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“É Nóis Cinco”: entreter para informar
Grupo de humor usa bonecos gigantes para oferecer entretenimento e ao mesmo tempo informação

Bonecos criados pelo grupo têm quatro metros de altura (Foto: Amauri Martineli)
Além de trabalhar com shows de humor, palestras, oficinas e publicidade, a trupe “É Nóis Cinco” está apostando também na criação e no uso de bonecos gigantes como meio de oferecer entretenimento e ao mesmo conscientização sobre assuntos importantes.
Em Paranavaí, é difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar do grupo “É Nóis Cinco”, conhecido por seus espetáculos paradoxais que misturam o humor das ruas, baseado na realidade, a elementos surreais, nascidos do improviso.
Desta vez, a trupe formada por Aleks Alves, Moacir Barini, Antônio Soares, Márcio Cândido e Amarildo Travain está investindo na criação de fantoches grandes. “Já fizemos cinco. Foi um trabalho que levou dois meses para ser concluído”, revela o artista Márcio Cândido. Os bonecos gigantes chamam a atenção não apenas pelos quatro metros de altura, mas também, e principalmente, pela riqueza de detalhes; é impossível não identificar as feições dos membros da trupe em cada um daqueles personagens caricatos.

"É Nóis Cinco" mistura humor das ruas a elementos surreais (Foto: Arquivo do grupo)
Embora tenham usado basicamente isopor, madeira e ferragens na composição, o que se vê são figuras tão realistas e próximas da arte popular que a simpatia com os bonecos surge à primeira vista. Além disso, os fantoches da trupe também remetem aos clássicos bonecões do folclórico carnaval de Olinda, em Pernambuco.
“As ferragens foram trabalhadas de modo a termos todo o conforto necessário na hora de manipular os bonecos”, relata o artista Aleks Alves. Os fantoches gigantes podem ser interpretados como um grande apelo visual do grupo para assuntos sérios. “Criamos eles enormes pra realmente chamar atenção. Assim podemos usá-los para trabalhar com campanhas de conscientização, tratar de assuntos importantes de forma descontraída”, revela Márcio Cândido, referindo-se a especialidade do grupo.
A trupe acrescenta que os bonecos estarão disponíveis para trabalhos com publicidade. “Eles podem ser desmontados, o que facilita o transporte”, frisa o artista Moacir Barini. O grupo ainda agradece o apoio da Fundação Cultural pelo espaço cedido para a criação dos bonecos.
Trupe se apresenta para 15 mil estudantes
Até o final do mês de novembro, o grupo de humor “É Nóis Cinco” vai encerrar um ciclo de 42 apresentações que misturam humor, teatro e conta com a participação dos bonecos gigantes. São espetáculos destinados a estudantes da rede municipal de ensino. “É um trabalho de conscientização ambiental em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, inclusive até o cenário do espetáculo é feito de materiais recicláveis”, relata o artista Márcio Cândido.
A trupe tem muita experiência em trabalhos envolvendo temas como DST/Aids, alcoolismo, ergonomia, atendimento ao cliente, motivação, direção defensiva, qualidade de vida e relações familiares. O grupo também oferece oficinas de materiais recicláveis, pintura em azulejo e decoração.
“É Nóis Cinco” surgiu há três anos
O Grupo humorístico “É Nóis Cinco” surgiu em Paranavaí há três anos, e desde então já levou ao público cinco peças autorais: “É Nóis de Férias”, “É Nóis trabalhando”, “É Nóis de Férias, Trabalhando e Estudando”, “Nóis é Show” e “É Nóis Cinco Ponto Com”. Agora o grupo se prepara para estrear o espetáculo “Talentos” em que vão interpretar personagens famosos. “Vamos nos apresentar nos dias 20 e 21 de novembro no Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa. Vai ser muito legal”, garante o artista Moacir Barini.
A marca registrada do grupo é a capacidade em transformar o improviso em arte. As apresentações da trupe são tão imprevisíveis que os próprios artistas surpreendem uns aos outros. Segundo o “É Nóis Cinco”, errar também faz parte do show porque aproxima mais o público do espetáculo. Em suma, a trupe é composta por artistas que trabalham por prazer e que valorizam a liberdade criativa de cada um.
Saiba mais
Os integrantes do grupo de humor “É Nóis Cinco” já excursionaram por muitas cidades do Paraná, além de Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.
Serviço
Interessados podem entrar em contato com o grupo por meio da Educa Assessoria. O telefone é (44) 3045-4510. Para mais informações, basta acessar o site http://www.enois5.com
Esculpindo vidas
Jesus Soares descobriu a identidade artística na figura dos marginalizados

Em 1986, quem via o garotinho Jesus Soares esculpindo faces desconhecidas em barrancos, nem imaginava que ele se tornaria um dos grandes nomes das artes plásticas em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, com trabalhos expostos em diversos países da América Latina e Europa.
A relação de Jesus Soares com a arte começou por acaso, aos 11 anos, quando ele e os irmãos Paulo, Gílson e Adauto Soares se divertiam criando os próprios brinquedos e dando novas formas a alguns espaços. O que para a maioria era apenas um cenário ordinário e natural, na perspectiva de Jesus e seus irmãos era um universo de possibilidades de transformação.
“Uma vez vimos a capa de um livro e aquilo nos influenciou a criar algumas faces em barrancos”, conta o artista plástico Jesus Soares. O feito dos quatro irmãos pode ser interpretado como uma peculiar, mas ocasional concepção artística do Monte Rushmore, monumento rochoso situado nos EUA.
À época, ainda crianças, Jesus e os irmãos, que cultivavam uma profunda relação de amizade entre eles, produziam arte sem perceber, perdidos em uma realidade lúdica. “A gente fazia apenas porque gostava, era uma forma de divertimento”, afirma e acrescenta que encarou o próprio trabalho como arte somente a partir de 1998.
Naquele ano a artista Tânia Volpato foi até a residência do artista e se deparou com um presépio. “Quando disse a ela que fui eu quem fiz, a Tânia ficou surpresa, e eu mais ainda porque já tinha feito um monte de peças, mas nunca pensei que fossem arte”, admite Soares, que se destaca pelo talento em criar esculturas com as mais diversas matérias-primas, como arame, madeira, resina, gesso, sisal e fibra de média densidade (MDF).
Embora já tenha manipulado muitos materiais, Jesus é mais conhecido pelas esculturas em arame, sua marca registrada. “Nessa linha de trabalho, já atendi a Fundação Cultural, Rotary, Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí [Fafipa], Universidade Paranaense [Unipar], Secretaria Municipal de Esportes e Lazer e Associação Comercial e Empresarial de Paranavaí [Aciap], além de outros”, acrescenta.
Quem conhece o trabalho de Jesus Soares, logo identifica características do realismo surgido no século XIX. É algo que se deve não ao fato do artista seguir tal tendência, mas sim ter descoberto a identidade artística na figura dos marginalizados. Soares tem o dom de eternizar pessoas com quem se depara no cotidiano, aquelas que parecem inexistir socialmente.

