David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Musculação’ tag

Um camarada me falou que jamais deixaria de comer carne…

without comments

Um camarada me falou que jamais deixaria de comer carne porque seria muito difícil ganhar massa muscular. Além de dizer que isso não é verdade, já que o ganho de massa muscular depende de uma combinação de fatores, não especificamente do consumo de carne, acrescentei o seguinte:

— Digamos que hipoteticamente você esteja certo. Agora vamos avaliar isso sob uma perspectiva moral. Você quer dizer então que os animais merecem morrer simplesmente para você ganhar músculos? Sabemos que roubar é um meio mais fácil de ganhar dinheiro, mas nem por isso eu e você cometemos crimes, não é mesmo? Chamo isso de baliza moral, porque acredito que matar um animal para reduzi-lo à comida não deixa de ser um tipo de roubo, já que para que você possa comer carne alguém antes roubou a vida de um animal. Afinal, um animal não simplesmente se ofereceu para tornar-se comida, logo houve empenho de força e violência, sendo assim, um roubo.

— Mas essa perspectiva é dissemelhante, porque quem envia esses animais para o matadouro investiu tempo e dinheiro, logo merece ter o seu retorno.

— Pais também criam seus filhos, e investem tempo ou dinheiro, ou os dois dependendo do exemplo, mas isso não dá a eles o direito de explorar, violentar ou matar seus filhos. Talvez isso pareça visceral para quem está imerso em uma prospectiva homocêntrica. Porém, esperar retorno financeiro tendo a morte como premissa não me parece nem de longe algo moralmente apropriado, mesmo quando não falamos de seres humanos. Afinal, alguém será privado precocemente de existir.

 

 

Reflexões sobre o consumo de carne e a musculação

without comments

frangggooo

R$ 15 a R$ 20, esse é o valor que atribuímos ao quilo do coração de um animal (Foto: Reprodução)

Nenhum animal precisa morrer para que qualquer pessoa tenha resultados com a musculação. Acredito verdadeiramente nisso. Hoje em dia, se eu consumisse carne, por exemplo, eu logo associaria a ideia de que qualquer resultado conquistado teria custado a vida de muitos seres vivos.

Nesse meio, sempre vejo pessoas falando que compram caixas de filé de frango, e comem inclusive sem querer, ou até mesmo passando mal, porque veem a carne daquele pobre animal como essencial fonte de proteína para o ganho de massa muscular.

Ou seja, come-se até pelo desprazer, preocupando-se basicamente com resultados estéticos. Se eu fizesse isso hoje, logo perguntaria a mim mesmo, quantos animais mortos estou comendo por mês? Enquanto eu viso parecer melhor, aos animais é relegado o pior.

Ontem, conversando com um amigo na academia, falávamos sobre corações de frango. Um quilo de coração de frango significa muitos corações. Vende-se uma grande quantidade desse órgão, responsável pelo percurso do sangue bombeado através de todo o organismo do animal, por preços que variam de R$ 15 a R$ 20.

Esse é o valor que atribuímos ao coração de um animal que muita gente gosta de comer com limão. Não sei quantos corações pesam um quilo, mas duvido muito que um coração custe mais de 20, 30 centavos. Não consigo pensar em como isso pode não ser triste.

Written by David Arioch

January 20th, 2017 at 12:40 am

Veganismo e musculação, um pouco da minha história

without comments

15338626_1252720488152677_738781449677116122_n

Me sinto muito melhor  hoje em dia

Comecei a abandonar a carne em 2012, mas ocasionalmente eu ainda comia alguma coisa nem que fosse uma vez por mês (como cito na minha crônica/conto “O Chamado dos Animais”), inclusive por anos eu tive um blog de culinária maromba com centenas de receitas. Era um blog praticamente ovolactovegetariano, e acabei abandonando também porque foi perdendo o sentido para mim, mesmo depois de tanto tempo dedicado. Eu não me via nem como vegetariano, apenas como alguém que não queria mais comer carne. Foi uma mudança interna mesmo, e que só comecei a entender depois.

Vivi dessa forma, tendo laticínios e ovos como minhas principais fontes de proteínas até 2015, quando me tornei vegetariano e logo em seguida vegano. Foi diferente para mim, não nego, porque eu tinha uma alimentação com alta ingestão de proteínas, e quase todas as minhas receitas eram baseadas nesses ingredientes. E quem pratica musculação há muito tempo, sabe como somos bombardeados com essa ideia de que sem proteínas de origem animal, você já era.

