David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for January, 2017

“Me senti como se eu tivesse cometido um assassinato”

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Walking the Line – Pheasant Hunting, de Michael Sieve

O britânico William Harris, um dos caçadores mais famosos de seu tempo, conta que durante os anos de 1836 e 1837 viajou para longe no coração da África com a mera intenção de perseguir animais, algo que ele definia como uma de suas paixões. Em uma passagem de sua biografia, publicada em Bombaim em 1838, ele descreve como atirou em seu primeiro elefante, uma fêmea.

Na manhã seguinte, indo procurar seu novo alvo, ele descobriu que todos os elefantes tinham fugido da localidade, exceto um jovem elefante que passou a noite toda ao lado de sua mãe morta. Vendo os caçadores, o animal não sentiu medo e, com os mais claros e vivos sinais de tristeza desconsolada, caminhou até eles. Então moveu seu minúsculo tronco como se suplicasse por ajuda. Sobre o episódio, registrou Harris em sua biografia: “Eu estava cheio do mais verdadeiro remorso pelo que tinha feito e me senti como se eu tivesse cometido um assassinato.”

 

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Written by David Arioch

January 25th, 2017 at 11:42 pm

Um ratinho na cozinha

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Arte: Risachantag

Com não mais que sete anos, numa noite fui até a cozinha e encontrei meu pai sentado no chão, aparentemente falando sozinho. Quando me aproximei, vi que tinha um rato perto dele, desses que a maioria despreza e mata quando invadem a cozinha. Ele conversava com o animalzinho, e achei aquilo intrigante.

Por alguns meses, meu pai encontrou todas as noites aquele ratinho ruço, o alimentando com a mais singela malácia. Mazzaropi sempre retornava quase no mesmo horário, com diferença de minutos. Um dia, ele desapareceu. Então perguntei ao meu pai o que ele faria: “Nada, porque na hora certa ele seguiu o seu caminho, o que não deve ser traçado por nós só porque demos a ele um pouquinho daquilo que chamamos de carinho.”

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Written by David Arioch

January 25th, 2017 at 11:40 pm

O grito dos animais por trás do grito de Edvard Munch

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“Creio que quando [Edvard Munch] criou esse nome [em alemão], ele o relacionou com o grito dos animais”

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O Grito, de Edvard Munch, cortesia da Galeria Nacional, em Oslo

O pintor norueguês Edvard Munch, precursor do expressionismo alemão, conquistou fama mundial com a sua obra-prima Skrik (O Grito), de 1893, considerada uma das mais importantes pinturas da história do expressionismo. Embora muita gente associe a obra à angústia e decepção em sua vida pessoal, a verdade é que existe muito mais por trás dessa pintura que se tornou o símbolo internacional da ansiedade.

Em “O Grito”, que mais tarde recebeu versões de Andy Warhol e Gary Larson, um corpo contorcido, um rosto esticado e uma boca oblonga e aberta tem ao fundo duas pessoas conversando, possíveis amigos de Munch. Acredita-se que as cores mais vívidas tenham sido inspiradas pelos matizes impetuosos do céu europeu durante a erupção do vulcão Krakatoa em 1883.

Há quem diga que a pintura é uma manifestação das insatisfações de Munch no amor e na amizade. Porém, declarações de artistas conceituados e pesquisas mais aprofundadas trazem informações reveladoras. Um exemplo é o livro “Edvard Munch: Behind the Scream”, da inglesa Sue Prideaux, publicado pela Yale University Press em 2005.

A escritora e pesquisadora da obra e vida do pintor norueguês confirma que a cena de “O Grito” foi baseada em um lugar na Colina de Ekeberg, um bairro de Oslo, na Noruega. A inspiração veio de uma memória de quando ele caminhava ao pôr-do-sol em companhia de dois amigos.

