David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Um dia reconhecendo a fragilidade da vida

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Esgotado, mantinha os olhos semimortos em direção ao líquido âmbar profundo dentro do copo

Entrada do cemitério onde as beatas praguejavam a moça (Foto: Celso Colhado)

Entrada do cemitério onde as beatas praguejavam a moça (Foto: Celso Colhado)

Acordei cedo numa manhã de outubro de 1993. Após o café da manhã, abri o jornal para ler o obituário. Garotinha de 11 anos, homem de 31 anos e senhora de 51 anos estavam na página, vítimas de meningite, acidente de carro e câncer de mama. Os três tinham nomes completos com a mesma quantidade de letras. A expressão no olhar de cada um nas fotos em preto e branco era bastante similar. A mim, transmitia um misto de melancolia e fragilidade. Além disso, fiquei sabendo depois que faleceram no mesmo horário, nem um minuto a mais ou a menos.

Enquanto lia, me distraí e levei um baita susto quando ouvi a voz da minha mãe. Fechei o jornal e, atendendo a um pedido dela, fui até a Casa Moreira, na Rua Manoel Ribas, comprar alguns produtos de limpeza. No caminho, só conseguia pensar no que a morte teria levado de cada falecido. “Ninguém nunca mais vai ver aquelas pessoas andando por Paranavaí. Acho que deve ter gente chorando, gente com raiva… O que será que estão pensando sobre a morte? Nossa! Aqui morre gente todo dia… Se existe paraíso, deve ser um lugar gigante pra caber esse povo todo”, refleti.

Na Moreira, assim que coloquei a mão em um frasco de alvejante, ouvi uma mulher de pouco mais de 30 anos chorando. Me aproximei e a vi segurando um maço de velas e retirando uma grande caixa de fósforos da gôndola. Entre soluços, comentou com sua mãe que a sua filha disse na semana anterior qual era o seu sonho. “Mãe, quero cuidar do Tininho. Acho que ele tá doente. Você viu como a barriga dele tá inchada? Se eu melhorar, quero ser médica de animais, assim nunca vou deixar nenhum bichinho sofrer”, narrou a mulher, reproduzindo com sofreguidão o discurso da filha. Seus olhos negros como a noite denunciavam através de um aureolado carmim que o choro se estendeu por tanto tempo que havia sinais de queimaduras na ourela dos olhos.

Quando eu estava me afastando, escutei a moça relatando num rompante emocional: “Perdi a Betina, mãe! A perdi pra sempre! Sabe o que ela me falou antes de morrer? ‘Vou dormir um pouquinho, mãe. Você me acorda daqui a pouco?’” Em seguida, as duas se abraçaram dentro do mercado. E assim continuaram, numa troca de confidências não verbalizadas. Em respeito àquele momento, e com receio de ser visto, me distanciei vagarosamente e passei pelo caixa. Então as duas sumiram do meu campo de visão.

No mesmo dia, antes do almoço, fui com meu pai ao Restaurante Magia, na Avenida Distrito Federal, buscar quatro marmitas. Quase todas as mesas e cadeiras estavam ocupadas por famílias, grupos de amigos e de colegas de trabalho. Notei pessoas em silêncio, sorrindo, contando anedotas, falando alto e repreendendo os filhos pequenos que circulavam por baixo das mesas. Com os braços curtos abraçando o topo da cabeça, fingiam que fugiam de bombardeios.

Em um canto, sentado em um banco, o único homem solitário no restaurante deslizava o dedo indicador da mão direita pelas bordas de um copo de whisky. O seu aspecto sorumbático e adventício contrastava com o cenário, assim como as olheiras formando arcos de ciprestes tão densos que davam a impressão de pesar sobre os seus olhos, o forçando a inclinar a cabeça em frente ao balcão. Esgotado, mantinha os olhos semimortos em direção ao líquido âmbar profundo dentro do copo. As bebericadas eram insuficientes para umedecer os lábios esquálidos e ressecados. Parecia não se importar em suavizar aquelas pequenas fendas que aos poucos se transfiguravam em cicatrizes.

Naquele local a única coisa que o incomodava era a dormência das pernas. Por isso, vez ou outra movia os pés do apoio do banco e os sacolejava. Numa dessas meneadas, um chaveiro de prata escorregou e ficou pendurado no bolso esquerdo da calça de linho cinza, por onde despontava a imagem de uma jovem mulher nos anos 1970. Ocasionalmente o sujeito deslizava os dedos pela foto enquanto conduzia os olhos mortiços até um rádio pequeno a poucos metros de distância que executava “Please, Forgive Me”, de Bryan Adams, em volume baixo.

Ao final da música, o senhor de meia-idade pagou a conta, acenou com a cabeça sem dizer palavra e atravessou o restaurante lotado. Não notou qualquer presença – ou preferiu ignorar. Nem olhou para os lados. Somente parou na entrada do estabelecimento, observou rapidamente o céu, abriu um relógio de bolso dourado para ver as horas e seguiu pela Avenida Distrito Federal com o rosto mirando o bico abaçanado dos sapatos.

No início da tarde, por volta das 13h, minha mãe me chamou para ir ao Cemitério Municipal de Alto Paraná ajudar a limpar os túmulos da minha bisavó e de dois tios-avôs falecidos na juventude. Me empolguei com a ideia de rever o lugar, já que no meu ideário de criança uma necrópole nunca significou simplesmente um ambiente de consternação, mas também um universo de possibilidades de aprender um pouco mais sobre a vida e as pessoas.

Depois de percorrer 19 quilômetros de asfalto e mais alguns de senda – sentindo imponderável friozinho na barriga ao passar por tantas lombadas de terra, fomos surpreendidos por um cãozinho mestiço, bigodudo, de pelagem rala e acobreada que correu em frente ao carro enquanto assistíamos as cortinas de poeira sabulosa ocultando o horizonte com a intensidade de um siroco. Por sorte, meu pai conseguiu frear a tempo.

Escanifrado e de barba sarapintada, um rapaz recostado na carroceria de um caminhão velho carregado de melancias orgânicas tirou o cigarro de palha do canto da boca. Veio em nossa direção segurando com a mão esquerda um facão respingando suco de melancia. Com a direita acompanhada de um olhar dúbio, acenou para o meu pai abaixar o vidro.

“Óia, não leve a mal não. Além de pestiada, a bichinha tá baruiano. Então ela fica tchuca tchuca. Ô alemoa, traz uma metade dessa melancia aí que vou taiá pro homem aqui”, gritou o rapaz para a sua companheira. Meu pai sorriu, agradeceu e disse que não era necessário. Ainda assim, o homem insistiu até levarmos um pedaço da fruta de miolo vermelho tão aveludado que parecia uma iniquidade comê-lo.

Perto da entrada, durante a limpeza do túmulo da minha bisavó, minha mãe perguntou se eu sabia o porquê do cemitério ficar tão longe da cidade. “Quando foi construído, pensaram que o progresso, a área urbana de Alto Paraná, viria até aqui. Uma pena! As erosões não permitiram construções nesta área”, explicou. No terceiro jazigo, do meu tio-avô João, falecido em 1962, havia flores de uma ex-namorada dos tempos da juventude.

A poucos metros de distância, o som de uma brisa, que fazia árvores das mais diversas espécies se inclinarem sobre os visitantes ,desapareceu em meio a soada de passos fragorosos e vozes dissonantes. O pandemônio chamava a atenção para uma jovem de beleza delicada, pele oliva, cabelos castanhos e não mais que 25 anos caída sobre uma lápide. Ela não se movia. Estava mole e frágil como a rosa vermelha e antes cálida que murchou com a soalheira, se dobrando ao seu lado dentro de um vaso de cerâmica rosácea. Em meio ao barulho ensurdecedor dos curiosos, seu rosto tinha feição serena e alheia. Quem sabe, como sua própria existência.

Fora do cemitério, talvez por educação, algumas beatas praguejavam a moça pelo suicídio à base de estricnina. “Quis morrer? Tá bom! Conseguiu. Mas acha que vai ingrupi Deus? Não vai não! Lugar de quem faz isso é no inferno. Aaah! Se fosse minha filha tinha levado uma camaçada de pau pra não ter esse tipo de pensamento de gente varrida!”, esbravejava uma senhora de pelo menos 60 anos, representante de uma entidade filantrópica. Lá fora, um pedreiro que sempre fazia bicos de reforma e limpeza de túmulos no mês de outubro contou a alguns abelhudos o possível motivo da morte da moça.

