David Arioch – Jornalismo Cultural

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O Xogum dos Cachorros

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Tsunayoshi ficou famoso por sua compaixão por cães e pela criação de leis beneficiando os animais

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Tsunayoshi instituiu “Os Éditos Sobre a Compaixão pelas Coisas Vivas” (Arte: Japan This)

Nascido em 23 de fevereiro de 1646, o supremo líder militar Tokugawa Tsunayoshi é uma das figuras mais intrigantes da história do Japão. Além de ter garantido ao país um crescimento sem precedentes na Era Genroku, e que só seria novamente alcançado no início do século 20, o quinto xogum ficou conhecido como O Xogum dos Cachorros ou O Xogum Cão, pela sua compaixão pelos animais, mas principalmente por cães.

De acordo com a escritora alemã Beatrice Bodart-Bailey, autora do livro “The Dog Shogun: The Personality and Policies of Tokugawa Tsunayoshi”, publicado em 2006, foi sob o xogunato de Tsunayoshi, iniciado em 1680, que os cidadãos comuns do Japão tiveram pela primeira vez acesso à boa educação e condição financeira para desfrutar de formas de entretenimento que até então eram relegadas à elite governante.

Suas políticas pouco ortodoxas e seu amor pelos animais fizeram com que muita gente o visse como uma ameaça e o qualificasse como tirano. Um dos motivos foi a criação de uma série de leis intitulada “Shorui-Awaremi-no-rei”, ou “Os Éditos Sobre a Compaixão pelas Coisas Vivas”, inspirado nos ideais budistas de clemência. Quando ascendeu ao poder, Tsunayoshi exigiu que todos os cães fossem registrados, assim como mulheres grávidas e crianças, com o objetivo de prevenir o infanticídio.

Os mais místicos atribuíam o amor de Tsunayoshi pelos animais ao fato de que ele nasceu no ano do cachorro. Considerado generoso demais com os seres vivos não humanos, ele incomodou muita gente ao criar uma lei em que punia crimes contra animais com penas proporcionais ao tipo de violência praticada. Em 1685, ao divulgar “Os Éditos Sobre a Compaixão pelas Coisas Vivas”, sua intenção era garantir que cães, animais que povoavam as ruas em maior número, não fossem incomodados por pessoas mal-intencionadas.

Para resolver o problema do grande número de animais abandonados, ele construiu muitos canis, chegando a abrigar 48.748 cães só nos subúrbios de Edo, antiga Tóquio. E todos as despesas com manutenção eram custeadas pelo governo do xogum. Como as leis garantiam cuidados aos animais doentes ou feridos, a profissão de médico veterinário se tornou muito popular no Japão. Havia inclusive uma superintendência com funcionários que passavam o dia fazendo rondas em busca de animais abandonados ou maltratados.

Em seu livro, Bodart-Bailey conta que Tokugawa Lemitsu, o pai de Tsunayoshi, o deixou aos cuidados de sua mãe, uma verdureira, e que sob influência dela, que levava uma vida bem simples, o Xogum dos Cachorros cresceu rejeitando os valores da elite japonesa, e reconhecendo que cada ser vivo tem direito a um lugar ao sol.

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Um dos documentos envolvendo cães emitidos pelo Xogum dos Cachorros (Acervo: Arquivo Nacional dos Países Baixos)

Uma obra revisionista da história política do Japão, e que discorre sobre aspectos do desenvolvimento social, intelectual e econômico daquele país, “The Dog Shogun: The Personality and Policies of Tokugawa Tsunayoshi”, narra que o Xogum dos Cachorros criou cargos e nomeou funcionários para que cuidassem de viajantes doentes e procurassem um lar para crianças abandonadas. Mesmo que essas ações custassem caro, ele jamais cogitou parar de oferecer tais serviços.

Amado e odiado, Tsunayoshi tinha inimigos que diziam que sua postura intelectual baseada no budismo e no confucionismo era apenas uma distração, e que na realidade ele não levava a sério nada do que fazia em relação a isso. Porém, a escritora Bodart-Bailey apresenta provas consistentes que refutam essa afirmação. Um exemplo era o seu relacionamento com o filósofo confucionista Ogyû Sorai, o intelectual mais importante do Período Edo.

Segundo a escritora alemã, Sorai não apenas elogiou o trabalho do Xogum dos Cachorros, como também trabalhou com ele na definição e criação de muitas políticas públicas. Embora seu nome esteja sempre envolvido em controvérsias, Tsunayoshi conseguiu evitar fome e miséria em tempos conturbados da história do Japão, como quando houve a erupção mais violenta do Monte Fuji, além de desastres naturais como terremotos, tsunamis e tufões.

Sensível, o Xogum dos Cachorros foi criado como um erudito, não um guerreiro. Durante muitos anos, ele promoveu o neoconfucionismo, enfatizando principalmente a importância da lealdade e da paz. Outro episódio ou lenda associada ao seu nome foi o Ataque dos 47 Ronin, história que deu origem ao bushidō, código de honra samurai.

Além de ser mais espiritualizado que seus irmãos, Tsunayoshi preferia ouvir os conselhos de sua mãe do que os de generais e regentes, indo na contramão de seus antecessores e sucessores. Seu governo chegou ao fim em 19 de fevereiro de 1709, quatro dias antes de completar 63 anos, quando sua esposa, a filha do imperador, o matou envenenado.

Ela o assassinou porque Tsunayoshi, que também mantinha um relacionamento homossexual, queria que o seu amante fosse o seu sucessor. Sua esposa tentou dissuadi-lo em vão e, considerando a situação insustentável, o matou e depois cometeu suicídio. Quando o seu sobrinho Tokugawa Ienobu o substituiu, as leis de proteção aos animais foram revogadas.

Saiba Mais

O governo de Tokugawa Tsunayoshi começou em 1680 e terminou em 1709.

