David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘existencialismo’ tag

A chuva cativa sobre a colina

without comments

Irritado, desci a colina gelado, numa torrente que se alongava e se dispersava por todo lado

Me vi em um final de tarde em um casarão de madeira no alto de uma colina (Arte: Gino Masini)

Me vi em um final de tarde em um casarão no alto de uma colina (Arte: Gino Masini)

Desde criança, tenho sonhos incomuns, abstratos e talvez absurdos para quem gosta de defini-los como sinais, revelações ou tormentos. Na noite passada, por exemplo, assim que dormi me vi em um final de tarde em um casarão de madeira no alto de uma colina. Perto de mim, uma bruma morna envolvia crianças e animais que celebravam o Dia de Cosme e Damião em um vilarejo livre de adultos.

Empolgadas, elas gritavam e corriam por todos os lados numa balbúrdia incessante que vinha de um ponto mais baixo, onde a grama tornada seca tinha aspecto embusteiro de palha dourada – e se movia como pés e mãos de espantalhos disformes que gargalhavam sem boca sob as formas do sopro do vento.

Praticamente imóvel, eu observava a movimentação em meio a uma miríade de ventarolas de papel que balouçavam presas às cordinhas de varal. As dezenas de crianças sorriam e giravam em grandes círculos. O ato era simulado por cães e gatos enquanto balas, pirulitos e outros tipos de doces caíam do céu como chuva paulatina. Os picolés derretiam antes de tocarem a grama, se desfazendo como suco embrulhado. Pincelavam os corpos e as cabeças dos pequenos que tentavam em vão agarrar os palitos nus. Era como creolina em roupa. Grudava, se fixava, temendo o próprio fim.

Eu não interagia. Continuava no mesmo lugar, na minha inércia, observando tudo, sóbrio, mas alheio à consciência do tempo e da minha própria condição existencial. Eu era como um nada que antes fluía inidentificável. Na realidade, eu era a chuva que presa e reduzida a um compartimento do telhado acabou privada de tocar o chão, substituída por uma infinidade de doces.

Era injusto comigo que nasci para sentir a terra, umedecê-la e vivificá-la. Ela sempre corava em minha presença. Amolecia, me abraçava e me deixava penetrar em suas entranhas, onde eu poderia desaparecer ou me enredar pelo lençol freático, correndo junto de águas caudalosas. Uma aventura em tanto! Ela me aquecia e eu a esfriava, e aquilo fazia de nossa relação a mais poética das simbioses.

Deixei de ser onipresente naquele Dia de Cosme e Damião, não sei se por unção ou punição a pagão. E isso também pouco importava para quem numa condição limitada somente ansiava, titubeava diante da torrente cálida do sol que o mundo das crianças inebriava. Havia aroma dulcificado por todos os lados, anestesiando até meus sentidos inominados.

De repente, um silêncio solene se instaurou. Todos se calaram para ouvir o som da terra que se intensificou. “O que será que vem agora?”, refleti em confinamento. Depois vi doces brotando do chão. Alguns eram expelidos enquanto outros se descolavam de galhos minúsculos e retraídos sobre caules diminutos.

A cena que se repetiu muitas vezes em vários pontos do vilarejo deixou as crianças ensandecidas. Corriam tresloucadas, atropelando as esculturas de Cosme e Damião que ficavam pelo caminho. Já não representavam a elas mais do que obstáculos. Enquanto digladiavam pelos doces, saltando e golpeando, arrancando com violência as plantinhas que se encolhiam e tremiam curvadas sobre o solo, os cacos de gesso dos irmãos gêmeos voavam pelo chão, formando um caminho encascalhado de profanação.

As brincadeiras findaram, e como selvagens as crianças no chão se debruçaram. Comiam, comiam e comiam sem pestanejar, até que passando mal começaram a soluçar. Mesmo os mais escanifrados ganharam barrigas esféricas como enormes balões. Não conseguiam caminhar, e rolavam e choravam sobre a terra cada vez mais calcinada que o dorso queimava. Alguns resistiam e tentavam correr sobre as pontas dos pés nus, sem direção ou propósito – fuga pela fuga ou échapper par la fuite, como dizem os franceses.

Infindáveis, doces continuavam brotando do chão. Logo centenas de abelhas se aproximaram para polinizar as pequenas plantas que cresciam vertiginosamente. O calor seguiu aumentando. Em estado líquido, eu nada sentia. As crianças sedentas, vencidas pela hiperglicemia, berravam e praguejavam porque não havia água em nenhum lugar de fácil acesso. Encolerizadas com a gritaria, as abelhas abandonaram a polinização para perseguir e atacar os pequenos.

Uma garotinha cercada pelo enxame ficou dourada como a grama queimada, parando de correr e até de se mover. Estática, não tinha ferida, mas parecia sem vida, e seus olhos lembravam bolinhas recheadas de mel que traziam na íris o talhe de um anel. Ouvi alguém batendo na porta do casarão que me abrigava, enquanto o chão, rendido pela mais severa estiagem, rachava.

