David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Um exemplo do nível da nossa política atual

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Foto: David Arioch

Foto: David Arioch

Fui ontem na Vila Alta, bairro da periferia de Paranavaí, conversar com um amigo, o artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima. Na ocasião, ele e outros moradores me relataram que nas últimas duas semanas apareceram vários candidatos a vereador, que até então nunca foram ao bairro, alegando serem os responsáveis pelo asfalto que existe naquele lugar desde o ano passado.

Na realidade, toda a malha viária da Vila Alta foi feita através de uma reivindicação dos próprios moradores, e com recursos do PAC. Ou seja, tais candidatos são basicamente mentirosos e picaretas querendo levar vantagem sobre os mais humildes.

Vão a bairros pobres para tentar enganar os moradores. Depois me perguntam porque é desanimador votar hoje em dia. É esse tipo de gente que mais briga para ocupar um cargo eletivo na atualidade.

Written by David Arioch

September 28th, 2016 at 1:18 pm

Dê uma chance ao vegetarianismo ou ao veganismo…

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Documentários que podem mudar a percepção de como nos relacionamos com os animais (Imagens: Reprodução)

Documentários que podem mudar a percepção de como nos relacionamos com os animais (Imagens: Reprodução)

Te convido a assistir aos documentários Terráqueos (Earthlings), Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade, Especismo (Speciesism), Reino Pacífico (Peaceable Kingdom) e Garfos em vez de Facas (Forks Over Knives). Muitas pessoas evitam assistir esses documentários porque isso significa sair da zona de conforto e confrontar a realidade que envolve a produção de alimentos de origem animal. Sim, não existe alimento de origem animal que não envolva dor ou privação.

E quando alguém fala em bem-estarismo animalista penso apenas que isso é um grande e cultural equívoco, já que por “melhores” que sejam as condições oferecidas aos animais, isso não anula o fato de que mais cedo ou mais tarde eles serão separados de suas famílias, levados à exaustão e sacrificados.

A verdade é que até ingredientes que normalmente passam batido nos rótulos das embalagens materializam frações de dor e sofrimento. Nem mesmo a produção de mel é isenta de dissabores, padecimento. Afinal, a abelha não fabrica e nunca fabricou mel para nós. Logo é justo dizer que há uma cultura de séculos que tende a romantizar o que na realidade não tem nada de belo. É sempre chocante reconhecer como a indústria alimentícia explora o máximo que pode dos animais.

Só pra citar um exemplo, é possível encontrar derivados de leite até mesmo em adoçantes à base de stevia em pó. O mais curioso é que isso é desnecessário; e a inclusão talvez tenha mais a ver com as facilidades e o barateamento do processo de produção. No final, porém, quem paga mais caro não são os seres humanos, mas sim a vaca e o vitelo.

Há muito tempo, somos bombardeados com propagandas que vendem a ideia de que somos incapazes de sobreviver sem alimentos de origem animal. Certo! O que dizer de povos que nunca se alimentaram de animais, chegando a viver mais de 100 anos? Entrevistei há alguns anos um senhor vegetariano que à época tinha 95 anos e, não, ele não morava em nenhuma aldeia. Vivia na área urbana, mas optou por se tornar vegetariano em 1925, aos oito anos de idade.

O que vemos o tempo todo são criações de ofertas desnecessárias e falsas demandas motivadas pela ganância. Como achar normal a criação de 70 bilhões de animais em todo o mundo, sendo que temos uma população mundial de sete bilhões de pessoas? Para que tudo isso? Ainda mais ponderando que em menor ou maior proporção esses animais passarão por privação ou sofrimento.

Ademais, a pecuária tem contribuído com o aquecimento global, inclusive sendo apontada como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia. De acordo com a diretora executiva da ONG Food & Watch, Wenonah Hauter, quem beneficia e faz lobby para este sistema são os maiores produtores de alimentos, que também são os maiores produtores de carne.