Ainda assim, não me importei, porque não me tornei vegano pensando em mim, mas sim nos animais. Continuei treinando. Em 2016, segui minha rotina na academia, mas sem objetivo definido. Queria só levantar peso por prazer, então acabou por ser uma prática mais terapêutica e de manutenção de massa muscular. Não tive nenhuma grande perda nesse sentido porque me tornei vegano. Apenas achei melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente. Não me preocupei muito com proteínas e com outras coisas que me apeteciam quando eu ainda consumia ovos e laticínios. Também não perdi força nem disposição. Só senti alguns pequenos desconfortos nas articulações, mas por motivos bem específicos.

Hoje, além de ter certeza que escolhi o melhor caminho, não recomendo a alimentação com ingredientes de origem animal. Sei que tenho capacidade de alcançar inclusive objetivos estéticos diferenciados com a alimentação vegana, mesmo depois de dez anos de musculação.

Em 2017, pretendo transformar meu corpo em um laboratório natural (já que não uso esteroides anabolizantes) para provar como o veganismo pode ser ainda mais transformador e alentador para quem, assim como eu, gosta de musculação. E, claro, para além dos aspectos morais e éticos do não consumo de ingredientes de origem animal. Ou seja, além de muitos novos textos, acredito que vem aí mais hipertrofia e mais qualidade muscular.

Written by David Arioch

January 13th, 2017 at 1:58 pm

O burrinho sentado

without comments

panturrilha-sentada-burrinho-gmeos-frete-gratis-863411-mlb20536067946_012016-f

Achei melhor começar pelo aparelho de gêmeos (Foto: Reprodução)

Aconteceu um fato inusitado na academia quando eu estava terminando o treino. Enquanto eu desmontava o leg press, notei um senhor me olhando. Acredito que ele mirava especificamente meu rosto. Talvez a minha barba. Simplesmente fingi que não percebi. Tirei uma grande quantidade de anilhas do leg press e decidi treinar panturrilhas.

Achei melhor começar pelo aparelho de gêmeos. Como a última pessoa a usá-lo foi justamente aquele senhor, atravessei até o outro lado da academia, onde ele fazia abdominais num canto, para perguntar se já tinha terminado de usar o tal aparelho, também chamado carinhosamente de “burrinho sentado”.

Depois de uma série de abdominais, o homem continuou deitado, com as mãos na testa e mirando o teto. Então me aproximei e perguntei: “O senhor terminou de usar o aparelho para panturrilha?” Acho que a minha presença era tudo que ele não esperava naquele momento. Levou um susto tão grande que seu corpo chegou a ficar suspenso no ar por um segundo, não sei ao certo. Só lembro da resposta e das balançadas de cabeça: “Terminei sim! Sim! Terminei sim!” Agradeci e caminhei em direção ao “burrinho sentado”.

Written by David Arioch

October 13th, 2016 at 11:44 pm

Eu e as proteínas de origem animal

without comments

SONY DSC

Me recordo da última vez em que vi galinhas confinadas (Foto: MDrX)

Nunca fui um verdadeiro fã de carne. Carne nunca foi algo que me fez muita falta. Comia carne branca ocasionalmente porque eu julgava como importante, até porque para onde eu olhasse havia alguma propaganda sobre as proteínas de origem animal. No meio da musculação, por exemplo, de cada cinco palavras ditas, uma costuma ser proteína. Dificilmente alguém toca no assunto sem dizer: “Proteína animal, proteína animal, proteína animal, alto valor biológico – filé de frango, claras de ovos, laticínios…”

Com isso em mente, cheguei a consumir até três gramas de proteínas por quilo corporal em uma fase da minha vida, principalmente proveniente de laticínios e ovos. Pode ter certeza que é muita proteína, e uma quantidade que eu vejo hoje como absurda, desconfortável e desnecessária. Comia até sem querer porque tinha um objetivo a ser alcançado. E isso deveria ser bom? Não creio. Sempre fui saudável, exames perfeitos desde a adolescência, mas com o tempo deixei de absorver a ideia de uma dieta altamente rica em proteínas animais como uma coisa boa.