Segundo informações que Sue transcreveu do próprio diário de Edvard Munch, o pintor sentiu-se exaurido e parou para descansar, encostando na grade retratada na pintura. Também sofrendo de ansiedade, problema crônico que sempre o acompanhara, ouviu sons que pareciam vir diretamente da natureza. Eram gritos de animais sendo mortos em um matadouro perto de um hospício. Os sons perturbadores se misturaram ao choro dos pacientes internados em um manicômio onde sua irmã era uma das internas.

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Munch provavelmente tinha grande aptidão para se sensibilizar tanto com a dor humana quanto com a dor dos animais (Foto: Edvard Munch – The Dance of Life Site)

Na pintura, ao fundo, a paisagem esmaecida da Colina de Ekeberg, que proporciona uma túrbida perspectiva, deu a tônica do estado emocional de Munch transformado em protagonista. A inquietação do personagem combinou a agitação interna e externa de tudo que o pintor vivenciou na caminhada em companhia dos dois amigos. Ele também chamava sua pintura de Der Schrei der Natur (O Grito da Natureza), nome alemão que deu à obra.

“A experiência foi muito perturbadora para ele quando atravessou aquela ponte. Creio que quando [Edvard Munch] criou esse nome [em alemão], ele o relacionou com o grito dos animais. Acho que se abrirmos nossos corações para esse grito, os animais estão falando através de si mesmos”, interpreta a artista britânica Sue Coe, deixando subentendido que Munch provavelmente tinha grande aptidão para se sensibilizar tanto com a dor humana quanto com a dor dos animais.

Saiba Mais

Edvard Munch nasceu em Løten em 12 de dezembro de 1893 e faleceu em Ekely em 23 de janeiro de 1944.

Uma das cinco versões de “O Grito” foi vendida em um leilão por 120 milhões de dólares para um colecionador privado. As outras estão em exibição em museus ao redor do mundo.

Referências

Prideaux, Sue. Edvard Munch: Behind the Scream. Yale University Press (2005).

Interviews with Gary Steiner and Sue Coe, 6/21/2012

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Paul McCartney sobre o consumo de carne: “Acabei percebendo que eu estava tirando a vida dos animais”

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“Uma grande mudança que alguém pode fazer no seu estilo de vida é se tornar vegetariano”

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Campanha da Peta: “Eu sou Paul McCartney, e eu sou um vegetariano”

O cantor e compositor britânico Paul McCartney, que há muito tempo faz campanhas em defesa dos direitos animais, contou em entrevista à jornalista Barbara Ellen, publicada no The Guardian em 18 de julho de 2010, que abdicou do consumo de carne no início dos anos 1970, quando ele e sua esposa Linda estavam comendo um assado durante o jantar.

O casal olhou pela janela e viu cordeiros felizes saltitando. Sensibilizados com a cena, perderam o interesse em comer carne. “Foi como se a ficha tivesse caído, a lâmpada acendeu. Vimos que poderíamos simplesmente desistir disso. Acabei percebendo que eu estava tirando a vida dos animais”, disse.

McCartney atribui a Linda, falecida em 1998, a sua adesão ao vegetarianismo. Sua esposa inclusive atraiu muita atenção com seus livros de receitas sem carne. “Ela tinha um jeito, uma força não-agressiva, e muitos de nossos amigos se tornaram vegetarianos por causa disso”, explicou.

Um dia, quando estava pescando em um rancho em Nashville, nos Estados Unidos, ele puxou um peixe para fora da água e viu que o pequeno animal lutava bravamente pela própria vida. Normalmente, ele teria dito: “Sim, você é meu jantar!”, mas naquele dia o desfecho foi diferente: “Apenas pensei: ‘Oh, realmente estou matando você e posso fazer algo sobre isso. Então o tirei do gancho, o soltei e disse: ‘Aí está, camarada!”

O compositor britânico relatou em entrevista à organização Pessoas Pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta) publicada em 21 de abril de 2008 que se surpreende com o fato de que a maioria das organizações ambientais jamais citam a adesão ao vegetarianismo como uma das medidas mais importantes para ajudar a reduzir o aquecimento global. “O mais interessante é que hoje em dia é tão fácil ser vegetariano. Esse é um passo simples, mas extremamente efetivo, que muitas pessoas poderiam dar para ajudar o meio ambiente e melhorar a sua própria saúde”, argumentou.