“Por favor, deixa a gente entrar! Por favor!”, gritavam dezenas de crianças em uníssono. Sem mãos e pernas, o que eu poderia fazer? Não havia ninguém além de mim no casarão. Uma a uma, elas caíram no chão, vitimadas por calor, sede e torpor. Resfolegavam com dificuldade, até que consumido por agitação sobrenatural tentei me desprender da calha entupida. Não consegui e chorei, multiplicando minhas águas e arrastando comigo tudo que me segurava.

Irritado, desci a colina gelado, numa torrente que se alongava e se dispersava por todo lado. Assim que me lancei sobre as crianças, lavando o corpo e a face, elas despertaram e se levantaram. Observaram o céu desanuviado e reconheceram que o mormaço tinha se dissipado. Abriram a boca e beberam a água límpida e fresca que caía em forma de chuva comunesca. Sim, as abelhas também sumiram, e com elas o chão eivado e os doces. O que restava era a vida que resistia consorte e gentia.

Pequenas reflexões sobre a morte

without comments

Ainda assim lutamos para preservar a convicção de que “somos eternos enquanto vivemos”

Pequenas reflexões sobre a morte

A morte não nos convida para uma partida de xadrez como a educada e ponderada Döden da obra Det Sjunde Inseglet (Foto: Reprodução)

É sempre difícil lidar com a morte sem questionar alguns valores que regem a vida. Conviver com a perda é imprescindível, é humano, assim como enfrentar esporádicas crises existenciais em momentos extremos; quando perdemos alguém, por exemplo. Há acontecimentos que fazem o ser humano se questionar, se autoavaliar diante de tudo aquilo que até então lhe parecia pleno porque ele julgava como inconcebível ou até impossível.

É um pensamento que remete à infância quando atribuímos aos nossos familiares e amigos um status de intangíveis, imortais. Queremos sempre que aqueles de quem gostamos sejam eternos, independente das mais estoicas adversidades. Alimentamos essa ilusão como verdade plausível, diuturnamente tangível, até quando na adolescência ou diante de situação inesperada a ideia da finitude nos arrebata pela experiência.

A morte consegue ser menos seletiva do que nossas escolhas. E ela pode ser aparentemente cruel com a nossa ingenuidade, fiel companheira capaz de alimentar e ao mesmo tempo diluir nossa realidade. Ainda assim lutamos para preservar a convicção de que “somos eternos enquanto vivemos”. Precisamos, de fato, tratar quem importa para nós como heróis, sempiternos, pois a morte não é dada a avisos muito claros. Não nos convida para uma partida de xadrez como a educada e ponderada Döden da obra Det Sjunde Inseglet (O Sétimo Selo), do sueco Ingmar Bergman.

É justo e sensato reconhecer que a vida também pode afastar os seres humanos enquanto a morte é capaz de promover uma grande união de reflexões entre pessoas de tantas gerações que se conhecem ou se desconhecem. Humanos das mais diferentes formas, estilos e perfis – que se complementam e se antagonizam. Pessoas são microcosmos como réplicas ou paródias do macrocosmo, dependendo da concepção em voga. Somos tudo ao mesmo tempo que não somos nada.

Mesmo reconhecendo nossa pequenez, não precisamos negar que o fim de quem quer que seja há de abalar o mundo, mesmo que seja um mundo pessoal, onde um diminuto fragmento, mesmo que invisível à maioria, surge sempre que alguém se vai. A morte deixa seus vestígios – uma talisca de luz, sim, ínfima, não geográfica, que resplandece vaporosa sobre quem tem aptidão para notá-la.

Temos a natural necessidade de vivificar quem se foi porque o tributo clama não somente pela paz dos que partiram, mas também por um algo inominado e indefinível que assegure a manutenção da vida e a sanidade dos que ficaram. Acredito também que a morte é um sopro de vida, uma aragem curta, fugaz, tímida e melindrosa que muitas vezes se esforça para ser reconhecida, principalmente quando a ignoramos.

Written by David Arioch

April 7th, 2016 at 4:27 pm

Sonya

without comments

Tudo nela transparecia veraz, uma antítese da artificialidade do mundo de concreto que nos envolvia

Lada, a deusa da beleza e do amor de quem Sonya me falou (Arte: Igor Ozhiganov)

Lada, a deusa do amor e da beleza de quem Sonya me falou (Arte: Igor Ozhiganov)

Sempre achei intrigante conhecer pessoas ao acaso, sem planejamento ou intenção. Parece que tudo flui com mais naturalidade, já que não há preocupação em surpreender alguém. Você se vê em um lugar e começa a conversar sem esperar nada da outra pessoa, nem ela de você. Sem tensão, sem ansiedade, existe apenas o momento que pode ser efêmero ou duradouro – e pode ou não se transformar em outra coisa.
Existe beleza no acaso e talvez ela subsista na ausência de expectativas, no fato de que às vezes você pode estar em um lugar simplesmente por estar, para não se perder nem mesmo se encontrar. Clarificando a introdução, vou relatar uma história a ser levada em consideração.

