariano ensina que independente do que passamos nada deve ser mais forte do que a vontade de seguir em frente. A trilha sonora do filme é assinada pela banda finlandesa de pós-rock Magyar Posse.

Observação 

Não consegui disponibilizá-lo no YouTube com a qualidade final da produção, mas creio que a perda esteja dentro do aceitável.

Sonya

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Tudo nela transparecia veraz, uma antítese da artificialidade do mundo de concreto que nos envolvia

Lada, a deusa da beleza e do amor de quem Sonya me falou (Arte: Igor Ozhiganov)

Lada, a deusa do amor e da beleza de quem Sonya me falou (Arte: Igor Ozhiganov)

Sempre achei intrigante conhecer pessoas ao acaso, sem planejamento ou intenção. Parece que tudo flui com mais naturalidade, já que não há preocupação em surpreender alguém. Você se vê em um lugar e começa a conversar sem esperar nada da outra pessoa, nem ela de você. Sem tensão, sem ansiedade, existe apenas o momento que pode ser efêmero ou duradouro – e pode ou não se transformar em outra coisa.
Existe beleza no acaso e talvez ela subsista na ausência de expectativas, no fato de que às vezes você pode estar em um lugar simplesmente por estar, para não se perder nem mesmo se encontrar. Clarificando a introdução, vou relatar uma história a ser levada em consideração.

Um dia, na faculdade, assim que terminei um trabalho, me ausentei da sala de aula. Desci a escadaria do terceiro bloco, passei por um grupo de jovens que conversavam tão alto que o papo ecoava pelo prédio e sentei em um banco em frente ao primeiro bloco. Fiquei em silêncio prestando atenção em tudo à minha volta. Havia pouco movimento no pátio, o que era bem previsível, levando em conta que o intervalo tinha terminado.

Ocasionalmente algumas pessoas passavam por mim, indo em direção a outros blocos. As conversas iam desde maledicências até preocupações acadêmicas. Achei inusitado ver moças tão sobejamente bem vestidas que cheguei a inferir quanto tempo não levaram para se arrumar. Roupas caras, postura altiva, nariz hirto, cabelos perfilados quase que geometricamente endossavam no meu ideário a existência de um mundo fátuo em demasia, que aspira a mais tangível das frágeis perfeições. Era belo e triste. Mas eu não estava ali para avaliar ou julgar, a mim isso não significava muito.

“Que me interessava a forma como as pessoas se vestiam?” Eu que ia praticamente uniformizado para a faculdade, quase sempre de calça jeans, camiseta de banda de heavy metal ou algum subgênero e tênis ou coturno. Enxergava o mundo por entre os cabelos de azeviche que deitavam por minha testa e se aplainavam sobre meus olhos escuros como a noite.

No início do segundo milênio, eu já usava um grande labret spike, um piercing alongado e pontudo que fulgurava entre os lábios e o queixo. Até no escuro ele cintilava e atraía olhares curiosos e antevieiros. Perdi as contas de quantas pessoas se aproximaram de mim ao longo de seis anos para fazer perguntas sobre o dito cujo.

Mesmo depois de tantas abordagens, eu continuava explicando que não machucava, que não era difícil de higienizar, que não doía na hora de colocar. “Mas como você beija com isso? Não é desconfortável?”, questionavam. À época, não era comum encontrar pessoas com tal adorno. E foi justamente por causa desse labret spike que conheci uma italianinha de ascendência russa.

Naquela noite, em frente ao Bloco 1, fazia mais de dez minutos que eu estava sentado no mesmo banco. Saí da sala de aula porque não me sentia bem. Então fiquei lá aspirando um pouco da brisa álgida que a noite homiziava e lançava fortuitamente sobre mim. Junto, trazia um punhado de folhas que se juntavam ao redor de meus pés, formando um tapete mesclado de verde e castanho. O tempo passava, e o verdoengo bálsamo da chuva que só ameaçava se intensificava.

“Hoje ela não vem”, prognostiquei, observando o céu parcialmente límpido que há vários dias confundia os meteorologistas. No momento em que decidi me levantar para ir ao banheiro, uma moça se aproximou. Sua voz soava dulcificada e maviosa, carregada de um forte e desconhecido sotaque: “Isso deve doer, não?”, ironizou sorrindo, mostrando o seu labret de bolinha. Respondi que só dói quando caio de queixo no chão – e sorri com brevidade. Depois indagou se poderia se sentar. “Claro, sem problema…”, falei. Seu nome era Sonya e, para minha surpresa, com ela chegou um subitâneo calor outonal que aplacou o frio noturno em velocidade abismal.

