David Arioch – Jornalismo Cultural

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Sobre ser contra algumas formas de exploração e desconsiderar o veganismo

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Gary Francione: “Qual é a diferença entre os animais que amamos daqueles que espetamos com o garfo e a faca?”

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“Minha opinião é que não podemos justificar a exploração de animais para qualquer fim”

Francione: “é hora de examinar a justificativa moral do uso de animais” (Acervo: Abolitionist Approach)

Recentemente, o professor de direito da Rutgers School of Law, de Newark, New Jersey, Gary Francione, uma das referências internacionais na luta pelo abolicionismo animal, publicou um artigo intitulado “It’s time to reconsider the meaning of ‘animal welfare’”, em que, usando como exemplo o contexto britânico, ele explica como a rejeição à violência contra animais em atividades consideradas tradicionais é um indicativo de que os tempos estão mudando.

No entendimento de Francione, muitas pessoas precisam apenas dar um passo a mais para entender que vivemos em um tempo em que o chamado “bem-estarismo animal”, semeado no vórtice do antropocentrismo, deixa claro que os interesses dos animais são coadjuvantes mesmo quando os interesses humanos são baseados em pretensas ou falsas necessidades. Afinal, o “bem-estar animal” é permissivo em relação à morte de animais, desde que “não sofram demais”, o que não condiz com o cenário ideal almejado por quem defende, de fato, o respeito aos animais – já que o respeito é uma forma genuína e inviolável de consideração.

Gary Francione deixa claro que o único caminho possível é entender que os animais não humanos também importam moralmente, logo eles não devem ser vistos simplesmente como alimentos e produtos, ainda mais se considerarmos que vivemos uma época em que já sabemos que o consumo de animais é desnecessário. Então ele faz um apelo para que as pessoas estendam sua preocupação com os animais violados em atividades de entretenimento aos animais violados por finalidades de consumo:

No final de 2017, a primeira ministra britânica Theresa May abandonou o compromisso com o manifesto dos conservadores de realizar uma votação livre sobre a revogação da proibição legal do uso de cães na caça à raposa. A decisão de May foi seguida por queixas de parlamentares conservadores que apoiam a revogação da proibição. Embora popular em algumas comunidades rurais, a posição custou-lhes votos durante a eleição geral de 2017. A posição pró-caça é muito impopular.

Pesquisas divulgadas em maio de 2017 mostraram que quase 70% dos eleitores britânicos se opunham à caça à raposa, e metade tinha menos probabilidade de votar em um candidato pró-caça nas eleições gerais. A oposição não se limita à caça à raposa. Uma pesquisa de 2016 indicou que, além dos 84% que se opõem à caça à raposa, um número significativo de pessoas no Reino Unido também se opõe a caça ao cervo (88%), caça e corrida de lebres (91%) e chapeamento de texugo (94%). Por que existe essa oposição a essas atividades?

A resposta é simples: nos preocupamos com os animais. Acreditamos que eles importam moralmente. Rejeitamos a posição que prevaleceu antes do século 19 de que os animais são meramente coisas para as quais não temos obrigações morais ou legais. Em vez disso, a maioria das pessoas adota a posição do bem-estarismo animal que tem dois componentes-chave.

O primeiro componente é que – embora os animais possam ser usados para propósitos humanos – não devemos impor sofrimento ou morte sem necessidade a eles. A segunda é que quando usamos animais, temos a obrigação de tratá-los “humanamente”.

As atividades que a maioria do público britânico rejeita envolvem impor sofrimento e morte aos animais quando não há necessidade nem compulsão; é errado fazer animais sofrerem ou matá-los quando a única justificativa alegada é que os humanos obtêm algum tipo de prazer ou divertimento. O uso de animais para fins frívolos equivale a negar seu valor moral. A maioria das pessoas rejeita isso.

O problema é que, embora a maioria das pessoas considere a imposição de sofrimento e morte desnecessária aos animais, seu comportamento real não é consistente com sua posição moral. Eles participam da imposição de sofrimento e morte aos animais em situações em que não há necessidade, e nos quais o tratamento dos animais é tudo menos “humano”.

Sofrimento e morte desnecessários

A maioria das pessoas come animais e produtos feitos de animais, e ambos envolvem muita crueldade. Somente no Reino Unido, mais de um bilhão de animais são mortos por ano para fins alimentícios.

Muitos animais são criados em condições intensivas que constituem tortura. Mesmo aqueles que são criados em circunstâncias supostamente mais “humanas” sofrem de angústia durante e ao final de suas vidas. Isto não é apenas uma questão concernente à carne. As vacas usadas na produção de leite são repetidamente engravidadas e têm seus bezerros levados logo após o nascimento. E todos os animais, sejam usados para obtenção de carne, laticínios ou ovos, estão sujeitos ao terror e à angústia do matadouro.

Algum desse sofrimento e morte é “necessário”? Existe alguma obrigação envolvida? A resposta é não. Ninguém sustenta que é necessário consumir produtos de origem animal por ser idealmente saudável. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido diz que uma sensata dieta vegana pode ser “muito saudável”, enquanto os profissionais de saúde de todo o mundo estão cada vez mais assumindo a posição de que os produtos de origem animal são prejudiciais à saúde humana.