Um dia, na faculdade, assim que terminei um trabalho, me ausentei da sala de aula. Desci a escadaria do terceiro bloco, passei por um grupo de jovens que conversavam tão alto que o papo ecoava pelo prédio e sentei em um banco em frente ao primeiro bloco. Fiquei em silêncio prestando atenção em tudo à minha volta. Havia pouco movimento no pátio, o que era bem previsível, levando em conta que o intervalo tinha terminado.

Ocasionalmente algumas pessoas passavam por mim, indo em direção a outros blocos. As conversas iam desde maledicências até preocupações acadêmicas. Achei inusitado ver moças tão sobejamente bem vestidas que cheguei a inferir quanto tempo não levaram para se arrumar. Roupas caras, postura altiva, nariz hirto, cabelos perfilados quase que geometricamente endossavam no meu ideário a existência de um mundo fátuo em demasia, que aspira a mais tangível das frágeis perfeições. Era belo e triste. Mas eu não estava ali para avaliar ou julgar, a mim isso não significava muito.

“Que me interessava a forma como as pessoas se vestiam?” Eu que ia praticamente uniformizado para a faculdade, quase sempre de calça jeans, camiseta de banda de heavy metal ou algum subgênero e tênis ou coturno. Enxergava o mundo por entre os cabelos de azeviche que deitavam por minha testa e se aplainavam sobre meus olhos escuros como a noite.

No início do segundo milênio, eu já usava um grande labret spike, um piercing alongado e pontudo que fulgurava entre os lábios e o queixo. Até no escuro ele cintilava e atraía olhares curiosos e antevieiros. Perdi as contas de quantas pessoas se aproximaram de mim ao longo de seis anos para fazer perguntas sobre o dito cujo.

Mesmo depois de tantas abordagens, eu continuava explicando que não machucava, que não era difícil de higienizar, que não doía na hora de colocar. “Mas como você beija com isso? Não é desconfortável?”, questionavam. À época, não era comum encontrar pessoas com tal adorno. E foi justamente por causa desse labret spike que conheci uma italianinha de ascendência russa.

Naquela noite, em frente ao Bloco 1, fazia mais de dez minutos que eu estava sentado no mesmo banco. Saí da sala de aula porque não me sentia bem. Então fiquei lá aspirando um pouco da brisa álgida que a noite homiziava e lançava fortuitamente sobre mim. Junto, trazia um punhado de folhas que se juntavam ao redor de meus pés, formando um tapete mesclado de verde e castanho. O tempo passava, e o verdoengo bálsamo da chuva que só ameaçava se intensificava.

“Hoje ela não vem”, prognostiquei, observando o céu parcialmente límpido que há vários dias confundia os meteorologistas. No momento em que decidi me levantar para ir ao banheiro, uma moça se aproximou. Sua voz soava dulcificada e maviosa, carregada de um forte e desconhecido sotaque: “Isso deve doer, não?”, ironizou sorrindo, mostrando o seu labret de bolinha. Respondi que só dói quando caio de queixo no chão – e sorri com brevidade. Depois indagou se poderia se sentar. “Claro, sem problema…”, falei. Seu nome era Sonya e, para minha surpresa, com ela chegou um subitâneo calor outonal que aplacou o frio noturno em velocidade abismal.

Embora fosse estrangeira, falava português com fluência espantosa. Conversamos sobre música e cinema e, sem demora, o papo se transformou numa flama filosófica e existencialista – recheada de sátiras, aforismos improvisados e comentários bifurcados e sem sentido. O comportamento humano, o sentido da vida e nosso papel no mundo figuravam caricatamente entre os tópicos, assim como a essência do inexistente. “As coisas podem fazer sentido, mas nem sempre precisam, certo?”, “O nada não tem necessariamente que ser somente nada nem mesmo mais do que nada.” “Poder não significa dever, senão a liberdade intelectual morre, e com ela a nossa capacidade de fascinar, não é mesmo?”

“Como alguém pode saber que gosto tem a noite se não for capaz de sorver o seu sabor a olhos fechados, reconhecê-la a partir do seu perfume?” “Não quero ter uma existência mecânica, que não me permita ter tempo para pensar e questionar. Se me render completamente ao trabalho, temo que posso deixar de existir. Talvez em alguns anos não veja mais nada diante do espelho. Terei de amargar o desaparecimento do meu próprio reflexo.” “Ni ni ni ni ni.”

Olhando ao nosso redor, parecíamos dois estranhos, dispersos entre a comédia e o drama de um universo matizado, como aqueles que misturam pessoas e personagens de desenho animado. Éramos nós mesmos – desvelados, sem necessidade de simulação – e aquilo alimentava a nossa humanidade ruidosa em abstração. Tive a mesma sensação de quando se é criança e sai para brincar e fazer o primeiro amiguinho. Em poucos minutos, seus olhos não veem mais estranheza e você percebe a leveza de um contato que no limiar da vida é tão essencial e substancial quanto segurar a mão maternal, sentir o excelso e doméstico calor humano.

Depois daquele dia, continuamos nos encontrando. E meu fascínio e deferência por Sonya evoluía até na proporção de tudo que não dizíamos embora entendíamos. Falar, tão necessário quanto silenciar. A vi como uma dessas raras pessoas capazes de fazer alguém mergulhar dentro de si mesmo para se redescobrir maior, mais vivo, mais leve, mais diáfano, mais livre e outros tantos mais.