Embora fosse estrangeira, falava português com fluência espantosa. Conversamos sobre música e cinema e, sem demora, o papo se transformou numa flama filosófica e existencialista – recheada de sátiras, aforismos improvisados e comentários bifurcados e sem sentido. O comportamento humano, o sentido da vida e nosso papel no mundo figuravam caricatamente entre os tópicos, assim como a essência do inexistente. “As coisas podem fazer sentido, mas nem sempre precisam, certo?”, “O nada não tem necessariamente que ser somente nada nem mesmo mais do que nada.” “Poder não significa dever, senão a liberdade intelectual morre, e com ela a nossa capacidade de fascinar, não é mesmo?”

“Como alguém pode saber que gosto tem a noite se não for capaz de sorver o seu sabor a olhos fechados, reconhecê-la a partir do seu perfume?” “Não quero ter uma existência mecânica, que não me permita ter tempo para pensar e questionar. Se me render completamente ao trabalho, temo que posso deixar de existir. Talvez em alguns anos não veja mais nada diante do espelho. Terei de amargar o desaparecimento do meu próprio reflexo.” “Ni ni ni ni ni.”

Olhando ao nosso redor, parecíamos dois estranhos, dispersos entre a comédia e o drama de um universo matizado, como aqueles que misturam pessoas e personagens de desenho animado. Éramos nós mesmos – desvelados, sem necessidade de simulação – e aquilo alimentava a nossa humanidade ruidosa em abstração. Tive a mesma sensação de quando se é criança e sai para brincar e fazer o primeiro amiguinho. Em poucos minutos, seus olhos não veem mais estranheza e você percebe a leveza de um contato que no limiar da vida é tão essencial e substancial quanto segurar a mão maternal, sentir o excelso e doméstico calor humano.

Depois daquele dia, continuamos nos encontrando. E meu fascínio e deferência por Sonya evoluía até na proporção de tudo que não dizíamos embora entendíamos. Falar, tão necessário quanto silenciar. A vi como uma dessas raras pessoas capazes de fazer alguém mergulhar dentro de si mesmo para se redescobrir maior, mais vivo, mais leve, mais diáfano, mais livre e outros tantos mais.

Ela irradiava alegria; não do tipo postiça, arrebatadora, efusiva ou imponderada, mas plácida, lídima e mélica como seus cabalísticos olhos castanhos-esverdeados; por si só luzes que iluminavam mais do que qualquer lâmpada em nosso entorno. Seus cabelos triguenhos e longos chispavam como fios de ouro contornando seus traços finos e graciosos, realçando ainda mais sua venustidade.

Mesmo sem batom, seus lábios coravam como morangos frescos e silvestres. Quando sorria, exibindo primorosos dentes níveos, suas covinhas brotavam com doçura, mais bela que a mais portentosa iluminura. Tudo nela transparecia veraz, como uma antítese da artificialidade do mundo de concreto que nos envolvia. Aprendíamos mais sobre a vida e a natureza humana nas entrelinhas de nossos olhos. Não era difícil, se nos enxergávamos um no outro, na completude da espontaneidade.

Numa noite em que não tive aula, nos encontramos em seu apartamento. Fomos à cozinha e a ajudei a preparar piroshki, um pãozinho assado que ela recheava com legumes e vegetais. Comemos e sentamos no sofá para assistir “Ladri di Biciclette”, do magistral neorrealista Vittorio de Sica. Na cena em que roubam a bicicleta do miserável colador de cartazes Antonio Ricci, notei meu ombro direito úmido. Quando olhei para o lado, vi Sonya chorando, com os olhos inflamados e a pele ebúrnea tornada vermelha. Sorri, a cutuquei e com inocência fiz troça de sua sensibilidade à flor da pele. Ela escondeu o rosto entre as mãos miúdas, mudou o cenho e retribuiu me dando dois beliscões.