Algumas das obras do artista estão em exposição no corredor do Teatro Municipal (Foto: David Arioch)
“Pra mim a escolha de um personagem a ser transformado em escultura depende muito do contexto. Além disso, quando me pedem algum trabalho sob encomenda, já me foco no tema, daí faço um esboço levando em conta questões sociais, históricas e econômicas”, revela o artista que encontra na arte de esculpir um exercício de introspecção e reflexão sobre a vida e o mundo.
É impossível mensurar quantas obras Jesus Soares já produziu, mas muitas estão espalhadas pelo Brasil, além das enviadas para exposições na Áustria, Alemanha, República Dominicana e outros países. “Há poucos dias, recebi o convite para enviar peças ao Chile”, enfatiza o artista.
Material embutido de significados
A escolha do material para se trabalhar a confecção de cada peça carrega alguns significados. Um exemplo são três obras criadas pelo artista sob influência de Guernica, pintura de Pablo Picasso. “Foi uma encomenda que me fizeram em Amaporã. Selecionei três personagens do quadro e criei as peças”, conta.
Em uma das obras recheadas de crítica social, é possível ver uma criança no colo da mãe. O bebê em óbito foi idealizado a partir de uma minúscula colher. Levando em conta o contexto da guerra, principalmente os bombardeios alemães a pequena cidade espanhola de Guernica em 1937, Soares usou o talher para destacar uma metáfora; a infância perdida como sobremesa germânica.
O artista plástico, que também trabalha com cenografia em parceria com os irmãos Paulo e Adauto Soares, está sempre atendendo pedidos de novas encomendas. “Pra ter uma ideia, recentemente fiz cenários para a peça ‘As Aves’, do Grupo de Teatro da Unipar, também criei três obras em MDF e ainda preciso entregar mais de 300”, assinala o artista que cobra de R$ 35 a R$ 150 por peças de 35 a 50 centímetros.
Serviço
Para entrar em contato com o artista plástico Jesus Soares, basta ligar para (44) 8806-9585.
O dom de talhar a madeira
Olegário aperfeiçoou as habilidades como carpinteiro e se tornou um mestre em talhar madeira

Artesão é especialista em esculturas de madeira (Foto: David Arioch)
Há 28 anos, Olegário José dos Santos, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, aproveitou as habilidades como carpinteiro para reproduzir uma obra de arte. O resultado foi tão positivo que desde então se dedica a criar placas, quadros e esculturas, peças que já foram comercializadas em muitos estados do Brasil e em outros países.
Tudo começou em 1981, quando “Seu Olegário” trabalhava como mestre de obras e marceneiro. À época, a habilidade em talhar madeira despertou no artista o desejo de fazer algo mais do que criar apenas produtos funcionais. “Vi um trabalho e decidi produzir também. Comecei a fazer esculturas e não parei mais. Tem peças minhas nos Estados Unidos, Japão, França, Espanha, Argentina, Costa Rica e Portugal”, diz o artesão em tom de orgulho.
Houve um período em que Santos participava de feiras agropecuárias com o intuito de divulgar e também comercializar as peças que produzia. “Em exposições no Paraná e São Paulo, eu vendia pelo menos 10 placas para fazenda e ainda levava trabalho pra casa. A procura era grande”, explica o artista plástico que já participou de exposições agropecuárias em Paranavaí, Maringá, Umuarama, Londrina, Foz do Iguaçu, Santo Antônio da Platina, Wenceslau Braz, Maringá, Ourinhos, Votuporanga, Presidente Prudente e Assis. Santos também vendeu muitas peças no litoral de Santa Catarina, principalmente pequenos artigos.
Independente do tamanho da obra, seja um chaveirinho feito na hora e vendido por R$ 4 ou um altar de R$ 7 mil que levou 90 dias para ser produzido, a verdade é que depois do trabalho concluído sempre surge o momento de fruição. “Sinto prazer em criar qualquer coisa”, enfatiza Seu Olegário que preza pela riqueza de detalhes. O perfeccionismo está embutido em cada uma de suas esculturas; nas formas e nas curvas que tiram do anonimato pedaços de cedro e cerejeira que provavelmente seriam transformados em produtos em série, como móveis.