Sou um ser humano, não uma máquina. E tenho certeza que minhas necessidades são sempre mais modestas do que eu costumava imaginar ou acreditar. E acho que se meu organismo não quer um alimento, não devo ir além. Perdi as contas de quantas pessoas conheci que comiam tanto com a intenção de ganhar massa muscular que chegavam a sentir ânsia de vômito. Se exercitar e se alimentar bem deve ser sempre algo positivo, não impositivo, porque há sempre o risco da reeducação alimentar se tornar um novo tipo de disfunção.

Também cheguei a comprar caixas de filé de frango durante um período da minha vida. E comia sem prazer – porque qualificava isso como importante para a minha saúde, condição física e estética. Mesmo distante dessa realidade há muito tempo, ainda sou a mesma pessoa, sem qualquer prejuízo. E estou empenhado em provar que definitivamente não preciso de alimentos de origem animal.

Além disso, me recordo da última vez em que estive em uma granja e observei as galinhas confinadas, privadas de liberdade, almejando pelo menos um espaço maior de circulação. Elas não pareciam felizes, e foi então que tomei a decisão de não consumir mais ovos – último alimento de origem animal que comi. Muito tempo antes, comecei a refletir sobre a forma como sempre defendi a igualdade, o respeito e a tolerância entre os seres humanos.

E por que não estender isso aos animais? Já tinha abandonado a carne há um bom tempo, mas enquanto consumia ovos e laticínios não conseguia me ver como um ser humano em posição de falar de forma justa sobre a igualdade e a importância da vida.

Musculação, uma forma de terapia

with 2 comments

00

A musculação pra mim sempre foi uma forma de terapia

Recentemente fui ao ortopedista levar o resultado do meu exame de ressonância magnética. E o resultado, para a minha alegria, foi que posso continuar praticando musculação, já que minha hérnia de disco não piorou. Ou seja, não me impede de me exercitar. Perto de completar dez anos de musculação, foi como um presente. Muitas pessoas abandonam a musculação quando descobrem uma hérnia de disco.

Eu fiz o contrário, comecei a treinar justamente quando recebi o diagnóstico de um ortopedista que há mais de dez anos me disse que eu não poderia praticar musculação. Sim, contrariei suas recomendações porque eu não via sentido nisso, já que a musculação promove justamente o fortalecimento muscular. Sua sugestão me pareceu contraditória demais.

Apesar de saber que ainda hoje, e infelizmente, muitas pessoas qualificam a musculação como uma atividade meramente narcisista, superficial ou fútil, isso não condiz com a realidade. E eu sou a prova disso. Musculação, além dos benefícios que todo mundo conhece, foi a melhor forma de terapia que encontrei até hoje. Passo a maior parte do dia lendo e escrevendo, e isso gera um grande desgaste mental.

Então a musculação entrou na minha vida como uma atividade divertida e prazerosa que me ajuda a relaxar. Sem dúvida, ao longo dos anos tive os mais diferentes objetivos na academia, mas desde sempre o mais importante para mim é a sensação de bem-estar ao levantar pesos. Hoje, mais do que nunca, posso dizer que o resto é apenas consequência.

Written by David Arioch

July 2nd, 2016 at 6:39 pm

Supino e o direito de ser marombeiro

with 4 comments

“Olha o naipe desse cara. Que otário! Muito músculo e pouco cérebro”, ocasionalmente dizia alguém

dumbbell

“Na década passada, eu sempre encontrava um amigo no mesmo horário na academia” (Foto: Reprodução)

Na década passada, eu sempre encontrava um amigo no mesmo horário na academia. Era um sujeito bem animado, sorridente e que gostava de ser notado. Quando não percebiam sua presença, ele encontrava um jeito de chamar a atenção – dava um urro sorrateiro, falava alto ou causava algum atrito ruidoso entre as anilhas. Jamais o percebi conversando sem arquear os braços, chacoalhar a cabeça, espichar as veias do pescoço ou fazer movimentos curiosos com as mãos. Era um exibicionista de boa índole.

Ao sair da academia depois de um treino de peito ou braços, tirava a camiseta, aproveitando para mostrar o pump – aquele aspecto que faz todo cara parecer maior após os exercícios por causa do aumento do fluxo sanguíneo bombeado no músculo. “Agora vou ‘apavorar’ na rua”, comentou um dia. Nessas circunstâncias, eu apenas ria. Aquela era a sua alegria, e se ele tinha algum tipo de prazer nisso, era o que importava, não cabendo a mim nem a ninguém julgá-lo.