Ao final do filme, me contou a história de Lada, a deusa do amor e da beleza na mitologia eslava. “Ela possuía atributos parecidos com Freya, Isis e Afrodite. Tinha cabelos longos e dourados. Preferia eles em tranças, com uma grinalda de grãos, o que simbolizava abundância. Mas também podia mudar algo na sua aparência, caso não quisesse ser reconhecida. Lada foi muito popular entre os antigos eslavos porque ela era capaz de substituir o abraço frio do inverno por um calor morno, aprazível”, narrou.

Mais tarde, com a chegada de uma moça com quem Sonya dividia o apartamento, caminhamos até a entrada do elevador, onde nos despedimos com um abraço que durou quase cinco minutos. Moradores passaram por nós se queixando do frio que não sentíamos. Se surpreendiam ao me ver de camiseta, com a jaqueta apoiada no braço direito, despreocupado com o que me aguardava nas ruas. Eu sorria e fechava os olhos, absorvendo o bálsamo orgânico de seus cabelos e os predicados que a vida emanava de seu corpo.

Lá fora, a garoa caía e desaparecia antes de tocar minha pele. Muitos caminhavam rapidamente segurando uma bolsa ou uma pasta sobre a cabeça, com receio das gotículas de água suspensa. A mim, pouco importava. Atravessei alguns quarteirões a pé, com o corpo tão aquecido que nem as rajadas de vento que torciam os galhos mais finos das árvores me atingiam. Sentia os braços calorosos de Sonya em torno de mim, mais macios que lençóis de cetim. Na metade do caminho, o sereno se dissipou e o céu turvo por um instante clareou. Alguns passantes apontaram para o firmamento, onde um rosto feminino em movimento sorria enquanto em primazia se desfazia.

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Written by David Arioch

February 23rd, 2016 at 7:22 pm

A maldade também envelhece

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Um dos passatempos de Adamantino era pesar as porções de comida servidas aos empregados

(c) The Ashmolean Museum of Art and Archaeology; Supplied by The Public Catalogue Foundation

Sempre fiquei intrigado ao notar como as pessoas se sensibilizam quando veem algum velhinho caminhando sozinho (Arte: The Ashmolean Museum of Art and Archaeology)

Andando pelas ruas, sempre fiquei intrigado ao notar como as pessoas se sensibilizam quando veem algum velhinho arciforme ou maltrapilho caminhando sozinho. Mesmo sem interagir com o personagem, dizem à distância segura: “Coitadinho do velhinho… Cadê a família desse senhor? Meu Deus! Como podem deixá-lo nessa situação?” Claro, uma reação natural e previsível, até porque temos tendência a sentir comiseração pelos desamparados.

Curioso, um dia decidi me aprofundar na história de um idoso que vaga pelo centro da cidade e pelos bairros centrais recolhendo materiais recicláveis. Para preservar sua identidade, vou chamá-lo de Adamantino, não por acaso, mas sim por uma questão criteriosa de significação. Adamantino tem o perfil ideal para despertar inclusive a maviosidade dos mais empedernidos.

O protagonista da minha história tem baixa estatura, mais de 80 anos, cabelos brancos como algodão descaroçado, olhos graves e pele pintalgada pela frequente exposição ao sol. Também é corcovado – suas costas se elevam quase à altura do topo da cabeça. Ao longe, criam a ilusão de que ele transporta algo sobre a própria cordilheira.

Meu primeiro contato com Adamantino foi por acaso, quase em frente de casa. Ele estava revirando o lixo do vizinho e me aproximei com dois sacos cheios de latinhas. “O senhor quer essas latinhas?”, perguntei, observando suas costas disformes viradas para mim. Eram tão alterosas que só não encafurnavam sua nuca e suas orelhas por causa da sua baixa estatura. Me compadeci de vê-lo naquela difícil situação. Imaginei que talvez minha atitude lhe poupasse um pouco de tempo e quilômetros de infecundas pernadas.

Mesmo após ouvir minha voz, o idoso não mudou de posição. Manteve as mãos trigueiras, finas, calejadas, enrugadas e afoitas mergulhadas num lixo onde ele disputava espaço com tresloucadas moscas-varejeiras. O aroma pestilento em nada o incomodava. Talvez estivesse tão acostumado com a podridão que seu olfato fosse capaz de extrair perfume de chorume.

Enquanto eu segurava os sacos, ele olhou para mim rapidamente e disse: “Tá! Passa pra cá! O que mais você tem lá na sua casa?”, interpelou, agarrando os sacos com tanta firmeza que chegou a espremer com violência as latinhas. Respondi que iria ver. Sem dizer mais nada, mirou o outro lado da rua, ajeitou as latinhas dentro de um velho carrinho amadeirado e arrastou os chinelos até a próxima casa. Retornei em menos de três minutos para lhe entregar uma caixa com garrafas pet e questionei se ele também aceitava papelão.