Olegário dos Santos: “Sinto prazer em criar qualquer coisa” (Foto: David Arioch)
“São ótimas madeiras para o trabalho que desenvolvo. Só uso outros tipos para fazer placas de fazenda”, informa e acrescenta que a cerejeira é trazida de Rondônia. Uma das especialidades de Seu Olegário é a criação de esculturas de imagens de santos, talento que combina com o sobrenome do artista. “Tenho algumas obras disponíveis para venda. São réplicas de São Expedito, São José, São Paulo e Nossa Senhora Aparecida”, destaca o escultor que está sempre aberto a encomendas e comercializa esculturas pelos mais diversos preços. Quem quiser conhecer de perto o trabalho do artista, pode vistar o seu atelier na Avenida Heitor Alencar Furtado, em frente ao trevo de acesso à Vila Operária.
Saiba mais
Cada escultura leva em média 30 dias para ficar pronta e um quadro é concluído em quatro dias.
O artista plástico Olegário José dos Santos também pode ser encontrado na Rua Augusto Fabretti, 877 – Jardim Alvorada do Sul, Paranavaí. Ou pelo telefone: (44) 3423-4633
A arte de transformar o trivial em extraordinário
Artista plástico usa pedras e pedaços de madeira descartados como matéria-prima

“Se você prestar atenção, a madeira sempre olha pra gente” (Foto: David Arioch
O talento para as artes plásticas, Antonio de Menezes Barbosa descobriu décadas atrás, quando recriou símbolos do pioneirismo em Paranavaí. Após um longo hiato, retomou a atividade há dois anos, período em que já transformou pedras e pedaços de madeira descartados em obras de contemplação.
“Comecei trabalhando a madeira, fazendo miniaturas de traçador, marreta e rastelo. Achei interessante”, conta o ex-caminhoneiro Antonio de Menezes Barbosa, citando as primeiras obras carregadas de nostalgia. Barbosa e o pai derrubaram muitas árvores usando traçador durante a colonização de Paranavaí.
Desde a primeira experiência como artista, se passaram mais de 30 anos. A profissão de caminhoneiro o afastou das artes plásticas até julho de 2007. “Eu estava em uma praia ao lado do Porto de Savona, a 43 quilômetros de Gênova, na Itália. Comecei a recolher pedrinhas que a água do mar trazia até as margens. Então as usei para criar uma réplica do Pão-de-Açúcar e outra de um navio. Foi o retorno”, lembra Barbosa.
Já no final de 2008, Menezes trabalhava em Maringá quando se deparou com uma peça de madeira que seria incinerada. O então caminhoneiro ofereceu um pedaço de lenha ao proprietário em troca da peça. A sensibilidade de Barbosa o fez enxergar na pequena bacia de madeira a idealização de uma barriga feminina.

Artista e obra criada a partir de pedaços de seis tipos de madeira (Foto: David Arioch)
Com pequenos pedaços de seis tipos de madeira encontrados ocasionalmente, o artista criou uma mulher grávida em três meses. “Usei morcegueira, ipê, pau-brasil, eucalipto, sibipiruna e mais outra espécie. Durante o período de produção, dediquei uma hora a uma hora e meia por dia”, afirma Menezes. A diversidade dos tipos de madeira usadas pelo artista remete a uma simbologia da natureza heterogênea da mulher brasileira, conhecida pela miscigenação.
Algumas das peças, Barbosa precisa lapidar para chegar a forma ideal. Outras, como que por um advento divino, parecem existir para serem encontradas pelo artista que vê beleza e perfeição naquilo que muitos consideram trivial. “Usei folhas de ipê para fazer as lentes dos óculos da mulher grávida”, justifica.
A profusão da sensibilidade artística de Antonio de Menezes Barbosa também é percebida em simples, mas poéticas frases como: “Se você prestar atenção, a madeira sempre olha pra gente.” Independente da interpretação, é inegável que a árvore um dia ceifada transcende, como se ganhasse uma nova vida, sob a criatividade de Barbosa. Exemplo disso é a escultura da personagem feminina que segura uma lamparina. “É pra iluminar os homens. Eles precisam de muita luz”, declara. Com um sorriso bucólico, diz não se considerar artista, mas um catador de galhos e pedras.
“Pedras e galhos sempre dão o formato de alguma coisa”
O ex-caminhoneiro Antonio de Menezes Barbosa encara a criação de esculturas como um passatempo. “Provavelmente vou me dedicar mais quando me aposentar, quem sabe ainda este ano”, informa o artista. Barbosa coleciona pedras do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Pará e Rondônia. “Pedras e galhos sempre dão o formato de alguma coisa. Não desperdiço nada”, declara.
Menezes, que também faz esculturas em arame, já homenageou a filha e a neta, professora e estudante de música, ao criar uma personagem feminina tocando um violino. “Aproveitei até a semente do pau-brasil pra fazer o instrumento”, enfatiza, acrescentando que a peça foi totalmente idealizada antes de começar a criá-la.
A próxima obra de Barbosa será o homem fatiado, talvez a criação de caráter mais subjetivo. “Também quero fazer um médico segurando uma garotinha recém-nascida”, adianta. Com olhos marejados, Antonio de Menezes mostra algumas preciosidades da Segunda Guerra Mundial. São restos de porcelana e azulejos de banheiro que ele guarda como se fossem tesouro, pequenos fragmentos que remetem a um bombardeio em Milão, na Itália.
Música concebida pela vã temporalidade
A composição é um processo de construção e desconstrução temporal em que os autores se desdobram para conceber uma obra dialética