Quando suas empresas crescem e eles enriquecem, normalmente usam o poder político que possuem para ditar as políticas federais quanto à produção de alimentos. Ou seja, tudo que as pessoas consomem de origem animal não é consequência de reais necessidades, mas sim de investimentos massivos em propaganda. Desde o princípio do século 20, isso tem sido feito de forma muito bem elaborada, para que as pessoas acreditem que não há outro caminho, quando na realidade essa mudança depende apenas de um pouco de esforço e de vontade de lutar por um mundo melhor.

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Quem é a paciente?

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O sol das 7h50 iluminava o ambiente com uma intensidade que relegava as lâmpadas acesas à inutilidade

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Depois de ter os dois peitos pressionados várias vezes e em inúmeras posições, deixei a sala de exames (Foto: Reprodução)

Fui até uma clínica fazer um exame. Chegando lá, entreguei a guia da Cassi para a recepcionista e ela questionou: “Quem é a paciente?” Respondi que eu era o paciente. Sem graça, a moça se desculpou. Por um momento, tive vontade de rir ao lembrar dela dizendo “a paciente”, mas me esforcei porque não queria deixá-la constrangida. Assim que confirmou meus dados e me entregou um crachá rosa escrito MAMOGRAFIA, entendi porque ela perguntou “Quem era a paciente”.

Com a identificação do exame em mãos, caminhei até uma tranquila sala de espera. O sol das 7h50 iluminava o ambiente com uma intensidade que relegava as lâmpadas acesas à inutilidade. Quando me viram, três mulheres não tiraram mais os olhos do meu crachá escrito MAMOGRAFIA. E fiquei pensando, inerte num sorriso velado e sem dizer palavra: “Sim! Sou homem e vou fazer mamografia. É isso aí. Tirem suas conclusões. Também posso me divertir interpretando seus pensamentos.”

O meu crachá rosa cintilava mais ainda com a cálida incidência do sol que mirava com mais veemência justamente onde eu sentava. Sem problema! Não demorou e as três foram chamadas até uma sala de exames. Sozinho, troquei de lugar porque havia luz solar por todos os lados, aquecendo minhas costas, braços e rosto. Tudo melhorou quando consegui me ocultar sob uma parede branca.

Fiquei lá parado com meu crachá enquanto a TV exibia histórias de corrupção e trapaça. Assisti um cara falando que o furto de energia elétrica no Brasil corresponde à energia consumida no Paraná. Ok! Naquele instante, tudo parecia girar em torno de energia, inclusive do sol que continuava se esgueirando pela janela.

Logo a sala começou a encher. E ninguém evitou de olhar o meu crachá. “Tudo bem! Tudo bem! É isso mesmo. Vou fazer MAMOGRAFIA”, refleti outra vez. Nesse ínterim, um amigo, Rafael Otaviano, me viu e veio me parabenizar pelos meus textos, o que me agradou muito porque ajudou a me distrair diante de tantos olhares inquiridores.

Fiquei pelo menos 40 minutos aguardando a minha vez, o que era incomum, já que vi pessoas que chegaram depois de mim sendo atendidas antes. Me levantei, fui até a recepção e perguntei se demoraria muito para que eu fosse atendido. Ao meu redor, mais pessoas observavam meu crachá rosa. Em outra sala de espera, vi alguém apontando para mim e comentando: “Aquele rapaz vai fazer mamografia. Que estranho!”

Quando pronunciaram meu nome: “Daví!”, não Deivid, como sou chamado desde bebê, caminhei até a responsável técnica e ela se desculpou. Me informou que o exame da forma como foi pedido pelo mastologista exigia adaptações na máquina, justificando a demora. “Alguém com câncer de mama na família?” Respondi que não. Eu estava lá para fazer mamografia bilateral com a intenção de avaliar o desaparecimento de uma leve ginecomastia.

Após ter os dois peitos pressionados várias vezes e em inúmeras posições, deixei a sala de exames com o peitoral marcado e caminhei até a saída. Antes de ganhar às ruas, ouvi uma mulher cochichando perto da porta: “Não sabia que homem também tinha câncer de mama.” Sem me preocupar em explicar o motivo da minha ida até a clínica, repliquei: “Pois é, senhora, diga ao seu marido e aos seus filhos para terem muito cuidado. O maior perigo surge quando de repente começa a sair leite dos mamilos.” Assustada, ela se encolheu num canto com olhos esgazeados.