“Quero papelão não! Isso aí não vale nada!”, respondeu com o cenho franzido – um olhar naturalmente agreste combinando com a boca árida que me lembrou chão sequioso em tempo de estiagem. O crispado das mãos e dos braços mirrados formavam caminhos que não se encontravam, traços que se perdiam na inexatidão, na sinuosidade descalabrada da sua própria vida, imaginei, incerto de coisa alguma.

Me despedi e, sem que ele dissesse nada, continuei o espiando de casa. Apesar de tudo, ainda me parecia uma figura miúda e triste. Fiquei pensando em como seus olhos castanhos e opacos eram enigmáticos. Em profundidade, eram como reféns da vacuidade. E logo percebi que ele não gostava que lhe olhassem diretamente nos olhos – desviava e se apoiava no carrinho com tanta força que as unhas riscavam o madeirite.

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“Coitadinho do velhinho… Cadê a família desse senhor? Meu Deus! Como podem deixá-lo nessa situação?” (Arte: David Simons)

A barba por fazer, a roupa esfarrapada, saburrenta e encardida, os cabelos desgrenhados, o andar remansoso e a ausência de dois botões da camisa, que revelavam um peito ossudo e abissalmente avermelhado – coberto por micoses, são predicados que fizeram de Adamantino um querido desconhecido. “Oi! O senhor precisa de ajuda?”, perguntou uma moça encostando o carro ao lado do idoso. Ele levantou os olhos bruscamente e respondeu algo que não consegui entender. Ela fez um comentário e partiu. A cena se repetiu mais duas vezes com outros personagens.

Depois daquele dia, não resisti em investigar a vida de Adamantino antes de se tornar aquele velhinho por quem tantos se compadeciam. Descobri que ele viveu em Paranavaí nos tempos da colonização. Então se mudou e retornou somente quando virou um andrajoso. Chegou ao Noroeste do Paraná em 1950. Era jovem e cheio de sonhos, e o mais importante deles envolvia maquinação.

Com falsa escritura, envelhecida com excremento de grilo, se apropriou de um sítio a 20 quilômetros da área urbana. Em menos de cinco anos, comprou três fazendas. Conseguiu ampliar rapidamente o patrimônio. Fez amizade com cafeicultores e contratou um “quebra-milho” para assaltá-los, deixando os produtores à própria sorte, correndo risco de falência. Se postulando como amigo e salvador, aparecia nos momentos mais críticos emprestando dinheiro a juros baixos para que os beneficiados não precisassem abandonar a produção de café.

Assim que a soma era investida maciçamente no plantio, ele aguardava a maturação dos cafeeiros. Antes do início da colheita, pagava para que os “quebra-milho” invadissem os cafezais de madrugada esparramando estrategicamente centenas de brocas-do-café pelas plantações. Em pouco tempo, a praga dizimava os cafezais. Com o prejuízo, as vítimas não conseguiam honrar os empréstimos e eram obrigadas a liquidar a dívida repassando as propriedades a Adamantino.

Tirânico, um dia ele expulsou a filha de casa porque descobriu que ela namorava às escondidas o filho de um colono nordestino. “Que diabos um desgraçado desse pode trazer de benefício pra nossa família? Que suma daqui ela e esse crápula sem eira nem beira!”, justificou depois de arrastar a jovem pelos cabelos, a lançando contra um espigão de coroa-de-cristo que ornamentava as rebarbas do descampado em frente ao casarão. A moça nunca mais voltou para casa, nem o pai autorizou a esposa ou um dos outros três filhos a procurá-la. Mais tarde, soube que a jovem passava por dificuldades financeiras, mas deixou claro que quem tentasse ajudá-la teria o mesmo destino.

Um dos passatempos de Adamantino era pesar as porções de comida servidas aos empregados. “Não quero perdição. Antes comer pouco e render no serviço do que inchar o bucho e ficar de ‘gracice’ por aí, ‘amendoando as orelhas’ [dormindo escondido]. A fome motiva o infeliz a trabalhar mais pra poder comer outra vez”, justificava. Embora gozasse de grande fortuna, às vezes, quando precisava que alguém resolvesse algum problema na cidade, obrigava um dos filhos a percorrer o trajeto a pé para não gastar dinheiro com combustível, alegando que não seria difícil arrumar carona para voltar para casa, dividindo o espaço da carroceria com porcos e galinhas enviados para o abate.