Chopin conciliava inspiração e fatores socioculturais (Foto: Reprodução)
Não é de hoje que a música é considerada a arte que se desenvolve tendo o tempo como base de sustentáculo, o alicerce que delimita as congruências. Mas para pensar sobre a questão temporal deve-se levar em conta a concepção genuína da música. Uma obra originalmente concebida não é resultado da mera inspiração; pensar dessa forma significa distanciar-se da verdadeira concepção em relação à composição de uma música.
“Ninguém conseguiria produzir uma obra musical nas proporções de uma sinfonia de Beethoven, uma cantata de Bach ou até mesmo um pequeno prelúdio de Chopin somente com inspiração”, explica Rael Gimenes, professor de música da Universidade Estadual de Maringá (UEM). A composição musical vai muito além do indivíduo simplesmente ater-se ao instrumento e explorar os anseios determinados pelas suas influências, pois assim não estará realmente concebendo algo determinante para o meio.
Para o professor de música, a composição musical é resultado de um processo de discussão técnica e histórica. Uma tentativa de resolução de problemas que são gerados a partir da confrontação técnica e teórica com as crenças que cada sociedade possui sobre conceitos chaves como tempo, altura, duração, funcionamento da percepção, desenvolvimento físico-acústico dos instrumentos, entre outros tantos. Esses elementos servem para ilustrar o quanto pode ser complexa a construção musical. É um processo que envolve uma série de fatores, não somente o prazer de tocar um instrumento ou explorar o sincretismo construído num espaço variável de gostos musicais.
Neste momento, você pode estar se perguntando: qual a relação da fiel conceituação musical com o tempo? É justamente isso que determina a originalidade de uma composição, pois quando o indivíduo tem capacidade de compreender a temporalidade, ele deixa de ser um mero “repetidor de modelos” e começa a inserir novos elementos que depois poderão derrubar paradigmas. Além, claro, de prescrever musicalmente as determinações do processo histórico no qual a obra foi concebida.
O tempo cíclico marcou a história do tempo, ainda mais porque surgiu num contexto em que o relógio ainda não havia se desenvolvido, apesar de existir formas arcaicas de marcação temporal. “O tempo cíclico é medido pelos ciclos naturais, como cheias dos rios, a sucessão do dia e da noite, as estações do ano e quaisquer sinais da natureza que fossem importantes para auxiliar na sobrevivência dos indivíduos”, diz Gimenes.
A música ocidental no período que envolve o início da era cristã até o século XII ficou musicalmente conhecida em função do surgimento do canto gregoriano, caracterizado pela monodia (uníssono – única voz), o que significa que não possui nenhuma forma de divisão temporal baseada em pulso ou métrica. Resume-se a um corpo de cantores que cantam uma música no mesmo espaço temporal; período em que surge então a organização métrica-musical. “Baseava-se no ritmo da fala. Cantava-se da mesma forma que se lia”, conta o professor de música. A partir disso, percebia-se a influência que a maneira de pensar o tempo tinha, em relação com a organização do tempo na música.

Professor Rael Gimenes: “Cantava-se da mesma forma que se lia” (Crédito: Divulgação)
A maior diferença musical determinada pelo tempo pode ser percebida se for levado em conta o canto gregoriano e compará-lo com outros diversos tipos de música. Enquanto a monodia não delimita uma estrutura que faz com que o sujeito perceba o final da música, em outros estilos a captação é mais simples, devido aos pulsos regulares, que faz com que facilmente identifiquemos o refrão e o final da música. “Nesse contexto, a música nasce em ciclos que não possuem inícios como os fenômenos da natureza que serviram de base para essa forma de pensar o mundo”, revela.
Depois surge o período polifônico, em que a música deixa de ser pensada como um elemento determinado por um instrumento para se tornar o principal resultado da junção de diversos instrumentos, além da presente vocalização. Com isso, temos uma sincronia de fluxo temporal. De acordo com Gimenes, o tempo foi subdividido em pequenas fatias de durações iguais.
É importante salientar que após tais fatos houve o desenvolvimento do relógio mecânico. Segundo Gimenes, o relógio mecânico surgiu por volta do ano de 1300 e se popularizou na Europa por volta do ano de 1450. O relógio é a materialização da resolução de um problema filosófico que estava em discussão desde o século XI com o início do desenvolvimento da polifonia. O tempo inserido nesse contexto é a seqüência de eventos que na música é determinada pela linearidade. É a ideia de previsibilidade em que a música surge em decorrência direta dessa maneira de pensar o tempo.
Rael Gimenes frisa que é uma sucessão de “agoras” que pode ser prevista por equações em que a música independe de qualquer fator. É desenvolvida dentro dos mesmos critérios que arraigadamente envolvem compositores do final da Renascença até o fim do século XIX. Dentre eles: Bach, Mozart, Händel, Beethoven, Haydn, Chopin, Liszt, Wagner, Brahms, Schubert e Schummann.
A música pode ser sintetizada como um processo de construção e desconstrução temporal em que os compositores se desdobram (dentro da sua gama de elementos pertinentes) para fazer emergir laconicamente uma obra dialética. Original e arbitrária, uma composição genial ultrapassa a inspiração e envolve muitas prescrições de fatores socioculturais, fazendo da música não somente mero resultado que possui em outra composição um exponencial. A obra inigualável e única traz à tona uma ruptura de paradigmas que harmoniosamente são determinados pela vã temporalidade.
Um amor em forma de prosa
Paulo Campos rejuvenesce o passado de Paranavaí por meio da literatura
Há décadas, o advogado e escritor regionalista Paulo Campos registra o amor a Paranavaí por meio da prosa. Produziu centenas de contos, poemas e publicou dois livros: “O diabo e o Homem na Brasileira” e “Memórias de Luta e uma História de Amor”. Tanta dedicação rendeu prêmios em várias regiões do Brasil e fez de Campos um ícone local na arte de rejuvenescer o passado por meio da literatura.
Paulo Campos começou a se interessar pela produção textual aos 18 anos, influenciado por histórias contadas pelos pais. Não demorou e surgiu o convite para produzir o primeiro texto – adaptação de uma peça do dramaturgo Martins Pena. “O fundador do Teatro Universitário de Paranavaí (TUP), João Batista Tirapelle, me pediu para trazer o conteúdo da obra para a nossa realidade”, conta Campos. A adaptação despertou no jovem Paulo Campos o desejo de resgatar o início da colonização em Paranavaí.
Anos depois, em 1986, o escritor publicou a primeira obra, “Memórias de Luta e uma História de Amor”, que sintetiza a história de Paranavaí sob um prisma artístico com requinte ficcional. Também participou da antologia poética “Assim escrevem os Paranaenses”, iniciativa do renomado escritor paranaense Domingos Pellegrini. Para a obra literária, Campos transferiu, de forma peculiar, fatos da década de 1950, como os muitos assassinatos cometidos à luz do dia, alheios aos transeuntes.
“Meus familiares viam muitos corpos ensanguentados próximos das valetas. Minha mãe pedia a meus irmãos que não olhassem”, relata o escritor. Dentre os textos que homenageia personagens da cidade, o destaque é “Orquídea Negra”, um poema sobre o saudoso Negão do Surucuá. “Ele teve uma morte relativamente misteriosa. Mesmo assim, sempre será parte da nossa história”, avalia Campos.
No acervo, o escritor tem centenas de contos e poemas, mas prefere guardá-los para fazer leituras mais críticas. “Escrevi bastante, tenho até material para publicar livros de contos, mas não me animo com a ideia. Inclusive ‘O Diabo e o Homem na Brasileira’ só foi publicado por incentivo e coordenação do Téia”, explica Campos, referindo-se a José de Arimatéia Tavares, um ícone do movimento cultural de Paranavaí.