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Written by David Arioch

June 29th, 2016 at 1:48 pm

Peaceable Kingdom

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Peaceable Kingdom tem como cenário um santuário para animais (Foto: Reprodução)

“Depois de ser afastado da vaca para que o leite seja aproveitado pela indústria, o novilho é morto para a extração de sua carne. Na realidade, a indústria de carne de novilho só existe por causa da indústria de laticínios, é um subproduto.

Dão a eles uma dieta pobre em ferro e, como eles também são privados de se exercitar, logo ficam anêmicos. E tudo isso para que a carne fique mais macia. Em muitos casos, os bovinos não conseguem se movimentar porque estão muito fracos. Então são arrastados.

Há situações em que as vacas param de produzir leite porque estão de luto por causa dos seus bezerros. Já encontrei vacas com seus novilhos mortos em uma fazenda e fiquei espantado ao ver que elas mugiam por dias, chamando seus filhos, e ficavam sem comer e beber.

As outras vacas davam suporte, pastavam com elas. E as vacas fazem isso porque se importam com os seus, ficam de luto. Nós acreditamos que somos únicos porque somos racionais. Claro, nós também somos emocionais, mas vacas também são. Há uma grande ligação entre elas.”

Trechos de um diálogo do documentário Peaceable Kingdom, da estadunidense Jenny Stein, lançado em 2004.

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O amigo generoso e o exame de HIV

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Um ano depois, durante um bate-papo, meu amigo me confidenciou o motivo da generosidade

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Pediu que eu passasse no seu escritório no final da tarde para buscar uma doação de R$ 200 (Foto: Reprodução)

No ano passado, um amigo me ligou e pediu que eu passasse no seu escritório no final da tarde para buscar uma doação de R$ 200. “Olha, sei que você está sempre ajudando alguém na periferia de Paranavaí, então pegue esse dinheiro e faça alguma boa ação”, disse. Fiquei feliz com a contribuição porque na mesma semana conheci um casal passando um grande sufoco.

Recém-desempregado, o homem me confidenciou que não tinha a mínima ideia de como fariam para comprar comida naquele mês. Admito que me surpreendi com o gesto desse amigo, de quem não conhecia ainda tal qualidade altruísta. Ademais, não é sempre que as pessoas se dispõem a fazer doações sem que ninguém peça nada.

Um ano depois, durante um bate-papo, meu amigo me confidenciou o motivo da generosidade. Um dia antes da doação, ele foi até um laboratório para buscar o resultado de um exame de HIV. Quando chegou a sua vez de ser atendido, uma moça pediu que ele aguardasse um instante.

Rapidamente ela entrou em uma sala e logo retornou com semblante enleado e suspeitoso. Nisso a tensão do meu amigo foi crescendo e crescendo. “Preciso voltar lá dentro de novo. Por favor, senhor, aguarde mais um minuto. A situação não é brincadeira”, declarou enquanto preocupada o observava.

Se passaram dois, três, quatro e cinco minutos, e nada da moça retornar. Nesse ínterim, meu amigo já estava arrancando os fios da barba com uma das mãos e sentindo o mais desagradável dos comichões. Em pouco tempo sua tez ficou lívida e ele não conseguiu evitar de transpirar. Com a mão úmida e escorregadia, tirou o celular do bolso. E por um reflexo inimaginável o aparelho não espatifou no chão. Tremendo e se atrapalhando entre as teclas que pareciam alfabeto rúnico, digitou uma mensagem para a irmã, pedindo que ela orasse fervorosamente por ele.

“Pelamor de Deus! Tô no momento mais difícil da minha vida, minha irmã! Reúna todo mundo aí e se ajoelhem! Chame até os vizinhos! Se ajoelhem com muita vontade! Orem por mim com todas as forças! Não quero morrer!”, teclou, tentando não desfalecer na frente dos estranhos.