Os samurais criavam muitos cães durante o período do xogunato.

Referência

Bodart-Bailey, Beatrice. The Dog Shogun: The Personality and Policies of Tokugawa Tsunayoshi.  University of Hawaii Press (2006).

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Uma noite no quintal

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Dormi no quintal na noite passada, sentindo a aragem amena e observando as estrelas enquanto gatos saltavam sobre o telhado, tentando alcançá-las. Cães assistiam tudo como estátua de porcelana, daquelas que movem somente os olhos. Quando os felinos cansaram, desistiram das estrelas e miraram a lua anilada, até que dormiram sob o céu desanuviado.

Written by David Arioch

January 16th, 2017 at 1:39 pm

Cortázar: “Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam. O mundo dos insetos…dos mamíferos”

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Cortázar: “Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso” (Foto: Reprodução)

Um dos maiores nomes da literatura latino-americana, o escritor argentino Julio Cortázar, homem que chegou a um momento da vida em que deixou de surpreender-se com a humanidade e o mundo, teve muitas conversas com o seu amigo Ernesto González Bermejo.

Mais tarde, esses registros deram origem ao livro “Conversaciones con Cortázar”, publicado originalmente em 1978, seis anos antes da morte de Cortázar. No Brasil, a obra foi lançada em 2002, por iniciativa da Editora Jorge Zahar, sediada no Rio de Janeiro. Dentre os assuntos jamais abordados com franqueza em outra entrevista está o seu amor pelos animais, registrado nas páginas 46 e 47:

“Sempre fui, desde criança, profundamente indiferente ao reino vegetal: nunca distingui muito bem um eucalipto de uma bananeira; gosto das flores, mas não me ocuparia em ter um jardim. Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam.

O mundo dos insetos…dos mamíferos. Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso, como pude comprovar muitas vezes ao chegar à casa de amigos que têm cães e gatos. Os cães me tratam com indiferença, mas os gatos me abordam logo na chegada.

Se alguém fizer uma pesquisa de meus livros, vai descobrir uma grande percentagem de animais. Um animal se move fora do tempo – repete ao infinito os mesmos movimentos, e para quê? Por quê? Essas são noções humanas que não valem para um inseto. Dizemos que o animal trabalha, mas a noção de trabalho quem insere somos nós.”

Considerado o mestre do conto curto e da prosa poética, o escritor argentino Julio Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges. Cortázar entrou para a história como um autor original que inovou na literatura ao se afastar da forma clássica de escrever.

Fugindo da linearidade, se destacou pela perene preocupação em se aprofundar no perfil psicológico de seus personagens, garantindo a eles autonomia e proporcionando ao leitor uma imersão numa criação espontânea que, identificada como realismo mágico, precede qualquer avaliação crítica.

Maior exemplo disso é o seu livro mais famoso. “Rayuela” ou “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, que convida o espectador a fazer as mais diferentes interpretações da história surrealista de Horacio Oliveira, baseada em um monólogo interior.

A morte da senhora vizinha

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O anúncio foi feito por dois cães mestiços (Pintura: Jonelle Summerfield)

Uma senhora que morava na minha rua morreu. O anúncio foi feito por dois cães mestiços que tentavam invadir a casa. Eles uivaram e deixaram marcas de garras na porta da cozinha. Em poucos minutos, esculpiram um emaranhado de riscos, sincretismo de tristeza e desespero. Sentiram sua ausência antes de testemunhá-la morta, caída na cozinha, vítima de AVC.

Juntos, cavaram um buraco no quintal, na ingênua tentativa de chegar até ela. Não se deixaram abater. Só abandonaram o buraco quando ouviram alguém abrindo o portão. Era o filho. “Mãe…mãe…cheguei!” Lorenzo e Matino se aproximaram do rapaz. Com os focinhos cheios de terra, latiram simultaneamente.

Desafinados pela estafa e pela desarticulação da surpresa, lamentaram como crianças órfãs, que ainda não aprenderam a falar. Lágrimas escorreram, assim como o uivo fragilizado e prolongado que, oscilante, se perdia como os fios de água que desciam incertos pelas bocas de lobo. O filho abriu a porta e os cães se adiantaram até a cozinha. Lamberam as mãos da mulher que já não existia.

O rapaz tapou a boca e gritou, reprimindo o som e engolindo o bafo quente como rajada de fogo. Enxugou as lágrimas na camiseta e chamou o Corpo de Bombeiros. “Não há mais o que ser feito.” Circulando o corpo, Lorenzo e Matino uivaram mais uma vez. Roufenho, o filho berrou: “Perdão, mãe! Perdão!” Sem fazer barulho, os cães se aproximaram e lamberam as mãos do rapaz.

Com a chegada dos funcionários da funerária, embalaram o corpo em um saco de PVC e partiram. O filho foi atrás, em seu carro, acompanhado por Lorenzo e Matino. Com a cabeça atravessando a janela, seguiram uivando para o nada, ou para o tudo, já que a vida celebra a morte tanto quanto a morte celebra a vida.

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Written by David Arioch

October 14th, 2016 at 11:49 pm

Quando Vico planejou a própria morte

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Vico não se movia. Continuou estatelado no chão morno com os olhos fechados, parcialmente cobertos

Na Avenida Lázaro Vieira, o gato continuou nos seguindo, indo de um lado para o outro e roçando o rabo entre as minhas pernas (Foto: David Arioch)

Na Avenida Lázaro Vieira, o siamês continuou nos seguindo, indo de um lado para o outro e roçando o rabo entre as minhas pernas (Foto: David Arioch)

Não me esqueço de um amigo que quando éramos adolescentes planejou a própria morte. Naquele tempo eu o chamava de Vico porque ele era fã do filósofo italiano Giambattista Vico. “A razão é a consciência do ser, não o conhecimento dele. A partir do nosso raciocínio, podemos ter conhecimento da nossa existência, mas não o conhecimento total de quem realmente somos”, dizia meu amigo inquiridor que cada vez mais parecia o filósofo que tanto admirava.