Cobiçoso e insatisfeito, Adamantino preparou um plano para se apropriar da fazenda do amigo que o trouxe a Paranavaí. Chovia muito no dia em que mandou um empregado bater na porta da casa de Rui. O som do aguaceiro era tão intenso que era impossível ouvir quem chegava e quem saía da fazenda. Reconhecendo o visitante, o homem permitiu que ele entrasse. Quando Rui se posicionou para guardar a pardacenta capa de chuva, Matraca tirou uma pistola da algibeira e atirou contra o anfitrião.

Os dois balaços nas costas, à queima-roupa, deixaram o homem agonizando no chão, com olhos perdidos, sem entender a motivação do crime. Ladeado por uma poça de sangue, e ciente de que a morte logo lhe surrupiaria a vida, Rui se esforçou para agarrar a perna do criminoso com a mão direita e balbuciar com muita dificuldade: “Sei que foi Adamantino que te mandou. Diga a ele que, ao contrário da minha, a vida dele vai ser longa, tão longa que ele vai desejar ter morrido primeiro.”

Em menos de minuto, dois rapazes desceram pelas escadas e não tiveram tempo de reagir. Dois tiros depois, rolaram, caindo mortos aos pés do quebra-milho. A sangue frio, chutou as vítimas para ver se reagiam e partiu satisfeito com o desfecho da empreitada. Pelo trabalho, Matraca ganhou a escritura de uma fazenda no Mato Grosso, para onde fugiu na mesma noite. Antes passou na delegacia assumindo a autoria do crime. Após a confissão, o liberaram. Matraca nunca mais foi visto.

Na madrugada do crime, Adamantino foi até a fazenda de Rui com a polícia. Havia um nevoeiro tão denso que pouco se via no horizonte, onde os cafeeiros pareciam imersos num vazio sempiterno. No interior da casa, o homem conteve o sorriso quando viu Rui caído e sem vida. A alegria se transformou em tristeza ao se deparar com um dos jovens aos pés da escada. Lá estava Nestorzinho, ferido mortalmente com um tiro no peito. Matraca, que não conhecia o filho mais novo de Adamantino, matou o rapaz por engano, crente de que era filho de Rui.

Quando a família do grileiro descobriu a verdade sobre o crime, não fizeram alarde nem ameaçaram denunciá-lo. Simplesmente o abandonaram, deixando para trás toda a riqueza e os privilégios conquistados em um período de dez anos. Em 15 dias, a casa enorme da fazenda já não abrigava mais ninguém, a não ser Adamantino e seu próprio dinheiro, estocado até dentro de buracos no quintal. Alguns empregados também se afastaram do homem, com receio de que ele atraísse algum tipo de danação eterna.

Sem saber o que fazer com o capital, Adamantino redescobriu o seu propósito quando uma sequência de geadas o levou à falência. O que restou de sua fortuna, gastou procurando a família em vão. Há quem acredite que sua família partiu para Portugal, onde viviam os pais da ex-esposa. A última vez que vi Adamantino em Paranavaí foi no ano passado. Ele saía de uma casa abandonada, acompanhado de um adolescente que arrastava longos e lustrosos fios de cobre.

Entre o portão e a calçada, o velho tirou um bolo de dinheiro do bolso sujo da calça surrada, separou duas notas e entregou ao garoto que partiu abespinhado, como se não tivesse recebido o combinado. Adamantino sorriu; foi a primeira e única vez que o vi mostrar os dentes. Enfiou muitos metros de fio de cobre dentro de um saco escuro, armazenou tudo no carrinho e o empurrou por uma curva tranquila, ladeado por uma calçada de mosaico português. Mais adiante, os paus-d’arco lançavam flores em seu caminho. E logo uma senhora parou o carro ao seu lado e perguntou: “Parece que o dia está muito difícil pro senhor. Precisa de alguma coisa?”