Pela sua cabeça passou um turbilhão de pensamentos. Imaginou até o próprio velório num dia frio e chuvoso em que ninguém compareceria porque iriam preferir cobertor e chocolate quente no conforto de casa. “Infiéis! Infiéis!”, gritava de dentro do túmulo ao receber as últimas pás de terra arremessadas por um coveiro corcunda recém-saído de um filme do Ed Wood.

“E assim morrerei, no mais repentino e ligeiro dos esquecimentos”, deduziu no seu drama copioso. “Não! Pera aí, Deus! Por favor! Assim não! Juro que se eu escapar dessa vou dar todo o dinheiro que tenho na minha carteira pra ajudar algum necessitado. Juro em nome de tudo! Juro agora!”, esbravejou no cerne da própria consciência.

De repente, foi interrompido pela atendente e voltou a si. Quando a moça estendeu a mão para entregar-lhe o resultado, meu amigo viu no rosto dela a confusa fisionomia dantes se dissipando, se transformando em expressão de bonomia. Nem parecia a mesma pessoa. “Desculpe pela demora. Não é nada não. É que hoje ficamos com duas funcionárias a menos e o serviço acumulou. Tá tudo certo! O senhor já pode ir. Tenha um excelente dia”, comentou com voz doce e um sorriso esfuziante.

Written by David Arioch

May 11th, 2016 at 8:33 pm

O desabafo de um romeno na Inglaterra

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“A mídia britânica fala de nós como se fôssemos escória”

Romenos protestando contra o preconceito em Londres (Foto: Dana Purgaru)

Romenos protestando contra a discriminação em Londres (Foto: Dana Purgaru)

Alexandru Albescu deixou a Romênia nos anos 1990 e se mudou para a Inglaterra. Hoje ele tem o privilégio de contar com dupla cidadania, porém admite que nunca teve uma vida fácil, nem na atualidade. Houve uma época em que foi tratado com tanta hostilidade que retornou por curto período para sua terra natal. “Um hospital uma vez se recusou a me receber. Disseram que não aceitavam pacientes romenos. Passei pela mesma situação em um banco”, relata.

Mesmo gastando anualmente milhares de libras esterlinas em seguros, Albescu nunca recebeu nenhum centavo do governo. Jamais recorreu a benefícios em habitação, créditos fiscais ou abono de família. “Nunca recebi nada deles. E tenho contribuído com essa sociedade desde os anos 1990. A amo como se fosse a minha própria e posso dizer que tenho amigos britânicos, pessoas que me respeitam”, desabafa. Ainda assim, por ser romeno, até hoje teme pela sua segurança.

Segundo Albescu, a imigração precisa ser discutida abertamente, até porque há um grande estigma social envolvendo os romenos, muitas vezes vistos pelos ingleses como vagabundos e amealhadores de benefícios. “A mídia britânica fala de nós como se fôssemos escória. Eles nos apresentam como pessoas que vêm para cá causar crises no setor de habitação. Isso nos coloca em risco porque atiça o ódio e a xenofobia”, reclama.

Apesar de tudo, Alexandru Albescu tem esperança que a imagem de uma sociedade britânica tolerante ainda há de perseverar diante dos infortúnios vividos por imigrantes trabalhadores como ele e muitos outros. “O Reino Unido ainda é um bom lugar para se viver. Seria triste se ele virasse as costas para a história de tantos imigrantes que contribuíram para a evolução desse Estado”, comenta.

Saiba Mais

O Escritório Nacional de Estatísticas (ONS), sediado na Inglaterra, estima que há 170 mil romenos vivendo no Reino Unido.

Written by David Arioch

May 6th, 2016 at 12:04 am

A importância do ensino superior de música

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Em trabalho acadêmico, Rafael Torrente defende que saber tocar não é o suficiente para lecionar música

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“É preciso compreender a educação sob aspectos filosóficos, antropológicos, sociológicos e pedagógicos para lecionar” (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2015, quando precisou escolher o tema de um artigo, o músico profissional Rafael Torrente, então acadêmico do curso de licenciatura em música-MPB, do UniCesumar, de Maringá, decidiu fazer uma pesquisa sobre a formação do professor de música e a área de atuação em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que mostra a importância do ensino superior de música.