Ela irradiava alegria; não do tipo postiça, arrebatadora, efusiva ou imponderada, mas plácida, lídima e mélica como seus cabalísticos olhos castanhos-esverdeados; por si só luzes que iluminavam mais do que qualquer lâmpada em nosso entorno. Seus cabelos triguenhos e longos chispavam como fios de ouro contornando seus traços finos e graciosos, realçando ainda mais sua venustidade.

Mesmo sem batom, seus lábios coravam como morangos frescos e silvestres. Quando sorria, exibindo primorosos dentes níveos, suas covinhas brotavam com doçura, mais bela que a mais portentosa iluminura. Tudo nela transparecia veraz, como uma antítese da artificialidade do mundo de concreto que nos envolvia. Aprendíamos mais sobre a vida e a natureza humana nas entrelinhas de nossos olhos. Não era difícil, se nos enxergávamos um no outro, na completude da espontaneidade.

Numa noite em que não tive aula, nos encontramos em seu apartamento. Fomos à cozinha e a ajudei a preparar piroshki, um pãozinho assado que ela recheava com legumes e vegetais. Comemos e sentamos no sofá para assistir “Ladri di Biciclette”, do magistral neorrealista Vittorio de Sica. Na cena em que roubam a bicicleta do miserável colador de cartazes Antonio Ricci, notei meu ombro direito úmido. Quando olhei para o lado, vi Sonya chorando, com os olhos inflamados e a pele ebúrnea tornada vermelha. Sorri, a cutuquei e com inocência fiz troça de sua sensibilidade à flor da pele. Ela escondeu o rosto entre as mãos miúdas, mudou o cenho e retribuiu me dando dois beliscões.

Ao final do filme, me contou a história de Lada, a deusa do amor e da beleza na mitologia eslava. “Ela possuía atributos parecidos com Freya, Isis e Afrodite. Tinha cabelos longos e dourados. Preferia eles em tranças, com uma grinalda de grãos, o que simbolizava abundância. Mas também podia mudar algo na sua aparência, caso não quisesse ser reconhecida. Lada foi muito popular entre os antigos eslavos porque ela era capaz de substituir o abraço frio do inverno por um calor morno, aprazível”, narrou.

Mais tarde, com a chegada de uma moça com quem Sonya dividia o apartamento, caminhamos até a entrada do elevador, onde nos despedimos com um abraço que durou quase cinco minutos. Moradores passaram por nós se queixando do frio que não sentíamos. Se surpreendiam ao me ver de camiseta, com a jaqueta apoiada no braço direito, despreocupado com o que me aguardava nas ruas. Eu sorria e fechava os olhos, absorvendo o bálsamo orgânico de seus cabelos e os predicados que a vida emanava de seu corpo.

Lá fora, a garoa caía e desaparecia antes de tocar minha pele. Muitos caminhavam rapidamente segurando uma bolsa ou uma pasta sobre a cabeça, com receio das gotículas de água suspensa. A mim, pouco importava. Atravessei alguns quarteirões a pé, com o corpo tão aquecido que nem as rajadas de vento que torciam os galhos mais finos das árvores me atingiam. Sentia os braços calorosos de Sonya em torno de mim, mais macios que lençóis de cetim. Na metade do caminho, o sereno se dissipou e o céu turvo por um instante clareou. Alguns passantes apontaram para o firmamento, onde um rosto feminino em movimento sorria enquanto em primazia se desfazia.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

February 23rd, 2016 at 7:22 pm

Nefaltzi Vallató

without comments

“Reveste-lhe o âmago um mausoléu, nuvens turvas que no decantar de suas lágrimas expropriam o céu”

Nefaltzi Vallató gostava de caminhar fora da colônia (Arte: Pierre-Auguste Renoir)

Nefaltzi Vallató gostava de passar um bom tempo distante da colônia (Arte: Pierre-Auguste Renoir)

Na década de 1910, antes do surgimento das cidades do Noroeste do Paraná, já havia um núcleo populacional a poucos quilômetros da fronteira do Paraná com o então Mato Grosso. Era um lugarejo isolado, mas muito bem organizado e com boa infraestrutura, onde ninguém poderia entrar sem autorização de uma companhia de colonização conhecida como Sulina – O Braço Armado do Norte Sulista. A colônia foi fundada por um grupo de magnatas que tinha como conselheiro um suposto profeta chamado Ausenbaum. O homem defendia que as tradicionais sociedades urbanas definhariam até 1930. Também pregava que o fim do mundo estava próximo.

À época, vivia no povoado um jovem questionador na faixa dos 20 anos e estatura mediana. Seu nome era Nefaltzi Vallató e ele tinha o atípico costume de passar horas do dia em um cemitério clandestino que começava onde terminava a colônia – local em que seus pais foram enterrados dois anos antes, em 1913. Por causa desse hábito, um dia o jovem foi abordado por dois guardas. Um deles sorriu e o cumprimentou. Nefaltzi retribuiu a cordialidade, porém se manteve circunspecto. O mais baixo, um homem chamado Marino, que se dizia um poeta do acaso, chamou-lhe a atenção e o questionou: “Rapaz, sorria! De que adianta nutrir sentimentos negativos na alvorada se é no resguardar da madrugada que a serpente deve ser alimentada?”