Não precisamos debater se é mais saudável viver com uma dieta de frutas, vegetais, grãos, nozes e sementes. O ponto é que uma dieta vegana certamente não é menos saudável do que uma dieta de carne em decomposição, secreções de vaca e ovulação de galinha. E esse é o único ponto relevante para a questão de saber se o sofrimento e a morte são necessários ou não.

Além disso, a agricultura animal constitui um desastre ecológico. É responsável por mais gases do efeito estufa do que a queima de combustíveis fósseis para o transporte, e resultando em desmatamento, erosão do solo e poluição da água. O grão que alimenta os animais só nos Estados Unidos poderia alimentar 800 milhões de pessoas. Contra esse cenário, qual é a melhor justificativa que temos para infligir dor e morte aos animais?

A resposta é simples: Achamos que o gosto é bom. Nós sentimos prazer em comê-los. Comer animais e produtos de origem animal é uma tradição, e nós a seguimos há muito tempo.

Mas como essa posição é diferente da justificativa oferecida para o uso de animais a que a maioria de nós se opõe? Como o prazer do paladar é diferente do prazer que algumas pessoas sentem quando participam de esportes sangrentos com animais? Não há diferença. Caça à raposa, chapeamento de texugos, lutas de cães, são todos tradicionais. De fato, quase todas as práticas a que nos opomos – envolvendo animais ou seres humanos – envolvem uma tradição valorizada por alguém. O patriarcado é também uma forma de tradição que existe há muito tempo, mas que nada diz sobre seu status moral.

Muitas pessoas se opõem à caça à raposa porque não podem ver nenhuma distinção moralmente significativa entre o cachorro que eles amam e uma raposa perseguida e assassinada. Mas qual é a diferença entre os animais que amamos daqueles que espetamos com o garfo e a faca? Não há diferença. Cães e gatos que amamos são sencientes – assim como frangos, galinhas, vacas, bois, porcos, peixes e outros animais que exploramos. Todos eles sentem dor e experimentam a angústia; todos eles têm interesse em continuar a viver.

Tratamento “humano”

Se a exploração da maior parte dos animais não pode ser caracterizada como plausivelmente necessária, o que dizer sobre o segundo componente da posição de bem-estar animal – que temos a obrigação de explorar os animais “humanamente”? Isso também é uma fantasia.

Animais são propriedade. Eles são bens móveis. São coisas que são compradas e vendidas. Custa dinheiro para proteger os interesses dos animais, e o status de propriedade dos animais garante que, como regra geral, os padrões de bem-estar animal (sejam mandatados por lei ou adotados pela indústria), sempre serão muito baixos. Nós protegemos os interesses dos animais quando obtemos algum benefício financeiro ao fazer isso. Na maioria das vezes, os padrões de bem-estar estarão ligados ao nível de proteção necessário para explorar os animais de uma maneira economicamente eficiente, de modo que esses padrões (na medida em que são impostos) proíbem nada mais que o sofrimento gratuito.

Os padrões de bem-estar animal na Grã-Bretanha são reivindicados como os mais altos do mundo, mas o tratamento concedido aos animais britânicos ainda é aterrador. Dizer que os animais no Reino Unido são tratados “humanamente” seria falso usando qualquer entendimento plausível dessa palavra.

Em algum nível, todos nós sabemos disso. É por isso que vimos o surgimento de um nicho de mercado na Grã-Bretanha e em outros países que pretende fornecer carne e produtos de origem animal baseados “no mais alto padrão de bem-estar”. Mas, como várias exposições desse nicho de mercado mostraram, a promessa de “tratamento humano” nunca foi colocada em prática. Podemos dar aos animais um pouco mais de espaço; podemos permitir que eles vejam um pouco da luz do sol; podemos permitir que as vacas passem um pouco mais de tempo com seus bezerros antes de serem levados para longe delas. Mas essas mudanças têm pequenos efeitos quando são implementadas.

Organizações de bem-estar animal fazem campanha contra o “abuso” de animais. Mas mesmo que todos esses abusos cessassem e todos os animais fossem tratados em perfeita conformidade com as leis e regulamentos aplicáveis, a situação ainda seria terrível. Os animais ainda seriam mortos desnecessariamente, e mesmo que transformássemos a agricultura animal em agricultura familiar ainda haveria uma enorme quantidade de sofrimento e morte moralmente injustificados.

De fato, os padrões de bem-estar animal não são de forma alguma sobre os animais; eles são sobre nós. Esses padrões fazem nos sentirmos melhor sobre continuarmos explorando animais. Eles foram formulados numa época em que a maioria das pessoas achava que matar e comer animais era necessário para a saúde humana. Ninguém pode razoavelmente acreditar mais nisso.

Portanto, é hora de examinar a justificativa moral do uso de animais. Como alguém que mantém uma posição em favor dos direitos animais em vez de uma posição bem-estarista, minha opinião é que não podemos justificar a exploração de animais para qualquer fim, incluindo pesquisas biomédicas destinadas a encontrar curas para doenças humanas graves, assim como não podemos justificar o uso para o mesmo propósito de humanos que acreditamos que são cognitivamente “inferiores”.