Em 2008, com a criação da lei 11.769, o governo federal abriu espaço para a inclusão de música como disciplina ou conteúdo da disciplina de artes nas escolas. Porém a responsabilidade sobre a aplicação foi repassada aos estados e municípios. “Foi uma boa iniciativa, visando beneficiar principalmente as escolas de tempo integral. O problema é que no Brasil esbarramos na falta de profissionais com formação superior em música”, explica Torrente.

Tendo como referência pesquisadores como Cláudia Bellochio, Vânia Malagutti e Maura Penna, o músico declara que a qualificação do professor é um assunto sempre controverso, até porque em âmbito acadêmico há uma constante preocupação em ampliar a percepção de que para ensinar música já não basta simplesmente saber tocar um instrumento. “Esse é um modelo tradicional que muitos estudiosos apontam como insuficiente porque é preciso compreender a educação sob aspectos filosóficos, antropológicos, sociológicos e pedagógicos para lecionar”, argumenta.

No artigo apresentado como trabalho de conclusão de curso em 2015, Rafael Torrente realizou em Paranavaí uma pesquisa com 21 músicos profissionais que atuam em projetos de oferta de ensino gratuito de música – a maioria com faixa etária de 24 a 40 anos. Desse total, 94% têm interesse em cursar música. “Quando fiz a pesquisa, havia apenas dois professores com graduação. Descobri que 30% já cursaram ensino superior e outros 30% estão cursando, mas em outras áreas. O ponto positivo é que são profissionais interessados em buscar conhecimento. Não estão acomodados. E 90% deles trabalham com música há pelo menos seis anos”, garante.

Em Paranavaí, uma das grandes dificuldades para esses profissionais é a ausência de um curso superior de música. No Paraná, apenas nove instituições de ensino oferecem graduação na área. “95% dos músicos entrevistados defendem que Paranavaí deveria ter curso superior de música – 71% buscam licenciatura e 23% o bacharelado. Os indecisos somam só 6%. E mais da metade prefere curso presencial. Paranavaí é uma cidade que ‘respira’ música, então isso diz muito sobre a nossa realidade. Você encontra aulas em 9 escolas regulares, 11 projetos sociais, igrejas e inúmeros conservatórios”, enfatiza, lembrando que iniciativas sociais têm beneficiado centenas de jovens interessados em aprender música.

No artigo, Torrente enaltece o trabalho da Fundação Cultural de Paranavaí que incentiva o interesse pela música através do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), Orquestra de Sopros Paranavaí, Banda Sinfônica Clave de Luz, oficinas da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade e Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado, além do projeto Oficinas nos Bairros. “Optei por fazer esse trabalho como uma maneira de dar um retorno para minha cidade, onde tenho o privilégio de trabalhar com música. É uma pesquisa pequena, mas já é um começo”, avalia.

Saiba Mais

Dos 17 músicos profissionais da Orquestra de Sopros Paranavaí, 12 trabalham exclusivamente com música.

Dos 21 entrevistados, apenas dois exercem outra atividade que contribui de forma significativa na complementação de renda.

Do total, 19 fazem freelance em eventos e 14 têm formação em cursos livres de música.

Written by David Arioch

February 18th, 2016 at 6:14 pm

As duas realidades de Mark Britten

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Depois de sofrer um acidente, Britten acorda e acredita que está vivendo em duas realidades distintas (Foto: Divulgação)

Em 2012, a série dramática Awake – Two Dreams, One Reality estreou nos Estados Unidos como uma grande promessa da rede NBC. Infelizmente foi mais um programa que não ultrapassou a primeira temporada, inclusive com cancelamento conturbado e final inconclusivo. Apesar disso, é uma série que vale a pena ser conhecida.