Supino, como eu o chamava porque ele treinava mais peito do que qualquer outro grupo muscular, tinha o costume de atravessar o centro da cidade com a camiseta sobre o ombro, ignorando comentários e olhares desdenhosos, principalmente de quem menosprezava marombeiros. Se alguém fizesse careta ou criticasse e ele percebesse, não era raro Supino reagir de forma inesperada.

“Olha o naipe desse cara. Que otário! Muito músculo e pouco cérebro”, ocasionalmente dizia alguém. Sua reação instantânea era retribuir com um sinal de joia e uma contração muscular elevando a cabeça do bíceps. “Fica sossegado, irmão! É só entrar na academia, seguir dieta e treinar certinho por anos que você chega lá”, comentava sorrindo e finalizando a breve interação com uma piscadela provocativa e um tapinha no próprio deltoide.

Quando ele atravessava a movimentada Rua Getúlio Vargas, algumas mulheres também o depreciavam às vezes, incomodadas em vê-lo na sua caminhada fruitiva, com o torso à mostra enquanto o sol aquecia o asfalto, atravessava vitrines e exasperava os mais afoitos. “Nossa, o tipo! Se acha demais! Tem gente que faz de tudo pra aparecer! Pensa que é bonito ser vagabundo e andar seminu na rua!”, ouviu numa tarde.

Sem titubear, caminhou até a moça que fez o comentário com a amiga e a observou nos olhos por alguns segundos. “Com licença, senhorita. Tu paga as minhas contas? Lava minha roupa? Prepara minha comida? Acho que não, né? Então pode parar de admirar que aqui não tem nada de graça”, declarou sorrindo e dando dois tapas no próprio peito. Constrangida, a moça puxou a amiga pelo braço e caminhou apressada até o fundo de uma loja.

Supino agiu assim por muito tempo, na sua tenra espontaneidade. Um dia, logo que saiu da academia, quando já não treinávamos mais no mesmo horário, foi surpreendido e atropelado. Ele rolou sobre o capô do carro e caiu deitado com as costas contra o asfalto tórrido de uma manhã altaneira de verão. No chão, sentiu uma luz quente bloqueando sua visão.

O motorista fugiu e Supino continuou deitado no chão. Não gemia nem agonizava. Somente ria de si mesmo e do seu próprio azar, ignorando os ferimentos pelo corpo. Surpreendendo quem testemunhou a cena, ele se levantou e limpou os ferimentos com a própria camiseta branca transfigurada em vermelha.

Joelhos e cotovelos esfolados, muitas escoriações nas costas e no peito, um corte superficial na testa e outro no topo da cabeça, nada disso o impediu de soerguer-se para assistir o autor já distante, fugindo pela Rua Pernambuco. Na manhã seguinte, Supino estava na academia praticando musculação.

E mais, na mesma semana, tomou uma decisão. Foi até uma loja no centro de Paranavaí e pediu para uma vendedora mostrar-lhe algumas camisetas. Enquanto ele as observava, em dúvida sobre quais escolher, as mãos da moça tremiam e as frases saíam incompletas de sua boca. “Você precisa tomar um copo de água com açúcar ou maracugina, moça. Não parece nada bem!”, sugeriu.

De repente, ela começou a chorar e a pedir desculpas. Supino não disse nada. Complacente, assistiu a reação dela em silêncio. Comprou três camisetas e saiu da loja com a consciência tranquila. Lá fora, a observou pela última vez antes de partir. Ele sabia e ela sabia. Supino descobriu que a mesma jovem que antes se incomodou com sua presença, fazendo um comentário preconceituoso que ele retribuiu quando ela o viu sem camiseta, pediu ao namorado que o atropelasse, alegando que Supino deu em cima dela.

À época, o questionei sobre o porquê de não ter procurado a polícia. Ele deu uma de suas respostas minimalistas e filosóficas: “Sua consciência é o seu único e verdadeiro guia.” O episódio me traz lembranças de uma subjetiva frase escrita por Balzac no século 18: “Quando todo o mundo é corcunda, o belo porte torna-se a monstruosidade.”