Mas mesmo que você não aceite a posição de direitos [dos animais], a posição que você provavelmente aceita – que é errado infligir sofrimento a morte desnecessários aos animais – torna impossível evitar a conclusão de que o uso de animais para qualquer propósito que seja não envolve verdadeira obrigação ou necessidade, incluindo o uso de animais como alimentos, roupas e entretenimento, e deve ser descartado. Qualquer outra posição relega os animais à categoria de coisas que não têm valor moral. Vemos isso onde a caça à raposa e outros esportes sangrentos estão envolvidos; é hora de vermos isso em outros contextos também.

Referência

Francione, Gary. It’s time to reconsider meaning of “animal welfare”. Transformation. Open Democracy (7 de janeiro de 2018).





Reflexões de um minuto – É justo colocar o paladar acima do direito à vida?

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Written by David Arioch

April 17th, 2018 at 11:12 am

Tom Regan: “Chegará o dia em que bilhões [de pessoas] não comerão mais a carne de animais mortos nem vestirão suas peles”

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“Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou”

Regan: “Qualquer chance de realização dos defensores dos direitos animais depende do crescimento do movimento”

Falecido em 17 de fevereiro de 2017, aos 78 anos, Tom Regan foi um importante filósofo moral da teoria dos direitos animais e professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos. Conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil. Alguns anos depois, publicou um raro artigo em seu site “The Animals Voice”.

Intitulado “Vegan Choice”, no texto, Regan aborda a sua compreensão do veganismo e da importância das pessoas se absterem de consumir produtos de origem animal, e entenderem, de fato, que a luta pelos direitos animais também diz muito sobre quem somos e o que fazemos enquanto seres humanos. Talvez uma das mensagens mais importantes do artigo seja a de que “é pouco provável que consigamos o que queremos alcançar sem entender a natureza dos desafios que enfrentamos.” Ainda assim, “Vegan Choice” é um texto diverso – com passagens picarescas, realista, ponderado e ao mesmo tempo alentador – em que Regan deixa claro que a descrença não deve vencer quem luta por justiça pelos animais, e que é importante seguir em frente até o “último suspiro”:

No convite que me foi feito nesta ocasião, pediram que me ocupasse de abordar a escolha vegana. Agora, pelo menos na minha experiência, diferentes veganos entendem o veganismo de maneira distinta.

Alguns estão inclinados a pensar nisso como uma escolha alimentar: veganos são pessoas que não comem a carne de outros animais, nem os chamados produtos de origem animal, incluindo leite, queijo e ovos. Assim, os veganos não só seguem um estilo de vida que difere das pessoas que clamam por carne animal do McDonald’s e da KFC; eles também diferem dos vegetarianos que, assim como os veganos, se abstêm da “carne”, mas que, ao contrário dos veganos, consomem ovos ou produtos lácteos. Essa é uma maneira de entender o veganismo: é o nome de uma escolha alimentar.

A Vegan Society entende o veganismo de maneira diferente. Aqui está como eles definem o termo:

“A palavra ‘veganismo’ denota uma filosofia e um estilo de vida que procura excluir – na medida do possível e do praticável – todas as formas de exploração e crueldade contra os animais visando alimentos, roupas ou qualquer outra finalidade; e, por extensão, promove o desenvolvimento e o uso de alternativas livres de animais para o benefício de humanos, animais e meio ambiente. Em termos dietéticos, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados parcialmente ou totalmente de animais.”

Observe como essa definição abrange “todas as formas de exploração e crueldade contra animais”, não só para “alimentação”, mas também para “roupas ou qualquer outro propósito”. A definição do veganismo da Vegan Society inclui, em termos dietéticos, “dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais”. A definição inclui muito mais do que a escolha de uma pessoa do que comer. Ou não.

Então, nós nos reunimos aqui para pensar sobre a “escolha vegana”, e a primeira pergunta que temos a fazer é como entender essa escolha: estritamente (como uma escolha estrita a dieta apenas) ou abrangente (como uma escolha que inclui outros aspectos sobre como vivemos – que roupa usamos, por exemplo). Sempre estive inclinado a pensar sobre a ideia de forma estrita:

Veganismo é o nome de uma prática dietética. No entanto, devo admitir que é difícil para mim dizer que a Vegan Society, que pretende falar por veganos de todos os lugares, não entende a ideia para a qual foi nomeada. É por isso que sugiro, e espero que você concorde, que entendamos “escolha vegana” de maneira ampla [como defendido pela Vegan Society], o que significa que a escolha que estamos considerando é se devemos ou não adotar um modo de vida que procure remover nosso apoio, na medida do possível e praticável, de todas as formas de exploração e crueldade contra animais para qualquer propósito.

Entendida dessa maneira, “a escolha vegana” é indistinguível de outra ideia com a qual muitos (na verdade, provavelmente todos vocês) estão familiarizados: a ideia dos direitos animais ou, para ser mais preciso, a ideia de como seria o mundo se os direitos animais fossem reconhecidos e respeitados. Pois se eles fossem reconhecidos e respeitados, não por poucos, mas por todos, as pessoas não comeriam carne animal ou produtos de origem animal, assim como não usariam roupas feitas de peles ou lã. Por causa de como essas duas ideias (escolha vegana e direitos animais) se amalgamam, vou usá-las de forma intercambiável.

Agora, os veganos não são conhecidos por seu senso de humor. Isso é fato. Mesmo assim, ouvi algumas boas piadas veganas ao longo do caminho. Como:

Por que a galinha atravessou a estrada?