Seguindo em direção oposta, lembrei da minha passagem preferida de Eugenia Grandet, de Balzac: “Quando o cura da paróquia veio ministrar-lhe a extrema-unção, seus olhos, mortos na aparência desde algumas horas, reanimaram-se à vista da cruz, dos candelabros, do repositório de água benta, de prata, os quais ele mirou fixamente, mexendo pela última vez a narina. Quando o padre aproximou-lhe dos lábios o crucifixo de prata dourada para fazê-lo beijar a imagem de Cristo, Grandet fez um gesto medonho para agarrá-lo, e esse último esforço custou-lhe a vida.”

Curiosidades

Quebra-milho significa pistoleiro, jagunço, capanga.

O personagem que me inspirou foi embora de Paranavaí anos antes de eu pensar em escrever a história “A maldade também envelhece”.

A primeira etapa da recuperação de Jessé Piedade

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Ex-morador de rua começa sua trajetória para se livrar do alcoolismo

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Jessé se comprometeu em mudar de vida (Foto: Guimarães Junior)

Demoramos um pouco para achar hoje de manhã a Casa da Misericórdia, em Apucarana, no Norte do Paraná, onde o ex-morador de rua Jessé Piedade começou uma nova trajetória para se livrar do alcoolismo. Inclusive penso até em escrever uma crônica sobre a aventura até encontrarmos o lugar certo. No mais, a viagem foi tranquila. Chegando lá, nos surpreendemos. A Casa da Misericórdia me parece um santuário, inclusive em muitos momentos me recordei do livro homônimo de William Faulkner sobre a face bucólica do cenário rural do Sul dos Estados Unidos.

Ao lado da rodovia, à esquerda, na saída de Apucarana para Curitiba, atravessamos um elevado trilho de trem, onde um sinal verde permitia a nossa passagem, mas não uma visão clara do que estava por vir. Ainda assim continuamos descendo, sem qualquer certeza de que finalmente encontraríamos por aquelas bandas a Casa da Misericórdia. Depois de percorrer quilômetros de um cascalho misturado a pedregulhos, observamos em meio a um cenário campestre, muito bem arborizado, por onde despontavam araucárias de proporções colossais, algumas edificações brancas como neve.

Subimos por uma estradinha ladeada por uma lagoa, passamos por uma ponte de madeira, um pomar e uma horta. Logo vimos muitos homens nos observando nos mais diversos pontos da casa de recuperação. Havia desde jovens a idosos – papeando, lendo, literalmente pastoreando ovelhas e curiosos para saber quem chegava.

Descemos do carro, cumprimentei os que nos observavam, e alguns metros acima fiquei admirado com a maneira como a vegetação nativa envolve a Casa da Misericórdia, reafirmando sua condição de santuário. Lá, onde parece impenetrável o sol escaldante, a realidade urbana chega a ser desinteressante, ofuscada por um frescor amarante. Mais ao alto, notei uma igrejinha de moldes clássicos, onde um senhor barbudo de mais de 60 anos se inclinava sobre um violão e dedilhava as cordas, atraindo um pouco de atenção e sorrisos.

Me aproximei do lugar mais movimentado da casa e perguntei se alguém poderia me dizer onde encontro Henrique, diretor da Casa da Misericórdia. “Ah, o Henrique saiu, mas ele me avisou que você viria. Já está tudo certo”, disse Canarinho sorrindo, um ex-alcoólatra que abandonou o vício há anos e hoje ajuda na coordenação da casa. Apresentei Jessé Piedade e falei um pouco de sua história. Canarinho o motivou, mas deixou claro que a recuperação vai depender da própria força de vontade de Jessé.

“Aqui a gente não segura ninguém. A pessoa tem que gostar de estar aqui. Eu, por exemplo, moro aqui há mais de três anos. Não quis mais partir. Agora quando a pessoa desiste do tratamento, o que fazemos é avisar quem o trouxe aqui”, garante num tom de voz cordial e sincero.

Jessé deixou claro que entendeu o recado e comentou que se identificou muito com o lugar, praticamente um pedaço de paraíso onde a fragilidade pode ser substituída por força e segurança. Lá, também encontramos Everton Luiz Rodrigues, um rapaz que já conhecíamos. Artista de rua e sem residência fixa, ele está passando uma temporada na Casa da Misericórdia enquanto aguarda um novo chamado da direção do Hospital Regional João de Freitas, de Arapongas, onde faz tratamento cardíaco.