Ao longo de 13 episódios, o espectador é convidado a se aprofundar na história e no cotidiano do detetive Mark Britten (Jason Isaacs). Depois de sofrer um acidente, Britten acorda e acredita que está vivendo em duas realidades distintas. A verdade é que ele não é capaz de identificar quando está acordado ou sonhando devido ao trauma. Em uma das supostas realidades, a tragédia custou a vida de seu filho Rex. Na outra, quem está morta é sua esposa Hannah, o que o deixa mais confuso, o levando ao cume da culpabilidade e da crise existencial.

Outra surpresa é que em cada aparente realidade o detetive tem parceiros diferentes. Na história em que sua esposa faleceu, ele trabalha com o detetive Efrem Vega, um jovem com pouca experiência, mas muito sociável. Já no segmento marcado pela ausência de Rex, Mark Britten atua com Isaiah “Bird” Freeman, um detetive veterano – homem cínico e irônico. É interessante perceber logo no primeiro episódio como os mais diversos aspectos da série são permeados pela dualidade, uma constante que inunda o universo de Britten até o episódio final.

Written by David Arioch

February 2nd, 2016 at 11:01 pm

O mundo abstrato e a realidade de Carlos Reinesch

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A imagem representa a interconexão entre o mundo abstrato e a realidade (Foto: Carlos Reinesch)

Foto que deu destaque internacional ao fotógrafo brasileiro Carlos Reinesch. A imagem representa a interconexão entre o mundo abstrato e a realidade. Unindo simplicidade e apuro técnico, Reinesch brinca com a sacada de cores durante o “momento decisivo” de que falava Cartier-Bresson – reafirmado pela passagem do avião. Com os pés no chão, junto às gramíneas, o fotógrafo mostra que é possível ganhar o céu, afiançado sobre e sob si mesmo, e “quase ser tocado” pela aeronave.

Acesse: carlosrphoto.daportfolio.com

Written by David Arioch

February 2nd, 2016 at 10:37 pm

O homem que sobreviveu a três tentativas de assassinato

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Nebrão: “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio”

Na Vila Alta, quem ingressa no crime precisa de sorte para chegar aos 25 anos (Foto: David Arioch)

Na Vila Alta, quem ingressa no mundo do crime precisa de sorte para chegar aos 25 anos (Foto: David Arioch)

Quem conversa com o pacato Nebrão, de 33 anos, não imagina que ele já foi um dos homens mais perseguidos da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Comunicativo e de fala mansa, hoje se orgulha da vida tranquila e também de ter evitado que crianças e adolescentes entrassem ou continuassem no mundo do crime.

“Saí desse caminho errado graças a Deus. Já fui ladrão sim. Também me envolvi em outras coisas erradas. Não posso negar meu passado, mas me distanciei dessa vida sem futuro”, garante enquanto exibe inúmeras cicatrizes, principalmente marcas de facadas. De origem pobre e sem estrutura familiar, Nebrão é um raro exemplo de sobrevivência, ainda mais levando em conta que no bairro onde foi criado quem se torna criminoso precisa de sorte para chegar aos 25 anos.

O rapaz perdeu muitos amigos de infância e adolescência nos anos 1990, quando uma onda de terror tomou conta do bairro. Naquele tempo, a Vila Alta era conhecida como Vila do Sossego. “Muita gente foi pra debaixo da terra e outro monte pra cadeia. Era bandido matando bandido. É até difícil citar uma rua onde não morreu ninguém na época”, afirma. Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado. “Aqui é bem tranquilo para quem não se envolve com essas coisas, mas o ‘bicho pega’ se tu seguir a vida do crime e der mancada”, garante e cita o exemplo de um garoto de 13 anos que morreu após levar um tiro na cabeça enquanto estava escorado sobre um tanque, bebendo água da torneira.

Nebrão: "Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado (Foto: David Arioch)

O adolescente foi morto porque furtou uma trouxinha de drogas. A tolerância é zero, tanto com quem tenta enganar algum traficante quanto com quem consome e não paga pelo produto. “A quantidade nunca interessa. Pra eles, o mais importante é impor medo e respeito, mostrar que a punição é mortal”, enfatiza. Enquanto converso com Nebrão, ele faz questão de caminhar alguns passos e me mostrar onde três adolescentes foram executados porque “cresceram os olhos” sobre os lucros do chefe. “Quem se envolve com a bandidagem tem que respeitar também a lei do crime”, explica.