Porque ela estava sendo perseguida pelo Coronel Sanders [em referência ao fundador da KFC].

Ou algo como:

Por que o vegano atravessou a estrada?

Porque ele estava protegendo a galinha.

E tem:

Quantos veganos são necessários para trocar uma lâmpada?

Dois, um para trocá-la e outro para checar se há insumos de origem animal.

Mas também lembre-se:

Quantos vivisseccionistas são necessários para trocar uma lâmpada?

Nenhum, eles não querem que você veja o que eles estão fazendo.

Como o comediante estadunidense Bill Cosby observa: “Você já notou os clientes [veganos] em lojas de alimentos saudáveis? Eles são pálidos, magrelos e parecem meio mortos. Em uma steakhouse, você vê pessoas robustas e coradas – que estão morrendo, claro, mas, ei! eles parecem formidáveis!

Aqueles que me conhecem sabem disso: Se Tom Regan tem uma mensagem central e recorrente é essa: qualquer chance de realização dos defensores dos direitos animais depende do crescimento do movimento – e crescendo não um pouco, mas muito. O que quero dizer com muito? Não quero dizer centenas, milhares ou dezenas de milhares de novas pessoas abraçando os direitos animais. Nem quero dizer centenas de milhões. Não, o que quero dizer com muito é o que o astrônomo Carl Sagan era conhecido por dizer: Quero dizer bilhões e bilhões. Só se chegar o dia em que bilhões e bilhões de pessoas acreditarem e praticarem os ideais que definem o veganismo, amplamente concebido – só então teremos uma esperança realista de alcançar o que queremos alcançar.

Agora, pessoas diferentes podem ter reações diferentes à enormidade do desafio que encaramos. Uma vez que esse desafio é traçado em termos de números reais (e muito elevados), alguns defensores dos animais dirão (a grosso modo): “Meu Deus, a situação é desesperadora!” Alguns irão além e dirão: “A situação é tão desalentadora que estou jogando a tolha – desistindo – abandonando a causa.”

Entendo essas reações. Quem entre nós não olhou para o que está acontecendo com os animais (mais de 50 bilhões são abatidos no mundo todo anualmente, e isso sem contar a vida marinha) – quem entre nós não abriu os olhos para as dimensões incalculáveis do trágico destino que os animais devem suportar, e não se sentiu totalmente exaurido, completamente exausto, totalmente mitigado pelos desafios que enfrentamos? Sentir desespero diante das esmagadoras adversidades é uma resposta humana perfeitamente natural. Também não é muito útil. Nós não nos incluímos aos nossos números subtraindo-nos do total. Deixe me repetir isso porque é importante: Não nos incluímos aos nossos números subtraindo-nos do total.

Não, a esperança para os animais exige que permaneçamos no curso, enquanto pudermos – até o nosso último suspiro, na verdade. Isso é o mínimo que podemos fazer. E é uma promessa muito pequena quando comparada com o que os animais têm que suportar até o último suspiro.

Uma razão pela qual os desafios que enfrentamos parecem tão grandes é porque tentamos imaginar aqueles bilhões de pessoas se juntando às nossas fileiras, mas por outro lado permanecendo do mesmo jeito. Chegará o dia em que bilhões [de pessoas] não comerão mais a carne de animais mortos nem vestirão suas peles; não irão aos circos nem visitarão os parques marinhos; não comprarão cosméticos que foram testados em animais, e não doarão dinheiro para instituições de caridade que apoiam pesquisas com animais; eles não…bem, você pode adicionar à lista do que eles eliminam de suas vidas. Mas além dessas mudanças, muitos de nós parecem assumir que esses bilhões de pessoas são os mesmos que compõem a maioria da população atual. A única diferença é que eles têm que vir para o nosso lado quando se trata do veganismo ou dos direitos animais.

Quero sugerir que esse modo de pensar é simplista demais. Não estamos tentando apenas mudar alguns velhos hábitos sobre o que as pessoas comem ou vestem. Bilhões de pessoas abraçarão os direitos animais apenas se bilhões de pessoas mudarem de forma mais profunda, mais fundamental, e de forma mais revolucionária. O que quero dizer não é nada menos do que isso: Eles devem abraçá-lo e, em suas vidas, devem expressar uma nova compreensão do que significa ser humano. Como seria esse novo entendimento? Aqui (por meio de um esboço grosseiro) está a minha resposta:

Salve não apenas as baleias e o planeta, mas nós mesmos.

Como seria esse novo entendimento? Isso é o que tenho tentado explicar; é isso que a Geração Ti representa. Os desafios que enfrentamos, então, não podem ser reduzidos a convencer bilhões de pessoas a escolherem o veganismo; isso inclui a transformação de quem são as pessoas de hoje em quem elas podem ser amanhã.  Não algumas delas. Muitas. Bilhões e bilhões.

A situação é desalentadora? Devemos abandonar a causa? Acho que não. Pelo menos não até que tenhamos feito sérios esforços para trazer o tipo de mudança revolucionária que tenho descrito. É pouco provável que consigamos o que queremos alcançar sem entender a natureza dos desafios que enfrentamos. Nunca vamos entender a natureza dos desafios que enfrentamos se pensarmos exclusivamente em ter bilhões e bilhões de pessoas abraçando o veganismo. Porque isso é apenas uma parte, não a totalidade da mudança que buscamos. Quanto às perspectivas do nosso sucesso? Encerro citando brevemente as palavras da imortal Margaret Mead: “Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou.”