Pouco tempo depois, Henrique chegou, me apresentei e repeti a história de vida de Jessé Piedade. Quando falei da cobra chamada Sogra, com quem Jessé circulava pelas ruas de Paranavaí, o diretor da Casa da Misericórdia achou graça. Em seguida, declarou que ficou feliz em recebê-lo e deixou claro que agora os bons resultados vão depender do recém-chegado.

Ao sairmos do local, percebemos um certo pesar de Jessé, já preocupado com a chegada de visitas. Entretanto, ele admitiu que vai lutar para provar que a vontade de renascer é maior do que o destemor de morrer. Confortante também foi ver de longe, quando descíamos pela mesma estradinha que nos trouxe, Jessé rindo, conversando com Everton Luiz. Agora o ex-morador de rua tem mais um amigo e um motivo a mais para se sentir feliz na nova casa.

Saiba Mais

Jessé Piedade é bem conhecido em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, onde há alguns anos se tornou morador de rua em decorrência do alcoolismo.

O que eu não sabia sobre hérnia de disco

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Me animei com a possibilidade de me ver curado, sem precisar mais me preocupar tanto com a lombar

Após a confirmação do problema, Torino falou pra eu ficar de bruços (Imagem: Reprodução)

Após a confirmação do problema, Torino falou pra eu ficar de bruços (Imagem: Reprodução)

Tenho hérnia de disco desde os 20 anos. Apesar disso, levo uma vida normal, inclusive faço muitos exercícios que exigem bastante da coluna lombar. Porém, como qualquer outra pessoa que tem uma rotina intensa de treinamento com pesos, ocasionalmente acontece de eu cometer um pequeno deslize e sentir as consequências no dia seguinte.

Uma vez, em 2014, comentei com um amigo sobre o meu infortúnio, explicando que em situações como essa preciso ir com calma até me recuperar completamente. Solidário, ele sugeriu que eu procurasse um especialista conhecido como Torino Massagista, um sujeito com excelentes referências que viveu alguns anos em Nanquim, na China, onde estudou técnicas milenares para tratamento de hérnia de disco, artrose e escoliose, entre outros problemas de coluna.

Gostei da sugestão e me animei com a possibilidade de me ver curado, sem precisar mais me preocupar tanto com a lombar em caso de mau jeito durante os exercícios. Liguei para o massagista numa manhã de quarta-feira e agendei uma sessão para as 16h de sexta. Às 15h40, acionei o interfone da referida clínica situada em um bairro residencial de Paranavaí.

Fui recebido por um rapaz sorridente, e com expressão dúbia, que mais gesticulava do que falava, me lembrando um mímico. “Seja bem-vindo, senhorino”, disse ele atrás de um balcão, segurando um livro de autoajuda. Lá dentro, encontrei dois homens de meia-idade sentados em poltronas individuais bem confortáveis. Havia uma terceira poltrona vaga, então me acomodei e comecei a observar o ambiente enquanto não chegava a minha vez de ser atendido.

O local era extraordinariamente limpo e exalava olência maviosa que não fui capaz de identificar; uma suposta e agradável combinação de ervas. O piso claro de granito arabesco cintilava, atraindo meus olhos e me permitindo ver no chão o meu próprio reflexo. Em uma mesa de centro, também de granito, havia muitas revistas de saúde, principalmente sobre terapias alternativas. O mais curioso é que não eram velhas como a maioria que encontramos em consultórios.

Durante a minha distração, ouvi alguns sons estranhos com brevidade de um ou dois segundos, embora baixos e indistinguíveis, vindo de duas direções diferentes da clínica. Alguém parecia estar com muita dor. Talvez o tratamento fosse além das minhas expectativas, minimizando um pouco a minha volúvel condição.

De repente, ouvi passos vindo do corredor à direita. Um homem de estatura mediana, beirando os 40 anos, caminhou com satisfação, exibindo dentes curtos numa boca larga. Se aproximou da recepção à minha esquerda e antes que dissesse alguma coisa, o recepcionista questionou se ele iria querer ser recebido no mesmo dia e horário na semana seguinte. “Pode apostar que sim!”, respondeu, mantendo a voz relativamente baixa e me observando com desconfiança.

Assim que o homem saiu da clínica, um camarada que conheço há mais de dez anos, inclusive participei de um jantar em sua casa, onde fui muito bem recebido por sua mulher e filhos, deixou uma sala no corredor à direita. Quando me viu, a expressão serena e o sorriso lacônico foram substituídos por uma fisionomia sisuda – digo até que notei um olhar sobressaltado. Não entendi a reação e me mantive em silêncio. Para minha surpresa, ele passou ao meu lado, me ignorou, abriu a porta e foi embora.