Parabéns, Campeão! – Acidentes e estripulias na academia

without comments

“É agora que bato a cabeça na quina do banco e caio no chão com o crânio rachado e sem os dentes”

banco-supino-2-em-1-50x50-preto

Modelo do banco sobre o qual dei uma cambalhota no ar e caí sentado (Foto: Reprodução)

Nunca me machuquei seriamente praticando musculação, mas admito que ao longo dos anos passei por situações surpreendentes e inusitadas. Em um dia de treino de dorsais, a academia estava bem movimentada por volta das 18h. E por um milagre não havia ninguém usando a roldana.

Me aproximei, substituí a barra e coloquei o pino no último tijolinho da polia. “Que beleza! Hoje o treino vai render, já que não vou precisar esperar ou dividir a máquina com ninguém”, refleti com sorriso sardônico enquanto esfregava as mãos e observava outras pessoas que não tiveram a mesma sorte.

Fiz a primeira série de puxador frontal aberto assistindo a minha postura em um espelho à minha direita. Tudo ia bem até que no início da segunda série o cabo de aço se rompeu e voei para trás com a barra no colo, batendo as costas contra uma divisória branca que separa a sala de musculação da sala de aeróbicos.

O estrondo foi tão grande que ouvi duas pessoas gritando escandalizadas, pensando que o prédio estava ruindo. Até quem se exercitava do outro lado da academia veio xeretar. E eu sentado, com um sorriso enviesado, levantei rapidamente. Tentando não olhar ao meu redor, deixei a barra sobre o banco e caminhei até o outro lado da sala para fazer remada curvada.

O que mais causou estranhamento em quem presenciou o acidente foi o fato de eu continuar treinando. Apesar do susto, não senti nada e só deixei a academia quando terminei todos os exercícios. Na realidade, o único incômodo foi perceber tanta gente de olhos esgazeados, me observando e talvez me julgando como louco por não ter ido embora.

Em outra ocasião, eu estava na terceira série da cadeira abdutora quando o cabo arrebentou e violentamente veio em direção ao meu rosto. Faltando dois ou três centímetros para atingir meu olho esquerdo, ele chicoteou o ar e caiu complacente, repousando sobre a lataria do aparelho como se jamais tivesse saído dali. Senti gastura ao imaginá-lo penetrando meu olho e cutucando a íris como uma agulha aplicada com precisão cirúrgica.

Lá dentro, quem sabe a pontinha do cabo envergasse à direita e no momento do retorno – pop! Assim extraindo meu olho da órbita e deixando na cavidade a assinatura AB, de abdutora, como se fosse um tipo de zorro mecânico. Não sei, talvez ela quisesse apenas mostrar quem realmente mandava, que tudo estava ao seu alcance sempre que quisesse.

Vai saber, pode ser que os objetos não sejam completamente inanimados. Dizem que a barra olímpica usada no supino reto ganha vida de vez em quando. Não duvido. Um dia ela ficou teimosa no final do exercício e por pouco não me enforcou. Temendo o pior, senti a faringe se estreitando e o pescoço esquentando. Minha garganta parecia simular um canudo de plástico.

Àquela altura, minhas pupilas há muito dilataram, e mais do que nunca notei a barra lisa, escorregadia, traiçoeira e burlesca. Transparecia odiosa e retaliativa. A poucos centímetros do meu queixo, que se retraía com medo de ser esmagado, e prevendo que meus braços quase rendidos não suportariam mais a tensão, a amorteci levemente contra o peito. Estertorando e sentindo as fibras musculares dos meus ombros queimando, a deslizei em direção a minha barriga até o ponto de conseguir me levantar e tirá-la de cima de mim.

Sentado, me vi revigorado. Meu coração voltou a bater numa frequência mais aceitável, parei de suar frio e minha visão periférica se expandiu. Vislumbrei até o céu da academia se abrindo e uma revoada de dezenas de pássaros das mais diversas espécies circulando, circulando, até formarem a frase “Parabéns, Campeão!”. Quando levantei do banco, percebi que tinha duas anilhas a mais, e que não foram colocadas por mim. Realmente, a barra era inocente.

Ainda assim, acredito que icônico foi um episódio da época em que eu fazia paralelas em um banco de supino. Ele tinha um suporte de barras mais alto do que os mais tradicionais. Bom, em minha defesa, não existia nada específico para a realização das paralelas, então o jeito era improvisar. Como eu fazia esse exercício no dia do treino de peito, era preciso inclinar o corpo para a frente. Até aí tudo bem. Me apoiei sobre as laterais do banco e fiz a primeira série tranquilamente. Na segunda, por um deslize, inclinei demais o corpo e não consegui retornar à posição inicial.