Nefaltzi, que desde a morte dos pais nunca sorria com facilidade, respondeu: “Por que ultrajar a verdade? Por que demonstrar emoções inexistentes e obscurecer as verdadeiras? Confuso és, pois dentro de ti reveste-lhe o âmago um mausoléu, nuvens turvas que no decantar de suas lágrimas expropriam o céu. Por que abrir a boca e expor os dentes se for arbitrariedade aos sentimentos?” Impaciente e ofegante, Marino pediu que Nefaltzi virasse de costas. Algemou-lhe as duas mãos e o levou até o pequeno escritório da Polícia Independente de Sulina. No local, o rapaz foi formalmente autuado por desacato. Sileno, o único investigador contratado pela companhia, abriu um inquérito, prevendo que a polícia poderia ser vista como bonapartista.

Vallató preservou o mesmo semblante – de um rosto pictórico, assim que Sileno o inquiriu sobre o desrespeito ao guarda. Sem compreender com clareza, abaixou a cabeça, coçou a palma da mão, se levantou e disse: “Por que muitos cavalgam na luz se sabem que enxergam apenas no escuro? O galope com destino à refração enobrece alguém? Saiba, senhor, não sei onde nasce ou morre a razão, mas acredito que é no ranger dos dentes que se admite a intransigência ou a intemperança”, comentou Nefaltzi que ainda refutou a acusação e perguntou se poderia fazer outro comentário.

O investigador concordou e Vallató discursou: “Se acordas pela manhã e beijas a fronte de seu primogênito, não o faz para congratular-se como benemérito de Lemúria, e sim porque no desabrochar de uma relação o sentimento tenro privilegia a sinceridade, autodoação. Pena que seja limitado e defasado, tanto quanto o princípio da isonomia que, embora registrado na Magna Carta, destoa da realidade em tempos modernos. Penso em nós como selvagens, logo que nascemos e abrimos os olhos, somos impelidos a enxergar o mundo sob a hierarquia de Lupus – somos todos animais engolindo a mesma cauda, a nossa e a dos outros. Antropofagia! É isso que praticamos todos os dias!”

Nefaltzi se calou por segundos, até que o investigador, tornado meândrico, o interrogou sobre a relação de seu discurso com a autuação. Estático, justificou: “Nenhuma! Principalmente se enxergas o mundo como uma extensão do próprio quintal!” Irrequieto, Sileno levantou-se e pediu a ele que o acompanhasse até a sala do delegado Abílio. Foi recebido cordialmente, embora a fisionomia do homem transmutou-se ao saber o motivo da visita. Sileno reclamou que o rapaz se recusava a colaborar durante o interrogatório, então indagou se Abílio poderia cuidar do caso. Apesar da feição carrancuda e da sudorese repentina, o delegado concordou, dispensou Sileno e pediu que Vallató se sentasse.

Com olhar esfíngico, o estudante também interpelou Abílio sobre o motivo da acusação. “Meu jovem, você foi trazido até a minha sala porque temos a melhor das intenções, por que não contribui e ainda faz o possível para dificultar o nosso trabalho?”, queixou-se. Nefaltzi prosseguiu em silêncio, roçou o piso de madeira com a sola do sapato e disparou: “Transgressão, será? Hum…parece-me um aparato ardiloso. Sabes o motivo, não é mesmo? Pois bem, é volátil, não é substancial nem equânime. Eu e o senhor sabemos que a verdadeira transgressão é aquela que mascara o capricho de poucos em detrimento de muitos. Isso me lembra um vizinho que resolveu derrubar uma árvore porque não lhe forrava mais o quintal com bons frutos.”

Irascível, o delegado se retirou da sala e pediu a Sileno que formalizasse o pedido de prisão preventiva. Na noite daquele dia, Vallató foi preso após o parecer favorável do juiz Bacelar. Marcaram o julgamento para a semana seguinte. Nefaltzi rejeitou o direito à defesa. Durante a curta audiência, Bacelar questionou se o jovem tinha algo a declarar, logo que o promotor deu por encerrado o caso. Com a mesma feição peculiar, soergueu-se modestamente, olhou para o juiz e argumentou:

“O que significa ser culpado ou inocente? A culpa pode nascer da inocência, assim como a inocência pode ser rebento da culpa. Creio que dispendem tempo demais com os lacônicos e esquecem dos binômios. De qualquer modo, ficarei grato se o meritíssimo senhor juiz responder a pergunta que farei agora: ‘Por que o homem refugia-se nos ditames da sociedade quando macula a própria integridade com a ignorância da inverdade?’” O magistrado torceu o nariz, não respondeu e anunciou o veredicto. Vallató, que não tinha mais família na colônia, foi condenado a dez anos de prisão. A pena começou a ser cumprida numa área erma e privada situada a sete quilômetros ao leste de Sulina.