Aguardando a vez, um senhor barbudo me cumprimentou e perguntou se já estive ali. Respondi que não e ele comentou que frequentava a clínica há dois anos. “Meu jovem, este lugar mudou minha vida. Hoje sou outro homem, bem mais realizado em todos os sentidos”, garantiu, acrescentando que sempre teve o apoio da esposa.

O sujeito seguia elogiando a clínica no instante que o recepcionista atendeu o telefone e me chamou, sem dizer meu nome. “O senhor vai ser atendido agora. Vamos lá?” Me levantei e segui o rapaz. Assim que ele abriu a porta, pediu que eu tirasse as roupas, ficando somente de cueca, e me deitasse em uma mesa de massagem tão confortável que lembrava uma cama da melhor qualidade.

Enquanto eu me despia, observei que havia grande instrumentária no local, até mesmo penduradas nas paredes claras com inscrições praticamente pictóricas, e eu não tinha a mínima ideia para que servia. Me parecia pouco usual, mas concluí que talvez fossem ferramentas trazidas de lugares longínquos da Ásia. Até aquele momento, interpretei tudo que vi de diferente na sala como resultado de um atendimento diferenciado.

Um minuto depois que deitei, o recomendado Torino Massagista se aproximou de mim, se apresentou e questionou se o motivo daquela sessão era uma hérnia de disco. Após a minha confirmação, ajeitou o jaleco e falou pra eu ficar de bruços. Apesar de considerar a posição desconfortável, não quis parecer descortês ou estulto, e acabei acatando ao pedido.

Do outro lado da sala, ele ligou um pequeno aparelho de som que tocava uma música transfigurada e malemolente, um tipo curioso de pop letárgico estrangeiro. Na sequência, reparei que a fluorescência do ambiente caiu consideravelmente. Havia também um aroma exótico e frutado no ar. Não sei como, mas o local já não estava tão claro. “Feche os olhos e sinta a energia fluindo. Deixe tudo acontecer”, recomendou.

Em silêncio, senti um corpo estranho, algo úmido, quente e sulcado encostando no meu braço direito. Quando abri os olhos, o tal do massagista estava rebolando, usando uma cueca preta de couro sintético e zíper, por onde sobressaía o próprio falo rijo e apoiado em uma das mãos. “Você é louco, cara! Que isso? O que tem de errado contigo?”, perguntei. Surpreso e igualmente constrangido, o sujeito argumentou que aquela não era uma clínica de verdade.

Sem querer mais explicações, saltei da mesa, limpei meu braço com uma toalha de papel, vesti minhas roupas em segundos e atravessei o corredor a passos céleres. Na sala de espera, o homem com quem conversei antes declarou com um sorriso indecoroso, seguido por uma piscadela: “Não falei que o serviço é de primeira?” Não respondi. Simplesmente abri a porta e ganhei as ruas, ciente de que hérnia de disco também é um código para outra coisa que eu nunca quis saber exatamente o que é.

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Um papo com Augustinho Borges

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Eu e Augustinho Borges conversando na Fundação Cultural de Paranavaí (Foto: Amauri Martineli)

Eu e Augustinho Borges conversando na Fundação Cultural de Paranavaí (Foto: Amauri Martineli)

Eu e Augustinho Borges conversando na manhã de 15 de dezembro de 2014 na Fundação Cultural. Augustinho é uma figura histórica de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Até hoje guarda um cheque de 68 mil cruzeiros assinado pelo controverso capitão Telmo Ribeiro, homem respeitado e temido em Paranavaí nos tempos da colonização.

Até 1964, o capitão foi um dos maiores clientes de Borges na empresa Reta Táxi Aéreo. “Era muito educado e só andava bem vestido. Tinha um Pontiac automático que chamava atenção por onde passava”, lembra. Augustinho jamais se esqueceu do dia em que recebeu uma ligação do ex-governador Leonel Brizola pedindo que ele buscasse o corpo do seu cunhado Raphael Azambuja, covardemente assassinado na Gleba Areia Branca do Tucum a mando de grileiros. O corpo de Azambuja foi enviado para Porto Alegre em um táxi-aéreo da Reta.