Em casa, à noite, recostei a cabeça no travesseiro e demorei a dormir, refletindo sobre tudo que vivenciei naquele dia 30 de outubro de 1993. Da janela do meu quarto, observei de soslaio as parreiras de uvas que se enrolavam nas treliças de arame rente ao muro branco. Mais adiante, um céu quebrantado e abissal me fez imaginá-lo furibundo, prestes a engolir o mundo. “Cadê as estrelas? Cadê a lua? Talvez esteja de luto pelas tantas estrelas que viu nascer e morrer. Será que se cansa como nós? Ah! Não dá pra saber! Deve tá reunindo forças pra ressurgir com a manhã!”, pensei.

Voltei meus olhos para as parreiras e notei que algumas tinham se soltado das treliças. Pareciam quebradiças, sem liames, moribundas. Então lembrei das três pessoas do obituário. Ao longo de uma manhã e uma tarde o acaso me conduziu a elas através da dor daqueles que padeciam diante do vácuo da ausência e da contumácia da solidão.

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Quando Alex Kidd nos inspirou a viver

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“Por um momento, quis ser admirado por explodir tijolos e saltar sobre balões vermelhos”

"Pensamos em prender Pozinho no guarda-roupa para jogarmos Alex Kidd por algumas horas" (Foto: Reprodução)

“Pensei em prendermos Pozinho no guarda-roupa para jogarmos Alex Kidd por algumas horas” (Foto: Reprodução)

A primeira vez que joguei videogame foi em 1988, quando meus pais trouxeram para casa um Atari 2600. O ligávamos em uma TV com caixa de madeira de 21 polegadas. Eu achava o controle engraçado porque me lembrava o estribo de uma bicicleta na posição vertical. No dia do teste, minha empolgação era tão grande que eu não conseguia parar de sorrir. Parecia o Animal do desenho animado Muppet Babies. Também tive uma repentina crise de comichão que só desapareceu depois de 30 minutos jogando Enduro. Para mim, aqueles carrinhos que mais se assemelhavam com aranhas deformadas representavam a mais fidedigna perfeição. “Olha, Douglas! Legal demais, né? Tem até disputa na neve”, comentava com meu irmão mais velho.

Depois de Enduro, conhecemos uma infinidade de outros jogos, como River Raid, H.E.R.O, Keystone Kapers, Space Invaders, Pac-Man, Pitfall, Boxing, Ice Hockey, Freeway, Sneak ‘n Peek, Spider-Man, Adventure, Donkey Kong, Skiing e Mario Bros. O que facilitava o acesso eram os cartuchos multijogos. A maior diferença de se jogar Atari quando o videogame ainda estava no auge era a oportunidade de ver as reações de crianças, adolescentes e adultos. Não era difícil testemunhar pessoas chorando de alegria ao jogar pela primeira vez. O videogame também funcionava como um tipo peculiar de “medidor de solidariedade”. Ou seja, você podia perceber facilmente quem eram seus amigos, colegas e conhecidos mais egoístas. Alguns chegavam a chamar vizinhos apenas para assistir aos jogos, sem oferecer qualquer possibilidade dos convidados encostarem as mãos em um controle.

Participei de um episódio assim na casa do garoto mais rico do meu bairro em 1989. Detentor de um Master System novinho, ele fez questão de chamar a minha atenção e a de mais outras seis crianças. Na tarde daquele dia, brincávamos de esconde-esconde nas imediações de um terreno baldio perto da minha casa, na Rua Pernambuco, em Paranavaí. “Olha, meu pai trouxe pra mim dos Estados Unidos o melhor videogame do mundo. É um Master System. Hum…aposto que nunca ouviram falar dele, né? É muito, muito melhor do que o seu Atari. Quem quiser pode ir lá em casa daqui meia hora que vou mostrar como ele é perfeito”, disse o menino. Imediatamente, sem se despedir, virou as costas e foi embora.

Na hora, nem me importei com o tratamento dado pelo garoto. Ignorei a sua altivez, arrogância e pedantismo. Me preocupei apenas com as palavras Master System. A princípio, o resto foi descartado como se eu jamais tivesse ouvido qualquer outra frase saída de sua boca descarnada. Aquele nome mexeu tanto com a nossa imaginação que paramos de brincar de esconde-esconde. Sentamos no meio-fio e comentei em tom de contemplação: “Master System parece um nome bonito, né? Maaa…sss…teer…Syyysss….teeem. Aaaah, mas será que existe coisa melhor que Atari? Atari é Atari!” Na nossa turma de jovens de quatro a sete anos, todo mundo concordou. Alguns balançaram a cabeça e outros emitiram apenas um monossilábico “aham” seguido por risos. Chegada a hora, fomos até a casa do “Pozinho”, um apelido oculto que atribuímos àquele garoto que vivia no palacete branco da esquina. Como passamos boa parte da tarde brincando de esconde-esconde, escalando árvores e atirando com pistolas de água, não estávamos bem limpos.

Quando chegamos à esquina, do alto de seu quarto, contíguo a uma sacada romanesca, Pozinho nos observou com um olhar displicente e sobranceiro. Talvez nos enxergasse como formigas obreiras que estavam ali para cultuá-lo, levá-lo ao êxtase com nossa inferioridade reafirmada na falta de acesso a um videogame, um objeto de desejo recém-despertado em nós por ele mesmo, na gana de tentar ferir nossos sentimentos. Sim, lá em cima estava uma criança de seis anos, mas com anseios perniciosos tão sobressaltados que despertava admiração até em adolescentes celerados. Assim que Pozinho se afastou da janela, fiquei na ponta dos pés para acionar o interfone. Martinha, uma senhora negra, alta, simpática e de pele reluzente que trabalhava como empregada doméstica na casa há mais de 20 anos, destravou o portão. Quando coloquei meus pés sobre um tapete felpudo dourado que ornava o antepasso da sala, percebi como meu tênis chinesinho branco estava demasiado sujo.

Os cadarços encardidos me deixaram constrangido ao ver tudo brilhando no interior daquele cômodo. Um aroma suave e cítrico, simbolizando a mais devotada das limpezas domésticas, amplificava o meu pré-remorso. “Que vergonha! Ela limpou aqui agora”, pensei comigo mesmo. No canto, um vaso grande com lírios-da-paz, uma das plantas preferidas da minha mãe, realçava ainda mais o perfume do ambiente. Ao ver minha hesitação, Martinha disse que não tinha problema nenhum. “Entre, menino! Não vão ser seus pés miúdos e menores que a palma da minha mão que vão atrapalhar o meu trabalho. Pode ficar sossegado!”, garantiu ela com um sorriso tão confortável que fez sucumbir o meu mal-estar.  Na mesma esteira, seguiram-me as outras crianças. Martinha então nos levou até o quarto de jogos do Pozinho, situado no terceiro piso.

Éramos como os sete anões seguindo os comandos de Martinha, a nossa laboriosa Branca de Neve nos guiando aos aposentos da Rainha Grimhilde. Antes de abrir a porta e se despedir, ela recomendou que ignorássemos o jeito grosseiro e a metidez do juvenil patrão. Assim que entramos, Pozinho nos deu uma olhadela e comentou: “Todos vocês vieram? Certo! Só não fiquem muito perto de mim nem da TV porque preciso de espaço pra me concentrar.” Olhamos uns aos outros e seguramos o riso com as mãos, ignorando nossas unhas com resíduos de terra e de cascas de árvore. Sem perceber nossa reação, o garoto ligou o videogame e se acomodou em uma confortável poltrona inclinável que trazia uma etiqueta com a bandeira dos Estados Unidos. Ao alcance de sua mão direita, havia uma bandeja com Dadinho, Ice Pop, balas Fizz, pirulitos do Zorro, 7 Up e Sukita.

Ensaiando uma centelha de educação, sugeriu que sentássemos onde quiséssemos. Não havia lugar para todo mundo, então fomos todos para o chão. Em poucos minutos, nos mostrou Alex Kidd, um jogo de plataforma em que um garoto orelhudo destrói pedras com os punhos. Nossos olhos brilhavam ao ver tantas cores em um game. O que era aquilo? Quem era aquele herói cabeçudo serpenteando por bosques e cavernas? Pensei que estivesse sonhando. Quis morar naquele quarto para sempre. Não! Por um momento, quis viver dentro do jogo, sendo admirado por explodir tijolos e saltar sobre balões vermelhos. Como o jogo estava em inglês, Pozinho fez questão de dizer sem base alguma que ele entendia tudo e nós não entendíamos nada.

O ignoramos e trocamos olhares maliciosos. Nos comunicamos muito bem sem precisar abrir a boca. Havia um desejo unânime, não verbalizado, de tapar a boca de Pozinho com esparadrapo e trancá-lo dentro do guarda-roupa. Jogaríamos Alex Kidd por algumas horas e então o soltaríamos. Sim, na teoria parecia plausível. Só que a realidade era muito diferente. Não tínhamos coragem, nem achávamos aceitável fazer algo assim. Fabiano e Mariana, dois da nossa turma, não resistiram, se levantaram e pediram para jogar. Pozinho desdenhosamente declinou a proposta com um olhar de desprezo seguido por uma careta de nojo. A negativa os emocionou sobremaneira que ao longe se podia notar a transparência e o aspecto orvalhado de seus olhos. “Rá! Até parece! Chamei aqui só pra vocês passarem vontade mesmo. Agora podem sair daqui. Tchau!”, declarou sem velar o sorriso sardônico e a intenção capciosa.