No dia seguinte, encaminhado ao seu destino, Nefaltzi teve o dorso amarrado por uma longa corda de cânhamo que o desceu até a Boca Apuara, um buraco com cinquenta metros de profundidade, úmido e sobrenaturalmente oxigenado, o que evitava que os transgressores morressem asfixiados. Quando Vallató foi deixado na Apuara, não havia nenhum outro condenado vivendo ali – estava sozinho. Nos primeiros meses, Marino e alguns amigos do rapaz percorriam o trajeto a pé até chegarem ao local. Lá, gritavam-lhe o nome e pediam que recostasse à lateral direita para não ser machucado pelo atrito com os alimentos lançados ao buraco.

Desde a condenação, Nefaltzi nunca mais falou, embora ao longo das visitas sinalizasse que estava bem, entoando sons primitivos com o auxílio de uma ocarina que carregou escondida no bolso no dia da transferência. Três anos depois do confinamento, ninguém mais se lembrava dele. Por eventualidade, um rapaz, Titu Csendes, que há muito tempo deixou a colônia com a família, retornou para ver de perto a situação do amigo. Csendes, ao gritar em vão durante horas diante da Boca, ficou desesperado e resolveu pedir ajuda no escritório policial e na sede administrativa de Sulina. Enviaram três guardas. Um deles desceu até o buraco e se assustou ao encontrar Nefaltzi morto, com o corpo sujo pelo solo vermelho.

O guarda se surpreendeu com a pouca profundidade da Apuara. Depois que retiraram o cadáver, usaram um enorme rolo de fita métrica para mensurá-la. A Boca de cinquenta metros estava com menos de quinze. Houve grande comoção e espalhou-se pelo lugarejo um boato de que o mundo chegaria ao fim em poucos dias. Antes do enterro de Nefaltzi Vallató, ninguém percebeu que o interior da sua boca tinha vestígios de terra vermelha. Do lado de seu corpo, antecipando o próprio fim, o jovem escreveu uma frase usando a face da pequena ocarina: “Alimento-me da boca para a qual servi de alimento.” Ninguém entendeu ou se importou.

Curiosidade

Quando comecei a pesquisar sobre a história de Paranavaí em 2006, há dez anos, escrevi o meu primeiro conto inspirado no tema – “Nefaltzi Vallató”. Hoje, depois de tanto tempo, o divulgo pela primeira vez.

O destino de Dora

without comments

Um dia, não suportou a pressão e caiu desmaiada no piso gelado da sala de trabalho

Dora

Se recusando a receber qualquer tipo de visita há meses, Dora decidiu aliviar a própria dor cometendo suicídio com chumbinho (Arte: Leisa Collins)

Eu e Dora nos conhecemos no início de 2008, após o falecimento de seus pais em um acidente na BR-376. Ela tinha 23 anos e trabalhava em uma dessas centrais de teleatendimento há três anos. Após a tragédia, em vez de se preocuparem com a moça, todos os familiares se afastaram. Na mesma época, fui demitido de supetão do jornal porque a editoria em que eu trabalhava foi extinta logo após o editor se demitir.

Mas já fazia um bom tempo que eu e Dora nos encontrávamos para conversar, divagar e relatar planos. Inspirado na obra “Dublinenses”, de James Joyce, o meu era usar o dinheiro da demissão para viajar pela Irlanda. Para ser mais preciso, assistir shows da banda de post-rock God Is An Astronaut e anotar em um caderno tudo que eu via de interessante sobre o comportamento humano no Velho Mundo e sua relação com o tempo e o ambiente. Não queria trabalhar, somente vagar até o dinheiro acabar.

“Quero me distanciar para ter a chance de renascer. O ser humano precisa mudar de tempo em tempo senão pode enlouquecer ou se tornar algo até pior – um sujeito resignado”, comentei com Dora que sorriu enquanto batia levemente as pontas das unhas purpúreas sobre a mesa maciça e rústica do bar. Ela se calou por alguns instantes, observou o céu estrelado, apontou a imensa lua com uma de suas delicadas mãos, abaixou os olhos amendoados, os levantou novamente e disse: “Cara, eu tenho leucemia…”

Fiquei sem reação. E acho que nada que saísse de minha boca naquele momento a confortaria. Então simplesmente recobrei minha expressão serena, fixei meus olhos nos olhos dela e dei cinco toquinhos em sua mão esquerda que repousava sobre a mesa. Ela entendeu e sorriu, sem também dizer palavra. Percebi que Dora não queria conversar sobre a doença, somente compartilhar com alguém uma revelação que não teve coragem de contar a mais ninguém.

Mais tarde, a levei até sua casa e fui embora pensando em como sua situação era delicada. Eu que já tinha perdido meu pai para o câncer em 1997, nunca mais consegui encarar a doença como algo menos do que implacável. Ela usurpa do ser humano muito mais do que a própria vida – aniquila sua dignidade. É a reafirmação de nossas fraquezas, do fim, da efemeridade.

Nos encontramos por mais dois meses, até que um dia, conversando pelo celular, ela sugeriu que não nos víssemos mais. Acabei respeitando sua decisão, compreendendo a delicadeza da situação. Ela já não ligava mais a câmera durante as conversas na internet. Também ocultava a foto do perfil. A questionei uma vez sobre isso e me arrependi. Eu já não a via mais nem por acaso. Talvez ela tivesse tomado a decisão de sair de casa somente a trabalho.