Referência

Regan, Tom. Vegan Choice. The Animals Voice.

 





Reflexões de um minuto – O mundo é tão grande quanto a compaixão humana poderia ser

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Charlotte Despard, a ativista que não achava certo lutar pelos direitos das mulheres e ignorar os direitos dos animais

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Charlotte Despard discursando para uma multidão em Londres (Foto: Reprodução)

Nascida em 14 de junho de 1844, a britânica Charlotte Despard foi uma ativista política, sufragista, pacifista e defensora dos direitos dos animais. Ela acreditava que não era certo defender os direitos das mulheres e dos trabalhadores e ao mesmo tempo ignorar o fato de que animais eram explorados e mortos em grandes quantidades para atender vícios alimentares humanos. Além disso, fazia ferrenha oposição à vivissecção. O que a levou para o vegetarianismo foi o trabalho do poeta romântico britânico Percy Shelley, defensor do vegetarianismo ético e autor dos ensaios “A Vindication of Natural Diet” e “On The Vegetable System of Diet”. Mais tarde, o posicionamento de Charlotte a favor da não violência não apenas contra seres humanos, mas também contra animais, ganhou força após um encontro com Mohandas Gandhi em 1909.

A ativista britânica tinha tudo para levar uma vida tranquila sem se preocupar com os interesses dos menos desafortunados, fossem eles animais humanos ou não; isto porque ela era de uma família de classe alta, e em 1870 casou-se com um homem igualmente abastado – Maximilian Carden Despard, um empresário anglo-irlandês que tinha negócios no Oriente. Porém, viver imersa nessa realidade, ignorando o que acontecia com quem não tinham tais privilégios, não era o seu ideal de vida.

Após a morte do marido em 1890, ela se engajou cada vez mais em causas sociais e políticas. Seus olhos se abriram completamente para a realidade da pobreza e do sofrimento dos seres humanos e dos animais. Em 1892, ela foi eleita para compor o Kingston Poor Law Board, em Londres, supervisionando as condições de vida dos trabalhadores assalariados. Na região Sul de Londres, ela ficou chocada com a realidade das mulheres. Foi isso que a fez enxergar com maior rigor a importância do sufrágio feminino, inclusive se tornando uma das ativistas mais importantes do movimento – sendo presa duas vezes no distrito londrino de Holloway.

Charlotte se tornou sufragista em 1900, um ano depois que se converteu à teosofia. Em 1907, fundou a Women’s Freedom League, uma organização que lutava pelos direitos das mulheres e dos animais, com ações ilegais não violentas. O seu engajamento era tão grande que ela passou os primeiros cinco meses após a fundação da liga percorrendo a Inglaterra em uma caravana, encontrando membros, buscando filiações e dando palestras aos apoiadores. À frente dessa liga, a ativista britânica montou oficinas para a produção de roupas para a população carente e abriu restaurantes vegetarianos em Londres e em algumas províncias. As roupas confeccionadas pela WFL eram projetadas por Charlotte.

Ela também criou bancos de leite materno, clínicas de maternidade e um albergue sem qualquer custo onde as crianças poderiam se hospedar por até três meses enquanto suas mães se recuperavam de um parto ou alguma doença. A Women’s Freedom League, liderada por Charlotte, promovia a alimentação vegetariana e administrava um hospital com 50 leitos que ela construiu com dinheiro do seu próprio bolso. Além disso, fundou o Despard Arms em Hampstead Road, em Londres, um local onde eram servidas refeições e bebidas não alcoólicas.

A WLF possuía um jornal que visava atrair apoio para a causa sufragista. Intitulado “The Vote”, também ajudava a divulgar o vegetarianismo. Um exemplo é uma foto de uma edição de 1910 em que a senhora Agnes Leonard, secretária honorária da filial de Sheffield, aparece preparando um jantar vegetariano – sendo apontada como uma “perita em culinária vegetariana”. Esse registro é um exemplo de como Charlotte Despard promovia o vegetarianismo na Liga dos Direitos das Mulheres. Em janeiro de 1911, ela financiou a palestra “A Ética da Reforma Alimentar”, de Dan Hamilton, um vegetariano bastante respeitado à época.

“Perto do final de 1912, a filial de Edimburgo informou que uma demonstração extremamente interessante de culinária vegetariana foi dada por Miss MacDonald (de Glasgow), assistida por membros da Sociedade Vegetariana de Edimburgo”, registrou Leah Leneman, na página 272 da obra “The awakened instinct: vegetarianism and the women’s suffrage movement in Britain”, publicada pela Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, em 1997. A senhora MacDonald era membro da organização fundada por Charlotte Despard.

Como pacifista, a ativista britânica criou o grupo Women’s Peace Crusade, ou A Cruzada das Mulheres pela Paz, e fez campanha contra a Primeira Guerra Mundial e a Guerra dos Bôeres. O que mais a incomodava era o recrutamento de jovens para a guerra, porque sabia que muitos deles eram vulneráveis e miseráveis sem qualquer entendimento do que os aguardava. Charlotte entendia que a guerra trazia ainda mais desgraças para os mais pobres, porque aqueles que morriam na guerra sempre deixavam algum familiar desolado, desamparado ou à mercê da própria sorte – ou azar. Nesse período, ela fez franca oposição ao seu irmão John French, que era chefe do Estado-Maior do Exército Britânico e comandante da Força Expedicionária Britânica.