Segundo Paul McCartney, a vida selvagem e muitos dos lugares mais belos do planeta estão sendo destruídos em consequência da industrialização irrefletida. “É algo que pode ser interrompido, e há sinais esperançosos de que as pessoas estão começando a perceber que isso deve ser feito [adesão ao vegetarianismo] para garantir um futuro melhor para nossos filhos e os filhos deles”, declarou.

Em entrevista a David Frickle, publicada na revista Rolling Stone em 10 de agosto de 2016, o compositor britânico revelou que não frequenta a rede de fast food McDonald’s porque é incompatível com seus ideais, o que significaria incentivar a exploração animal. O que também sempre gerou estranheza em McCartney é que muitas pessoas pensam que vegetarianos comem peixes:

“E quando você considera a pesca excessiva, a poluição marinha e os danos enormes aos nossos oceanos em decorrência da pesca comercial, fica mais óbvio ainda que um estilo de vida vegetariano pode melhorar muito o nosso meio ambiente e ajudar a salvar os oceanos.”

McCartney, assim como muitos, foi criado como um típico consumidor de carne, mas isso não impede que as pessoas façam escolhas melhores, que beneficiem os animais, a saúde e o planeta. “Acho que uma grande mudança que alguém pode fazer no seu estilo de vida é se tornar vegetariano. A indústria global da carne, por causa da terra e água necessárias para o serviço, é uma das maiores responsáveis pelo aquecimento global. Esse fato surpreendente emergiu nas pesquisas nos últimos anos. Então convido todos a refletirem e darem esse simples passo [tornarem-se vegetarianos] para ajudar o nosso precioso meio ambiente, o salvando para as crianças do futuro”, ponderou.

Referências

http://www.peta.org/blog/interview-sir-paul-mccartney/

https://www.theguardian.com/music/2010/jul/18/paul-mccartney-vegetarianism

http://www.rollingstone.com/music/features/paul-mccartney-looks-back-the-rolling-stone-interview-w433437

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January 24th, 2017 at 12:16 pm

Tatyana Pavlova, a ativista que definiu os rumos dos direitos animais na Rússia

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“Ela revolucionou nossa consciência, motivando pessoas a repensarem suas atitudes sobre os seres vivos”

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Tatyana Pavlova, um dos nomes mais importantes do vegetarianismo russo (Foto: Centro de Direitos Animais Vita)

A russa Tatyana Nikolaevna Pavlova, que comandou a Sociedade Vegetariana Russa e o Centro Pela Ética no Tratamento de Animais (Ceta), foi uma das pessoas que revolucionou o vegetarianismo na Rússia e mais chamou a atenção para os direitos animais naquele país. Embora sua luta tenha chegado ao fim com o seu falecimento em 21 de agosto de 2007, o seu legado segue contagiando pessoas em todo o mundo.

Tatyana Pavlova se tornou vegetariana em 1969, influenciada por amigas ligadas à defesa do bem-estar animal. À época, ficou horrorizada com os relatos sobre maus-tratos contra animais. Então se ofereceu como voluntária à Sociedade de Proteção Animal, a primeira organização de direitos animais da Rússia, que antes era chamada de Departamento de Proteção Animal da Sociedade Russa para Proteção à Natureza.

“Participei da organização até ser fechada alguns anos atrás, e novas sociedades se formarem em Moscou e em outras cidades russas. Eu própria fundei o Ceta [Centro pela Ética no Tratamento de Animais] porque seu propósito era diferente da sociedade em que trabalhei por 20 anos”, contou no seu artigo “Uma Vegetariana na Rússia”, publicado em dezembro de 1995.