Ainda assim, sei que teria me sentido o mais mesquinho dos homens se partisse para minha jornada errante joicyana. Desisti da viagem para a Irlanda e comecei a escrever sobre Dora. Ainda conversávamos com bastante frequência e pedi que me relatasse sua rotina. No trabalho, ela não contou a ninguém sobre o diagnóstico da doença e continuou vivendo como se não tivesse nenhum problema de saúde. Provavelmente eu era a única pessoa que sabia da leucemia. Olhar para mim talvez fosse o atestado da soma de suas fragilidades.

Nunca a questionei se ela se arrependeu de ter me contado sobre a doença, mas comecei a perceber que se sentia mais vulnerável diante de mim. No celular, sua voz doce se amofinava cada vez mais, combalida pela constante contradança de emoções. Às vezes, aflita e aturdida, me ligava de madrugada. Eu mal ouvia sua respiração ofegante e ela desligava arrependida. Sua sensibilidade se acentuava a cada dia – à flor da pele.

No trabalho, não havia trégua e ela não queria de jeito nenhum assumir publicamente a leucemia. Os clientes que ligavam para a central de atendimento se queixando dos serviços oferecidos, pouco se importavam com a vida ou o estado emocional de quem estava do outro lado da linha. “Você é retardada, minha filha? Sua jumenta! Quero o meu dinheiro de volta! Não vou pagar por um serviço que não usei!”, gritou um homem, afirmando que era juiz e prometeu fazer o possível para vê-la demitida, caso seu problema não fosse resolvido.

As ofensas diárias dos queixosos se intensificavam cada vez mais. Num período de três horas, Dora era agredida verbalmente por até 20 clientes. Insatisfeitos, descontavam na moça a cólera em decorrência de problemas pessoais, profissionais e falhas que estavam muito além de sua função. “Escute aqui, querida! Sou médica, está me ouvindo? Estudei muito pra chegar onde estou e não vai ser uma qualquerzinha do teleatendimento, um trabalhinho sujo desse, pra gente burra e desqualificada, que vai tirar vantagem de mim!”, esbravejou uma mulher que disse ser parente de um deputado.

Um dia, Dora não suportou a pressão e caiu desmaiada no piso gelado da sala de trabalho. Estava pálida, com os lábios arroxeados e suava frio. Tirou a tarde de folga e foi para casa. Entrou no quarto, sentou na cama e observou o próprio reflexo no espelho oblongo. Não conseguia sentir-se bonita como antes e começou a chorar, assistindo as lágrimas percorrendo as covinhas transformadas em fendas após a perda acentuada de peso. Lá se foram dez quilos, seus cabelos perdiam volume rapidamente, e quase ninguém sabia o que estava acontecendo com Dora – embora corressem boatos, muito maldosos.

“Ela era tão linda! Que corpo que ela tinha, hein? Lembra das covinhas? Um charme! Será que sofre de anorexia nervosa? Um desperdício! Não tem mais coxas, bunda…nada!”, comentou seu chefe com um colega de trabalho, sem notar a presença de Dora que ouviu tudo quando estava indo ao banheiro. Sentada sobre o vaso, Dora levou as mãos ao rosto. Se esforçou para chorar, só que não restavam lágrimas. Estava esgotada e sentia-se constantemente desidratada, mesmo se empenhando em beber bastante água.

Inclinou o corpo para frente e pediu, com voz diminuta e vacilante, que Deus a levasse o mais rápido possível se o seu destino fosse a morte. Para ela, nada superava a dor causada pela ignorância e insensibilidade humana. Sair de casa se tornou um exercício tortuoso de enfrentamento das piores adversidades.

Até mesmo na rua, desconhecidos a olhavam como se não estivessem diante de um ser humano, mas sim de algo diferente, inominado. “Mãe, por que aquela moça é tão magra?”, perguntou uma garotinha de dez anos. “Sei lá, filha! Pela cara dela, deve tá com Aids”, respondeu a mulher instantaneamente, crente de que a distância era o suficiente para impedir que ela ouvisse a resposta.

Dora pediu demissão do trabalho como operadora de teleatendimento antes de começar o tratamento de quimioterapia. Se fechou dentro de casa, sobrevivendo de economias e se comunicando com o mundo e as pessoas somente através da internet e do celular. Também abandonou o tratamento. Não saía mais nem para ir ao mercado.

Não conseguia distinguir dia e noite, principalmente quando passava muitas horas deitada na cama, dormindo ou olhando para o teto branco que ganhava formas incertas de acordo com o sentimento predominante. “Não vou mentir, Dora. A verdade é que você tem de seis meses a um ano de vida”, revelou o médico oncologista com subitânea naturalidade.

Se recusando a receber qualquer tipo de visita há meses, Dora decidiu aliviar a própria dor cometendo suicídio com chumbinho. Comprou o produto pela internet para não precisar sair de casa. Pagou frete por sedex e aguardou a chegada. Ouviu alguém batendo palmas, abriu a porta e pela primeira vez em mais de 50 dias sentiu o sol tocando seu rosto níveo. Era morno e lhe afagava as finas maçãs. O céu estava tão claro que ela observou com atenção uma revoada ruidosa e amorável de bem-te-vis.

