David Arioch – Jornalismo Cultural

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A vivissecção também ensina valores antropocêntricos e especistas, de que animais são objetos que podem ser jogados fora

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“Para que a pesquisa continue, é preciso afastar qualquer sinal de compaixão, e acreditar que eles são objetos, não seres vivos”

Os animais são usados há cerca de 300 anos em uma prática bastante consolidada dentro das instituições de ensino. A maioria das pessoas não sabe, mas para a formação de biólogos, profissionais da área de saúde, geralmente eles são obrigados a passar pela prática de vivissecção, que consiste basicamente em causar um dano ao animal, ou abri-lo ainda vivo.

Ou então usar o cadáver de um animal que foi sacrificado ou morto para aquele tipo de prática pedagógica, para ilustrar conhecimentos que já são sabidos. Vivissecção quer dizer “cortar vivo”, mas esse termo é aplicado hoje a qualquer forma de experimentação animal. A partir do século XIX essa prática se intensificou, e hoje é uma poderosa indústria que produz equipamentos e o que eles chamam de “produtos”.

É comum o uso de cachorros para ilustrar o sistema cardiorrespiratório. É uma prática de fisiologia bastante antiga e tradicional, que consiste em anestesiar um cão, abri-lo, e injetar algumas substâncias para ver como o sistema cardiorrespiratório responde a diferentes substâncias. Então isso é um exemplo dentro de uma série de outros que implicam técnicas de sutura, injeção de “n” substâncias, provocação de queimaduras, indução de fome, indução de estresse.

Depois que eu cumpro com os objetivos da prática, eu jogo o animal no lixo. Geralmente são animais saudáveis, provenientes de biotérios, que são lugares dentro das instituições que criam os animais para essas finalidades. Em alguns casos, esses animais são provenientes de centros de controle de zoonoses.

Peças, encomendas, produtos, modelo, material de estudo – são resumidos a isso. Para que a pesquisa continue, é preciso afastar qualquer sinal de compaixão, e acreditar que eles são objetos, não seres vivos. No começo, o estudante pega um animal, corta e se sente mal com aquele ato. Um desconforto moral, um desconforto físico. Mas se sente mal. Com a repetição, ele já passa a sublimar isso.
Então no final do curso, ele já está cortando numa boa, sem qualquer problema. Então o que é isso? Isso é um processo de dessensibilização pelo qual o estudante passa. No final, ele está mais frio em relação à vida. Ele já “coisificou” a vida na frente dele.

Quando eu corto um cachorro para estudar anatomia, eu aprendo muito mais do que anatomia. Aprendo os valores antropocêntricos e especistas, de que aquele animal é um objeto que eu posso jogar fora. Existe uma série de conteúdo ocultos que são transmitidos de arrasto à prática, e que não estão explicitados no currículo oficial, mas eu aprendo.

Um dia, a gente estava aprendendo a dar injeção em uma égua. Havia 200 alunos dando injeção nela, até que chegou um momento em que um aluno acertou a jugular dela e estourou uma veia. Começou a sangrar muito, e uma das alunas foi lá e começou a estancar o sangue. Só que veio o resto e começou a aplicar do outro lado, e a professora incentivando: “Não! É assim!” Foi horrível! A gente tem dez professores e sete deles falam: “Gente, tadinha nada! Eles estão aqui pra isso!” Nenhum vem dar uma força e falar:

“Não! Eu também acho que isso é errado.” Nenhum! E falam: “Nós temos que sacrificar alguns animais para que vocês possam salvar outros na profissão.” Isso acontece porque a estrutura da universidade está de tal maneira interpenetrada dessa recomendação atribuída a Claude Bernard, de que o cientista para agir profissionalmente ele tem que ser frio em relação ao trato com os animais, que você falar em piedade, dó, compaixão, não combina.

Fui treinado para salvar vidas, e de repente vou lá e uso um cachorro para um aluno aprender a fazer uma cirurgia no estômago e mato o cachorro. No dia seguinte, estou salvando um cachorro naquela mesma cirurgia. Adiantou eu operar? Matei um para salvar o outro. É como um médico operar um cara lá e matar o sujeito para aprender a salvar outro.

Não tem muito critério para utilizar esse método, usa porque é mais fácil. Tem um canil atrás da faculdade, eles pegam um cachorro onde é conveniente, levam para o laboratório e não precisa fazer nenhum esforço. Atualmente, o pessoal do segundo ano [de medicina] está fazendo a primeira experiência com os ratos, que é aquela de injetar estricnina no estômago ou no intestino, e os ratos começam a ter convulsões; alguns ficam com as entranhas todas para fora – intestino, estômago.

O rato morre, mas antes fica convulsionando até o final. O pessoal está me mandando mensagem [agora] de como foi a experiência, o que isso adicionou. Pelo menos quem está escrevendo aqui não ficou satisfeito com esse tipo de aula. Em síntese, você ensina o aluno a ter preconceito com os diferentes. O animal é diferente dele: “Eu tenho autoridade de sacrificá-lo.”

Thales Tréz, biólogo e professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal).

Ana Paula de Sá, estudante de medicina veterinária da Universidade Anhembi Morumbi

Irvênia Prada, professora titular emérita da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.

Marco A. Gioso, professor do departamento de cirurgia da FMVZ.

Carlos Bustamante, estudante da Faculdade de Medicina do ABC.

Odete Miranda, cardiologista e professora da faculdade de medicina do ABC.

Excertos de “Não Matarás”, documentário lançado em 2005 pelo Instituto Nina Rosa. O filme critica a vivissecção, os testes em animais, ao revelar como os seres não humanos são explorados de forma desnecessária e cruel em um contexto de banalização da vida animal.

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“Fat, Sick & Nearly Dead”, um documentário em que vidas são transformadas pela alimentação vegetariana

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Documentário mostra homens perdendo dezenas de quilos se alimentando de frutas e vegetais (Arte: Reprodução)

Se você tem dificuldade de perder peso ou algum problema sério de saúde, recomendo que assista “Fat, Sick & Nearly Dead”, do australiano Joe Cross, na Netflix. O documentário conta a história de homens obesos que perderam dezenas de quilos simplesmente fazendo refeições líquidas à base de vegetais e frutas. São transformações incríveis e acompanhadas por profissionais da área de saúde. Eles conseguiram se livrar não apenas de graves doenças, mas também de todos os medicamentos que consumiram por anos e anos. Vale a pena. É uma baita lição.