Tatyana relatou que sua transição para o vegetarianismo não foi tão fácil. Ela pensou em se tornar vegetariana muitas vezes, mas as pessoas ao seu redor sempre diziam que era impossível viver sem carne. “Era estranho, porque temos o exemplo de milhões de pessoas na Índia e em outros países orientais. Mesmo sabendo que eles não comem carne, a princípio isso não me motivou o bastante”, cita em referência ao fato de que as pessoas são tão influenciadas pelo meio que ignoram outras realidades.

Foi no final dos anos 1970 que Pavlova criou as primeiras comissões de bioética da Rússia, contando com a participação de médicos e biólogos que se ofereceram para definir metas e desenvolver alternativas à experimentação animal. O trabalho foi baseado em literatura ocidental traduzida por Pavlova, que logo estabeleceu relações amistosas com organizações estrangeiras que realizavam trabalho semelhante.

Em 1989, fundou a primeira Sociedade Vegetariana Russa desde a Revolução de 1917. Em 1991, criou o Centro pela Ética no Tratamento de Animais (Ceta), que combate a exploração de animais na indústria alimentícia, de peles e couro, além de experimentação científica e entretenimento. Mais tarde, conseguiu introduzir algumas de suas ideias no sistema de ensino russo.

O primeiro livro de Pavlova sobre bioética, “Deontologia – Experimentos Biomédicos” lançado em 1987, foi aprovado pelo Ministério da Educação, e com ele Tatyana propôs a realização de seminários para professores, abrindo espaço para a implantação de cursos de leitura e compreensão de bioética nas universidades russas.

“A situação do vegetarianismo na Rússia é interessante. Há pessoas que são predispostas a terem uma vida saudável, que se interessam por ioga e pela medicina oriental. Estes representam a maioria dos vegetarianos russos. Mas aqui há também pessoas que são vegetarianas porque suas religiões exigem isso. Por exemplo, os hare krishna. Também temos pessoas que fazem isso por razões éticas”, explicou no artigo “Uma Vegetariana na Rússia”.

No início dos anos 1990, Tatyana Pavlova inspirou a criação da série de TV “A Vida Sem Crueldade”, que abordava a exploração animal em vários países. Ações como essa deram um forte impulso para o renascimento do vegetarianismo na Rússia, onde o estilo de vida vegetariano começou a decair nos anos 1930. Décadas depois, os novos defensores dos direitos animais trouxeram novas ideias. Em 1994, sob coordenação de Pavlova, a Praça Pushkin, em Moscou, foi cenário da primeira grande manifestação pública vegetariana realizada em território russo. O evento, que teve inclusive cobertura dos mais importantes jornais da Rússia, ficou marcado por palavras de ordem como: “Vegetarianismo é bondade e saúde!” e “Você está matando os animais todos os dias!”

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Tatyana tornou-se vegetariana em 1969 (Acervo: Centro de Direitos Animais Vita)

De acordo com o Centro de Direitos Animais Vita, sediado em Moscou, Tatyana se tornou a mais importante personagem do vegetarianismo russo e da causa animal russa no final da década de 1990, sendo convidada para participar de diferentes programas televisivos de entrevistas. Em 1998, por iniciativa da ativista, podia-se encontrar cartazes sobre os benefícios do vegetarianismo e sobre os direitos animais na Praça Pushkin e em metrôs das mais importantes cidades russas.

Ela também lutou pela criação de um projeto de lei federal para proteger os animais contra abusos, tendo como referências as leis progressistas dos países ocidentais. O problema é que mesmo após três revisões e a aprovação do Soviete da Federação, a câmara alta da Assembleia Federal da Rússia, o presidente Vladimir Putin a rejeitou em 2000, e o seu destino segue desconhecido, segundo o Centro de Direitos Animais Vita.

Pavlova também foi uma das responsáveis pela criação da campanha “Um Dia Sem Carne” na Rússia. Coordenou a realização de shows em defesa dos direitos animais na Praça Vermelha e publicou muitos artigos nos grandes jornais do país. Um dos eventos teve cobertura da TV. “A partir disso, muitas pessoas entraram em contato comigo, e pelo menos um terço tornaram-se vegetarianos por razões éticas. Eram homens jovens, o que foi muito agradável de saber”, informou no artigo publicado em 1995.