Vico, assim como seu mestre homônimo, levava uma vida frugal. Rendido ao desejo do saber, pouco se interessava em socializar. Era casto por natureza e da vida aspirava o entendimento do que definia como pequenas coisas existenciais. Quando andávamos pelas ruas com a simples motivação de respirar o mundo e sentir a vibração da vida que habita a singeleza, parávamos, sentávamos no meio-fio e fazíamos anotações.

No centro de Paranavaí, algumas pessoas riam e de longe zombavam do nosso comportamento julgado extemporâneo. E nós ríamos também, sem precisar abrir a boca e mostrar os dentes. Afinal, a fantasia é a memória dilatada e para sorvê-la é preciso convidá-la. E a nós estrambótica era a deletéria incompreensão, menos digno de zombaria e mais de comiseração. Escrevíamos sobre pessoas, animais, plantas e objetos. E todas as constatações eram discutidas livremente em um grupo pequeno que fundamos através da internet com o nome de Caballaria.

Principalmente nos finais de tarde, observar a vida ao longo de uma hora era um exercício recompensador, porque era o único período do dia em que nos tornávamos alheios a nós mesmos, nossas fragilidades, falhas e cegueiras. “Olha esses moleques à toa! No meu tempo, não tinha essa vagabundagem juvenil”, comentou um senhor engravatado de meia-idade levando a amante para almoçar em um restaurante na Rua Manoel Ribas.

Observávamos sem reagir às críticas e piadas que ouvíamos com certa frequência. Não faria sentido estar lá para intervir, mas tão somente inferir. Do contrário, tudo deixaria de ter um propósito. A maior lição subentendia a missão de nos tornarmos aquilo que nos furtava a atenção. Num primeiro momento, éramos como voyeurs. E creio que aos olhos que nos miravam, não passávamos disso, embora não nos incomodasse sobretudo. A verdade é que logo não existíamos apenas dentro de nós, mas também fora, não mais reduzidos aos ocos limites da nossa canhestra individualidade.

Em pouco tempo o barulho trivial e a movimentação rotineira de carros, motos, caminhões e pessoas não mais equacionavam nossa concentração. Sentados, ouvíamos tudo se perdendo em meio a um barulho tão difuso e pleonástico que o próprio som cotidiano se tornava irrelevante. Não exigia mais respostas dos nossos sentidos. E ficávamos lá, atentos ao que chamávamos de Orquestra do Mouco, nada mais que o silêncio que soava como o próprio rearranjo da natureza. E assim como as coisas mais simples e implícitas da vida, ele ganhava formas ocasionalmente pouco perceptíveis.

Lugares, pessoas, animais e objetos requeriam de nós um exercício diário de elucubração e compreensão. Eles mudavam diante de nós e nós mudávamos diante deles, provando que um olhar desatento poderia nos entorpecer. Acreditávamos que se tudo que víssemos a cada dia transparecesse comum ou ordinário era porque nos faltava habilidade para ir além. Em síntese, o pouco da percepção corria o risco de se confirmar como um danoso arquétipo da insipiência, isso porque ele nos empurrava para as armadilhas das nossas limitações.

Numa dessas longevas observações, uma vez um filhote de bem-te-vi caiu em cima da minha mochila posicionada na calçada, atrás das minhas costas. Não vi nem ouvi nada, mas senti a repentina aragem que tocou minha nuca como um sopro. Quando me virei, um gato siamês estava prestes a abocanhar o filhote. Consegui afastá-lo com as mãos apesar da sua ruidosa resistência. Percebendo que o passarinho não apresentava ferimento, escalei a árvore e o coloquei novamente no ninho antes de partir.

Depois, caminhando perto da Igreja São Sebastião, notei que o farto felino continuava nos acompanhando e se ocultando entre os arbustos. Só que era barulhento demais para passar despercebido. Perto da Sanepar, ele pendurou na minha mochila, fugindo de um cão grande e mestiço, com características de rottweiler, que tentou atacá-lo. Então o cachorro recuou assim que Vico lhe lançou um grande biscoito canino. Ele sempre carregava petiscos para animais dentro da mochila.

Na Avenida Lázaro Vieira, o siamês continuou nos seguindo, indo de um lado para o outro e roçando o rabo entre as minhas pernas. E o cachorro maior veio logo atrás, remansoso e mantendo os olhos em nossos passos. Mais adiante, outros cães e gatos endossaram a marcha. Contei doze animais. De repente, para minha surpresa, um jovem no quintal da própria casa arremessou com violência uma grande manga verde contra nossos seguidores. Errou o alvo e atingiu Vico na cabeça.

Ele caiu de frente com o corpo estendido sobre o asfalto e os braços abertos. Vico não se movia. Continuou estatelado no chão morno com os olhos fechados, parcialmente cobertos pelos cabelos castanhos, e as mãos e pernas levemente raladas. Os cães começaram a uivar e os gatos se esfregaram na cabeça e no dorso de Vico. Desesperado, o agressor adolescente levou as mãos à cabeça e correu para dentro de casa.

Me aproximei do portão, bati palmas e vi o rapaz escondido logo abaixo da janela. “Você matou meu amigo, cara! Sua brincadeira tirou a vida dele! Como você atira manga na cabeça das pessoas que passam perto da sua casa? Qual é o seu problema?”, questionei energicamente. Dois cães se aproximaram da grade, como se quisessem invadir a casa. O garoto não respondeu, mas ouvi seu choro suprimido e ele balbuciando consigo mesmo que seu pai iria matá-lo.