Written by David Arioch

July 30th, 2017 at 8:13 pm

106 mil pessoas morrem anualmente em decorrência dos efeitos colaterais dos remédios nos EUA

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Food Matters é um documentário que discute a importância da boa alimentação

O The Journal of the American Medical Association publicou dados que indicam que aproximadamente 106 mil pessoas morrem anualmente nos Estados Unidos em decorrência do consumo de drogas farmacêuticas. São drogas que são prescritas por médicos, não são resultados de erros médicos. E esses efeitos colaterais são normalmente esperados, e essas pessoas tomam esses medicamentos exatamente como indicado. Não são casos de overdose ou engano.

Então, se 106 mil pessoas morrem em decorrência de esperados efeitos colaterais dessas drogas apenas nos Estados Unidos, e apenas em um ano, em 23 anos isso representaria uma quantidade enorme de pessoas mortas. Estamos falando de milhões [2.438 milhões] de pessoas mortas por causa de drogas farmacêuticas. E em 23 anos, alegadamente, apenas dez pessoas morreram em consequência do consumo de suplementos de vitaminas. Claramente, temos problemas muito mais sérios em relação à prescrição nutricional. Como Roger Williams disse uma vez, o inventor do ácido pantotênico, em caso de dúvida, use a nutrição primeiro, não remédios.

A indústria farmacêutica está nesse negócio não para fazer drogas farmacêuticas; está nesse negócio para fazer dinheiro. O que acho totalmente razoável, já que há grandes corporações internacionais, e elas têm um dever com seus acionistas; e isso é o que corporações fazem, elas fazem dinheiro. Vivemos em uma sociedade capitalista e não acho que isso seja ruim. Acho que o capitalismo tem grandes vantagens, e acho que é preciso ponderar sobre os dois lados. O problema é a forma como a indústria farmacêutica é regulada. Por um lado, acredito que temos bons reguladores, mas por outro lado péssimos reguladores.

A indústria farmacêutica paga aos reguladores que deveriam inspecionar as drogas, paga os pesquisadores acadêmicos que deveriam realizar pesquisas com essas drogas, e frequentemente remunera os profissionais que vão realizar testes com essas drogas. Eles também colocam publicidade nos jornais de medicina, e muitos dos jornais de medicina recebem dinheiro da indústria farmacêutica.

Se checarmos a literatura médica dos últimos 65, 75 anos, há milhares de provas de que grandes quantidades de bons nutrientes curam doenças. Você não tem como ter acesso a muitos desses artigos, porque eles dizem que a United States Library of Medicine se recusa a indexá-los. Isso não é interessante? Então isso significa que há jornais lá fora que estão em uma espécie de lista negra por dizerem a verdade.

Tudo que foi publicado no Jornal de Medicina Ortomolecular, do qual sou editor-assistente, ao longo de 41 anos, e isso significa centenas de artigos, nada disso foi indexado pela United States Library of Medicine, que se autointitula a maior biblioteca de medicina da Terra. Então, o que parece puramente científico e acadêmico, como jornais, publicações, e toda essa edificação da ciência, atualmente foi transformado em uma extensão do departamento de marketing da indústria farmacêutica.

Depoimentos

Dan Rogers, médico especialista em medicina integrativa.

Ian Brighthope, professor de medicina nutricional.

Phillip Day, jornalista investigativo.

Jerome Burne, jornalista com especialização em saúde e medicina.

Andrew W. Saul, doutor em nutrição terapêutica e editor-assistente do Jornal de Medicina Ortomolecular dos Estados Unidos.

Fonte: Food Matters, de James Colquhoun e Carlo Ledesma, lançado em 2008.

 

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Written by David Arioch

July 23rd, 2017 at 8:57 pm

Assista “Terráqueos” no YouTube

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Vale a pena assistir ao documentário “Terráqueos” para entender um pouquinho a realidade da exploração animal em todas as áreas. Você pode não virar vegetariano nem vegano, mas ao final terá outra percepção em relação à exploração animal. Se possível, dedique um tempinho.

 

 

 

“Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos”

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Paul McCartney: “Somente o preconceito permite a qualquer um pensar que existe diferença entre maltratar um gato e maltratar uma galinha, ou maltratar um cachorro e maltratar um porco”

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O britânico Paul McCartney é o apresentador de Glass Walls

“Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos” se tornou uma das citações mais populares entre vegetarianos e veganos desde 2009. A frase foi dita pelo compositor britânico Paul McCartney no documentário Glass Walls (Paredes de Vidro), apresentado voluntariamente por ele em uma produção da organização Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta).

Logo no início, McCartney relata que animais criados para atender a demanda da indústria passam por muitas situações de sofrimento. Exemplo é a realidade de frangos e perus, apontados como os animais que mais sofrem nesse mercado. Ele narra que não é incomum encontrar aves vivendo amontoadas aos milhares em espaços imundos, convivendo inclusive com os próprios excrementos.

Selecionadas geneticamente, elas chegam a crescer tanto em pouco tempo que, incapazes de suportarem o próprio peso, sofrem fraturas e ficam aleijadas. Funcionários mal remunerados também descontam nos animais as suas insatisfações. E isso acontece com frequência porque o trabalho nesses locais não é monitorado, segundo o documentário. “Muitas investigações em abatedouros de frangos e perus revelaram chocantes crueldades que vão além dos usuais abusos”, declara Paul McCartney.

O filme também mostra um vídeo de um homem falando enquanto torce violentamente o pescoço de uma galinha. “Às vezes, elas são difíceis de matar”, comenta com naturalidade. Há locais em que o espaço de confinamento das aves é tão pequeno que elas são incapazes de mover até as asas. Outro triste fato apresentado é que a ponta de seus bicos sensíveis é cortada com uma lâmina quente que provoca muita dor.

Para quem tem dúvidas sobre se essa prática é pontual ou recorrente, é possível encontrar vídeos de pessoas cortando os bicos de galinhas e frangos depois de esquentarem ferramentas na boca do fogão. O que é muito triste, levando em conta que o animal pode ficar até mais de um mês sofrendo em decorrência do corte.

McCartney afirma que frangos e galinhas são animais inteligentes cuja habilidade de raciocinar em alguns casos pode ser superior às habilidades de cachorros e crianças. Frangos e galinhas são também animais muito sociáveis, com uma elaborada ‘ordem de bicagem’ ou sistema de hierarquia social. Ainda assim, muitos são confinadas em gaiolas realmente pequenas durante sua vida inteira.