Nos levantamos, abrimos a porta e descemos os degraus. Olhei para trás e mais uma vez ele estava nos observando. Se regozijava com a nossa pequenez, já que a sua anormal baixa estatura para alguém de seis anos não permitia tal comportamento tão empertigado quando estávamos de pé diante dele e sobre o mesmo piso. Para quebrantar sua satisfação, acenei, sorri e agradeci o convite. Lá embaixo, a iluminada Martinha nos aguardava com doces e refrigerantes. “Olha o que separei pra vocês. Coloquem em seus bolsos ou escondam em suas roupas e vão com Deus”, sugeriu numa despedida afetuosa. De volta ao meio-fio, entre goles de Soda Limonada, dividimos sorvete fura bolo, arrozinho em flocos, azedinho de morango e balas. Ao escurecer, fomos para casa. No dia seguinte, eu soube que três amigos adoeceram de tanta vontade de jogar Alex Kidd no Master System. Ficaram febris e passaram dias sem consumir alimento sólido.

Irritado, me senti tentado a retornar à casa de Pozinho para destruir o seu videogame a marteladas. Consegui me controlar e também evitei de contar a algum adulto o que aconteceu. Ninguém da nossa turma relatou nada. Uma semana depois, já não nos importávamos muito com o Master System. Continuamos jogando Atari, realizando pequenos torneios de jogos de corrida e luta. Quando enjoávamos, saíamos para escalar árvores, colher frutas ou brincar de esconde-esconde, pega-pega e “balança, caixão”. Em frente à Sanepar, subíamos em um muro alto que permitia uma visão privilegiada da baixada do Jardim Paulista, onde mais tarde desceríamos com carrinhos de rolimã.

Azul e límpido ou enuviado e chovediço, o céu nunca nos mostrou limites, assim como as sibipirunas, os ipês, as sete-copas e os jamelões que se refaziam conforme as estações do ano. Os muros e as escadas cada vez maiores também reconduziam nossas aventuras. As novas construções instigavam nossas visitas tanto quanto as casas e os barracões abandonados. Cães de diversos tamanhos ainda nos perseguiam, não por maldade, mas porque no dia a dia eles eram personagens dos jogos de plataforma que eram nossas vidas. No final de 1989, Pozinho ainda me observava ao longe. Tentando me provocar, um dia balançou o controle retangular do Master System para fora da sacada do seu quarto. O cumprimentei e sorri brevemente. Não, não quis ser irônico. Senti pena e compaixão ao ter certeza de que enquanto ele simulava ser um personagem aventureiro de um videogame, nós éramos felizes por sermos os Alex Kidd do mundo real.

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Meu primeiro encontro com a morte

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Tentei tocar o chão abaixo dos meus pés, mas estava fundo demais

Eu no dia em que quase morri afogado (Foto: Arquivo Familiar)

Eu no dia em que quase morri afogado (Foto: Arquivo Familiar)

Meu primeiro encontro com a morte foi em janeiro de 1993. Aconteceu de forma casual, inocente, incauta e avassaladora, assim como muitas das nossas experiências na infância. Meus pais tinham planejado no final de 1992 uma viagem para o litoral norte de Santa Catarina.

Saímos de casa numa madrugada, por volta das 4h, um horário que sempre agradou meus pais pela grande possibilidade de não encontrarmos muitos veículos na estrada, ao menos nas primeiras horas de viagem. Admito que o sono ficou bem leve ao saber que sairíamos cedo rumo a novos destinos. Acordei com a respiração ofegante e expansiva do Happy e do Chemmy ao pé da orelha. Eram dois cãezinhos da raça poodle parecidos com dois grandes flocos de neve.

O Happy vivia com a língua de fora, como se quisesse falar e não latir. Ostentava um semblante jubiloso, dando a impressão de passar o dia inteiro sorrindo. Já o Chemmy possuía olhos tão expressivos que me transmitiam uma cândida melancolia. Em síntese, era menos agitado e mais carinhoso. Em comum, apesar das diferenças de personalidade e fisionomia, os dois eram dotados de uma postura altiva e indefectível. Só sentavam ou deitavam no chão com as patas sobrepostas, formando um X de formas itálicas. No dia da partida, pedimos à minha avó Clara para cuidar da casa e dos animais.

Em parte, o percurso foi relativamente tranquilo, até porque meus pais gostavam de parar em locais que não conhecíamos, tornando a viagem mais proveitosa e divertida. Quando chegamos a Matinhos era quase meia-noite e me surpreendi ao ver uma movimentação de centenas de pessoas pelas ruas. Eu, acostumado a uma realidade em que 22h já era tarde, não sabia que existiam cidades noturnas.

Havia muitas luzes, o suficiente para me fazer crer que a escuridão não tinha vez naquele lugar. A experiência me lembrou a reação de uma criança estrangeira ao ver o fulgor do sol da meia-noite em Luossavaara, no extremo norte da Suécia. Os letreiros enormes e brilhantes no centro de Matinhos iluminavam as ruas, as calçadas e os passantes. Também serviam como juncos para corujas urbanas que assistiam skatistas adolescentes saltando bancos, pequenas rampas e executando rock slides enquanto sorriam e seguravam latinhas de Coca-Cola, Taí e Fanta.

Os arroubos da urbanidade confundiam os vaga-lumes que se misturavam aos remanescentes piscas-piscas de Natal, talvez pensando que fossem parentes. Alguns jovens miravam a lua, balançavam os braços, bebiam cerveja em saquinhos, gargalhavam e cantavam Under The bridge, do Red Hot Chilli Peppers. Outros continuavam hipnotizados no interior de uma casa de fliperamas com mais de 40 máquinas.

De longe, eu ouvia sons retumbantes de tiros, saltos, acelerações, derrapagens, socos, chutes e musiquinhas eletrônicas monofônicas e polifônicas. O local estava cheio de adolescentes e crianças acompanhadas dos pais. A empolgação no interior me lembrou a cena em que Marty McFly, interpretado por Michael James Fox, observa crianças jogando fliperama em De Volta Para o Futuro 2. Chips, refrigerante, chiclete em rolo, Freshen Up, Minichiclets, Mentex e Lollo abasteciam os jogadores alheios ao que acontecia nas ruas. Rodeados de testemunhas, os desinibidos e impetuosos falavam alto e apertavam os botões com força. Logo entendi que queriam deixar suas marcas nas máquinas.

Lá fora, o céu não estava muito escuro. Suspeitei que estivesse absorvendo as cores e as luzes dos lugares, das pessoas e dos animais que ajudaram a compor um cenário notívago tão complacente. Percorri centenas de metros dentro e fora do carro. Não vi discussões, trocas de ofensas, nem violência. Quando um rapaz pisou em falso na calçada e caiu em frente a um automóvel no asfalto, um senhor imediatamente desceu do carro e o ajudou a se levantar.

Mais adiante, um motociclista se descuidou ao admirar uma bela moça em traje de verão que andava rente ao meio-fio. Como consequência, bateu na carroceria de uma caminhonete. Ao ver o jovem caído, o motorista de aproximadamente 50 anos desceu e ignorou os arranhões na lataria. “Você tá bem? Quer que peça ajuda?”, indagou. Apesar do susto, o motociclista não se machucou e a moto sofreu apenas riscos superficiais. O dono da caminhonete considerou o prejuízo mínimo e se recusou a cobrar. Agradecido, o rapaz se despediu com um sorriso portentoso e um aperto de mão consistente.

Após alguns dias em Santa Catarina, acordamos cedo numa manhã ensolarada e fomos a uma praia entre Itajaí e Balneário Camboriú. Havia pouca gente em frente ao mar calmo e convidativo. Sentei um pouco na areia para observar tudo à minha volta. Notei que o céu estava especialmente azul, límpido e com um recorte amarelo amendoado que parecia a entrada de um portal para lugar algum. Também avistei suas nuvens envolvendo e afagando nove gaivotas.

Minutos depois, me levantei e avisei meus pais que eu entraria no mar. Como manda a tradição, me disseram para ter cuidado e ficar próximo da margem. Comecei a brincar na água, numa área tão rasa que me permitia ficar agachado ou sentado afundando as mãos na areia. Quando enjoei, caminhei mar adentro, sentindo o peso cada vez maior da água sobre o meu corpo. Estava tudo bem. Percebi pessoas perto de mim e o mar ainda não tinha tocado os meus ombros. De repente, enquanto eu sorria e via meus pés penetrando a areia, as águas se rebelaram. O impacto de uma grande onda me arrastou alguns metros mar adentro.