Alguns anos antes de falecer, Tatyana sentiu-se recompensada ao reconhecer que muitas pessoas que se tornaram vegetarianas por razões éticas na Rússia jamais se deixaram desviar por crises econômicas ou políticas. “Para eles, é algo sério. Nosso principal problema na Rússia é que as pessoas não sabem muito bem o que são os direitos animais, e nosso Centro [Ceta] foi a primeira organização a se esforçar para promover essas ideias na TV e no rádio, além de publicar livros, folhetos e ministrar palestras”, declarou.

Tatyana Pavlova argumentava que o desenvolvimento espiritual da humanidade depende do fim de uma sociedade antropocêntrica, que aceita e incentiva a escravidão de outras espécies para satisfazer supostas necessidades. “Ela revolucionou nossa consciência, motivando pessoas a repensarem suas atitudes sobre os seres vivos, inspirando eles a juntarem-se na luta pela libertação das criaturas com menos direitos neste planeta – os animais não humanos”, assinalou o escritor vegano estadunidense Kim Stallwood, especialista em direitos animais.

No início da década de 1990, por meio de pesquisas realizadas pelo Centro Médico Científico, Pavlova conseguiu fazer com que o governo russo reconhecesse os benefícios do vegetarianismo, obrigando o Ministério da Saúde a incluir a dieta vegetariana como o caminho para uma vida saudável. “Os cientistas tiveram de admitir oficialmente, após longos anos de silêncio sobre esse assunto, as vantagens do vegetarianismo”, comemorou a ativista.

Para Tatyana Pavlova, vai continuar sendo muito difícil proteger os animais enquanto as pessoas continuarem consumindo demais, porque quanto mais consomem, mais terão de produzir e mais terão de descartar, assim poluindo o meio ambiente e degradando o habitat dos animais não humanos. A ideia de se produzir muitos produtos com vida útil curta sempre a incomodou. “Fundamentalmente, o nosso problema com os animais se resume a um problema de violência e sofrimento, de proteger quem não pode se proteger”, ponderou no artigo “Uma Vegetariana na Rússia”.

A ativista russa dizia que o melhor caminho é ensinar os mais jovens a verem os animais como nossos iguais, tão importantes quanto os seres humanos. “A humanidade tem uma grande responsabilidade em relação a todos os seres vivos. No geral, estou otimista sobre o futuro da Rússia. Outro dia, conheci pessoas da Sibéria Oriental que se mudaram para o país e estão tentando arrecadar dinheiro para começar um experimento de viver distante da civilização. Estão desistindo de tudo, todos os tipos de máquinas. Querem retornar a uma vida simples e que era típica há cem anos. Isso não quer dizer que os russos não sejam tolos como os americanos. Eles também acreditam que produzir para consumir muito é o sonho de uma vida”, revelou em seu artigo publicado em dezembro de 1995.

Alguns dos livros de autoria de Tatyana Pavlova

Deontologia – Experimentos Biomédicos (1987)
Vegetarianismo – Saúde, Bondade, Beleza (1992)
Tudo Sobre o Vegetarianismo (1992)
Vegetarianismo e Ética (1993)
Vegetarianismo e o Futuro do Planeta (1993)
Alimentos que Tratam (1995)
Bioética na Escola (1996)
Bioética na Escola – Parte II (1996)
A Educação Humanitária (1998)
Alimentação Saudável – Um Manual para a Escola Primária (1998)

Saiba Mais

Tatyana Pavlova nasceu em 14 de março de 1931 e faleceu em 21 de agosto de 2007.