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Documentário mostra a realidade dos animais explorados pela indústria alimentícia

Acredito que todo mundo já viu galinhas ou frangos ocupando espaços minúsculos, sendo transportados por caminhões nas estradas. Então podemos dizer que não é difícil imaginar como esse tipo de confinamento é desconfortável. E se mantido por longos períodos, como acontece em grandes aviários, o confinamento em espaço reduzido gera desgaste dos músculos, além da deterioração e quebra de ossos desses animais, principalmente pela falta de uso, já que eles não têm como se movimentar.

“Seus pés ficam lacerados, e seus corpos machucados e cortados por ficarem em pé em arames durante 18 meses antes de serem enviadas para os matadouros. Ao final de suas miseráveis vidas, galinhas e perus são forçadamente jogados em gaiolas superlotadas e transportados por horas, sob todos os tipos de condições climáticas, sem comida ou água. Nos abatedouros, as pernas dessas aves são enfiadas em grilhões e suas gargantas são cortadas, muitas enquanto estão completamente conscientes”, enfatiza Paul McCartney.

Sobre os porcos, Glass Walls informa que eles são mais inteligentes do que cachorros, e se saem até melhor do que primatas em algumas tarefas, como, por exemplo, em videogames interativos. A justificativa é que suas habilidades cognitivas são superiores às habilidades de uma criança de três anos. Mesmo assim, esses animais não estão isentos de ficarem presos em condições de lotação e imundície.

“Muitos deles enlouquecem com o estresse, abusos e completa falta de estímulos mentais. Porcas reprodutoras são tratadas como máquinas, forçadas a gerar filhos atrás de filhos. Dão à luz em celas áridas, sem espaço para que cuidem dos filhotes. Leitões doentes ou muito pequenos são rotineiramente mortos”, lamenta McCartney.

O filme mostra cenas chocantes de um funcionário de um abatedouro matando um porquinho a pancadas. Um sujeito que não aparece ri e comemora. O compositor britânico denuncia que as condições vividas por muitos desses animais são tão ruins que a morte de porcos em decorrência de doenças é considerada aceitável pela indústria.

“Eles são selecionados para crescer de forma anormalmente rápida, o que provoca lesões, doenças e dor constante. Depois são submetidos a um transporte massacrante antes de serem abatidos. A insensibilização por choque elétrico não é confiável, o que significa que muitos porcos estão conscientes enquanto suas gargantas são cortadas”, revela o apresentador.

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O filme tem duração de apenas 13 minutos

De acordo com o professor e renomado biólogo britânico Donald Broom, da Universidade de Cambridge, vacas e bois nunca esquecem um rosto ou lugar. São animais com habilidades para resolver problemas complexos. Em suas pesquisas, Broom registrou que bovinos são tão dóceis que chegam a saltar no ar quando descobrem a solução para um problema. Ainda assim, são vistos apenas como matéria-prima para a produção de carnes e laticínios.

Outra informação pouco divulgada é que para ampliar a produção de carne e leite, os produtores alimentam as vacas com uma dieta não natural, gerando desconforto e dor ao animal. Durante o inverno em locais frios, não é tão incomum encontrar bovinos amontoados em galpões imundos e congestionados, o que lembra o mesmo regime de confinamento de aves e suínos. O que muita gente ignora, e também é defendido pelo documentário, é que as vacas produzem leite para os bezerros, não para seres humanos. E o que reforça essa afirmação é que para as vacas não pararem de produzir leite, elas são mantidas grávidas ou em fase de amamentação a maior parte de suas vidas.

As vacas leiteiras do mundo real  não são como a “Maiada” do Chico Bento. Uma vaca pode chegar a vinte anos se for bem tratada, mas quando exploradas muitas morrem aos seis anos, e em regime de exploração contínua, o que gera um grande desgaste psicológico e emocional. O filhote é afastado da mãe logo após o nascimento, causando grande estresse aos dois.

“Hoje em dia, nas fazendas leiteiras, as vacas são tratadas como máquinas de leite. Algumas são geneticamente manipuladas para produzir dez vezes mais leite do que seus bezerros mamariam naturalmente. Algumas vezes por dia, elas são conectadas a máquinas, o que pode causar uma dolorosa mastite por ordenha repetitiva. Quando elas não são mais úteis como produtoras de leite, são levadas ao matadouro para serem moídas e transformadas em hambúrgueres e em matéria-prima para sopas industrializadas”, assinala Paul McCartney.

Outra etapa dolorosa é a viagem de vacas até os matadouros. Muitas delas, fragilizadas pelo desgaste decorrente dos anos dedicados à produção de leite, morrem no caminho. Antes de serem mortas, elas passam pelo sistema de insensibilização que, assim como acontece com os porcos, não é realmente eficaz e pode intensificar a agonia e o desespero das vacas diante da morte. “Os abates religiosos são, no mínimo, tão cruéis quanto os métodos de abate convencionais. A carne desses animais é certificada como kosher pela União Ortodoxa, a maior certificadora kosher do mundo”, pontua McCartney.

Outro importante aspecto elencado pelo documentário é a realidade dos animais aquáticos. Paul McCartney ressalta que peixes têm tanto direito à vida quanto outros seres vivos, pois há um consenso científico de que eles são inteligentes; têm diferentes personalidades individuais e memórias sofisticadas.

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McCartney: “Sofrimento é sofrimento, não importa como você o provoque”

“Não como ninguém que eu tenha conhecido pessoalmente. Eu não comeria deliberadamente uma garoupa mais facilmente do que eu comeria um Cocker spaniel. Eles têm uma índole tão boa, tão curiosa. Você sabe, peixes são sensíveis. Eles têm personalidade, sofrem quando são feridos. Também sentem dor do mesmo jeito que mamíferos”,  constatou a renomada bióloga estadunidense Sylvia Earle. Mesmo com tantas informações disponíveis sobre a natureza dos peixes, todos os anos eles são mortos aos bilhões.

Quando centenas de toneladas de peixes são capturados em redes de pesca, é comum os animais sofrerem em consequência da descompressão, sufocamento ou esmagamento. Nesse tipo de pesca, geralmente pega-se “acidentalmente” golfinhos, baleias, tartarugas e outros animais indesejados por parte da indústria. “São todos rotineiramente fisgados por anzóis e emaranhados em redes. [Quando indesejados] Seus corpos são jogados de volta ao oceano”, acrescenta McCartney, ponderando que alguns cientistas ambientais acreditam que nesse ritmo os oceanos estarão vazios até o ano de 2048.