No chão e cercado por animais, Vico ainda não se mexia. O cão grande e mestiço tentou empurrá-lo em vão com o focinho. Alguns curiosos assistiam de longe, indecisos em se aproximar. Cinco minutos após a queda, ele se levantou e sorriu apesar das escoriações e do galo na cabeça. Dei uma gargalhada e seguimos nossa caminhada.

Atraídos pela ração e pelos petiscos que vazavam por um pequeno furo proposital no fundo da mochila, os animais começaram a se dispersar quando perceberam que já não restava mais alimento. Subindo a Avenida Distrito Federal, notamos que a turma se foi – ficou apenas a dupla. Chacoalhei a minha mochila também vazia, onde eu guardava o caderno em um compartimento menor, e sorri. “Amanhã eles voltam. Eles sempre voltam”, comentou Vico.

Spap está doando cães e gatos

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Moradores da Sociedade Protetora dos Animais de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Moradores da Sociedade Protetora dos Animais de Paranavaí (Foto: David Arioch)

A Sociedade Protetora dos Animais de Paranavaí (Spap) está doando cães e gatos na sua sede, no Jardim São Jorge. O horário de atendimento da Spap é de segunda a sábado das 8h às 17h. Para mais informações, ligue para (44) 3422-9209. Só uma observação: adote um animal somente se tiver interesse em se responsabilizar completamente por ele.

Curiosidade

De acordo com a Spap, Paranavaí tem de 70 a 80 mil animais domésticos, logo é importante pensar bem na importância de se castrar o seu animal.

Written by David Arioch

December 31st, 2015 at 11:49 am

Happy e Chemmy

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Como criança orgulhosa, engoliam o próprio intento e continuavam suas traquinagens

Eu e Chemmy antes dele e Happy serem levados de casa (Foto: Arquivo Familiar)

Eu e Chemmy antes dele e Happy serem levados de casa (Foto: Arquivo Familiar)

Em 1991, meu pai chegou em casa com dois filhotes de poodle. Eu, muito pequeno, olhei atentamente aqueles desconhecidos animaizinhos de pelos grossos e brancos. “Que bichinho de pelúcia é esse? Parece de verdade!”, comentei sorrindo, com a experiência de quem nunca viu um cãozinho daquela raça, enquanto cutucava o dorso do menor que reagiu lambendo minha mão e pulando em minha direção.

Na minha concepção meninil, era como se a neve pudesse ser morna, fragmentada em pequenos flocos que se juntavam formando vidas diminutas. Surpreso e empolgado, deitei no chão e os dois, tão miúdos que os pelos da barriga chegavam a lustrar o piso coberto de cera vermelha, percorreram meu rosto, pescoço e braços com suas linguinhas ásperas, vigorosas e quentes. Me davam a sensação de uma paradoxal lixa exposta ao sol, com a principal diferença de que a deles acariciava e não raleava ou machucava.

Cheios de energia, circulavam pela sala e a reconheciam como um universo de possibilidades. Saltavam de forma tão espontânea e chistosa que pareciam confundir a própria natureza com a dos pôneis. Dóceis, roçavam a lateral do dorso pelo meu corpo e seguiam deslizando até se enfiarem debaixo de cada um dos meus braços. Espiavam minha reação e quando eu ria eles se aproximavam, subiam sobre o meu peito e davam latidos finos, curtos e briosos, acompanhados de olência vaporosa de leite que intensificava o meu deleite.

O toque de seus pelos me lembrava a suavidade e o conforto das almofadas que minhas tias-avós faziam, sempre bem distribuídas pelo sofá onde Happy e Chemmy não conseguiam subir nem descer. Resmungavam tanto à sua maneira, como se seus desejos fossem uma ordem e não um pedido, que subíamos eles com as mãos. Irrequietos, não demoravam a cair de forma desajeitada, às vezes batendo a cabeça num tapete grande acastanhado. Reclamavam brevemente, num alarido que principiava o choro canino.

Como criança orgulhosa, engoliam o próprio intento e continuavam suas traquinagens, chacoalhando os rabinhos e mirando os olhos escuros e vistosos por todas as direções. Happy e Chemmy gostavam de se enfiar dentro de calçados, gavetas, caixas, qualquer abertura que proporcionasse inéditas experiências. Apesar disso, partilhavam de expressão serena em todas as situações, mesmo quando arrastavam objetos desconhecidos que em seu mundo nanico ganhavam novas significações. Tênis viravam travesseiros, camisetas se tornavam cobertores e assim por diante.

Conforme cresciam, suas personalidades iam se modificando. Happy tornava-se mais desajeitado e expansivo, e Chemmy mais amorável e introspectivo. Em casa, as recepções prosseguiam calorosas. Happy ia na frente, boquiaberto e saltitante, com um semblante desirmanado de sorriso fácil. Chemmy se aproximava sem muito alarde. Galhardo, preferia demonstrar sua satisfação através de seus passos aéreos e fátuos que se tornavam vibrantes com a minha chegada.

No verão, íamos com bastante frequência à AABB. Happy e Chemmy percorriam o estacionamento do clube meneando orelhas que se agitavam como se fossem pequenas asas. Disputavam corrida na escadaria e se acalmavam no piso fresco da lanchonete, onde posicionavam o dorso das patas traseiras para baixo. As patas da frente ficavam sobrepostas, em poses indefectíveis que imitavam um x. Os dois roçavam a barriga branca e peluda com tanta sofreguidão que chegavam a fechar os olhos, numa tentativa de amplificar a sensação de regalo despertada pelo chão geladinho.

Prestes a tomar uma ducha a céu aberto antes de entrar na piscina, eu os chamava e eles se aproximavam, circulando em torno do perímetro onde a água escorria mais morna do que fria. Happy e Chemmy me observavam com candura e assim que eu movimentava a cabeça em concordância, eles afundavam as patinhas na poça formada em torno do ralo. Era como se estivessem pescando alguma coisa incompreensível e invisível aos olhos humanos. Naquele momento os dois pareciam somente um, imersos numa brincadeira sem competição ou vencedores.