Com a Barriguda (troféu do Femup), o reconhecimento de um trabalho em prol da arte e história local (Foto: David Arioch)
Apesar de ter publicado pouco do que produz, conquistou grande reconhecimento. O escritor tem contos lançados no Brasil e em Portugal. Entre as conquistas mais memoráveis, destaca o Prêmio Macunaíma, em São Paulo, e Concurso de Contos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de janeiro, além de vitórias no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), evento que o estimulou a escrever.
“Muita gente cria um laço com a literatura a partir do Femup. Ganhei meu primeiro prêmio em 1973. Depois comecei a escrever com mais intensidade”, diz Paulo Campos. Atualmente o escritor pensa em publicar um romance. “Até sou cobrado por isso. Tenho uma ideia em mente há muito tempo, mas ainda não comecei. Posso adiantar que é relacionada com Paranavaí que tem uma história muito rica”, confidencia.
Peça polêmica e reconhecimento
Das peças produzidas pelo escritor e advogado Paulo Campos, duas tiveram grande repercussão. A primeira, “Vila Montoya”, foi encenada no Festival Internacional de Londrina (Filo). Como tinha um caráter crítico e foi concebida durante a Ditadura Militar, o Teatro Universitário de Paranavaí, dirigido por João Batista Tirapelle, teve de substituir alguns diálogos envolvendo o presidente Getúlio Vargas.
“O Tirapelle acatou a ordem da censura, porém tivemos um ator com dificuldades em memorizar os diálogos. O resultado foi que o rapaz soltou toda a fala que tinha decorado, sem cortes”, relembra. Ao final, a Polícia Federal subiu ao palco e encaminhou o grupo para a coxia (bastidores), onde foi dada a ‘voz de prisão’ para os artistas. “Enquanto o público aplaudia de pé, nós explicamos a situação e tudo acabou bem”, lembra o escritor.
Outra peça que ganhou repercussão foi “Chão Bruto” ou “Nem o Pai, nem o Filho, nem o Espírito Santo”, classificada em um concurso promovido pelo Centro Cultural Teatro Guaíra, de Curitiba. “O presidente do centro gostou muito da história e me ligou perguntando se eu autorizava uma nova encenação. Concordei e fiquei uma semana com eles para fazer as adaptações necessárias”, revela Paulo Campos.
“Chão Bruto” consiste em uma reza para fechar o corpo. O personagem de destaque é um rapaz inconformado com o coronelismo e as desigualdades sociais em Paranavaí. “No período de colonização, era muito comum uma pessoa vender determinada propriedade e cobrar o valor pago outra vez. No conto, o personagem não aceita isso e faz um levante armado para acabar com as injustiças”, frisa.
Um fato curioso é que na peça há um barracão onde as armas são guardadas. O local realmente existiu na Rua Pernambuco, uma das vias mais conhecidas da cidade. Porém, como a arte imita a vida, o levante nem chegou a acontecer porque o líder da mobilização foi convidado para ir até a delegacia, onde o assassinaram em um ato covarde e traiçoeiro.
Literatura X Advocacia
Há 19 anos, antes de optar pela advocacia, Paulo Campos atuava como professor. Influenciado pelos irmãos ligados ao magistério, cursou letras almejando trilhar o caminho da literatura. Foi professor por muitos anos, mas como não tinha tempo para se dedicar à arte literária, resolveu cursar direito. “Já sabia que teria uma condição financeira melhor. O profissional poderia alimentar o escritor”, conta.
Os planos não se concretizaram como Campos vislumbrou. “Comecei a fazer direito, e a partir do segundo ano me apaixonei pelo curso. Em resumo, até hoje atuo como advogado. As duas atividades me satisfazem plenamente”, destaca, acrescentando que no início da profissão podia se dedicar mais à literatura. Com o passar dos anos, a advocacia tomou-lhe a maior parte do tempo. Hoje, Paulo Campos escreve esporadicamente.
Inspiração na história regional
Assim como o emblemático Guimarães Rosa, o escritor e advogado Paulo Campos também privilegia a linguagem prosaica na produção textual, beirando ao dialeto regional, herança que assume com prazer e honra. “Admito a influência do escritor mineiro. Pra mim, ele é o maior escritor de todos os tempos. Tem um grande poder de sedução”, afirma Campos. O regionalismo é o ingrediente mais importante das histórias do escritor paranavaiense.
O conto “Um Grito no Escuro”, por exemplo, é baseado em um fato que o escritor vivenciou há muito tempo, quando foi a uma farmácia. “Um ventríloquo chamou o balconista, mas o homem não percebeu a origem da voz. Curiosamente o atendente ficou desesperado e telefonou para a família. Na minha história isso acontece em um ônibus e desencadeia uma série de acontecimentos”, comenta.
Genocídio na década de 1920
Um altruísta pesquisador da história local, o escritor Paulo Campos sempre procurou informações sobre fatos não oficiais, principalmente do início da colonização, quando Paranavaí ainda era conhecida como Vila Montoya. “Na década de 1920, havia um foco de interesse anti-revolucionário aqui e acredita-se que um exército foi enviado para praticar assassinatos em massa, o que resultou na morte de muita gente”, relata.
Mais tarde, alguns sobreviventes decidiram viver na mata, instalando-se em buracos no interior das árvores, assim como fazem os animais. Cogita-se que os remanescentes do genocídio viveram em ostracismo por mais de dez anos. “Em pesquisas, descobri que viveram nus todo esse tempo”, informa Paulo Campos.
Outra curiosidade é que à época não havia estrada até a Vila Montoya. Mesmo assim, alguns pioneiros encontraram um piano no interior de uma residência. “O acesso a Paranavaí era pelo Porto Tigre, de Presidente Prudente, tinha que atravessar por um picadão. Ninguém sabe como esse piano chegou aqui”, declara Campos, que conhece também muitos outros fatos dignos de contos, não somente ligados a Paranavaí, mas também outras cidades.
“Em Querência do Norte tinha uma pessoa que morava em um sítio e vivia nu, apenas vestia roupa quando ia à cidade. Ele fazia pregações, era considerado louco, mas levava a vida normalmente. Era conhecido por praguejar os poderosos na época”, afirma.
Curiosidade
“Nem o Pai, nem o Filho e nem o Espírito Santo” era o pseudônimo do escritor Paulo Campos quando concluiu “Chão Bruto”. Só que durante a adaptação da peça em Curitiba, o grupo do Centro Cultural Teatro Guaíra perdeu a primeira folha com o nome do espetáculo, então usaram “Nem o Pai, nem o Filho e nem o Espírito Santo” como título. A diretora da peça e o presidente do CCTG gostaram tanto do nome que o escritor adotou definitivamente o pseudônimo como título alternativo.
Vivendo a viola
Há 17 anos, Jeferson Cley Bovarotti cultiva o talento de conceber violas de modo artesanal