Em Glass Walls, a aquacultura e as criações industriais subaquáticas também são qualificadas como extremamente abusivas, já que não é tão incomum os peixes terem de nadar entre seus próprios dejetos em tanques congestionados e até contaminados. “As doenças prosperam. As condições em algumas fazendas são tão horríveis que 40% dos peixes morrem antes mesmo dos criadores matá-los e empacotá-los como comida”, critica Paul McCartney.

Outro fator a se considerar é que, segundo o documentário, o consumo de peixes é a causa número um de intoxicação alimentar, e o único meio realmente significativo dos seres humanos estarem expostos à intoxicação por mercúrio, o que, dependendo da quantidade, pode causar problemas neurológicos.

Para Paul McCartney, não importa se a carne consumida pelos seres humanos é de um animal de quatro pernas, duas ou nenhuma. No seu entendimento, todas as carnes são vermelhas, em referência ao sangue derramado. O apresentador cita o surgimento de novas doenças em decorrência da produção moderna de carne, entre as quais a doença da vaca louca, Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) e gripe aviária.

“Produtos de origem animal estão constantemente contaminados por bactérias como campylobacter, salmonela e E. Coli. O consumo de carne animal, que está cheio de gorduras e colesterol, é também um dos principais responsáveis pelo aumento vertiginoso de pessoas com obesidade, doenças cardíacas e câncer.

Por outro lado, vegetarianos correm menos riscos de contraírem doenças, o que para o compositor britânico Paul McCartney é um grande motivo para abdicarmos dos alimentos de origem animal.

“E se você se preocupa com o meio ambiente, por favor, saiba que de acordo com cientistas da ONU [Organização das Nações Unidas], o consumo mundial de carne gera cerca de 40% mais gases do efeito estufa do que a soma dos gases emitidos por todos os transportes do mundo. O relatório da ONU também afirma que comer carne é uma das maiores contribuições à degradação de terras, escassez de água e poluição do ar e da água. Se nos preocupamos com o meio ambiente, tirar a carne da nossa dieta é a ação mais importante que podemos tomar”, recomenda McCartney.

Ao final, o apresentador diz que somente o preconceito permite a qualquer um pensar que existe diferença entre maltratar um gato e maltratar uma galinha, ou maltratar um cachorro e maltratar um porco. Sofrimento é sofrimento, não importa como você o provoque. Ademais, não tenho dúvida de que o mercado da exploração animal é um dos negócios mais lucrativos da história da humanidade. Afinal, os animais não ganham nada para serem torturados e mortos. Como isso pode não ser um grande exemplo de injustiça?

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Lançado em 2009, o controverso filme de curta-metragem tem apenas 13 minutos de duração.

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Dê uma chance ao vegetarianismo ou ao veganismo…

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Documentários que podem mudar a percepção de como nos relacionamos com os animais (Imagens: Reprodução)

Documentários que podem mudar a percepção de como nos relacionamos com os animais (Imagens: Reprodução)

Te convido a assistir aos documentários Terráqueos (Earthlings), Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade, Especismo (Speciesism), Reino Pacífico (Peaceable Kingdom) e Garfos em vez de Facas (Forks Over Knives). Muitas pessoas evitam assistir esses documentários porque isso significa sair da zona de conforto e confrontar a realidade que envolve a produção de alimentos de origem animal. Sim, não existe alimento de origem animal que não envolva dor ou privação.

E quando alguém fala em bem-estarismo animalista penso apenas que isso é um grande e cultural equívoco, já que por “melhores” que sejam as condições oferecidas aos animais, isso não anula o fato de que mais cedo ou mais tarde eles serão separados de suas famílias, levados à exaustão e sacrificados.

A verdade é que até ingredientes que normalmente passam batido nos rótulos das embalagens materializam frações de dor e sofrimento. Nem mesmo a produção de mel é isenta de dissabores, padecimento. Afinal, a abelha não fabrica e nunca fabricou mel para nós. Logo é justo dizer que há uma cultura de séculos que tende a romantizar o que na realidade não tem nada de belo. É sempre chocante reconhecer como a indústria alimentícia explora o máximo que pode dos animais.

Só pra citar um exemplo, é possível encontrar derivados de leite até mesmo em adoçantes à base de stevia em pó. O mais curioso é que isso é desnecessário; e a inclusão talvez tenha mais a ver com as facilidades e o barateamento do processo de produção. No final, porém, quem paga mais caro não são os seres humanos, mas sim a vaca e o vitelo.

Há muito tempo, somos bombardeados com propagandas que vendem a ideia de que somos incapazes de sobreviver sem alimentos de origem animal. Certo! O que dizer de povos que nunca se alimentaram de animais, chegando a viver mais de 100 anos? Entrevistei há alguns anos um senhor vegetariano que à época tinha 95 anos e, não, ele não morava em nenhuma aldeia. Vivia na área urbana, mas optou por se tornar vegetariano em 1925, aos oito anos de idade.

O que vemos o tempo todo são criações de ofertas desnecessárias e falsas demandas motivadas pela ganância. Como achar normal a criação de 70 bilhões de animais em todo o mundo, sendo que temos uma população mundial de sete bilhões de pessoas? Para que tudo isso? Ainda mais ponderando que em menor ou maior proporção esses animais passarão por privação ou sofrimento.

Ademais, a pecuária tem contribuído com o aquecimento global, inclusive sendo apontada como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia. De acordo com a diretora executiva da ONG Food & Watch, Wenonah Hauter, quem beneficia e faz lobby para este sistema são os maiores produtores de alimentos, que também são os maiores produtores de carne.

Quando suas empresas crescem e eles enriquecem, normalmente usam o poder político que possuem para ditar as políticas federais quanto à produção de alimentos. Ou seja, tudo que as pessoas consomem de origem animal não é consequência de reais necessidades, mas sim de investimentos massivos em propaganda. Desde o princípio do século 20, isso tem sido feito de forma muito bem elaborada, para que as pessoas acreditem que não há outro caminho, quando na realidade essa mudança depende apenas de um pouco de esforço e de vontade de lutar por um mundo melhor.