Quando eu diminuía a intensidade da água que caía do chuveiro, eles ameaçavam colocar o focinho na água – aproximando e afastando a cabeça. Ocasionalmente tiravam a língua para fora, como se quisessem avaliar a temperatura da água. Em poucos minutos de diversão ficavam tão molhados que os pelos da fronte se inclinavam sobre os olhos, com topetes desfeitos. Envolvidas em pequenas cortinas felpudas e nevadas, as íris, que pouco sobressaíam, resplandeciam serenas e amiudadas.

Após um salto na parte mais funda da piscina grande, eles me seguiam até a borda e latiam. Era uma crítica, pois sabiam que lá não poderiam entrar. Entre mergulhos, eu emergia vez ou outra ameaçando puxar suas patas para dentro da piscina. Eles se afastavam e rolavam no piso úmido e aquecido pelo sol que parecia dourar seus pelos. Enfastiados, corriam até o parquinho do clube, afundavam as patas na areia e saltavam sobre o gira-gira com tamanha tarimba que o brinquedo girava sem que precisassem fazer muito esforço.

Ao redor, os curiosos sorriam e gargalhavam assistindo Happy e Chemmy brincando como se fossem crianças. A gangorra também não passava despercebida. Chemmy subia na extremidade mais baixa e corria até a mais alta. Depois era a vez de Happy. E assim, numa harmonia impoluta e fugaz, capaz de inspirar o melhor nos homens, revezavam até cansar. No parque da Praça dos Pioneiros, os dois preferiam o escorregador. Desciam sozinhos, juntos, na nossa frente, apoiados em nossas costas. Ao final da diversão, sempre me intrigava ver como seus olhos rutilavam como bolas lustrosas de bilhar. A intensidade oscilava de acordo com o nível de contentamento.

Quando abríamos as portas do carro, Happy e Chemmy pulavam sobre os bancos traseiros e se posicionavam nas janelas, aguardando que alguém as abrisse. Então colocavam a cabeça para fora e aspiravam o vento. Rapidamente se acalmavam. Inertes, fechavam os olhos, sentindo a aragem massageando e acariciando suas cabeças. Apesar de rasteiro, não tenho dúvida de que o mundo de Happy e Chemmy era um grande universo de sensações, de sensibilidades que jamais são negligenciadas por quem vê na mais trivial das experiências uma fonte de fruição.

Um dia subimos em uma balsa no Porto São José com destino ao Mato Grosso do Sul. Logo que descemos do carro, Happy e Chemmy estranharam ao ver a ruidosa movimentação. Ainda assim se aproximaram de um velho banco de madeira ladeado por alguns coletes salva-vidas e assistiram de longe a pequenez do porto com suas casinhas e velhos prédios comerciais. Quase dez minutos depois, água era tudo que viam enquanto a balsa gestava plácidas ondas no seio do Rio Paraná.

Observei Chemmy aproximando o focinho da água, como se quisesse cheirá-la. Quando me agachei, percebi que alguns peixes serpenteavam perto de nós. Eufórico, Happy latia e saltava como um cabrito. Ele nunca tinha visto um peixe. E aqueles dourados lucilavam como citrinos lapidados e volteavam formando o símbolo do infinito. Assim que os peixes desapareceram, Happy latiu em reprovação. Chemmy simplesmente repousou a cabeça sobre as patas cruzadas, amiudou os olhos e manteve expressão quiescente enlevada por um tépido raio de sol que iluminou uma lata de óleo vazia presa à barra de proteção.

Meses depois, num dia rotineiro, saímos de casa e quando retornamos não encontramos nenhum dos dois. Percorremos o Jardim Progresso, Jardim Paulista e Jardim Maringá. Fizemos panfletos e ampliamos as buscas pela região central e por outros bairros de Paranavaí. Não adiantou. Na manhã seguinte, Happy e Chemmy não lamberam minhas mãos nem saltaram sobre as minhas costas para me acordar. Senti a ausência de seus passos pavonados, dos latidos dissonantes e do perfume floral que traziam logo cedo após incursão pelo canteiro de flores de minha mãe.

Fiquei sabendo tardiamente que um estranho invadiu nosso quintal e levou nossos cães. Bonachões, Happy e Chemmy entraram em um carro desconhecido, crentes de que foram presenteados com mais uma curta viagem ao éden das brisas. “Será que abriram a janela um pouquinho pra eles sentirem o vento?”, perguntei a minha mãe.

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Ni e Jabulana, os guardiões do Cemitério Municipal de Paranavaí

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Casal de cães de pequeno porte já evitou furtos e afastou usuários de drogas

Ni e Jabulana, duas vidas dedicadas ao Cemitério de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Ni e Jabulana, duas vidas dedicadas ao Cemitério de Paranavaí (Foto: David Arioch)

São 8h e dois cães pequenos e mestiços prestam atenção em tudo que ocorre nas imediações do portão do Cemitério Municipal de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Quando entro no local, continuam sentados, mas acompanham meus passos com os olhos.

Assim que começo a conversar com a autônoma Maria Lurdes da Silva, um cão de pelagem escura chamado Ni reconhece que não sou uma ameaça, coça a orelha, se levanta e decide patrulhar a calçada à direita do cemitério. Jabulana, uma cadelinha de pelo claro, abana o rabo enquanto segue o caminho inverso, descendo à esquerda.

Maria Lurdes conta que Ni se tornou o guardião do cemitério há mais de quatro anos, pouco antes de ganhar a companhia de Jabulana, encontrada ainda filhote depois de ser abandonada ao relento no cemitério. O nome faz referência à bola da Copa do Mundo de 2010. “Ela estava sozinha, assustada e gemendo”, diz a autônoma que a adotou.