Naquele instante, pensei o pior: “É agora que bato a cabeça na quina do banco e caio no chão com o crânio rachado e sem os dentes.” Contrariando previsões, inclusive de todo mundo que assistiu a cena – penso eu, dei uma cambalhota no ar e caí sentado no banco, sem sequer um arranhão. Nenhum espectador entendeu o que houve, muito menos eu. Mas fiquei orgulhoso pela façanha, assim como todos aqueles que escapam ileso de algum tipo de estripulia não planejada. Quando me levantei, agi como se tudo fosse proposital, sem saber que a calça não velava mais o quintal.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Um final de tarde agonizante no Castelo de Grayskull

with one comment

Uma camada de ferrugem que a cobria esfarelou sobre o meu rosto como chuva suja de óxido nítrico

01

Smith Machine, modelo usado no Castelo de Grayskull (Foto: Reprodução)

Em uma época da minha vida, me empolguei tanto com a musculação que comecei a treinar em duas academias. Ingênuo, eu acreditava que teria melhores resultados dessa forma. Então, sempre no final de semana, eu atravessava a cidade para me exercitar em um desses ginásios precários, onde falta tudo, menos a vontade de levantar pesos.

O cenário era desagradável para pessoas acostumadas com academias mais bem equipadas ou visualmente atrativas, o que não importava muito para mim, já que eu estava ali para complementar a rotina. A manutenção era inexistente, a julgar pelo aspecto enferrujado de anilhas, aparelhos descascados e travas de segurança tão moles que pareciam capazes de saltar sobre meus olhos ao toque de um dedo.

Era difícil não pensar nos riscos de ver pernas esmagadas ou decepadas tão logo a “guilhotina”, apelido que dei ao leg press, descesse na sua contumaz ferocidade, quando o mais descuidado dos usuários ousasse extrapolar nas repetições da última série. Talvez o aparelho até sonhasse com esse momento para compensar anos de negligência enquanto rangia mais do que o piso que a porta pungia.

Ao meu redor, nunca havia muita gente, e eu agradecia, calado e contente. Gostava de treinar sozinho, no silêncio da minha mente ou ouvindo uma playlist pungente. E minha fisionomia austera, que pouco aspirava à socialização, ajudava bastante nesse sentido. Nada contra ninguém. Na realidade, sou um sujeito bem educado. Eu apenas tinha um motivo específico e bem definido para estar ali.

Um dia, quando a outra academia fechou no meio da semana, recorri mais uma vez ao “Castelo de Grayskull”, apelido do ginásio sucateado. Era um final de tarde, e assim que me aproximei da entrada, alguns caras que acabaram de treinar saíram às ruas sem camiseta. Um deles fazia pose e estufava o peito enquanto o outro guardava dentro do bolso uma fitinha usada para medir o próprio braço.

“Olha como tô ficando fibrado! É nóis, mano!”, berrou o terceiro, ajeitando o par de óculos escuros, inclinando o corpo à direita e observando o próprio reflexo no retrovisor de um carro. O quarto amigo sacolejava uma coqueteleira e exibia um par de luvas que reluzia mais do que colete refletivo.

Por descuido, tive que retornar ao carro para buscar minha toalha. Nisso, passaram pelo menos quatro minutos, e o rapaz continuava sacudindo a garrafinha. Pensei até que pudesse ser um novo exercício para tratamento de artrite ou um tipo de powerball em forma de squeeze. Tudo bem! Entrei na academia, cumprimentei alguém na recepção e caminhei até um aparelho.

Era dia de agachamento invertido. Coloquei os fones no ouvido e as anilhas na barra. Num primeiro olhar percebi que aquele aparelho era menor do que o da academia onde eu treinava com mais frequência. “Ok! É só pegar leve e compensar a intensidade com mais séries e repetições”, concluí.

Deitei no chão, posicionei os pés contra a barra e fiz a primeira série. Antes do final, ela envergou e começou a estalar. Julguei que fosse normal e preferi me arriscar. Na segunda série, a barra travou na subida da última repetição. E, parar piorar, no mesmo instante um senhor com um crônico problema de flatulência, que reavivou lembranças da minha visita ao aterro sanitário, encostou na máquina, com as costas à minha esquerda, e seguiu papeando com uma moça.