Luthier lixa uma viola caipira (Foto: David Arioch)
Na adolescência, o primeiro contato de Jeferson Cley Bovarotti com a viola foi tão profundo que decidiu reproduzi-la. Desde então, se passaram 17 anos de produção, e hoje a arte de conceber o instrumento artesanalmente sintetiza o cotidiano do luthier de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. O trabalho de Bovarotti atrai clientes de várias regiões do Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Jeferson Cley é autodidata, mas não foi da noite para o dia que adquiriu conhecimento o suficiente para reproduzir violas. “Levei oito anos para me orgulhar dos instrumentos que faço. Eu dificilmente ficava satisfeito, sempre queria melhorar algum detalhe”, frisa Bovarotti. O perfeccionismo refere-se ao fato da viola ter muitos segredos que incluem o preparo da madeira, escolha da espessura e as medidas da escala. “O jeito é se aperfeiçoar sempre”, pondera.
Cautela é sempre imprescindível no momento de conceber um instrumento. A criatividade não pode se transformar em excesso de ousadia, já que a maior parte dos violeiros considera a tradicional viola caipira como a única verdadeira. “É preciso tomar cuidado principalmente na hora de escolher a madeira. Tem de conhecer o processo de envelhecimento da matéria-prima”, alerta o artista que criou o primeiro instrumento aos 17 anos, quando reproduziu a viola ganhada do pai Raulnilde Bovarotti.
Dentre as melhores madeiras para a produção de uma viola, o luthier que também é violeiro destaca o pinho sueco, jacarandá indiano, maple e ébano. “Para quem quer gastar um pouco menos, mas levar um produto de boa qualidade, tenho amapá e o cedro-rosa. As melhores do Brasil”, assinala. Uma viola com matéria-prima brasileira custa em torno de R$ 1,5 mil. Se o cliente preferir madeira importada, o preço final é de R$ 3 mil. “Também posso pré-cozinhar e fazer um tempero com duas madeiras”, informa Jeferson Cley. Todos os produtos da Di Cley Luthieria, de Bovarotti, são criados sob encomenda. Cada instrumento leva de 30 a 45 dias para ficar pronto.

Di Cley é marca conhecida e respeitada no Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul Luthier lixa uma viola caipira (Foto: David Arioch)
O esmero do luthier para conceber uma viola se assemelha ao cuidado e requinte de detalhes com os quais um pintor se entrega a própria obra, tornando-a única. “Nunca fiz uma parecida com a outra”, garante.
Por tal peculiaridade, e amor incondicional pela viola, o trabalho do luthier é reconhecido pelos clientes, inclusive a boa fama da fábrica atrai violeiros de várias regiões do Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. “Geralmente quem se interessa mais é profissional. Já vendi instrumentos para várias duplas de moda de viola, além do famoso sertanejo Daniel e do vice-governador Orlando Pessuti”, conta Bovarotti.
Jeferson Cley revela que vender bem é importante, mas não supera o reconhecimento do trabalho. “Para quem vive a viola, a maior recompensa é ver alguém tocando seu instrumento”, comenta.
Luthier fabrica as próprias máquinas
Quando um violeiro pede que um luthier fabrique um instrumento, as variações mais comuns referem-se às escalas. “Uma escala maior é para afinação mais baixa, para tocar o estilo de Tião Carreiro e Pardinho. Só que tem gente que prefere menor ou normal. Depende muito da mão da pessoa”, explica o luthier Jeferson Cley Bovarotti. A escala padrão de uma viola é de 580 milímetros.