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Earthlings, o que os olhos veem e o coração precisa sentir

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Documentário mostra a realidade nua e crua por trás da produção de carnes, laticínios, roupas e calçados

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Documentário é narrado pelo ator e vegano Joaquin Phoenix (Foto: Divulgação)

Lançado em 2005, Earthlings – Make the Connection (Terráqueos – Faça a Conexão) é um documentário escrito, dirigido e produzido pelo ambientalista estadunidense Shaun Monson que mostra até que ponto a humanidade chegou em relação aos maus-tratos de animais.

Pesado e chocante, o filme apresenta a realidade nua e crua por trás da produção de carnes, laticínios, roupas e calçados. Também traz informações e imagens impactantes sobre espécies usadas como entretenimento ou cobaias em laboratórios farmacêuticos e da indústria da beleza.

Do início ao fim, o documentário, baseado em uma grande compilação de imagens de dezenas de autores, é narrado pelo ator hollywoodiano e vegano Joaquin Phoenix, o que ajudou muito na popularização do filme, assim como a trilha sonora assinada pelo compositor Moby, também vegano.

Logo nos primeiros minutos é difícil não se sentir mal com as cenas exibidas, e o que parece prestes a acabar, na verdade está apenas começando. E não é difícil entender qual é o propósito de Monson ao gerar esse mal-estar nos espectadores. É uma reação naturalmente saudável e esperada. Afinal, estranho seria se assistíssemos ao filme e não nos permitíssemos sentir empatia por tantos animais explorados e violentados.

E o sentimento vai ao encontro de uma frase muito bem colocada por Joaquin Phoenix em Earthlings: “Se todos tivessem que matar os animais com as próprias mãos para consumir carne, provavelmente muito mais pessoas se tornariam vegetarianas.” Então como isso é impossível de acontecer, o autor optou por chocar de outra forma, nos convidando a conhecer esse universo como cúmplices, responsáveis em maior ou menor grau pela existência de um mercado baseado na exploração e extermínio de terráqueos não humanos.

Earthlings é visceral? Com certeza! E levando isso em conta alguém pode alegar que as imagens do filme não representam a realidade de todos os animais. Sim, é uma justificativa a se considerar, já que o tratamento oscila de acordo com objetivos, consumidor final, recursos e preceitos morais e éticos.

Earthlings foi escrito, dirigido e produzido pelo ativista Shaun Monson (Foto: Peta)

Earthlings foi escrito, dirigido e produzido pelo ativista Shaun Monson (Foto: Peta)

No entanto, nada altera o fato de que independente de cidade, estado ou país, estamos sempre diante de animais relegados a uma vida breve ou longa de servidão. Sem dúvida, são seres que mais cedo ou mais tarde vão morrer, claro, assim que servirem a um propósito que não foi escolhido por eles.

É provável que muita gente não acredite que faça parte do processo que envolve a indústria da exploração animal, porém não há como negar que se gostamos de cães e gatos, por exemplo, mas consumimos produtos de origem animal, somos negligentes e ilógicos porque temos uma conduta assentada no especismo, uma crença de viés cultural que cria a falsa ilusão de que somos justos mesmo quando não somos.

Nos baseamos na ilusão de que somos superiores, logo melhores, e todos os demais seres da natureza existem apenas para satisfazer nossas pretensas necessidades. É exatamente nisso que subsiste o argumento do documentário. Em Earthlings, presenciamos inclusive a perda da identidade dos animais. Quando confinados por longos períodos, eles enlouquecem e já não se reconhecem mais como semelhantes.

Exemplos são os porquinhos que praticam canibalismo após longos períodos de cárcere. O documentário se esforça para privilegiar a diversidade, e por isso aborda desde a realidade dos animais domésticos em situação de abandono, vítimas de eutanásia e outros tipos de execuções que visam conter as superpopulações, até golfinhos brutalmente assassinados para que os japoneses possam comercializar sua carne como “carne de baleia”.

Trilha sonora foi assinada pelo também vegano Moby (Foto: Reprodução)

Trilha sonora foi assinada pelo também vegano Moby (Foto: Reprodução)

E se a violência contra os animais se perpetua é porque infelizmente ainda há muitos consumidores que pouco se importam com a procedência e o custo real, para além do dinheiro, daquilo que consomem. “Enquanto houver matadouros, haverá campos de guerra”, escreveu Liev Tolstói, como bem citado em Earthlings, em referência ao infame anseio humano de estar sempre suplantando algo ou alguém – o que ainda pouco aprendemos a controlar.

“Nós chegamos como senhores da Terra, com estranhos poderes de terror e misericórdia. O ser humano devia amar os animais como o experiente ama o inocente, e como o forte ama o vulnerável. E quando somos tocados pelo sofrimento dos animais, aquele sentimento fala bem de nós, mesmo se o ignoramos. E aqueles que dispensam o amor pelas outras criaturas, como o puro sentimentalismo, ignoram uma parte importante e boa da humanidade. Mas nenhum humano vai perder nada ao ser gentil com um animal. E, na verdade, faz parte de nosso propósito dar-lhes uma vida feliz e longa. Na floresta, o Rei Lear pergunta a Gloster: ‘Como você vê o mundo?’ E Gloster, que é cego, responde: ‘Vejo-o porque o sinto.’”, narra Joaquin Phoenix, parafraseando “Rei Lear”, de Shakespeare, no final de Earthlings.

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Como a pecuária contribui com o aquecimento global

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Documentário apresenta a verdade inconveniente negligenciada por Al Gore em 2006

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Cowspiracy aponta a pecuária como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia (Foto: Divulgação)

Lançado em 2014, Cowspiracy – The Sustainability Secret é um documentário de Kip Andersen e Keegan Kuhn que mostra de que forma a pecuária tem contribuído com o aquecimento global, inclusive sendo apontada como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia.

E para endossar a denúncia, os realizadores usam como referência o relatório anual da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) que cita a pecuária como uma das grandes culpadas pela degradação do solo, mudanças climáticas, poluição, esgotamento de água e perda da biodiversidade.

Quando o assunto veio à tona em 2006, a ONU iniciou um trabalho de defesa da reeducação alimentar baseada em dietas vegetarianas, ou pelo menos a redução do consumo de carne e laticínios, uma transformação que pode desacelerar a produção e ajudar a combater o aquecimento global.

Com o relatório em mãos, o documentarista Kip Andersen questiona os porta-vozes de grandes organizações de proteção ao meio ambiente, como Green Peace, Sierra Club, Rain Forest Action Network, 350.org, Amazon Watch e Oceana, sobre o motivo de jamais terem falado sobre o papel da agroindústria no aquecimento global.