Referências

http://www.satyamag.com/dec95/pavlova.html

http://www.vita.org.ru/new/2007/aug/24.htm

Tatyana Nikolaevna Pavlova RIP

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Written by David Arioch

January 23rd, 2017 at 5:52 pm

Veganismo na infância

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Foto: VegFest

VegKids, realizado dentro da VegFest na Inglaterra e na Escócia, e que tem inclusive apoio do governo. Lá, crianças, em companhia dos pais, são incentivadas e orientadas a tornarem-se veganas desde os primeiros anos de vida. A VegFest é um dos maiores eventos veganos do mundo.

Written by David Arioch

January 23rd, 2017 at 12:29 am

A efêmera poesia do efêmero

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Seu corpo era amarelo, marrom e preto, mas conforme balançava as asas, tudo se uniformizava num dourado lampejante (Foto: Reprodução)

Quando criança, um dia perguntei à minha mãe o que significa efêmero. Ela não respondeu. Dois dias depois, fomos até um riacho e em meio à relva havia um inseto parecido com uma libélula. Se movia com leveza e tinha a mesma sofreguidão da água se chocando contra as rochas. Seu corpo era amarelo, marrom e preto, mas conforme balançava as asas, tudo se uniformizava num dourado lampejante.

Como era fim de semana, minha mãe sugeriu que passássemos o dia naquele lugar, assistindo a rotina daquele inseto singular. No final da tarde, depois de um cochilo, acordei e o vi voando em direção a uma pequena árvore. Lá, se aninhou e repousou. Eu e minha mãe nos aproximamos um pouco e vimos que o espécime nem se movia, parecia fragilizado. Pensei até que tivesse morrido.

Minha mãe me advertiu para ter calma. Uma hora depois, o inseto depositou uma grande quantidade de ovos em um dos galhos mais ocultos e não mais se moveu, simplesmente faleceu. Então perguntei o que houve. “Por que ele morreu assim e logo hoje que viemos aqui?” Minha mãe sorriu e me explicou que aquele inseto na realidade era uma fêmea que se tornou adulta pela manhã:

“A vida adulta dela começou pouco antes da nossa chegada e terminou agora. Ela existe somente para que outros existam. Mal se alimenta porque o tempo é curto e seus filhos precisam nascer. Por isso o nome dela é efêmera, e é isto que significa efêmero, tudo que tem curta duração; uma palavra que deveria ser sempre usada em referência aos presentes da comunhão que não temos o privilégio de usufruir porque é chegada a hora de partir.”

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Written by David Arioch

January 22nd, 2017 at 12:55 pm

Pawel Kuczynski, um cartunista que desperta reflexões sobre a exploração animal

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“Nossa realidade é triste e, como consequência, meu senso de humor é mórbido”

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Kuczinsky: “A realidade é tão louca e absurda que é difícil competir com isso” (Foto: Reprodução)

O artista gráfico e cartunista Pawel Kuczynski vive em Police, uma cidade com pouco mais de 40 mil habitantes, situada na região da Pomerânia Ocidental, no Noroeste da Polônia. Lá, ele produz desenhos que despertam a atenção para temas como exploração animal, ecologia, política, pobreza, fome, ganância, novas tecnologias e vício em internet. Kuczynski une metáforas visuais, a estética do surrealismo, a sátira e o humor mórbido para fazer com o que o espectador reflita sobre questões bem atuais.

Muito popular em mídias sociais como Reddit, Pinterest, Instagram e Facebook, neste último ele tem mais de 528 mil seguidores, o artista polonês já produziu inúmeros desenhos em que propõe discussões sobre a forma como nos relacionamos com os animais. São trabalhos que permitem inúmeras releituras e colocam em evidência a hipocrisia humana no que diz respeito ao fato de considerar alguns animais como companheiros e outros simplesmente como comida. Exemplo disso é “Dinner”, uma de suas obras mais populares, em que um açougueiro acaricia a cabeça de um gato enquanto é assistido por animais não domésticos na entrada de um estábulo.