Confuso e sem enxergar direito, engoli a água salgada que invadiu minha garganta com tanta aspereza que quase engasguei. Tentei tocar o chão abaixo dos meus pés, mas estava fundo demais. Não havia ninguém nas imediações. Observei ao longe apenas fisionomias desfocadas. Me debati contra a água, tentando nadar. Não adiantou. Outra onda me arrastou e desta vez para o fundo do mar.

Bebi muita água a contragosto e comecei a ter rápidas alucinações. Imaginei alguém me puxando pelos pés. Meus olhos e garganta queimavam de forma vertiginosa. Tanto que minha visão enturveceu gradualmente, abalando minha crença na sobrevivência. Fui tomado por lembranças fugazes dos poucos parentes e amigos falecidos. “Não! Eu não quero encontrar vocês ainda. Quero ver minha família. Eles estão logo ali, bem mais perto de mim do que qualquer um de vocês. Sou criança ainda. Por favor!”, pensei. Ao mesmo tempo, senti o palato abrasado e as lágrimas caindo do meu rosto como chuva de verão.

Para minha surpresa, antes que fosse vencido pelas câimbras, o mar se acalmou. Eu continuava muito longe da margem, só que ganhei o direito de nadar. Então coloquei em prática o que aprendi nas aulas de natação com meu pai em 1992. Mesmo combalido, cheguei à beira-mar. O medo de morrer era tão grande que só parei de nadar quando a areia tocou meus joelhos. Saí da água rindo e chorando ao mesmo tempo, com as pernas cambaleando, o rosto pálido e os lábios arroxeados. Não consegui dar outro passo e caí deitado.

Minha família chorou comigo. Naquele dia o salva-vidas sumiu e quando meus pais me localizaram eu já estava nadando. Eles viram apenas meus braços curtos e meus cabelos negros e lisos se movendo na água. Antes de me levantar da areia para ir embora, observei novamente o céu. O recorte amarelo amendoado tinha se dissipado, mas não as nove gaivotas que recebiam as carícias das nuvens que cobriam o mar da Praia Brava.

 

 

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A minha primeira vez no caldeirão do inferno

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Imaginei o mais tenebroso e abissal dos cenários, com chamas flamejantes ao fundo

Meu irmão e eu no interior do caldeirão do inferno (Foto: Arquivo Pessoal)

Meu irmão e eu no interior do caldeirão do inferno (Foto: Arquivo Pessoal)

Meu pai gostava muito de viajar. Depois que se aposentou então a frequência aumentou consideravelmente. Às vezes, levantava de madrugada e acordava todo mundo. Pedia para arrumar as malas e avisava que partiríamos em uma hora. Era divertido viajar sem planejamento, até porque quando ele avisava com bastante antecedência eu e meu irmão Douglas ficávamos agitados e ansiosos. Ou seja, não dormíamos.

Amante da cultura paranaense, meu pai tinha predileção por mostrar como o estado onde nascemos possui muitas riquezas que passam despercebidas por tanta gente. Foi assim que conheci o Paraná de Norte a Sul quando criança. Ele enaltecia a simplicidade, as coisas da terra e o teor sereno das pessoas do campo, dos vilarejos e das pequenas formações citadinas, lugares alheios ao tempo, onde tudo parecia transcorrer sem pressa. No caminho, cantávamos canções escoteiras como “A Velha A Fiar”, “A Árvore da Montanha” e “La Bela Polenta”. Meu pai dirigia com tranquilidade enquanto desafiava eu e meu irmão a ler primeiro o que estava escrito nas placas, outdoors e letreiros que encontrávamos em cada trajeto.

Curioso, eu tentava observar tudo à minha volta, mas ocasionalmente sentia náuseas. Em algumas situações consegui evitar o pior ao abrir a janela, colocar o rosto para fora, fechar os olhos e absorver o aroma da relva amplificado pelo vento. Quando não resolvia, o jeito era parar o carro. Eu descia pálido e estonteado. Assim que vomitava, me sentia revigorado em poucos minutos. Percebia até a temperatura corporal retornando ao estado normal. Para me animar, meu pai e minha mãe contavam histórias dos lugares por onde passávamos, o que me fazia sonhar acordado, imerso num universo pessoal mais próximo da fantasia do que da realidade.

Na minha primeira visita as Furnas, no Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa, eu tinha nove anos quando me disseram que iríamos aos “caldeirões do inferno”. Criança que era, e com uma perspectiva de desenho animado, imaginei o mais tenebroso e abissal dos cenários, com chamas flamejantes ao fundo, onde o diabo aguardava um deslize para arrastar crianças desobedientes até as profundezas do desconhecido. Sem dizer nada a ninguém, comecei a pensar em tudo que fiz de ruim naquele ano e me perguntei: “Será? Será que existe algum motivo pra eu ir pro inferno agora que ele tá tão perto de mim?”

Logo lembrei das vezes em que fiquei de castigo na escola por mau comportamento, do dia em que não obedeci minha mãe e tomei banho de chuva. Claro, também de quando comi escondido doces que não eram meus. “Será que o capeta sabe que peguei umas figurinhas do álbum do Campeonato Brasileiro do meu irmão? E aquele dia que faltei na catequese? Tô lascado se hoje for o dia do acerto de contas”, refleti enquanto sentia um gosto de fel na ponta da língua.

Quando entrei receoso, e a passos leves e curtos no elevador panorâmico da Furna 1, percebi uma abrupta revoada de morcegos. Ouvi um guia contando a um visitante que um dia uma noiva cometeu suicídio, saltando lá de cima. Eu que pouco entendia sobre o significado da morte me recordei de um episódio da série Contos da Cripta que assisti escondido dos meus pais. Pensei na possibilidade da mulher reaparecer por aquelas bandas, quem sabe até emergindo das águas caliginosas da lagoa para me levar com ela a contragosto. Pelo menos fiquei mais aliviado quando vi de longe que não havia fogo nem diabo.

Conforme o elevador descia, me senti mais minúsculo e curioso diante daquela enorme e profunda cratera onde uma vegetação primitiva e predominantemente rasteira adornava o cenário. Notei também no entorno algumas lâminas rochosas pontiagudas e assimilei com a matéria-prima do caricato tridente do capeta. Lá embaixo, caminhei sobre a plataforma de madeira, tentando identificar o que havia sob a água. Divaguei, aventando a possibilidade da Furna abrigar algum animal tipo o Monstro do Lago Ness. “E se isso aqui quebrar e a gente cair na lagoa?”, uma reflexão constante cada vez que eu observava a pequena distância entre as águas turvas e os meus pés.

Meu pai se aproximou e disse que o local era território de peixes cegos e albinos, então imaginei como seria viver em um ambiente como aquele – um mundo pequeno e escuro, uma masmorra fluvial, onde animais eram punidos por motivos secretos, condenados à infelicidade até os seus últimos dias. Não! Eu poderia estar errado. Por que pensar no pior? Talvez existissem muitas belezas no fundo daquele caldeirão, coisas tão belas que jamais poderiam ser vistas, mas apenas ouvidas e sentidas, aguçando somente a imaginação. Quem garante que o meu mundo não poderia ser mais limitado do que o deles?

Naquela época, eu tinha lido “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Júlio Verne, o que me influenciou a julgar num rompante de ingenuidade e pessoalidade que houvesse uma maneira de saber se aqueles peixes que viviam nas Furnas eram felizes. Me agachei vagarosamente e com muito esforço fiz um círculo na água com o miúdo dedo indicador da mão direita, o suficiente para emitir uma vibração diferente daquela com a qual os animais da Furna 1 estavam acostumados. Menos de um minuto depois, três peixes pequenos se aproximaram da superfície. Após o contato de breves segundos, mergulharam nas profundezas, numa sequência que parecia ensaiada.

Para qualquer outra pessoa quem sabe não significasse nada, mas pra mim, no meu universo peculiar de criança com nove anos, era um sinal de que a vida naquele lugar não era hostil. Interpretei que aqueles peixes ainda não tinham motivos para desgostarem do ser humano, ainda um visitante, não um invasor. “É, acho que ainda são felizes”, concluí com um sorriso enviesado e a fé cândida de que aquele lugar que me pareceu tão aterrorizante em um primeiro momento era belo, harmonioso, justo e cabalístico à sua maneira.

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A sorte e o azar de dois irmãos

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O bicho saltou como um João do Pulo canino e correu em nossa direção

Eu e meu irmão quando nos envolvemos em muitas confusões (Foto: Acervo Familiar)

Eu e meu irmão quando nos envolvíamos em muitas confusões (Foto: Acervo Familiar)

A pequena diferença de idade entre mim e meu irmão mais velho, Douglas, permitiu que até certo momento da vida partilhássemos experiências, brinquedos e amigos. Mas desde o princípio começamos a desenvolver necessidades e traços de personalidade bem específicos. Enquanto eu mamava o suficiente, meu irmão mamava gulosamente. Eu era ansioso, meu irmão era calmo. Eu gostava de vermelho e ele preferia preto.