Insistente, Andersen faz com que a diretora da Amazon Watch, Leila Salazar Lopez, abra o jogo em um segundo encontro, quando ele a questiona sobre o silêncio dessas entidades. Antes ele ressalta a gravidade da situação ao informar que a Amazônia Brasileira, o lugar com a maior biodiversidade do planeta e que já perdeu 80% de sua área original, pode desaparecer nos próximos dez anos por causa da desenfreada produção de gado e soja.

“Podemos ver o que aconteceu no Brasil depois da aprovação do Código Florestal. Quem falava contra os lobistas e os interesses das agroindústrias era assassinado. Um exemplo é o caso do José Cláudio Ribeiro da Silva [falecido em 2011], um dos ativistas que dizia que a agropecuária estava destruindo a Amazônia. Veja o exemplo de Dorothy Stang, a freira que morava no Pará e foi assassinada. Muita gente fala, mas muitos ficam calados porque não querem acabar com uma bala na cabeça”, argumenta Leila.

A freira Dorothy Stang se opôs ao desmatamento praticado pela agropecuária durante anos. Certa noite, ao entrar em casa foi brutalmente baleada à queima-roupa por um matador de aluguel. Além dela, mais de 1100 ativistas foram mortos no Brasil nos últimos 20 anos, de acordo com o filme.

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Keegan Kuhn e Kip Andersen, responsáveis pela produção de um dos documentários mais controversos dos últimos anos (Foto: Divulgação)

“Quem se beneficia e faz lobby para este sistema agrícola são os maiores produtores alimentares, os maiores produtores de carne. Quando eles crescem e enriquecem, eles usam o poder político que possuem para ditar as políticas federais quanto à produção de alimentos”, destaca Wenonah Hauter, diretora executiva da ONG Food & Water Watch.

A partir daí tudo fica claro para os documentaristas. Kip Andersen, que se inspirava em Al Gore para se tornar ambientalista, se decepcionou quando soube que esse foi o motivo pelo qual o ex-vice-presidente não citou a pecuária no documentário An Inconvenient Truth, sobre as causas do aquecimento global.

De acordo com o ambientalista e escritor Will Tuttle, diariamente a população humana, que chegou a sete bilhões em 2011, consome 20 bilhões de litros de água e 9,5 bilhões de quilos de comida. Enquanto isso, 1,5 bilhão de bovinos, de um total de 70 bilhões de animais criados no mundo todo, consomem 170 bilhões de litros de água e 61 bilhões de quilos de comida. “Quase um bilhão de pessoas passam fome todos os dias”, acrescenta Tuttle, realçando o absurdo da situação.

Além disso, 50% da produção de legumes e vegetais é destinada aos animais. Só nos Estados Unidos, 90% da soja é para o consumo das criações. “Comparando com a carne, podemos produzir, em média, 15 vezes mais proteínas a partir de fontes vegetais, e usando o mesmo tipo de terra, seja fértil ou não. Hoje, 82% das crianças que passam fome vivem em países onde a comida é dada aos animais. O mais incrível é que temos condições de alimentar todos os seres humanos”, revela o pesquisador Richard Oppenlander, autor do livro Food Choice and Sustainability.

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Infográfico do documentário Cowspiracy (Tradução: Nó de Oito)

Em uma de suas pesquisas, Andersen descobriu que um hambúrguer de 110 gramas requer mais de 2,5 mil litros de água se for levado em conta todo o processo antes de chegar ao consumidor final. “Equivale a tomar banho por dois meses”, compara. E para a produção de quatro litros de leite são necessários 3,8 mil litros de água. E a demanda desproporcional à produção se acentua a cada dia. John Taylor, proprietário da Bivalve Organic Dairy, informa que não há terras o suficiente no mundo para que leiterias orgânicas como a sua ganhem espaço. Ele acredita que os laticínios não são sustentáveis.

“A não ser que comecemos a substituir as casas por pasto. E isso só pode acontecer se a população diminuir. E como sabemos que ela vai continuar a crescer, o jeito é buscar alternativas. Vemos por aí leite de soja, de amêndoas, e muitos outros produtos com misturas diferentes. Levam insumos e proteínas. Acredito que veremos mais disso no futuro”, avalia Taylor.

O ativista vegano Howard Lyman, autor do livro Mad Cowboy, passou 45 anos envolvido com a agropecuária. Há alguns anos, quando participou do programa Oprah Winfrey Show, ele denunciou as mazelas do setor e teve de responder a dezenas de processos. Em entrevista a Kip Andersen, confidenciou que levou cinco anos para se livrar das ações movidas pelas agroindústrias. “Tenho certeza de que se eu fosse novamente ao programa, hoje eu seria condenado, mesmo falando a verdade”, lamenta.

Lyman também deixa claro que Andersen e Keegan Kuhn corriam riscos ao abordarem um assunto tão controverso. Após quase 60 minutos de documentário, eles recebem uma ligação de uma patrocinadora avisando que não vai mais investir em Cowspiracy. “A maioria fica chocado ao saber que ativistas ambientais são considerados a pior ameaça terrorista de acordo com o FBI. Acredito que porque, mais do que qualquer outro movimento social, ameaçam diretamente os lucros empresariais”, enfatiza o jornalista Will Potter, autor do livro Green Is The New Red, e que há anos é monitorado pelo FBI.

A maior parte do documentário, os realizadores não acompanham de perto a realidade dos animais, principais vítimas da agroindústria. Quando decidem fazê-lo, ficam surpresos com o que veem e aprendem. “Não importa se as galinhas são de fazendas orgânicas ou não. A verdade é que a partir do momento que a produção diminui elas são mortas”, relata Marji Beach, diretora de educação do santuário Animal Place.

O autor do best-seller In Defense of Food, Michael Pollan, prevê que quando a população mundial chegar a nove bilhões de pessoas o consumo de carne vai diminuir. “Não teremos como produzir tantos cereais para alimentar os animais de corte”, argumenta, crente de que o futuro está na sustentável dieta vegetariana.

No encontro com Lyman, Andersen ouve o ativista afirmando que um ambientalista não pode consumir produtos de origem animal. “Engane-se se quiser. Aliás, se quiser alimentar o seu vício, faça-o, mas não chame a si mesmo de ambientalista ou protetor dos animais”, assinala.