Alguns cartuns de Kuczynski, que trabalha com técnicas de lápis aquarelável, mostram como as pessoas fingem não ver que estão consumindo um ser que um dia teve vida, e talvez por tal motivo em alguns de seus trabalhos os animais estão vivos. Um exemplo é “Pig”, em que um porco aparece sorrindo inocentemente com uma toalha sobre o dorso, sem reconhecer que ele é a mesa e o prato principal de um banquete. Em “Coffin”, ele apresenta o funeral de um porquinho que tem como caixão um lanche, uma referência às tiras de bacon.

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Uma das imagens mais famosas do cartunista polonês

Em “Eggs”, há uma máquina que esmaga galinhas para a produção de ovos. Provavelmente, a intenção de Kuczynski é mostrar que ovos não são apenas ovos. Eles custam a vida das galinhas que são descartadas quando produzem pouco ou quando representam despesas. Outra de suas obras destaca um homem com aspecto morbígero, uma boca enorme e dentes pontiagudos, prestes a engolir a cabeça de um suíno, numa analogia à glutonaria humana.

Pawel Kuczynski também critica quem cria peixes em casa. Além desses animais viverem até sua morte em pequenos espaços para o deleite humano, as pessoas normalmente ignoram o quão paradoxal é criar um peixe ao mesmo tempo em que se come outro. Tal contradição é evocada no cartum em que aparece um peixe enlatado dentro de um pequeno aquário.

Em outro desenho, um boi tem um grande pasto como guardanapo amarrado ao pescoço, referência ao desmatamento e a superprodução de grãos para alimentar esses animais, o que vai muito além do que é investido na produção alimentícia voltada aos seres humanos.  elwu6vn-vert

Por esses e outros trabalhos, o polonês graduado na Academia de Belas Artes de Poznań, e com especialização em artes gráficas, já foi premiado nos Estados Unidos, Brasil, Bélgica, Itália, Espanha, Portugal, Rússia, Japão, China, Coréia do Sul, Colômbia, República Tcheca, Irã, Itália, Eslováquia, Turquia, Síria e Taiwan. Em 2005, ele recebeu o Eryk, prêmio da Associação Polonesa de Artistas, por ter conquistado um número recorde de premiações em competições internacionais. Só em 2010, Kuczynski ganhou 19 prêmios e distinções.

“Não sou o tipo de cartunista que trabalha com humor. Não é o tipo de sátira que as pessoas podem associar com piadas. São assuntos muito sérios. A realidade é tão louca e absurda que é difícil competir com isso. A realidade me inspira. Apenas tento ser honesto sobre as minhas observações em meus desenhos. Coloco uma informação em minha cabeça e espero pelos resultados. Se eu já tiver algo em minha mente, e for uma boa ideia, preciso de dois dias para fazer o desenho”, disse em entrevista à Fluster Magazine, da Itália, publicada em 10 de março de 2012.

Um observador do comportamento humano, Pawel Kuczynski considera surpreendente o fato de que vivemos há tanto tempo neste mundo e ainda assim seguimos cometendo os mesmos erros. ele cita como algumas das maiores incoerências humanas as guerras, a pobreza, a fome, a exploração animal e a destruição do meio ambiente. “Nossa realidade é triste e, como consequência, meu senso de humor é mórbido. Acho que talvez eu seja muito lírico e sentimental”, declarou.pawelk7-horz

O artista polonês sempre gostou de arte barroca, das obras de Caravaggio [Michelangelo Merisi]. Sua admiração o motivou desde cedo a usar a luz teatral como uma grande aliada, ou seja, aprendeu a manipular sabiamente o contraste entre o claro e o escuro. “É muito útil para organizar a composição narrativa em minhas obras”, justificou.