Ainda assim éramos inseparáveis na infância. E isso começou muito cedo, quando eu era bebê e minha mãe levava eu e meu irmão para passear. Claro, eu ia deitado no conforto do carrinho e o Douglas ia atrás, apoiado em um estribo. Quando minha mãe não estava olhando, ele puxava meus cabelos. A ideia de eu ainda ser um bebê e ter mais cabelos o irritava, fora o fato de que eu nunca precisava caminhar. No fundo, acho que ele me via como um pequeno mentiroso que fingia não saber andar para não dividir o espaço no interior do carrinho.

Como fazíamos praticamente tudo juntos, naturalmente nos tornamos amigos das mesmas pessoas. Por volta dos meus sete anos, o nosso grande companheiro era um garotinho agitado chamado Fabiano, filho da dona Maria Bortolotto, a proprietária de um bar que ficava na Avenida Distrito Federal, em frente ao Posto Atlantic, em Paranavaí. Ela tinha pulso firme com os adultos, tanto que deixava embaixo do balcão um taco de beisebol com a palavra “juízo” gravada em caixa alta, o que impedia brigas e afastava bêbados. Com as crianças o tratamento era diferente. Dava paçoca, paçoca e paçoca. Quero dizer, muita paçoca dos mais diferentes tipos, o que aplacava e depois amplificava a minha ansiedade.

Em 1992, brincávamos em obras abandonadas. Eu aproveitava os buracos nas paredes para escalar. Quando havia montanhas de areia lavada em torno do imóvel, subia no ponto mais alto e saltava afundando até metade do corpo. Fingia que estava em um poço de areia movediça e simulava pedir ajuda. Cada dia era uma aventura diferente. Às vezes não queríamos ir muito longe e ficávamos ao lado de casa, no depósito de pedras da minha mãe.

Lá, eu escalava uma árvore sete-copas e, aproveitando as sombras das folhas, sentava e comia com muita satisfação as suas castanhas amarelas e azedinhas. “Você é doido? Isso é comida de morcego!”, provocava Fabiano enquanto ria e se balançava sobre os galhos de uma amendoeira-da-praia. No entorno das árvores havia grandes montes de pedras portuguesas pretas, brancas, amarelas e vermelhas. Também saltávamos sobre as pedras, numa corrida maluca para ver quem conseguia se manter de pé por mais tempo. Paulinho, um rapaz contratado por minha mãe para cortar as pedras, só observava e nos repreendia, gritando e acenando de longe com uma luva grossa feita artesanalmente com borracha de pneu de caminhão.

A diversão era garantida, mas como o risco era grande a atenção tinha que ser redobrada. Uma vez, e por azar, meu irmão deu um passo em falso e caiu com a palma da mão sobre uma pedra pontiaguda branca. Enquanto o sangue escorria pelo monte, corri até em casa e avisei minha mãe. Após estancar o ferimento com gaze e esparadrapo, o levamos até o Pronto Socorro Municipal, onde ele recebeu alguns pontos na mão.

Para acalmá-lo, o lembrei de um episódio em 1991, quando estávamos em Inajá, a pouco mais de 60 quilômetros de Paranavaí. Naquele dia, minha mãe organizou uma festa para os funcionários que trabalharam na construção da Praça Central. Aproveitando a distração de nossos pais, eu, Douglas e uma amiga chamada Bianca pegamos algumas garrafas de cerveja e nos escondemos em cima de uma árvore. Depois do primeiro gole, me perguntei como uma bebida poderia ser tão ruim.

“Toma mais! Falam que é assim mesmo, o gosto demora pra ficar bom”, sugeriu Bianca. Acenei a cabeça em concordância e continuei tomando no gargalo. Antes do sabor melhorar, eu já estava embriagado. Fiquei tão zonzo que esqueci da árvore. Só tive uma breve retomada de consciência ao me ver em pé no chão. Sem entender como não caí sentado ou deitado, continuei segurando a garrafa com uma mão. Minhas pernas tremularam quando minha mãe me pegou pela orelha e me levou para o carro, onde passei horas deitado e confuso. Foi a minha primeira e última experiência com a embriaguez. Meu irmão que também consumiu cerveja saiu ileso do episódio, o que justificou os seus risos diante da lembrança após ter a mão suturada.

Dias depois, logo que a mão do Douglas cicatrizou e nossos pais viajaram para São Paulo, decidimos subir no telhado de uma residência vizinha que estava abandonada. O objetivo era colher drupas de santa-bárbara, que chamávamos de bolinha, para usar como munição nas nossas brincadeiras no quintal. Então começamos a balançar os galhos da árvore e de repente o telhado se rompeu. Eu, meu irmão e Fabiano caímos diretamente no chão da cozinha da casa.

Fabiano saiu ileso. Apenas mordi a língua e observei assustado um garrafão de cinco litros de vinho ao meu lado. Douglas não contou com a mesma sorte. Quebrou o braço e teve de ser levado pela minha tia Paula até a Santa Casa. Ao ser avisada, minha mãe se desesperou e voltou para casa. Apesar do braço engessado e das piadas dos amigos, ele não pareceu tão incomodado.

Na semana seguinte, em uma manhã de sábado, o tio Celso passou em casa para nos levar ao sítio. Em frente à Sanepar, a porta da caminhonete abriu e o Douglas caiu na rua. Com o braço engessado, saiu rolando rente ao meio-fio e gritando: “Espera eu, espera eu. Tô aqui!” Preocupado, Celso parou bruscamente o veículo e correu para socorrê-lo. Apesar das escoriações, das roupas rasgadas e do susto, meu irmão ficou bem.

Meses depois, saímos para brincar com meu primo Wilton. No caminho, assim que vimos um pé de manga em um terreno baldio, entramos e começamos a arremessar pedras para derrubar as frutas mais bonitas e saudáveis. Ao lado, na casa vizinha, um enorme pastor alemão não parava de latir, saltar e mostrar os dentes. Apesar do olhar ameaçador, não vi motivo para temê-lo, até porque o muro era muito alto, tão alto que nunca vi um cachorro saltar daquela altura.

De repente, quando derrubamos a terceira e mais carnosa das mangas, o bicho saltou como um João do Pulo canino e correu em nossa direção. Num reflexo que julgo até hoje como sobrenatural, subi na árvore com a agilidade de um leopardo. Meu irmão e meu primo não tiveram a mesma sorte, principalmente o Wilton que ganhou uma cicatriz permanente na perna. Até hoje acredito que o tal pastor alemão deu inúmeros saltos menores para nos encher de confiança, zombar de nossas limitações. Talvez aqueles dentes arreganhados fossem risos satíricos, aguardando o momento em que cada um estivesse empunhando uma manga.

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Written by David Arioch

July 12th, 2015 at 12:27 pm

Lembranças do jardim de infância

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Curioso que era, eu me inebriava em imagens, sons, sensações e emoções desconhecidas

Com cinco anos, um mundo de experiências já se apresentava a mim (Foto: Arquivo Familiar)

Com cinco anos, conheci um mundo de novas experiências (Foto: Arquivo Familiar)

Lembro como se fosse hoje das aulas do jardim de infância da Escola Vicentina São Vicente de Paulo, no final dos anos 1980. Eu tinha cinco anos e estava aprendendo a passar algumas horas longe da minha família. No primeiro dia de aula, enquanto meu irmão mais velho não soltava a mão da minha mãe, chorava e pedia pra voltar pra casa, eu me silenciava diante de um mundo totalmente novo. Também me sentia mais seguro porque estava usando a minha botinha do Rambo. Curioso que era, eu me inebriava em imagens, sons, sensações e emoções desconhecidas.

Nunca tinha visto tanta gente pequena como eu junta em um mesmo local. Naquele tempo, as crianças chegavam à escola carregando doces nos bolsos. Tudo era permitido para que se comportassem pelo menos até os pais irem embora.

Os mais desajeitados eram asseados pelas mamães com lenços de pano sempre ao alcance das mãos. A pressa mais do que constante se intensificava quando uma das freiras da escola acionava um botão que emitia um som semelhante ao de um sino. Então um barulho dissonante de passos e vozes ecoava pelo pátio de piso liso e cintilante que sempre me parecia enorme, mesmo não sendo.

Antes da minha mãe ir embora, eu era conduzido a uma fila por ordem alfabética ou de altura. Então cantávamos o hino nacional em posição de sentido. Me sentia um soldadinho quando observava várias crianças perto de mim com o corte de cabelo igual ao meu, o chamado surfista, asa delta ou “corte de penico” para os zombadores.