A rotina dos cães começa bem cedo (Foto: David Arioch)

Cães patrulham o cemitério desde que eram filhotes (Foto: David Arioch)

Pouco tempo depois, Ni e Jabulana retornam e percorrem todo o cemitério. Sobem nos pontos mais altos para terem uma visão privilegiada da movimentação. Também circulam pelo cruzeiro e alas das gavetas. Só interrompem o percurso e sentam próximos a um túmulo quando encontram um grupo de pessoas.

Deixam a impressão de que estão checando se está tudo bem no local. Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães. A vantagem de serem pequenos e aparentemente dóceis é que muitas vezes passam despercebidos por quem entra no cemitério com má intenção.

Espertos, os animais já impediram ações de ladrões de lápides, principalmente furtos de placas de bronze. “Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima”, garante Maria Lurdes, acrescentando que Ni e Jabulana afastaram do cemitério muitos jovens que iam até o local para usarem narcóticos. Embora nunca tenham recebido treinamento, os cães identificam usuários de drogas de longe, mesmo quando não estão consumindo nada.

Donizete Azevedo: "Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também" (Foto: David Arioch

Donizete Azevedo: “Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também” (Foto: David Arioch)

A rotina de Li e Jabulana como guardiões do cemitério começa junto com o expediente dos funcionários. “Se venho trabalhar todos os dias, eles vêm também. Dependendo, chegamos 6h30, 7h. Daí levo eles em casa pra almoçar, retornamos e ficamos aqui até as 18h”, explica o mestre de obras Sebastião Donizete de Azevedo que constrói e reforma jazigos.

Ni também tem o hábito de proteger a caixa de ferramentas enquanto Azevedo trabalha. “Eles tomam conta de tudo no cemitério. Mexeu onde não deve, a confusão está armada”, garante Sebastião Donizete que é facilmente localizado pela dupla através do faro, independente da distância.

Os cães também montam guarda quando Maria Lurdes realiza algum serviço esporádico de lavagem de túmulos. “Eles ficam do lado observando. São nossos protetores. Ainda bem que nunca ninguém conseguiu machucar eles”, comenta a autônoma que mora em frente ao Cemitério Municipal de Paranavaí com o marido Donizete de Azevedo.

Maria Lurdes: "“Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima” (Foto: David Arioch)

Maria Lurdes: “Quando veem alguma coisa errada, latem sem parar e partem pra cima” (Foto: David Arioch)

É provável que a convivência e a proximidade com o local de trabalho do casal façam com que Ni e Jabulana vejam o cemitério como uma extensão da própria casa. “Praticamente foram criados aqui dentro, tanto que um dia tivemos de pular o muro para buscar o Ni. Era noite e ele não chegava. Encontramos o bichinho dormindo em cima de um jazigo. Se deixasse, esperaria a gente até no dia seguinte”, revela Maria Lurdes emocionada.

O episódio lembrou o dia em que o pai do cãozinho morreu e o enterraram no quintal. Desolado, Ni passou dias dormindo sobre o túmulo improvisado. “Pois é, mais vale um cachorro amigo do que um amigo cachorro”, cita Azevedo sorrindo, se recordando do ditado popular e destacando que o animalzinho é o seu maior companheiro.

Em retribuição, Sebastião Donizete e Maria Lurdes levam os animais para passear quase todos os dias e só os alimentam com ração de alta qualidade. “Na realidade, nos preocupamos mais com a alimentação deles do que com a nossa”, garante o mestre de obras às gargalhadas.

Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães (Foto: David Arioch

Qualquer ação suspeita desperta a atenção dos cães (Foto: David Arioch)

Ni e Jabulana convivem em harmonia com outros animais que moram no cemitério, inclusive os muitos gatos alimentados pelo administrador Amilcar Pereira dos Santos. Pela manhã, é fácil encontrar pratinhos com ração ao lado do escritório administrativo situado na entrada. O ambiente os atrai pela tranquilidade.

“Menina”, a gatinha que gostava de velórios

Há alguns anos, uma gatinha rajada chamada Menina se tornou muito popular nos velórios realizados na Capela Mortuária Municipal, ao lado do Cemitério Municipal de Paranavaí. Era raro o animal não comparecer a algum velório. Ficava quase sempre na mesma posição acompanhando a cerimônia.

“As pessoas se assustavam e diziam que ela parecia gente. Dava a impressão de que ela transmitia respeito. Mantinha a postura e não incomodava ninguém. Ficava só observando”, garante a autônoma Maria Lurdes da Silva, com quem Menina morava desde que era filhote.

Saiba Mais

Sebastião Donizete de Azevedo e Maria Lurdes da Silva foram surpreendidos muitas vezes ao saírem do banco e encontrarem Ni em posição de guarda os aguardando para irem embora. Episódio semelhante se repetiu também em lojas e mercados.

Quando cães frequentavam a igreja

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Animais de Paranavaí tinham o hábito de participar das cerimônias religiosas nos anos 1950

Goevert: “É oportuno dizer que havia muitos cachorros em Paranavaí. Muitos eram tão devotos que até no meio da semana iam para a igreja” (Acervo: Ordem do Carmo)

Entre os anos de 1951 e 1957, a primeira igreja de Paranavaí não era frequentada apenas por pessoas, mas também por cães, principalmente em dias de missa. Os animais não podiam ver a porta da igreja aberta que logo entravam e passavam horas no local.

Em 2 setembro de 1951, o frei alemão Ulrico Goevert, logo após tomar posse como pároco de Paranavaí, reuniu alguns pioneiros para cobrir a pequena igreja que não tinha telhado. Terminado o trabalho que levou pouco mais de uma semana, o padre realizou a terceira missa como pároco. Foi a primeira de frei Ulrico na igrejinha.