“Mas você nem precisa fazer musculação. Tá maravilhosa!”, comentou o homem escorando o braço sobre as anilhas do aparelho, simulando um tipo de apoio. Ele forçava a barra para baixo enquanto eu tentava empurrá-la para cima. A música na academia estava tão alta que nem o sujeito nem a garota ouviam minhas reclamações. Me tornei invisível.

Quando comecei a roxear, com o aparelho repleto de anilhas dos dois lados, e a barra subindo apenas do lado esquerdo, tentei forçar a elevação mudando a posição dos calcanhares. Em vez subir, a barra apenas estremeceu e uma camada de ferrugem que a cobria esfarelou sobre o meu rosto como chuva suja de óxido nítrico.

Não consegui evitar que ciscos entrassem em meus olhos. Também franzi a testa e fiz um esgar de desgosto quando senti o pó de ferrugem nos lábios. Sem enxergar nada e tentando terminar a última repetição, ouvi o homem dizendo para a moça: “Nossa! Cruzes! Que mau cheiro! Hoooorrrrríííííveeeel! Vamos sair daqui! Tem gente que não respeita ninguém!”

Sem ver nada e agonizando no chão, com as pernas trêmulas e os olhos fechados, fiquei tão irado que aproximei um pouco mais os dois pés e empurrei a barra numa intempestiva e derradeira lufada de força. Assim que ela se prendeu ao suporte, me libertei. A música acabou e o silêncio começou.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Eu, a musculação e o preconceito

without comments

“Os músculos sempre vão demandar menos do que o cérebro. O seu corpo agradece se você dedicar uma hora do seu dia. Já o cérebro não se satisfaz com tão pouco”

"As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra" (Foto: Arquivo Pessoal)

“As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra” (Foto: Arquivo Pessoal)

Sou jornalista e já enfrentei inúmeras situações de preconceito por gostar de musculação, por gostar de me alimentar bem. Já ouvi várias vezes pessoas dizendo que jornalista é o sujeito sedentário que tem uma rotina baseada em junk food, cigarro, álcool, litros de café e muita insônia.

Nunca me enquadrei nesse obsoleto estereótipo e sei que há muitos outros jornalistas que também não. As pessoas tendem a achar que se você gosta de musculação é porque você tem tempo de sobra, é uma pessoa à toa, que fica mais tempo na academia do que em casa ou no trabalho. Não, isso não é verdade e eu posso afirmar por experiência própria, já que passo a maior parte do dia produzindo, pensando, lendo e ouvindo pessoas, o que tem tudo a ver com a minha atividade profissional.

“Cuidado pra não ficar brocha!”, dizem alguns num tom de brincadeira que vela um anseio pela ofensa. A verdade é que o preconceito é sempre recorrente. Há aproximadamente dois anos, me encontrei com um camarada em um conselho de discussões sociais. Quando me viu, ele disse: “Nossa, Arioch! Tá bem maior, hein? Pelo jeito está dando mais prioridade para os músculos do que para o cérebro. Então comentei: “Não, pode ficar tranquilo. Os músculos sempre vão demandar menos do que o cérebro. O seu corpo agradece se você dedicar uma hora do seu dia. Já o cérebro não se satisfaz com tão pouco.”

Passei por outras situações parecidas, até piores. Tem gente que até se afasta de você por causa disso. Há quem ache estranho você gostar tanto de musculação sendo que profissionalmente atua numa área que não tem nada a ver com atividade física. Claro que não há o menor sentido em pensarem assim, mas é o que acontece. Inclusive há alguns anos fui ofendido por postar fotos da minha evolução no Facebook, o que revela um nível excruciante de intolerância.

Muita gente tem dificuldade em entender que isso é uma forma até de estimular quem não pratica atividades físicas ou de incentivar amigos que estão começando. Todos os dias percebo como as pessoas são capazes de odiar ou desprezar alguém por gostar de alimentação saudável e atividades físicas. Sei que há pessoas que exageram nesse aspecto, só que não é justo fazer generalizações. Eu, por exemplo, nunca tive o hábito de criticar ninguém por suas preferências alimentares ou desinteresse por musculação.

Na realidade, não vejo sentido em tocar no assunto com quem não gosta de nada disso. As pessoas merecem a liberdade de escolher o que querem fazer. Mas claro que sempre tentei ajudar ou recomendar profissionais para todos que vieram até hoje conversar comigo sobre o assunto, até porque me recordo como eu era desinformado quando ingressei numa academia há mais de oito anos.