Na sala de aula, um ambiente multicolorido que estimulava tanto o raciocínio lógico quanto o abstrato, eu enxergava apenas diversão e passatempo. Sentado em uma cadeirinha azul a poucos centímetros do chão, gostava era de ouvir historinhas fantasiosas sobre bichos e crianças. “João e Maria”, “O Pequeno Polegar”, “João e o Pé de Feijão”, “O Soldadinho de Chumbo” e “Rumpelstichen” me acompanharam por muito tempo, nutrindo a minha imaginação. Mas nenhuma outra história me fez sonhar tanto no jardim de infância como “A Festa no Céu”.

Empolgado, um dia cheguei em casa, joguei a mochila e contei ao meu pai o que tinha ouvido. Então ele narrou uma versão mais pomposa, imitando os sons dos animais. Entre palavras e coaxos, dublava um sapo mágico como ninguém. Mesmo assim eu ficava triste e com dó dos bichos que não sabiam voar e não poderiam se fartar em um banquete edênico.

Como eu ainda estava aprendendo a ler e escrever, acabei por criar as minhas próprias versões em sonhos. Na primeira, corri pela floresta, gritando os nomes dos animais e distribuindo asas para que pudessem voar. Na segunda, encolhi com assopros todos os bichos da mata que não sabiam voar e os escondi dentro da viola do urubu convidado para animar a festa no céu.

Mais tarde, a ideia de animais falantes continuou me acompanhando, tanto que um dia cheguei em casa e contei à minha mãe que tinha encontrado um cãozinho mestiço ferido perto da Avenida Distrito Federal clamando por ajuda. “Ele estendeu a patinha, olhou pra mim com cara de choro e disse: ‘por favor, me ajude! Tô com muita dor, me leve daqui. Deixa eu ir pra sua casa’. Quando tentei levantar o bichinho, ele colocou as patas em volta do meu pescoço, fechou os olhos e morreu”, relatei bastante sensibilizado.

Na escolinha, eu e Fabrício entrávamos furtivamente na casa das bonecas, um ambiente rosa proibido aos meninos, para ver como era e o que tinha lá dentro. Arteiros, mudávamos muitas coisas de lugar, saíamos de fininho e íamos direto ao parquinho, fingindo que não tínhamos feito nada. Quando as suspeitas recaíam sobre nós, sorríamos com certa inocência diante do olhar reprovador da orientadora, uma freira corpulenta, alta e sisuda que diziam carregar no bolso uma palmatória borrachuda que fazia as mãos formigarem por até uma semana.

Fiquei mais assustado quando espalharam um boato de que no piso superior da escola existia um quartinho sem janela e iluminação, onde as crianças mal comportadas ficavam presas e recebiam ocasionalmente golpes de férula. Meu corpo miúdo estremecia, meus olhos estalavam e eu sentia uma ligeira fraqueza quando pensava na possibilidade de ser enviado para aquele lugar.

Meus medos só eram amenizados quando a professora Angela falava comigo. Então o breu dos meus pensamentos eram descortinados por rajadas de cores e luzes que me faziam flutuar na inércia de um paraíso cinematográfico. No recreio, a imaginava ao meu lado no banquinho dividindo um lanchinho Recreio ou Mirabel. “Talvez um dia a gente partilhe um Dedito. Humm…será que ela prefere pão com Cremutcho?”, refletia enquanto balançava os pés que mal alcançavam o chão.

Em tempo de parque de diversões, nem prestava atenção no que a professora dizia. Ficava pensando em nós dois na roda gigante vendo as luzes da cidade, comendo maçã do amor e eu ganhando pra ela um urso de pelúcia depois de dar um tiro certeiro com uma espingardinha de rolha na testa de um gremlin.

Também foi com cinco anos que tive minha primeira experiência com a morte. Meu amiguinho Fabrício, que morava nas imediações da Rua Silvio Vidal, perto do NIS Central, estava passeando de bicicleta quando foi atropelado por uma carreta. Fiquei confuso porque não sabia o que a morte significava exatamente. Nem tinha ideia de que seu corpo miúdo seria sepultado dentro de um caixão lacrado. Então eu perguntava à minha mãe se eu teria a chance de brincar com ele algum dia; se o Fabrício não estava apenas dormindo e um dia iria acordar e juntos iríamos até a Padaria Pão de Açúcar comprar sodinha.

Com o passar dos meses, comecei a entender que a morte era um desencontro sem data para chegar ao fim. Falavam que ele foi para o céu, mas eu olhava pra cima, o procurava e não o enxergava. “Será que existe um céu diferente ou essas nuvens estão escondendo ele?”, me questionava sentado no meio-fio na entrada de casa. Queria voar que nem o urubu da “Festa no Céu” e procurar o Fabrício. Achava que ele poderia estar deitado num lugar tão alto que só quem tinha asas poderia alcançá-lo.

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As primeiras descobertas de um pré-adolescente

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Eu aos 11 anos, quando descobri a coleção de revistas de João (Foto: Acervo Familiar)

Eu aos 11 anos, quando descobri a coleção de revistas de João (Foto: Acervo Familiar)

Antes de falecer em 21 de setembro de 1997, meu pai, um bancário aposentado e ex-professor de latim, francês e matemática, tinha como hobby manter uma oficina mecânica na Avenida Rio Grande do Norte, próxima ao cruzamento com a Rua Guaporé, na região central de Paranavaí. Em meio a muita poeira e velharias, lá era um dos seus refúgios quando não estava trabalhando. Mecânico por diversão, não por profissão, mantinha aquele espaço para ajudar um amigo desempregado chamado João.

No mínimo uma vez por semana eu e meu irmão mais velho, Douglas, íamos até lá. Era um galpão enorme de madeira que atraía a atenção dos curiosos, principalmente pela profundidade que os olhos não permitiam acompanhar. Do alto de minha pequenez, assim eu pensava à época, quando me via absorto diante de uma porta de madeira de mais de três metros de altura que mais parecia a entrada de um celeiro saído do filme “Por um Punhado de Dólares”, do Sérgio Leone.

Meu pai gostava de carros antigos, inclusive tinha alguns. Então circular pela oficina era um presente com requinte de “viagem no tempo”. Afinal, nem toda criança tem o privilégio de brincar de dirigir um Fordinho Pé de Bode de 1929. A alegria era tão grande que eu até esquecia a rinite alérgica. Ignorava o fato do carro estar completamente empoeirado e sem dois pneus. Pra mim, ele era perfeito, mesmo com o motor danificado e as portas emperradas. Me contentava em acionar a buzina fanhosa e o para-brisas de palhetas irregulares e sofríveis. Era o suficiente para eu fingir que trafegava pela cidade em um dia chuvoso e bastante movimentado.

Quando não estava brincando no pé de bode, eu gostava de passar algum tempo no espaçoso interior da Querida, uma Mercedes-Benz 230 S, de 1966. Prateada, com todas as peças originais e em perfeito estado, era o xodó do meu pai. Ostentava um rabo de peixe que sempre recebia uma camada extra de cera antes de deixar a garagem. Mas enquanto continuava estacionada, eu deitava no banco traseiro, onde passava horas lendo gibis como Recruta Zero e O Pequeno Ninja ao som da única fita K7 que meu pai raramente tirava do tocador. Era uma coletânea original do maestro Ray Conniff com releituras de clássicos como “Aquellos Ojos Verdes”, “Brasil”, “Bésame Mucho” e “Tico-Tico no Fubá”.

Às vezes eu ia à oficina só para ficar no sótão fuçando em caixas, procurando algo diferente pra fazer. Foi assim que tive o meu primeiro contato com a pornografia, numa época recente em que tudo parecia uma grande novidade para quem estava começando a se distanciar da infância. Como não havia internet no Brasil até 1995, as coisas aconteciam sem pressa, naturalmente, ou melhor, como consequência do acaso. Eu tinha 11 anos no dia em que movi uma caixa do sótão e percebi que atrás dela havia uma revista do tamanho de um gibi. Fiquei surpreso e ao mesmo tempo empolgado com o conteúdo da capa. Nunca tinha visto nada parecido, só ouvia falar. Era uma fotonovela pornográfica. Quando a abri e vi as primeiras imagens, meus olhos se agigantaram, olhei ao redor e desci alguns degraus para me certificar de que ninguém estava me observando.