Naquele dia, o padre se virou em direção aos fiéis para abençoá-los e se deparou com seis cães parados, como se aguardassem a bênção. O mais curioso é que havia mais animais na igreja do que pessoas. Só quatro pessoas estavam lá dentro assistindo a cerimônia religiosa. “Recordei das minhas primeiras missas na Igreja do Carmo, de Bamberg, e também na minha aldeia natal, Darfeld. Aqui era muito diferente, pois poucos participaram das cerimônias no início”, revelou o padre.

E não era apenas em dias de missa que os cães entravam na igreja. A partir de 1951, o episódio se repetiu diariamente. “É oportuno dizer que havia muitos cachorros em Paranavaí. Muitos eram tão devotos que até no meio da semana iam para a igreja”, relatou o pároco Ulrico Goevert em tom bem-humorado.

Antiga Igreja São Sebastião era a segunda casa dos animais (Acervo: Ordem do Carmo)

Os animais se portavam como se estivessem em casa. Os cães não latiam nem rosnavam no interior da igreja, apenas participavam das cerimônias religiosas como os fiéis. Nem se intimidavam com a presença humana, tanto é que o padre decidiu proibir a entrada dos animais.

O que não adiantou muito, pois até 1957 os cães ainda eram encontrados no interior da antiga Igreja São Sebastião, construída em 1952, em substituição a igrejinha. “Às vezes, apareciam até durante a santa missa no altar-mor. Falei ao bispo que eu daria 25 dias de indulgência para cada fiel que desse um pontapé num cachorro dentro da igreja”, frisou o padre. O bispo riu da proposta de Frei Ulrico, mas não concordou em dar as indulgências.

No livro “Histórias e Memórias de Paranavaí”, Frei Ulrico admitiu que deu vários chutes nos cães que invadiam a igreja. E justamente por isso, os animais reagiram. “Os cachorros têm boa memória. Quando me viam na rua, rosnavam e latiam mesmo de longe”, destacou.

À época, um dos cães, revoltado por não poder entrar mais na igreja, mordeu a panturrilha do padre. Apesar de tudo, Frei Ulrico relatava o fato de maneira cômica. “Sempre fui um verdadeiro amigo dos animais, mas não podia permitir a estadia de cães na casa do Senhor”, comentou. De acordo com pioneiros, os animais gostavam de ficar na igreja porque era um local silencioso e de uma atmosfera que inspirava paz.

A chegada de Frei Ulrico Goevert

Logo que chegou a Paranavaí, no dia 1º de setembro de 1951, frei Ulrico Goevert conheceu a primeira igreja de Paranavaí. Era uma casinha de madeira sem telhado e com uma pequena torre. “A casa paroquial também era de madeira, mas tinha cobertura de telhas”, contou Goevert. O padre provincial dos josefinos pediu ao frei alemão para usar o dinheiro arrecadado em uma festa organizada pela comunidade para cobrir e ampliar a igrejinha.

Frei Ulrico conheceu a primeira igreja de Paranavaí em 1951 (Acervo: Ordem do Carmo)

“Ele afirmou que esse seria o meu primeiro trabalho”, enfatizou frei Ulrico que foi enviado a Paranavaí para substituir o padre Carlos Ferrero que comandou as atividades religiosas locais durante alguns meses. Como seria preciso algum tempo para a reforma da igreja, a primeira missa do frei alemão ocorreu num sábado na Casa Paroquial. Lá, improvisaram um altar e um quadro grande de Nossa Senhora das Dores.

O padre estava tão preocupado com as dificuldades que enfrentaria em Paranavaí que admitiu ter suplicado à santa para lhe ajudar. “Naquele tempo, a ‘cidade’ tinha mais ou menos 60 casas e eram todas de madeira. Muitas nunca seriam classificadas como casa, conforme o conceito alemão”, comentou. No início dos anos 1950 ainda havia muitas residências com características de rancho, o que despertou estranheza em frei Ulrico, acostumado ao estilo de vida europeu.

No dia 2 de setembro de 1951, a segunda missa transcorreu em uma casinha que mais parecia uma “barraca de madeira”. No mesmo dia, o padre provincial apresentou frei Ulrico como o novo pároco de Paranavaí e entregou-lhe uma estola e um decreto de nomeação assinado pelo bispo.

O padre fixou residência na Casa Paroquial, onde havia apenas uma mesa, quatro cadeiras, dois armários e duas camas. “Não tinha fogão, e na hora de dormir o padre Carlos se abrigava na casa do vizinho, pois só havia camas para mim e o provincial”, Lembrou.

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O medo da onça!

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Paranavaí surgiu em meio ao habitat das onças

Onças abatidas por caçadores de Graciosa (Acervo: Casa da Cultura)

Nas décadas de 1930 e 1940, era comum os moradores da Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, no Noroeste do Paraná, se depararem com cobras, antas, jaguatiricas, catetos, queixadas, macacos e veados-campeiros por causa da proximidade da área urbana com a mata. Mas nenhum desses animais assustou tanto a população quanto as onças-pintadas e pardas que viviam na região.

“Tinham que tocar elas para continuarem o trajeto”

Paranavaí surgiu em meio ao habitat de uma população de onças. A justificativa está em um fato corriqueiro percebido no início dos anos 1940, quando muitos migrantes que vinham para cá viveram a mesma experiência. Durante a viagem para cá, motoristas de ônibus e caminhões eram obrigados a parar os veículos porque as onças não davam passagem.

“As pessoas [até mesmo os passageiros] tinham que dar um jeito de tocar elas para continuarem o trajeto. A gente via também anta e cascavel na estrada”, relatou o pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho.