Charlotte Despard também era muito ativa no Partido Trabalhista inglês e foi selecionada como candidata por Battersea North em 1918, recebendo um terço dos votos. Uma das marcas inconfundíveis da ativista britânica era uma mantilha de renda preta que ela usava o tempo todo. Sempre se vestia com simplicidade, usando somente roupas pretas e sandálias. Ao longo de décadas, organizou e participou de muitas manifestações e protestos – falando inclusive para multidões de homens, não apenas de mulheres. Ela era abertamente uma anti-vivisseccionista – lutava pelo banimento das experiências com animais em laboratórios, considerando esse tipo de prática um ato de crueldade contra seres vulneráveis. Em 1931, ela se tornou vice-presidente da Sociedade Vegetariana de Londres, um ano depois que foi convidada a ingressar no Conselho Executivo do Congresso Mundial da Fé.

Em 1921, Charlotte se mudou para a Irlanda, mas continuou viajando por Londres e por toda a Europa fazendo ativismo. Na década de 1930, com mais de 90 anos, ela ainda participava de manifestações antifascistas. Charlotte Despard, a ativista que defendia os direitos das mulheres, dos trabalhadores e dos animais – na realidade, dos desafortunados em geral, independente de tipo e espécie, faleceu em 10 de novembro de 1939 aos 95 anos em sua casa perto de Belfast, na Irlanda do Norte – depois de mais de 50 anos de ativismo.

Referências

Leneman, Leah. The awakened instinct: vegetarianism and the women’s suffrage movement in Britain. Página 272. Universidade de Edimburgo, Reino Unido (1997).

Linklater, Andro. For Mrs Despard. An Unhusbanded Life. Londres (1980).

Charlotte Despard. Women Working for Peace. Peace Pleadge Union Project. The Men Who Said No.

Charlotte Despard. Battersea Arts Centre. Digital Archive.

Charlotte Despard. The Open University. Making Britain.





Reflexões de um minuto – Imagine passar a sua vida confinado como um animal criado para consumo

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Alex Proud: “Todos nós precisamos parar de comer carne”

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 “Se tornar vegetariano é uma das melhores coisas que você pode fazer pela Terra”

Proud: “Tudo isso me forçou a dar uma longa olhada em minha própria dieta de carne” (Foto: Reprodução)

Até então inegavelmente viciado em carne, o colunista britânico Alex Proud publicou no The Telegraph um artigo intitulado “We all need to stop eating meat now, and this is why” ou “Todos nós precisamos parar de comer carne, e este é o porquê“, explicando como foi a sua tomada de decisão em relação à contrariedade à exploração animal e o entendimento de que não há carne sem dor. Além disso, ele enfatiza o seu entendimento de que o consumo de animais também traz consequências negativas para o mundo. Por todos esses fatores, decidiu se empenhar em começar uma transição para o vegetarianismo:

Um pequeno salto, eu sei, mas tenha paciência comigo. Na semana passada, foi anunciado que o bilionário da tecnologia russa Yuri Milner estava investindo US$ 100 milhões para procurar vida extraterrestre e o que o professor Hawking estaria a bordo. No entanto, o professor Hawking há tempos tem grandes preocupações sobre a busca por vida inteligente. A essência de seu pensamento é que os alienígenas que são muito mais avançados do que nós poderiam nos ver como “não mais valiosos do que vemos bactérias.”

Pelo pouco que vale a pena, discordo um pouco do professor Hawking. Com um toque de orgulho antropocêntrico ou arrogância, imagino que nossos novos senhores galácticos possam nos ver como vemos os animais de fazenda. Porcos, se estivessem sendo generosos, e galinhas caso não estivessem.

O problema é que este pensamento não se dissipa, até porque a exobiologia está em alta no momento. Em nosso próprio sistema solar, descobrimos oceanos sob o gelo da Europa e do Encélado (e possivelmente em Plutão e Ceres), onde a vida poderia existir. Existe agora uma boa chance de que a vida alienígena seja encontrada na próxima década ou mais; hoje em dia, os bookies [que registram apostas] só te darão chances de 100 por 1 de um ET ser descoberto em qualquer ano, enquanto há dez anos você teria uma chance em mil, ou mais.

Para ser justo, os habitantes desses mundos próximos provavelmente são suspeitosos e deveriam ter mais a temer de nós do que nós deles. Mas são os bilhões de outros mundos potencialmente habitáveis na Via Láctea com os quais estou preocupado. Mundos como o atual planeta do mês Kepler-452b (também conhecido como Earth 2.0), que tem uma vantagem de 1,5 bilhão de anos sobre nós. Quero dizer, você pode imaginar o que poderíamos fazer em 1,5 bilhão de anos? Provavelmente, teríamos um aplicativo como o Uber para viagens mais rápidas que a velocidade da luz.