Subi novamente e continuei folheando a revista. Por um momento, num rompante de ingenuidade, me questionei: “O que esse cara tá fazendo com essa mulher? Vixi, uma mulher consegue fazer tudo isso com as pernas? Ah! Então era disso que falavam aquele dia na escola. Humm…” Logo entendi porque o Fábio foi suspenso da Escola São Vicente de Paulo quando acharam a tal da camisinha na sua carteira. Depois daquele dia nunca mais retornei à oficina sem me recordar da fotonovela. E curiosamente comecei a notar que o amigo do meu pai que trabalhava o dia todo na oficina tinha o hábito de deixar revistas espalhadas pelos mais diferentes lugares. Talvez a minha ausência de malícia antes do primeiro contato com aquilo que eu chamava de “gibi adulto” não me permitisse ser tão observador.

Todos os lugares onde eu costumava passar a maior parte do tempo serviam de esconderijo para algum tipo de pornografia. Havia dezenas de exemplares, de várias cores e tamanhos. Em alguns casos a poucos centímetros de onde eu recostava a cabeça para ler gibis. Lá estavam elas, amassadas, enroladas, dobradas, inteiras ou parciais. Parecia que se revezavam embaixo de bancos, tapetes, dentro do porta-malas, do capô e até mesmo presas ao chassi. À época eu não imaginava que alguém pudesse gostar tanto assim do assunto. Havia revistas dos anos 1970, 1980 e 1990.

Em síntese, um acervo de pornô que poderia ser organizado por perfis e ordem cronológica. Após algum tempo foi inevitável ver a oficina com outros olhos. Já não pensava nem lembrava tanto dos carros que eram a minha principal motivação naquele ambiente rústico e ruidoso com um característico cheiro de óleo lubrificante. Na pré-adolescência da década de 1990 procurar pornografia era como uma caça ao tesouro, um universo de possibilidades, no meu caso interrompida quando um dia cheguei à oficina e não encontrei mais nenhum dos “gibis adultos”. João tardiamente descobriu que eu sabia de sua coleção. Ainda assim continuei retornando à oficina, mas nunca tocamos no assunto.

Mais tarde, na sétima série do então primeiro grau, eu e alguns amigos estávamos decididos a assistir pela primeira vez um filme pornô. Enquanto o dia tão esperado não chegava, íamos até a locadora de vídeo, na tentativa de tentar descobrir o que nos aguardava. Na seção de lançamentos, fingíamos ler as sinopses das fitas em VHS esperando o atendente conversar com algum cliente. Em poucos segundos de distração, entrávamos na seção de filmes adultos com as mãos à boca para evitar que o funcionário ouvisse as nossas gargalhadas.

Lá dentro, o que minava nosso objetivo era que muitos dos filmes tinham tarjas e estrelas que velavam o conteúdo explícito. Apesar disso, a recompensa veio alguns meses depois quando um amigo conseguiu uma cópia pirata de um filme do John Stagliano, o rei do pornô, reproduzida por um camarada que era filho de um dono de locadora. Assim que soubemos da novidade, a apreensão só aumentou. Como estudávamos de manhã aos sábados, marcamos um encontro no início da tarde para assistir ao filme na casa do Bruno, aproveitando a ausência de seus pais. Especialmente naquele dia comentamos que as aulas pareciam que não chegariam ao fim nunca.

No horário marcado, eu, Alexandre e Thiago chegamos à casa do Bruno pontualmente. As risadas e as “caras de paisagem” foram inevitáveis quando estacionamos as bicicletas na garagem. Na sala, sentamos no sofá e Bruno ligou o vídeocassete. Após muitas risadas e olhares sardônicos, o silêncio tomou conta do ambiente quando subiram os créditos iniciais do filme acompanhado de uma música retumbante dos anos 1980. A primeira cena era de um homem com mullets em um salão de beleza dizendo que daria um tratamento especial a uma cliente. Assim que a mulher começou a se despir, Alexandre gritou: “É agora! É agora!” Então ouvi um ruído estranho saindo do aparelho e o filme desapareceu da TV. Entre chiados e uma tela preta, a fita se rompeu e ficou toda mastigada, assim como nossas esperanças de assistir pela primeira vez um filme pornô.

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Written by David Arioch

June 21st, 2015 at 5:49 pm

Um manifesto sobre a fragilidade

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Ivanovo Detstvo e o sonho da infância espoliada

Filme mostra um garoto dividido entre o pesadelo da guerra e o sonho da infância (Foto: Reprodução)

Filme apresenta um garoto dividido entre o pesadelo da guerra e o sonho da infância (Foto: Reprodução)

Lançado em 1962, Ivanovo Detstvo, que chegou ao Brasil com o título A Infância de Ivan, é um filme do cineasta humanista russo Andrei Tarkovsky e aborda o estado de introspecção de uma criança órfã dividida entre o pesadelo da Segunda Guerra Mundial e o sonho da infância espoliada.

Ivanovo Detstvo conta a história de Ivan (Nikolai Burlyayev) que teve a inocência dilacerada quando soldados nazistas assassinaram seus familiares. Ignorando a própria condição existencial como criança, o garoto ingressa no exército soviético em busca de retaliação. Sob a perspectiva de Tarkovsky, a guerra assume um caráter individualista a partir das ações de Ivan.

A animosidade da contenda e a ausência de relações familiares levam o protagonista a um endurecimento e negação da juventude. Mesmo quando outros combatentes soviéticos tentam protegê-lo e o lembram de sua idade, o garoto age como se não estivessem se referindo a ele. Uma das cenas mais intensas da obra surge quando Ivan se torna refém de uma tormenta psicológica.

Sem a mãe, Ivan perde o seu elo com o mundo (Foto: Reprodução)

Sem a mãe, Ivan perde o elo com o mundo (Foto: Reprodução)

Consumido por desespero e delírio, o jovem armado com uma faca circula pela escura, gélida e sombria base militar a procura de nazistas. Mas não encontra nada, pois naquele ambiente a sua única companhia é a solidão. Incapaz de aceitar e lidar com a realidade, Ivan luta para velar a fragilidade e a sensibilidade com um manto de frieza. No entanto, ao dormir, é vencido por sentimentos e lembranças que retornam para reafirmar a sua condição infantil e conflitante.

O jovem soviético tenta ultrapassar a etapa da vida que deveria ser marcada pela ingenuidade justamente porque simboliza o momento mais doloroso de sua existência. Rejeitar a infância na fase de transição para a adolescência é uma forma de Ivan se desvincular do passado – uma tentativa sem sucesso. Ainda assim, não são poucos os momentos em que o garoto é transportado a um universo de nostalgia, onde se sente plenamente livre, estimulado por imagens de beleza e candura protagonizadas pela mãe, até pouco tempo seu maior elo com o mundo.

Tarkovsky projeta humanismo na figura do Capitão Kholin (Foto: Reprodução)

Tarkovsky projeta humanismo na figura do Capitão Kholin (Foto: Reprodução)

Ivan sofre sempre que acorda. Apesar disso, conta com o humanismo projetado na figura do capitão Kholin (Valentin Zubkov), um homem com quem estabelece uma difícil, mas alentadora relação. Kholin se torna a ponte entre o velho e o novo mundo do garoto, tentando mantê-lo em uma linha de equilíbrio, onde a sobriedade precisa ser nutrida com sonhos e expectativas.

Sobre a estética e os planos de filmagem da obra de Tarkovsky, o tempo todo a câmera assume papel de personagem, transmitindo sentimentos e emoções em meio a uma contumaz escuridão desértica. No chão, a consternação é marcada pelo solo improdutivo. No céu, onde há muito tempo as estrelas não brilham, as nuvens são substituídas por cortinas de fumaça cor de chumbo. A natureza parece sepultada, assim como tantas vidas representadas por escombros e ruínas. Em suma, Ivanovo Detstvo é um manifesto sobre a fragilidade humana.

Museu preserva fragmentos da colonização de Paranavaí

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Espaço reúne um acervo de mais de 600 peças doadas por pioneiros

Uma das salas de exposição permanente do Museu de Paranavaí (Foto: Casa da Cultura)

O Museu Histórico, Antropológico e Etnográfico de Paranavaí, que funciona nas dependências da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, foi criado em 2007 e deste então se consolidou como importante referência para quem quer aprender um pouco sobre a colonização de Paranavaí, no Noroeste do Paraná

Mantido pela Fundação Cultural, o museu reúne um acervo de mais de 600 peças doadas por pioneiros. A coordenadora da Casa da Cultura, Rosi Sanga, explica que o espaço do museu conta com uma exposição permanente e uma temporária. “Há desde fotografias, objetos do cotidiano, instrumentos de trabalho, da história do café, itens numismáticos, documentos, obras de arte e coleções. É um acervo muito rico”, avalia Rosi, acrescentando que as fotos estão entre os maiores atrativos do museu e chamam a atenção de crianças e adultos.