Jeferson Bovarotti testa o instrumento já pronto Luthier lixa uma viola caipira (Foto: David Arioch)
Bovarotti é proprietário da Di Cley Luthieria, uma fábrica de violas que preza pela originalidade, tanto que até as máquinas usadas na produção dos instrumentos foram criadas pelo luthier. “Aqui é tudo artesanal. Projetei ao meu gosto”, destaca o artista que luta para ganhar espaço oferecendo qualidade em vez de quantidade.
O aposentado Raulnilde Bovarotti, pai do luthier, conta que tem muito orgulho do filho. Mesmo com a concorrência desleal das indústrias que produzem instrumentos em série, Jeferson Cley sonha em ter o trabalho mais valorizado. “Já levei mais de dois meses pra finalizar uma viola. Não me importei com a demora porque o resultado foi um instrumento único”, enfatiza.
Mais informações
Quem quiser encomendar alguma viola do luthier, pode entrar em contato pelo telefone (44) 3446-7973
Kareca, um ícone da aerografia
Especialista em personalização, artista urbano já atraiu atenção de muita gente no Brasil e nos EUA
Pedro Bueno, conhecido como Kareca, descobriu o talento para a aerografia em 2003. De lá pra cá, personalizou milhares de capacetes, centenas de capôs de automóveis, além de tanques de motocicletas e cornetas de som automotivo. O reconhecimento chegou a ponto dos adeptos da arte urbana considerarem Kareca um ícone da aerografia.
Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, quando o assunto é a arte de pintar com o aerógrafo, Kareca sempre é citado. A justificativa é a precoce profissionalização. Nos primeiros anos em contato com a arte urbana, Pedro Bueno transformou uma curiosidade em profissão. “Tive facilidade em desenvolver habilidade e me dei bem com o grafite”, explica Kareca.
O artista, que no primeiro ano trabalhando com aerografia despertou a atenção de quem aprecia caracterizações, não demorou muito para atrair pessoas de estados como São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Além disso, já personalizou pranchas de snowboard de esportistas estadunidenses. “Já pintei milhares de capacetes, centenas de capôs de carros, cornetas de som automotivo e até capas de celular. Nem sei dizer o quanto já produzi até hoje. É muita coisa”, afirma.
Sempre interessado em desenvolver novos trabalhos e se aperfeiçoar na aerografia, Kareca destaca que aceita qualquer desafio, com exceção de pinturas de fachadas comerciais. “Não posso assumir um trabalho sabendo que vou demorar pra terminar. Como tenho muitos compromissos, prefiro me dedicar ao tuning [personalização extrema] de carros e motos”, justifica.
Especialista em capacetes, o aerografista conta que leva de 1h a 1h30 para uma personalização. “Só que até ficar tudo pronto é preciso de seis a oito horas”, reitera. De acordo com Kareca, o processo passa por várias etapas: preparar o objeto, grafitar, pintar e esperar secar para então polir.
O preço varia conforme a complexidade e o tamanho do desenho. Mensalmente, Kareca estiliza dezenas de capacetes, atividade que desenvolve em um atelier na própria residência. Para o artista contemporâneo, o ambiente familiar contribui para transcender a essência do trabalho realizado com frequência litúrgica.
A apreciação da arte urbana de Kareca cresce a cada dia, principalmente entre os adeptos de tuning, como é o caso do autônomo Mano Tazo. “Com toda certeza, ele é o melhor da nossa cidade, e pelo que já vi por aí, um dos melhores do Paraná”, declara Tazo.
Porém, mesmo com a boa aceitação do trabalho, em Paranavaí ainda há quem relegue a arte à marginalidade. “Muitas pessoas confundem o aerografista com o pichador. A pichação gera discriminação. Por isso é importante que as pessoas se informem sobre a diferença. Produzo uma arte urbana totalmente honesta”, defende Kareca.
“Eu não desenhava nem com lápis”
O aerografista Pedro Bueno, conhecido como Kareca, tem uma afinidade tão profunda com o instrumento de trabalho que parece alguém desenhando tranquilamente em uma folha branca. A precisão dos traços é geométrica, mesmo utilizando somente o aerógrafo para dar uma forma precisa e cintilante a cada desenho. A maior habilidade do aerografista consiste em usar adequadamente as cores para proporcionar vivacidade em objetos foscos.
Entretanto, o artista admite que no início não sabia como usar o aerógrafo. “Eu não desenhava nem com lápis. Pensei que podia começar o trabalho com pincel, ou seja, eu não sabia de nada”, diz rindo. À época, Kareca tinha um aerógrafo bem simples e fazia trabalhos de graça para se aperfeiçoar. Hoje utiliza equipamentos importados e de primeira linha.
Revistas de tatuagens e desenhos animados
O artista urbano Pedro Bueno, conhecido como Kareca, tem como base criativa, na estilização dos objetos, a bagagem cultural e também o cotidiano. “Sou influenciado até mesmo por revistas de tatuagens e desenhos animados. Não descarto nada. Acho que tudo contribui pra eu chegar a um trabalho final que esteja próximo da perfeição”, pondera.
Atualmente o artista desenvolve técnicas de aperfeiçoamento na fusão entre aerografia e imagens em alto relevo. Segundo Kareca, o trabalho é bastante ousado e explora mais ainda a criatividade. “É interessante saber que as pessoas vão passar a mão e sentir as formas dos desenhos”, comenta.
O aerografista também cria desenhos a partir de fotografias, contudo admite que a atividade exige mais tempo. “Para reproduzir o rosto de alguém tenho de ser perfeccionista, então preciso de pelo menos seis horas”, revela.
Informações
Kareca é autodidata, e o interesse do artista pela aerografia surgiu quando ficou curioso em saber como é feito o grafite. O artista gosta de criar principalmente personagens.
Persil: brasilidade em evidência
Premiado artista plástico destaca a importância de se valorizar a cultura brasileira