De qualquer forma, esse constante bombardeio de questões complicadas sobre a vida alienígena significa que é difícil ter a ideia de um alienígena verde cintilante saindo de uma espaçonave para me avaliar (como um açougueiro faria com um boi). E o corolário natural disso é: Cristo, tratamos mal os animais de fazenda. Então, talvez, quando nossos senhores galácticos se agitarem, eles olharão para a maneira como tratamos os porcos e pensarão, pff, selvagens, antes de nos jogarem em um forno para fazer um delicioso prato de humano assado.

Tudo isso me forçou a dar uma longa olhada em minha própria dieta de carne – e, lentamente, estou chegando à ideia de que as enormes pilhas de salsichas maravilhosamente douradas, os bifes perfeitamente grelhados, o delicioso bacon e os mistos grelhados que compreendem pelo menos 50% da minha dieta, podem ser um pequeno equívoco. Esta não foi uma jornada fácil pra mim. Sou meio alemão. Eu costumava jogar rugby. Tenho 1,88. Sou projetado para funcionar com combustível pesado. E ainda assim, não consigo me livrar desse pensamento. É como se eu tivesse um pequeno porco alado no meu ombro sussurrando: “Se você comer uma variedade de vegetais, você nunca precisará transformar outro dos meus amigos em uma salsicha.”

Então, ao longo do último ano, tenho olhado para a carne. Lido sobre a carne. Assistido documentários sobre carne e espreitado fóruns online sobre carne. Eu não posso dizer que isso fez com que eu me sentisse melhor. Continuo tropeçando em livros que vão desde “A Questão da Consciência Animal”, de Donald Griffin, de 1976; até o “Além das Palavras: O que os Animais Pensam e Sentem”, de Carl Safina, de 2015. Parece muito claro para mim que os animais sentem como nós e sofrem como nós. Os corvos usam ferramentas, as baleias têm cultura, os porcos podem aprender e os bovinos interagem socialmente. Além disso, a diferença entre nós e os animais é de grau, não de tipo. O cristianismo nos ensina que estamos separados dos animais, mas hoje em dia apenas o fanático mais iludido pode acreditar que somos outra coisa senão macacos muito espertos.

Uma vez que você leve isso em consideração, as fazendas industriais tornam-se praticamente injustificáveis. É repugnante para os animais – da mutilação e do apinhamento à crueldade e ao crescimento artificial acelerado. E é repugnante para o meio ambiente:  10 mil lagoas de lama não podem estar erradas. É até repugnante para a saúde humana porque a vida fica muito mais interessante quando os antibióticos param de funcionar. De fato, a única maneira de comer carne cultivada em fazendas industriais é não pensar nisso – ou não se importar.

Então, você pergunta, a agricultura orgânica e de alto nível de bem-estar poderia ser o nosso cartão para sair da cadeia? Bom, é melhor, mais ou menos. Mas mesmo assim, você ainda está pensando, sentindo seres em algum tipo de cativeiro que serão transformados em nuggets ou hambúrgueres. Além disso, a comida orgânica é cara, e embora eu possa pagar, detesto defender soluções que servem apenas para quem tem um bom orçamento.

No final, porém, animais criados ao ar livre não são uma solução real. Por algumas métricas ambientais o acesso livre é realmente pior do que as fazendas industriais. E enquanto eu recebo o argumento de que muitas áreas montanhosas do Reino Unido são adequadas para as pastagens, então eles podem produzir carne ou não, sei que se fizéssemos isso com todos os animais, não haveria terra suficiente no mundo.

Acrescente isso ao fato de que metade dos animais selvagens no mundo desapareceram nos últimos 40 anos e você começa a entender por que os rebanhos de bovinos orgânicos simplesmente não funcionam para todos. O que funciona para todos, porém, é não comer carne. É matemática básica. As estimativas variam, mas são necessários cerca de sete quilos de grãos para fazer um quilo de bife. Porcos demandam 4 por 1, e as galinhas 2 por 1. Depois, há o vasto consumo de água (15.415 litros para um quilo de bife, parte dos quais são destinados ao cultivo da ração); e as emissões de CO2 (27 quilos por quilo de bife). Se, no entanto, os humanos comessem o quilo de grãos eles mesmos, seria basicamente isso. Um quilo de lentilhas gera somente 0,9 quilo de CO2. Se tornar vegetariano é uma das melhores coisas que você pode fazer pela Terra.

De qualquer forma, sei de tudo isso. Você provavelmente sabe disso tudo. A pequena voz ainda não vai embora (embora eu permita que a pequena voz possa realmente ser minha minha esposa vegetariana sussurrando: “carne é assassinato” enquanto eu durmo). Mas, mesmo assim, no fundo, sei que ela está certa. O buraco é mais embaixo. Também amo Bife Wellington e foie gras e vitela. Sou um macho alfa barulhento e explosivo. Descrevi o vegetarianismo como um distúrbio alimentar – e pior. Passar pelos próximos 40 anos consumindo feijão-mungo parece-me fora de questão.

Então, o que vou fazer? Já fiz a coisa fácil de classe média. Compro carne orgânica de vacas chamada Rachel, que passou seu tempo em fazendas à direita da Cotswolds [uma cadeia de pequenas colinas onde são criados “animais soltos”]. A próxima coisa é um pouco mais difícil. Dirijo três restaurantes, então [por enquanto] recorro à carne orgânica de baixo impacto. A partir de agora vou oferecer várias opções vegetarianas – e promovê-las e garantir que sejam alternativas genuínas e excelentes, em vez de hesitantes e miseráveis opções na parte inferior do cardápio.