Para muitos visitantes, principalmente aqueles que viveram o pioneirismo paranavaiense nos anos 1940 e 1950, estar em contato com tantas peças familiares evoca um tempo de muita saudade e nostalgia. “Enquanto as crianças se surpreendem, animadas com os instrumentos usados pelos avós, os mais velhos saem daqui chorando, muito emocionados”, revela a coordenadora, ressaltando que apenas de visitas aleatórias já receberam este ano milhares de pessoas, sem contar os estudantes que frequentam as oficinas da Casa da Cultura. Um dos destaques é a oficina Literarte que atende turmas de crianças e adolescentes no museu com o objetivo de reviver o passado a partir de brincadeiras, histórias e atividades artísticas.

Fotos estão entre os maiores atrativos (Foto: Casa da Cultura)

No Museu de Paranavaí, as peças estão contextualizadas e organizadas por categorias. Há inclusive reproduções de espaços que remetem a um estilo de vida pautado pela luta. Exemplo é uma estrutura montada pela coordenadoria do museu para transmitir às novas gerações a sensação de viver em um rancho no período de colonização. Objetos pessoais e do cotidiano dispostos com esmero num ambiente rústico dão a tônica de uma peculiar fidelidade. Há instrumentos muito bem conservados usados por parteiras e pelos peões que trabalhavam na derrubata de mata.

O Museu Histórico, Antropológico e Etnográfico de Paranavaí funciona de segunda à sexta das 8h às 11h30 e das 13h30 às 17h. Entretanto, caso haja pedidos de abertura em outros dias e horários, Rosi Sanga deixa claro que basta agendar uma data. “A ideia do museu nasceu de uma parceria com a professora doutora Luciana Regina Pomari, do Departamento de História da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí (Fafipa). Desde então, fomos reconhecidos por todos os órgãos representativos nacionais e estaduais”, enfatiza Rosi. O Museu de Paranavaí também está em todos os catálogos e guias de museus do Brasil. Em 2007 e 2008, tiveram o acompanhamento da Coordenação do Sistema Estadual de Museus (Cosem) que ministrou cursos e treinamentos em Paranavaí. Para mais informações, basta ligar para (44) 3902-1049.

Site do Museu de Paranavaí: http://museuparanavai.webnode.com.br/

O amor caboclo do Som da Viola

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Grupo de violeiros já percorreu toda a região divulgando a música sertaneja de raiz

Por onde passa, o Som da Viola emociona o público (Foto: Amauri Martineli)

Por onde passa, o Som da Viola emociona o público (Foto: Amauri Martineli)

Criado em 2002, o Grupo Som da Viola já percorreu toda a região de Paranavaí divulgando a música sertaneja de raiz e despertando em pessoas de todas as idades uma identificação com a essência cabocla.

“Narramos a nostalgia do campo, que está no sangue”. Com essa afirmação, o coordenador do Grupo Som da Viola, Francisco Antônio de Souza, conhecido como Seu Chico, define a temática do grupo composto por 19 membros de 12 a 60 anos.

Conversador e bem-humorado, Seu Chico conta que o grupo surgiu em abril de 2002, quando a música sertaneja de raiz era apreciada por poucos. “Na época, comprei minha primeira viola, mas ainda não tínhamos conhecimento de nada, apenas força de vontade”, lembra e acrescenta que desde o início já contava com a parceria da filha e violeira Érica Coutinho de Souza, do músico Arnaldo dos Santos e do amigo e violeiro Aparecido dos Santos, conhecido como Cido.

O Som da Viola é remanescente de uma oficina idealizada pela Fundação Cultural. De acordo com Seu Chico, as aulas eram voltadas para quem já tocava viola. “Como surgiu uma grande procura decidimos dar oportunidade para quem não sabia nada, até porque o objetivo era despertar mais ainda o interesse pela moda de viola. A ideia foi lapidada debaixo de um pé de sete-copas”, destaca o coordenador.

No começo, o grupo enfrentou inúmeras dificuldades financeiras, pois era preciso arrecadar dinheiro para remunerar o professor de música Arnaldo dos Santos. “A partir de 2004, recebemos uma ajuda da Fundação Cultural para custear as aulas do Arnaldo”, confidencia.

Hoje, já experiente, o Som da Viola empolga muitas plateias ao executar diversos gêneros da música cabocla, como moda de viola, cateretê, guarânia, pagode sertanejo, entre outros. “Já nos apresentamos em toda região de Paranavaí e também fora dela. Certa vez tocamos para mil homens em uma confraternização da Cocari [Cooperativa dos Cafeicultores de Mandaguari]. Depois, no mês seguinte, fomos convidados a nos apresentar para mil mulheres”, destaca Seu Chico em tom de orgulho.

Seu Chico: "“Narramos a nostalgia do campo, que está no sangue” (Foto: Amauri Martineli)

Seu Chico: ““Narramos a nostalgia do campo, que está no sangue” (Foto: Amauri Martineli)

O grupo também tocou em várias edições da Festa do Arroz de Querência do Norte, cidade natal do professor Jair Carvalho que durante muito tempo integrou o Som da Viola. “Ele sempre foi um exemplo. Saía de lá toda semana só pra vir tocar com a gente. Só não continuou quando tivemos de mudar os horários das aulas”, ressalta. Atualmente, por falta de tempo, o grupo tem dispensado alguns convites para tocar em outras cidades.

Onde se apresenta, o Grupo Som da Viola tem um público cativo de pelo menos 50 pessoas. Segundo Seu Chico, o que faz a diferença é saber que cada um dos presentes está ali pelo amor à moda de viola. “São pessoas de todas as idades se emocionando, até chorando ao relembrar do passado no campo ou das histórias que os pais contam”, enfatiza.

Atualmente o grupo discute a possibilidade de lançar um disco com canções autorais. Seu Chico avalia que até o final do ano terão pelo menos 10 músicas prontas. As letras versarão sobre as lembranças da roça e a viola dos antepassados.

Grupo se apresenta pelo menos duas vezes por mês

O Grupo Som da Viola se apresenta em Paranavaí pelo menos duas vezes por mês. “Esse é o número de apresentações que fazemos pela Fundação Cultural, mas sempre vamos além, nos apresentamos com certa frequência”, conta o coordenador do Grupo Som da Viola, Seu Chico.

Quem não conhece o grupo se surpreende com a dedicação. Em setembro de 2002, com poucos meses na ativa, os violeiros se apresentaram no Jardim Morumbi, do alto de um palco improvisado sobre a carroceria de um caminhão. “Estava muito frio, só que valeu a pena. As pessoas ficaram felizes e emocionadas”, afirma Seu Chico.

O grupo contribuiu tanto em despertar o interesse pela música sertaneja de raiz em Paranavaí que o reflexo foi percebido até no comércio. Algumas lojas de instrumentos musicais tiveram de investir mais na compra de violas para atender a demanda. “Nosso grupo realmente ajudou o comércio local. Trouxemos algo diferente a Paranavaí”, pontua Seu Chico sem esconder a satisfação.

Hoje em dia, os encontros do Grupo Som da Viola ocorrem uma vez por semana. Caso alguém tenha interesse em participar do grupo, antes é preciso passar por um processo de acompanhamento. “É uma forma de preparar a pessoa até que ela esteja apta a fazer parte do Som da Viola”, argumenta.

Seu Chico e o sonho de violeiro

Desde os sete anos, o coordenador do Grupo Som da Viola, Francisco Antônio de Souza, conhecido como Seu Chico, sonhava com uma viola. Ele queria musicalizar a própria essência de garoto do campo. “Nasci no mato, então tinha um sentimento caboclo muito forte, algo que carrego até hoje”, afirma o homem que em momento de nostalgia parece reviver o pequeno Francisco, ilhado em um fragmento da infância.

“Minha inspiração pra me tornar violeiro veio do meu tio. Lembro que ele tinha 16 anos quando estávamos sentados na barranca de um rio e ele disse que ainda me daria uma viola. Mais tarde, ele morreu, mas o desejo dele sempre carreguei comigo”, assegura, acrescentando ser de uma família que sempre cultivou estreita relação com a música.

Com o tempo, os compromissos familiares se tornaram cada vez maiores para Francisco. Contudo, o sonho de ser violeiro sempre o acompanhou. “Comprei minha primeira viola aos 50 anos, no dia 8 de abril de 2002. Fiquei feliz porque naquele dia também pude dar uma viola pra minha filha que tinha dez anos e outra para o meu filho que estava com 14”, relembra, acrescentando que sonhos sempre são possíveis, independente da faixa etária e das dificuldades.

Hoje, mesmo morando na cidade, longe da realidade do campo, Seu Chico vive o sonho de violeiro – já compôs diversas canções e escreveu centenas de poemas sobre a viola e a vida no campo. “Em uma edição do Tributo a Tião Carreiro apresentei a minha composição ‘Estilo Tião Carreiro’”, revela em tom de alegria.

Saiba mais

Para entrar em contato com o Grupo Som da Viola, basta ligar para a Fundação Cultural de Paranavaí: (44) 3902-1128