Tamanduá-Bandeira caçado nos anos 1950 (Foto: Francisca Schueroff)

Nem todos queriam afastar as onças. Alguns pioneiros que se arriscavam como caçadores, mesmo inexperientes, tentavam conquistar prestígio adentrando a mata para abater os animais. Contava-se muito com a sorte, algo que nem sempre os acompanhava. Quem aprendeu isso na prática foi um caçador amador do Povoado de Guaritá (atual Nova Aliança do Ivaí), antiga Derrubada Grande, vitimado por duas onças nos anos 1940.

“Tiraram carne de algumas partes para colocar em outras”

O rapaz estava caçando em companhia de alguns cães quando viu três onças empoleiradas em uma árvore. Não pensou duas vezes e atirou em uma. Ao ser atingido, o animal caiu e foi atacado pelos cães. “As outras duas onças pularam em cima do homem e começaram a rasgar as suas costas e nádegas. Quando os cachorros chegavam perto, aí que elas mordiam. Nisso, o rapaz já tinha jogado a espingarda e ficou lá deitado, então as onças correram pro mato”, frisou Palhacinho.

Quem socorreu a vítima foi o pioneiro Lourencinho Barbosa que o trouxe de carroça até Paranavaí. “Tiveram de tirar carne de algumas partes para colocar em outras. Ele passou por uma cirurgia em Curitiba e voltou aqui depois de três meses, todo deformado”, lembrou José Ferreira. O pioneiro mineiro Enéias Tirapeli jamais esqueceu o dia em que um homem chegou a Paranavaí com uma onça morta, deitada sobre o cavalo. “Até os animais se espantaram. O bicho tinha doze palmos de comprimento”, assegurou.

 

José Belentani- apelido era Balantam

Cães de caça usados na época da colonização (Foto: Francisca Schueroff)

Na época, vivia aqui José Belentani, conhecido como Balantam, que se tornou um dos maiores caçadores do Paraná depois que abriram a estrada para o Distrito de Piracema. Beletam matava até duas onças por dia. “Não esqueço quando ele chegou aqui com a onça debruçada no arreio do cavalo. Era tão grande que o focinho alcançava o chão”, contou o pioneiro cearense Raimundo Leite, acrescentando que Arlindo Baiano era outro grande caçador local.

“A onça arrancou cinco quilos de carne com uma mordida na nuca”

Se por um lado, alguns conseguiam prestígio e fama matando onças, por outro, a maioria preferia nunca encontrar o animal. Exemplo disso foi o pioneiro paulista Paulo Tereziano de Barros quando certa noite, retornando de viagem, parou em um rancho para descansar.

“As portas estavam fechadas e quando abriram perguntei do que eles estavam com medo. Aí me mostraram uma enorme porca de quem a onça arrancou cinco quilos de carne só com uma mordida na nuca”, enfatizou Tereziano de Barros que sentiu cheiro de onça durante todo o trajeto de volta a Paranavaí. Naquele tempo, o receio de encontrar o animal fazia muita gente pensar duas vezes antes de adentrar a mata ou sair de casa à noite.

Nos anos 1930 e 1940, foram registrados muitos casos de animais de criação mortos pela felina. “Uma vez o irmão do Pedro Palmiano foi ver a porcada dele e a onça estava comendo um porco. Ele ficou com tanta raiva que atravessou o animal com uma foice e um facão”, assinalou Paulo Tereziano. Também houve casos de mulheres que foram atacadas enquanto tomavam banho e lavavam roupas às margens do rio.

De acordo com o pioneiro catarinense Carlos Faber, os mais desatentos eram facilmente surpreendidos pelas onças. “Teve o caso de um rapaz que foi atacado por duas. Sorte dele que os companheiros vinham logo atrás e mataram os bichos”, ressaltou. O pioneiro paulista Valdomiro Carvalho perdeu as contas de quantas vezes ouviu barulho de onças na mata. “Eu usava uma carrocinha com dois cavalos e sempre carregava um encerado. Ouvia os bichos de noite quando eu pousava em algum lugar”, salientou Carvalho.

“Você já viu homem pegar onça assim?”

Nos anos 1940, o pioneiro José Ferreira de Araújo foi visitar o primo em Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo. Em viagem a cavalo, passando por Santo Inácio e Guaraci, no Norte Central Paranaense, Araújo trouxe alguns cães de caça. O pioneiro seguiu pela Estrada Boiadeira, nas imediações de Santa Fé e Arapongas. “Era muito suja a Boiadeira, muito fechada. Tanto que eu tive que enrolar uns panos na cabeça porque tinha muitas abelhas e teias de aranha. Os cachorros até se enrolavam nos cipós. Na volta, a gente foi parar no Distrito de Sumaré”, disse.

A viagem que já era muito difícil ficava pior ainda quando escurecia e Palhacinho parava em algum lugar para dormir. O medo de onça era tão grande que o pioneiro colocava os animais de um lado e deitava “beirando o fogo”. Outro episódio jamais esquecido aconteceu quando ele e o companheiro Ulisses perseguiram uma onça ao final de uma corredeira no Rio Ivaí. “A água estava muito forte e ela nadava rio abaixo. O Ulisses me falou para correr e pular no bote. Liguei o motor e fomos atrás dela. Quando chegamos perto que vimos que era uma onça grande”, explicou.

Ulisses pediu que José Ferreira se aproximasse mais do animal para que pudessem pegá-la viva. “Aí eu falei: pegar nada! Você tá louco? Você já viu homem pegar onça assim?”, relembrou. Os dois continuaram seguindo o animal até que ele saiu do outro lado do Rio Ivaí. “O Ulisses passou a mão na espingarda e atirou, mas errou e ela sumiu”, revelou Palhacinho.

Saiba Mais

Na década de 1950, onças ainda invadiam propriedades rurais de Paranavaí.

Naquele tempo, não havia preocupação quanto à preservação de muitas espécies de animais.

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