Membro da Associação Polonesa de Artistas, ele prefere não enaltecer a sua própria história. Quando questionado sobre o motivo de divulgar sempre uma curta biografia, Kuczynski costuma responder que o mais importante não é ele, mas sim o seu trabalho. Sobre sua rotina, ele começa o dia praticando atividades físicas. “É a melhor forma de refrescar meus pensamentos. Ou a melhor forma de não pensar em desenhos”, enfatizou em entrevista veiculada no portal iraniano Tabriz Cartoons em 11 de setembro de 2016.

coffin-pawel-vertO cartunista normalmente prepara o projeto um dia antes de executá-lo, e seu período de maior produção costuma ser à tarde. “Trabalho como freelancer. É o que mais me convém, mas posso trabalhar em qualquer lugar onde eu tenha um canto para desenhar e acesso à internet. Tudo que tenho em Police [sua cidade natal] é um ambiente tranquilo, amigos e família. Não preciso de nada mais além disso”, contou a Tabriz Cartoons.

Pawel Kuczynski transparece não ter grandes ambições e ressalta que o mais importante é ter ideias e força para trabalhar. Se suas obras seguirem conquistando as pessoas e permitirem que ele continue vivendo do seu trabalho, isso o deixará satisfeito. “É o suficiente para mim. Como qualquer jovem estudante, eu fazia retratos em festas, imagens para decorar interior de apartamentos. Sou duro comigo e prefiro não admirar meu trabalho. Sempre acho que o próximo será melhor e me forço a ir além. Claro, como qualquer autor, fico feliz quando meu trabalho é notado e recompensado em competições”, ponderou.

Há pessoas que criticam alguns trabalhos de Kuczynski por interpretá-los como críticas intransigentes ao uso de tecnologias. Porém, embora não use smartphones, ele deixa claro que sua intenção nunca foi essa: “Não sou um inimigo das inovações técnicas. Estou ativamente usando e usufruindo delas. Mas, por outro lado, é por isso que tenho o direito de alertar sobre as armadilhas que estão sempre à nossa espreita.” Para o polonês, a melhor forma de manter a qualidade do seu trabalho é jamais negligenciar o próprio cérebro que, por ser um músculo, precisa sempre de bons estímulos.

Saiba Mais

Pawel Kuczynski começou a trabalhar com desenhos satíricos em 2004.

 Para comprar algum dos trabalhos do artista polonês, acesse:

http://www.pictorem.com/collectioncat.html?author=Pawel+Kuczynski

 Referências                    

http://pawelkuczynski.com/

Showcase: Pawel Kuczynski

http://tabrizcartoons.com/en/news/tcan/6196-interview-with-pawel-kuczy%C5%84ski-poland,2016.html

No estacionamento

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Um dia, no estacionamento do mercado, uma mulher arremessou uma embalagem pela janela. Como ela ainda não tinha saído do lugar, caminhei até lá, inclinei meu corpo, peguei o lixo sem falar nada, coloquei no meu bolso e continuei andando. Olhei brevemente para ela e não me recordo de já ter visto outra pessoa tão constrangida em situação semelhante.

Written by David Arioch

January 21st, 2017 at 1:34 am

Posted in Autoral,Reflexões

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Um autor é responsável somente pelo que produz

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“Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, foi injustamente acusado de ter levado jovens a cometer suicídio na Alemanha (Foto: Reprodução)

Na minha opinião, um autor sempre vai ser responsável pelo que ele produz, não pelo que os outros entendem, por mais subjetiva que seja sua obra. Acho importante ter isso sempre em mente.

Quando escrevo um texto e alguém tenta dar um sentido a ele com o qual eu não concordo, por exemplo, a responsabilidade não é minha. Não tenho controle sobre a concepção de ninguém. Realmente, depois de pronta uma obra ganha vida, mas isso não significa que o autor seja responsável pelas releituras ou ingerências dos outros.

Claro que pode ocorrer um mea culpa, mas muitas vezes ocorre porque provavelmente o autor está fora dos limites do zeitgeist, não quer conflitos ou fez algo de forma não intencional ou possivelmente até subconsciente.

Quando Goethe publicou “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, houve uma onda de suicídios na Alemanha. Ele nunca desejou que ninguém se suicidasse. E dizer que ele era responsável porque sua obra levou o romantismo alemão às raias do extremismo é de um sensacionalismo mais do que obtuso.

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Written by David Arioch

January 21st, 2017 at 1:20 am