Gabirus: identidade folclórica com ênfase na realidade urbana. (Foto: David Arioch)
O paranavaiense Roberto Persil se interessou pelas artes plásticas ainda na juventude. De lá para cá, são mais de 40 anos de carreira, sintetizados em pelo menos 1,5 mil obras, entre pinturas e esculturas que retratam a brasilidade. O reconhecimento de tal longevidade são as inestimáveis premiações e participações em salões de artes do Paraná, São Paulo e Mato Grosso.
Apaixonado pela cultura nativa brasileira e regionalista, Persil trabalha com elementos que resgatam lendas de um Brasil ainda desconhecido pela maioria. Exemplo é uma série de esculturas que vai muito além da acadêmica releitura contemporânea. “Recriei os Gabirus. São seres que moram embaixo de pontes e se situam entre o homem e o animal. Representam as pessoas que perderam o vínculo com a sociedade e com a família”, revela.
Outra característica dos Gabirus é que, assim como os mendigos, eles também vagam pelas ruas recolhendo coisas do lixo para comer. Além disso, criam relações afetivas com animais, principalmente gatos, cães e ratos – seres que consideram pertencentes a um mesmo plano existencial.
O artista plástico também se dedica a fazer releituras mais sofisticadas da realidade. Em uma de suas obras, a profundidade expressionista entre a fusão de colagem e pintura lhe rendeu um prêmio em um salão de artes. Conceituado pelo aporte inovador, gosta de mesclar materiais e elementos das mais diversas correntes artísticas. Algo perceptível no atelier que criou em casa, onde reúne centenas de obras.
O amor pela atividade é tão grande que Persil também montou um atelier em Cuiabá, no Mato Grosso, para onde viaja quando tem tempo. Sobre o motivo da escolha, justifica que é uma região com fortes elementos da cultura primitiva brasileira. “Vou pra lá todo mês de julho e aproveito pra absorver isso.Transfiro todo o conhecimento adquirido para as minhas esculturas e quadros”, frisa.
Quando tem pouco tempo disponível, o artista opta por concepções artísticas mais objetivas, em que o uso de tintas acrílicas é mais comum, pelo fato do processo de secagem ser mais acelerado. “Lecionei língua portuguesa por 30 anos, então adquiri esse costume de me dedicar a artes mais sofisticadas apenas quando tenho bastante tempo livre”, declara.

Persil: “A interpretação depende da bagagem cultural do apreciador “(Foto: David Arioch)
Eis que surge um artista
Na infância, Persil tinha dificuldades para escrever, então seus pais o encaminharam a um artista local que dava aulas de caligrafia. Superado o problema e passado alguns anos, Persil se sentiu atraído pelos desenhos. “Tinha 12 anos e fiquei maravilhado com a beleza dos desenhos coloridos, do simples lápis-de-cor e da anatomia humana”, lembra.
Apesar de ter convivido durante décadas com a falta de tempo, o artista plástico já ultrapassou a marca de 1,5 mil obras. “Uma vez, para participar de um salão de artes, fiz 400 desenhos em dois meses. Isso foi em outubro e novembro de 1989”, conta.
Mesmo com um currículo artístico extenso, o prolífico Roberto Persil garante que as premiações recebidas no Paraná, São Paulo e Mato Grosso são sempre simbólicas. “Às vezes, somos premiados com R$ 500 e os custos com a peça é de R$ 800. Então é mais para somar à carreira”, garante. Persil faz parte do grupo de artistas brasileiros que sempre trabalharam para investir em arte. “O que não é fácil, pois exige dedicação”, assegura.
Aos 15, começou a usar crayon, determinante para se tornar frequentador do Empório Artístico Michelangelo, localizado na Líbero Badaró, em São Paulo. “Ia pra lá só pra comprar lápis francês e outros materiais”, destaca em tom bem-humorado. Mesmo muito jovem, os desenhos do artista já representavam mais que formas e cores; era o reflexo de um dom que partia do coração e se conduzia até os dedos das mãos. “Resolvi ir para São Paulo e Rio de Janeiro, o sonho de todo menino. Só que como vivíamos a Ditadura Militar era complicado. Sem emprego fixo, um garotinho era visto como suspeito”, revela.
Depois de dois anos vivendo entre São Paulo e Rio de Janeiro, produzindo arte final para listas telefônicas, Roberto Persil não conseguiu alcançar o sonho, mas descobriu nas capitais um novo fazer artístico. “Em 1973, me encantei pelas esculturas em madeira. Naquele tempo, trabalhos que valorizavam a cultura brasileira, principalmente nordestina, estavam no auge”, reitera. Mesmo não lucrando muito nas capitais, o artista trouxe consigo uma bagagem cultura que, segundo ele, não tem preço.
“Troquei a arte pela sobrevivência”
Em 1976, Roberto Persil começou a trabalhar com esculturas em madeira. Logo foi obrigado a render-se a uma indústria cultural em que a originalidade artística perdia espaço para a injusta e desleal dinâmica das produções em série. “Como não tinha terminado a faculdade ainda, troquei a arte pela sobrevivência. Fazia tudo em um atelier no fundo de casa”, salienta.
No ano seguinte, retomou a carreira artística e conquistou estabilidade financeira se tornando professor de português. Em 1980, o artista ganhou seus primeiros prêmios. “Lembro bem da primeira vez. Foi no 2º Salão de Artes Plásticas para Novos, em Cascavel [no Oeste Paranaense]. Acho que deveriam investir mais nesses salões porque ajuda os artistas que estão em processo de maturação”, recomenda.
De acordo com Persil, é lamentável que os curadores de eventos artísticos não visitem ateliers de artistas principiantes. “São esses que precisam de ajuda, não os renomados. Nenhum órgão vinculado à cultura brasileira dá valor a quem está começando”, desabafa. Uma ótima contribuição seria a Secretaria de Cultura do Estado ou o Ministério da Cultura, por exemplo, ajudarem jovens artistas a criarem seus primeiros catálogos.
Contra o estrangeirismo
Produzir peças que resgatem a cultura nativa brasileira significa ofertar elementos históricos ainda desconhecidos pela população. Com esse pensamento, Roberto Persil faz um apelo para que os novos pintores e escultores brasileiros acreditem em si mesmo e no local em que vivem.
“Um artista não deve se vincular a estrangeirismo nenhum se quer reconhecimento genuíno. Devemos parar de importar ideias. Temos doze horas de luz, e essa luminosidade já pode ser explorada como fruto da nossa cultura”, enfatiza.
Saiba mais
Roberto Persil produzia 15 esculturas por semana na época em que contava com ajuda de um auxiliar.
Em média, o artista plástico pinta uma tela por semana.
Frase de destaque
“Nunca saberei dizer quantos desenhos já fiz, porque toda arte que produzo nasce de um desenho.”