O discurso tem tanto impacto que Kip Andersen decide se aprofundar no veganismo. Para isso, ele visita o médico Michael A. Kepler, vegano há 32 anos e que leva uma vida saudável. Kepler inclusive faz o acompanhamento de gestantes veganas. “Nascem 216 mil pessoas no mundo a cada dia, e assim precisamos de 14 mil hectares de terra cultivável todos os dias. O que é impossível de se conseguir”, reconhece o produtor de vegetais orgânicos John Jeavons, autor do livro How to Grow More Vegetables.

Enquanto um vegano requer 0,6 hectare de terra por ano para se alimentar, um ovolactovegetariano precisa do triplo e uma pessoa com dieta onívora necessita de uma área 18 vezes maior que essa. “Isto porque pode-se produzir 16 mil quilos de vegetais em 0,6 hectare e apenas 170 quilos de carne na mesma área. Uma dieta vegana também produz a metade de CO2 de uma dieta onívora. E ainda gasta só 9% de combustíveis fósseis, 8% de água e 5% do solo”, frisa Kip Andersen.

Will Tuttle acredita que em grande escala a adoção do veganismo poderia contribuir muito para a recuperação do ar, das florestas, rios e oceanos, além do próprio restabelecimento da saúde humana. “Nenhuma outra escolha é tão abrangente e tem um impacto tão positivo sobre a vida na Terra do que deixar de consumir produtos de origem animal e adotar o estilo de vida vegano”, pontua o escritor.

Curiosidade

Ao final do documentário, Skip Andersen decide adotar o estilo de vida vegano.

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Especismo, um mal que endossa o sofrimento animal

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Filósofos, pesquisadores, cientistas, professores e ativistas falam sobre as armadilhas do especismo

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Mark Devries, autor do documentário “Speciesism – The Movie” (Foto: Divulgação)

Embora especistas sejam popularmente conhecidos como pessoas que convivem com animais domésticos, mas se alimentam de outros animais, há um consenso mais criterioso entre pesquisadores, biólogos, filósofos, professores de direito, advogados e escritores que defendem os direitos dos animais.

Eles apontam que especismo é toda e qualquer forma de exclusão baseada na espécie, quando outros seres são privados de fazerem parte de uma comunidade moral.“Quando você pega essa ideia de que eu posso fazer isso com você, então vou fazê-lo, o auge dessa forma de superioridade, ‘um tipo de racismo’, é o especismo”, afirma Bruce Friedrich, diretor de campanhas veganas da ONG Peta e autor do documentário Meet Your Meat, que já foi visto por milhões de pessoas desde 2002.

De acordo com o famoso biólogo evolutivo Richard Dawkins, professor da Universidade Oxford, a maneira como damos tratamento especial aos humanos em relação ao aborto é uma reafirmação do especismo. “Muitas pessoas pensam que é assassinato abortar um feto humano, e esse pensamento dificilmente é partilhado quando falamos em matar vacas. E, claro, elas têm muito mais capacidade de sofrimento do que qualquer feto humano”, declara Dawkins.

HAY ON WYE, WALES, UNITED KINGDOM - MAY 27: Author and Scientist Richard Dawkins speaks at The Guardian Hay Festival 2007 held at Hay on Wye May 26, 2007 in Powys, Wales, United Kingdom. The festival runs until June 3. (Photo by David Levenson/Getty Images)

Dawkins: “A forma como damos tratamento especial aos humanos em relação ao aborto é uma reafirmação do especismo” (Foto: David Levenson/Getty Images)

Ele também cita o descaso em relação aos chimpanzés, animais inteligentes que não recebem nenhum tratamento muito ético ou moralmente correto como o dispensado aos humanos. “Suponhamos que descobríssemos uma população nas florestas da África que do ponto de vista evolutivo está entre nós e os chimpanzés, o que faríamos? O que os especistas fariam? Devemos dar um jeito, fazer algo entre a nossa moral e a nossa ética”, alega.

O filósofo australiano Peter Singer, autor do icônico livro “Libertação Animal”, de 1975, sugere que os especistas se coloquem no lugar de um escravo do século 18. Uma pessoa naquela sociedade provavelmente diria que não havia bons argumentos para o fim da escravidão, ignorando o sofrimento dos negros.

“É o que acontece hoje com o especismo. De repente, depois de rebaixarem os animais, vão querer dizer: ‘Oh, veja! Se o leão come o antílope, tudo bem eu comer a vaca.’ Mas eu nunca disse que os animais são um tipo de exemplo moral que devemos seguir. Suas ações não são baseadas em escolhas”, pondera. Um ativista, perseguido pelo FBI ao longo de sete anos por libertar milhares de martas que seriam usadas na confecção de casacos de pele, defende que qualquer justificativa contra infringir a lei para salvar animais é primordialmente um argumento especista. “Ninguém argumentaria que seria moralmente injustificado libertar escravos”, assinala.

James Serpell

Serpell: “Nós subestimamos o tempo todo a capacidade dos animais” (Foto: Reprodução)

Um dos maiores equívocos do especismo subsiste na subestimação. E o maior exemplo disso são os porcos, animais tão inteligentes quanto os cães, segundo James Serpell, PhD em ciência veterinária e professor da Universidade da Pensilvânia. “Suínos têm vida social complexa na vida selvagem. Eles formam grupos matriarcais permanentes. E esses mesmos animais ficam enclausurados o tempo todo.  São criados para serem abatidos, resumidos a carne, bacon”, pontua.

E quando grávidas, as porcas normalmente passam os quatro meses de gestação em pequenas gaiolas de 2m x 0,6m, onde conseguem apenas levantar e deitar, já que não há espaço para dar uma volta dentro da própria prisão. E com o tempo, os suínos se tornam cada vez menos sensíveis aos estímulos ambientais. É um comportamento catatônico análogo ao de pessoas com depressão severa.

“Com certeza é bem mais forte do que seria em um ser humano”, garante Serpell. Comum em qualquer lugar, a castração é outro exemplo doloroso de mutilação impingida aos porcos, realizada sem anestésico. A prática consiste em usar um bisturi para rasgar e abrir. Então os testículos são removidos e o porquinho grita em agonia, algo que jamais seria feito sem anestesia em um cão ou gato, por exemplo.