Também vou comer bem menos carne. O britânico médio come 80 quilos de carne por ano. Suspeito que no momento eu esteja mais parecido com o estadunidense médio (125 quilos), mas vou tentar ser como o tailandês médio (28 quilos). Mas, no final das contas, acho que até isso é meio que desculpa. A conclusão inescapável é que tenho que me tornar mais parecido com o indiano médio – isto é, um vegetariano. Francamente, a perspectiva me enche de pavor. Ela coloca borboletas no meu estômago cheio de hambúrguer e provoca gotas de suor com um gosto de molho de carne que parece curiosamente escorrer pela minha testa. Isso me faz odiar o professor Hawking.

Ainda assim, se eu conseguir, vou me sentir muito melhor comigo mesmo. O planeta vai se sentir muito melhor comigo. Os animais vão se sentir melhor comigo. E se os alienígenas avançados do Kepler 452b chegarem à nossa porta, poderei dizer: “Olha, vi o erro dos meus caminhos – e desisti 15 anos atrás. E não, eu também não comi nenhum dos deliciosos palitos de peixe da Europa.”

O artigo foi publicado originalmente no The Telegraph em 27 de junho de 2015. Proud é formado em política pela Universidade de Nova York, atua como colunista do jornal britânico The Telegraph e é fundador das galerias de arte e fotografia Proud. 

 





Reflexões de um minuto – Vidas são importantes, até mesmo a do menor animal

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Mesa-redonda discute amanhã a liberação da caça no Brasil

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A onça-pintada está entre os animais mais caçados no Brasil (Foto: Reprodução)

Amanhã, quinta-feira, às 18h30, na Sala dos Estudantes da Faculdade de Direito da USP (entrada pela Rua Riachuelo, altura do nº 194, Sé), vai ocorrer uma discussão sobre o PL 6.268/2016, proposto pelo deputado Valdir Colatto (PMDB-SC), que visa liberar a caça esportiva, profissional e comercial de animais silvestres em todo o território nacional – prática extinta há 35 anos. Organizado pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, o evento já tem confirmadas as participações do coordenador de operações de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Roberto Cabral Borges; da coordenadora do Núcleo Técnico de Gestão Ambiental da Prefeitura de São Paulo, Angela Maria Branco; da promotora de justiça do Grupo Especial de Combate aos Crimes Ambientais e de Parcelamento Irregular do Solo Urbano do Ministério Público de São Paulo (GECAP-MPSP), Vania Tuglio; e do coordenador substituto do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Rogério Cunha de Paula.

De acordo com a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, a participação popular nessa discussão sobre o PL da caça é muito importante porque os resultados serão enviados aos parlamentares. O parecer do deputado federal Nilto Tatto, contrário ao projeto de lei ainda será votado na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. O projeto ainda vai tramitar por outras duas comissões antes de ser votado no plenário da Câmara dos Deputados. Se aprovado, segue para o Senado, onde também será discutido.

Em 2016, o deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC), da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), também conhecida como bancada ruralista, apresentou o projeto de lei nº 6.268, que dispõe sobre a política nacional de fauna. Em síntese, o projeto, que já foi rejeitado pelo relator e presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS), deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), ainda busca relaxamento das leis ambientais brasileiras.

Sem dúvida, a tentativa de flexibilização representa um claro retrocesso se considerarmos que prevê até mesmo a alteração no Código de Caça brasileiro, editado em 1967, proibindo a caça em todo o território nacional por entender que a realidade brasileira não perpassa pela necessidade de caça de animais silvestres. Porém, Colatto alega que hoje em dia a proximidade de animais silvestres com o meio rural coloca em risco pessoas, propriedades e rebanhos, o que na sua perspectiva justifica a liberação da caça. Talvez seja válido perguntar, como em 2018 os animais silvestres podem ser vistos como uma ameaça que já não representavam em 1967? Principalmente se considerarmos que da década de 1960 até a atualidade houve uma redução, não um aumento da fauna brasileira.

Em síntese, o PL defende que a caça de animais silvestres pode ser colocada em prática com diversas finalidades, como alimentação, entretenimento, defesa e fins comercias. Também visa autorizar importação e exportação de animais, e permite que zoológicos possam comercializá-los. Ademais, o projeto defende a anulação do agravamento de até o triplo da pena de detenção de seis meses a um ano para quem matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar animais sem licença, o que impacta diretamente na lei 9.605/98, que versa sobre crimes ambientais.

Indicações de leitura:

Leia o PL 6.268/2016:

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1497510&filename=PL+6268/2016

Releia “Projeto de lei que autoriza a caça no Brasil pode facilitar o tráfico de fauna”, publicado pelo Fauna News em 14 de fevereiro de 2017:

http://www.faunanews.com.br/artigo/2017/02/projeto-de-lei-que-autoriza-a-caca-no-brasil-pode-facilitar-o-trafico-de-fauna-14/

Diga não ao PL:

https://www.change.org/p/assine-contra-o-projeto-de-lei-que-autoriza-a-ca%C3%A7a-de-animais-silvestres-do-brasil?source_location=petition_nav