Ainda assim, me identifiquei tanto que frequento o mesmo ambiente até hoje. De segunda à sexta, dedico pelo menos uma hora do meu dia à musculação, o que não é muito se levarmos em conta que o dia tem 24 horas. A nossa condição física exige isso, já que fomos feitos para o movimento.

Mudei de horário algumas vezes por necessidade. Já treinei 5h30 da manhã. Naquela época o instrutor me entregava as chaves para eu abrir a academia. Foi assim durante pelo menos três anos. Hoje treino no final da tarde, horário que sempre que posso sigo liturgicamente há cinco anos. Quando necessário, também dou um jeito de ir em outro horário. Com o tempo, comprei algumas anilhas, barras e halteres para quebrar o galho de vez em quando.

Musculação pra mim nunca foi tortura ou sacrifício. Um dia ouvi uma instrutora ao meu lado na academia falando para um rapaz que odiar musculação é normal, já que ninguém gosta, apenas faz porque precisa. Não, isso também não é verdade. Amo me movimentar e levantar pesos, por mais que isso possa parecer estranho para muita gente. É muito prazeroso.

Há pessoas que apenas são assim, gostam do que fazem e se sentem bem. Muitas outras não. Ouço muitas reclamações à minha volta o tempo todo na academia. Muita gente impõe limites a si mesmo. Quando os obstáculos não existem, as pessoas o criam, como forma de fuga. Respeito o direito de cada um de não gostar de musculação, até porque se você não se identificar com ela, ela também não vai se identificar com você.

Quando decidi praticar musculação, a primeira coisa que fiz foi não encará-la como algo distante da minha realidade. Para exemplificar, cito o fato de que fui diagnosticado com hérnia de disco antes de me matricular numa academia. Um ortopedista recomendou que eu não fizesse musculação. Contrariei suas indicações e comecei a treinar. Eu fazia todos os exercícios que qualquer pessoa completamente saudável faria. Com o tempo, minha coluna lombar se fortaleceu e até hoje tenho uma rotina baseada nos exercícios que mais exigem da lombar. Resumindo, meu treino é extremamente intenso, já que estou sempre me forçando ao limite, e me sinto mais saudável do que nunca.

Atividades físicas fazem uma grande diferença na minha vida, assim como uma boa alimentação. Eu não como bem porque preciso. Bom, na verdade eu preciso sim, mas não vejo como obrigação. É algo natural pra mim. Comecei a me interessar por nutrição há uns bons anos, quando me consultei com uma nutricionista que elaborou pra mim uma dieta ruim voltada para pessoas sedentárias. Ou seja, ela não entendia de nutrição esportiva. A partir daí, comecei a pesquisar sobre o assunto. Ingressei em fóruns de musculação e nutrição, fiz amizades com pessoas da área, comprei livros sobre o tema. Enfim, tentei adquirir conhecimento e me manter atualizado.

Após alguns anos, aprendi a conhecer minhas necessidades, por isso hoje minha dieta não é baseada em contagem de calorias. Levo em conta apenas quantidades e distribuição de macronutrientes, ou seja, carboidratos, proteínas e gorduras, sempre tendo como referencial meu peso corporal. Realmente não costumo comer bobagens. Pra mim, não é privação. Faz tanto tempo que tenho esse estilo de vida que não costumo sentir falta de consumir alimentos baseados em calorias vazias. E como meu foco nunca foi competir como fisiculturista, treino naturalmente, ou seja, sem o uso de esteroides anabolizantes.

Apesar disso, meu ano é dividido em duas fases. Uma de ganho de massa muscular e outra de queima de gordura. Só que evito deixar meu percentual de gordura realmente alto. Também acho viável dizer que não vejo suplemento como necessidade primária, mas gosto de proteína vegetal em pó, até porque também é uma boa para quem gosta de cozinhar, o que é o meu caso como mostra o meu blog vegaromba.com. Também acho interessante o consumo de um multivitamínico, claro, dentro das minhas necessidades.

Além de tudo que falei até agora, afirmo ainda que vejo a musculação como uma atividade terapêutica, uma boa forma de escape ou extravasamento para quem tem uma rotina com grande desgaste psicológico e emocional.

Written by David Arioch

June 7th, 2015 at 5:39 pm

Posted in Autoral

Tagged with , ,