Peter Singer

Singer: “De repente, depois de rebaixarem os animais, vão querer dizer: ‘Oh, veja! Se o leão come o antílope, tudo bem eu comer a vaca.’ Mas eu nunca disse que os animais são um tipo de exemplo moral que devemos seguir. Suas ações não são baseadas em escolhas” (Foto: Reprodução)

Para Rick Dove, da Neuse Riverkeeper Foundation, sediada na Carolina do Norte, é surpreendente a quantidade de pessoas que acordam pela manhã e comem seu bacon como se não houvesse problemas no campo, no mundo. “Há um grande problema. Eles são feitos em fazendas industriais, onde os porcos nunca veem a luz do dia, onde vão do tamanho de um punho a 115 quilos em cinco meses”, reclama.

Sobre a situação das aves poedeiras e de corte, James Serpell relata que milhares de galinhas são mantidas em um mesmo galpão. Pelo fato de serem numerosas e densamente estocadas, elas ciscam umas sobre as outras e também se bicam. Selecionadas para comerem mais do que podem, engordando com celeridade, ficam muito pesadas antes que seus ossos endureçam. “São jovens e têm os ossos macios. E o que acontece então é que elas sofrem com graves fraturas, artrite e osteoartrite. Tornam-se mancas até que ocasionalmente param de andar, ficando apenas sentadas no chão”, revela o professor de ciência veterinária da Universidade da Pensilvânia.

Após realizar dezenas de investigações, o diretor executivo da ONG Mercy For Animals, Nathan Runkle, que costuma enviar espiões para acompanhar o funcionamento de fazendas e agroindústrias, descobriu que é muito comum encontrar animais vivendo em condições deploráveis, deixados para morrer sem cuidados veterinários.

“Sempre encontramos aves presas ou entaladas nos arames das gaiolas, e o ferro solto entra na pele delas e rasga. Elas morrem nessas condições. Seus corpos são deixados para apodrecer ao lado de aves que ainda produzem ovos para consumo humano. Nas fazendas de produção de leite, há tanto estrume que as vacas caem sobre as próprias fezes e se machucam. Além disso, encontramos porcas grávidas com ossos quebrados, feridas abertas. É algo que as indústrias querem que você acredite que se trata de fato isolado. Mas sabemos que isso é rotina, simplesmente faz parte dos negócios”, denuncia.

Francione: “Penso, empiricamente, que pode haver mais sofrimento em um copo de leite ou um pote de sorvete do que em um quilo de bife" (Foto: Reprodução)

Francione: “Penso, empiricamente, que pode haver mais sofrimento em um copo de leite ou um pote de sorvete do que em um quilo de bife” (Foto: Reprodução)

Quem também conhece muito bem o sofrimento dos animais é a ativista Terry Cummings, diretora do Santuário Animal Poplar Spring, situado em Poolesville, Maryland. Ao longo de anos cuidando de animais maltratados em fazendas e agroindústrias, ela aprendeu que, assim como os seres humanos, cada animal tem a sua própria personalidade.

“Alguns são tímidos, alguns gostam de ser paparicados e outros gostam de ser abraçados. Temos uma galinha enorme que passou a maior parte da vida em uma gaiola. Ela é muito doce, come na sua mão. Nós a agradamos com milho e uva. E temos outra [ela não anda mais por causa do comprometimento das articulações durante o processo de engorda] que tem uma melhor amiga chamada Sílvia. Ela choramingou um pouco porque a tirei do celeiro enquanto Sílvia ainda estava lá. Elas gostam de fazer tudo juntas”, narra sorrindo.

Pesando todos esses fatores, o professor de direito da Universidade Estadual de Nova Jersey, Gary Francione, acredita que o veganismo deve ser a linha mestra do movimento em defesa dos animais. “Penso, empiricamente, que pode haver mais sofrimento em um copo de leite ou um pote de sorvete do que em um quilo de bife. Claro que todos são produtos de tortura, e quanto a isso não há distinção, mas os animais usados na indústria de laticínios são mantidos vivos por mais tempo, logo sofrem mais”, conclui.

Sheryl Cole, professora de direito da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, diz que a dor mais terrível que uma mãe pode sentir é a da separação de um filho. “E isso é rotina nos laticínios. Se você tiver que ir por esse caminho para sobreviver, não consigo imaginar como consegue viver consigo mesmo”, lamenta.

Na mesma esteira segue a reflexão de James Serpell que qualifica as emoções dos animais como muito mais intensas do que a dos seres humanos, e simplesmente porque, ao contrário de nós, eles não são capazes de racionalizar o que sentem. “Eles não conseguem filtrá-las. Nós subestimamos o tempo todo a capacidade dos animais”, endossa.

Mesmo com tantas informações disponíveis, não é difícil encontrar especistas alegando que vegetarianos e veganos também estão se alimentando de outros seres vivos. Sobre isso, Jonathan Balcombe, PhD e coordenador do Departamento de Estudos Animais da Humane Society of the United States, sediada em Washington, deixa claro que não é preciso se preocupar com as plantas porque não são organismos sencientes. “A evolução não as equipou com a necessidade de sentir dor ou prazer. E nós entendemos a mecânica de fluidos pela qual a flor segue o sol pelo céu, por exemplo, assim como entendemos o motor do funcionamento de um carro”, esclarece.

Referência

O documentário Speciesism: The Movie (Especismo), lançado em 2013 por Mark Devries, é um filme que apresenta muitas variáveis e controvérsias envolvendo o tema.

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Peaceable Kingdom

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Peaceable Kingdom tem como cenário um santuário para animais (Foto: Reprodução)

“Depois de ser afastado da vaca para que o leite seja aproveitado pela indústria, o novilho é morto para a extração de sua carne. Na realidade, a indústria de carne de novilho só existe por causa da indústria de laticínios, é um subproduto.

Dão a eles uma dieta pobre em ferro e, como eles também são privados de se exercitar, logo ficam anêmicos. E tudo isso para que a carne fique mais macia. Em muitos casos, os bovinos não conseguem se movimentar porque estão muito fracos. Então são arrastados.

Há situações em que as vacas param de produzir leite porque estão de luto por causa dos seus bezerros. Já encontrei vacas com seus novilhos mortos em uma fazenda e fiquei espantado ao ver que elas mugiam por dias, chamando seus filhos, e ficavam sem comer e beber.

As outras vacas davam suporte, pastavam com elas. E as vacas fazem isso porque se importam com os seus, ficam de luto. Nós acreditamos que somos únicos porque somos racionais. Claro, nós também somos emocionais, mas vacas também são. Há uma grande ligação entre elas.”

Trechos de um diálogo do documentário Peaceable Kingdom, da estadunidense Jenny Stein, lançado em 2004.

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