Por muito tempo, Nebrão foi conhecido como o maior “ladrão de água e de energia elétrica da Vila Alta”, atividade que depois lhe trouxe problemas com a Companhia Paranaense de Energia (Copel), Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e polícia militar. Autodidata, se tornou uma espécie de mestre das gambiarras. “Só de olhar, eu sabia o que tinha de fazer. Por R$ 35, eu resolvia o problema de qualquer um. Só ficava sem água ou sem luz quem quisesse”, lembra e acrescenta que já atendeu cerca de 1/3 do bairro.

Famoso pelo serviço rápido, o rapaz desde cedo demonstrou talento em montar e desmontar objetos. Chegou a ser contratado para furtar pontes de córregos. “Dependendo do tamanho, ele não precisava nem de uma hora para desmontar e levar embora”, garante um amigo que entre sorrisos testemunha a conversa. Envolvido com furtos, roubos e receptação de mercadorias desde a adolescência, Nebrão declara que só está vivo porque Deus quis assim. “Quem tem um histórico parecido com o meu não vive muito. Sou um sobrevivente”, garante.

Nebrão falando dos anos 1990: "Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

Nebrão falando dos anos 1990: “Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

O rapaz tem motivos para pensar assim. Perdeu as contas de quantas noites dormiu sem saber se acordaria. Uma vez atearam fogo em sua casa de madrugada. Nebrão percebeu o incêndio a tempo e escapou da morte, apesar dos prejuízos materiais. “Comecei a ser perseguido porque um cara delatou dois traficantes e deu o meu nome como se fosse o dele. Ele queria me ‘ferrar’”, revela.

Quando tudo parecia ter voltado à normalidade, Nebrão foi surpreendido na rua por dois homens armados. No momento da execução, apesar da insistência dos atiradores, nenhum dos revólveres disparou. “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio. Corri e vieram no encalço com pedaços de pau. Tentaram me derrubar golpeando minhas pernas. Não caí por milagre e consegui escapar mais uma vez”, confidencia o rapaz que é alto e corpulento, o que também pode ter ajudado na fuga.

As histórias de Nebrão são confirmadas por outros vizinhos que se aproximam para ouvir a conversa. Apesar das tentativas de homicídio, continuou no bairro, próximo da família e dos amigos. Mais tarde, um conhecido apareceu na casa do rapaz e gritou: “Ô, nego, chega aí. Quero falar contigo, é papo reto, coisa rápida.” Em seguida, a irmã de Nebrão disse: “Tenha fé, meu irmão. Deus me disse que hoje você vai amarrar o diabo.”

Quando abriu o portão, o sujeito apontou o revólver para Nebrão que começou a orar enquanto mantinha os olhos fixos sobre o atirador. “Ele abaixou a arma, chorou e disse que não aguentava mais aquela vida. Decidiu se entregar para a polícia”, relata Nebrão que em diversas situações foi perseguido por falsas denúncias de delação de traficantes.

Naquele dia, o homem enviado para matar Nebrão já tinha assassinado cinco pessoas na periferia de Paranavaí. Preocupado com o futuro, Nebrão se distanciou do crime, parou de beber, fumar e se tornou evangélico. Admite que atualmente ganha pouco para sobreviver, mas está feliz por não dever nada a ninguém. “É um dinheiro honesto. Quando a situação aperta, trabalho até na roça nos finais de semana”, assegura.

Hoje, se empenha em fazer alguma diferença na vida de crianças e adolescentes que se tornam ladrões ou ingressam no mundo das drogas. “‘Mando a real’ na molecada. Explico que esse caminho não traz nada de bom. É uma ilusão, e se continuar nele vai morrer sem aproveitar a vida. Aos traficantes e ladrões que conheço, peço pra não oferecer droga nem serviço pra eles. O que posso fazer é aconselhar e pedir”, comenta Nebrão que já conquistou bons resultados com essas ações.

Saiba Mais

Nebrão é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.