Caminhou até o portão, pegou o pacote da mão do carteiro e antes de entrar em casa observou um cãozinho preto e silencioso, com poucos dias de vida e o umbiguinho pardo virado para cima. Foi abandonado ao lado do vaso bege de íris, o preferido de sua mãe. Dora se surpreendeu com a resistência do espécime que crescia vistoso e fúlgido apesar do abandono.

Assim que abriu o pacote, quebrou o lacre do chumbinho e foi até a cozinha buscar um copo de água, o telefone tocou. “É a senhora Dora? É aqui do laboratório. Estamos ligando para avisar que precisamos que venha aqui com urgência. Descobrimos erros graves nos seus exames. A senhora nunca teve leucemia, apenas anemia.”

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

January 31st, 2016 at 4:39 pm

Tudo que sei é baseado em verdades parciais e fragmentos

without comments

Tenho certeza de pouco ou quase nada (Arte: Linarie Art)

Tenho certeza de pouco ou quase nada (Arte: Linarie Art)

Tudo que sei é baseado em verdades parciais e fragmentos que se acumulam, se aglutinam, se contrapõem, se aproximam e se distanciam, num sempiterno exercício em que o raciocínio interage com a sensibilidade. Tenho certeza de pouco ou quase nada.

Na realidade, minhas dúvidas se multiplicam todos os dias. Nada ecoa mais pela minha mente do que as incertezas. Quem se vê sábio, pouco se abre para o conhecimento na sua forma mais livre. Hoje a vida me ensina isso muito mais do que na adolescência ou princípio da fase adulta.

Reconheço minha fragilidade e até a vejo como uma suposta qualidade porque sei que é exatamente a insegurança com relação ao conhecimento que leva o ser humano a ser mais ponderado e menos pernóstico. Por isso que sempre que alguém tem algo a dizer, mesmo que seja um analfabeto, já que sabedoria independe de educação formal, prefiro me calar do que falar.

Written by David Arioch

December 31st, 2015 at 11:54 am

Benílio, um tipo de Verlaine travestido de Rimbaud

with 2 comments

Como se feito de ironias, Benílio era visto por mim como um sujeito vivendo um paradoxo existencial

Benílio, que não aparece na foto, frequentava o Projeto Mais Cinema na Casa da Cultura (Foto: Amauri Martineli)

Benílio, que não aparece na foto, participava das discussões do Projeto Mais Cinema na Casa da Cultura (Foto: Amauri Martineli)

Já passei por situações muito incomuns e estranhas na minha vida e hoje vou relatar uma delas. Em 2008, comecei a coordenar um projeto de cinema na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade. O público era modesto, mas bastante participativo, tanto que com o tempo estreitei contato com os frequentadores mais assíduos. Afinal, tínhamos em comum o amor pelo cinema e o interesse em discutir sobre o tema. Os encontros ocorriam às quartas-feiras, quando exibíamos algum filme fora do circuito comercial. Ao final, eu fazia uma análise e em seguida abria espaço para o público fazer perguntas. Foi assim até 2013. Era gratificante ver que até pessoas de outras cidades gostavam do projeto.

Em 2010, um rapaz a quem chamo de Benílio, para preservar a sua identidade, compareceu ao Mais Cinema. Na primeira vez em que participou, se mostrou bastante atento ao filme, a discussão e tudo que o cercava. Basicamente, um sujeito tranquilo, questionador, com bons argumentos e um humor sardônico. Algum tempo depois, Benílio começou a sumir e ressurgir durante as sessões de cinema. Parecia agitado e incomodado, o que contrastava com tudo que notei anteriormente sobre seu comportamento. A expressão ponderada, o olhar quiescente, foram substituídos por uma agitação frequente que o fazia se levantar da poltrona como se o estofamento estivesse dominado por percevejos.

Às vezes mudava de poltrona, até que sem observar lado algum abandonava o local com pressa, coçando os olhos com tanto vigor que mesmo ao longe dava a impressão de que o objetivo era esmagar o globo ocular com pontadas de dedo. Apesar disso, Benílio continuou frequentando o projeto. Sorridente e trocista, aparentava ser mais jovem do que realmente era. Andava sempre à vontade; de camiseta, bermuda e tênis ou sandálias. Mas ostentava um olhar amaneirado para compartilhar com pessoas de quem desgostava. Como se feito de ironias e de uma acidez vocabular inconstante, Benílio era visto por mim como um sujeito vivendo um paradoxo existencial.

Assim como na Gioconda de Da Vinci, seus olhos eram como uma antítese do sorriso, o que relevava mais intransparência e ardil do que insegurança. Com naturalidade dúbia, despertava reticência, principalmente sobre suas intenções e elucubrações durante as conversas. Jupiteriano, pouco se importava em transmitir clareza quando não simpatizava com alguém. Na realidade, fazia até questão de minar a conversa para afastar o interlocutor. Afeiçoado à arte clássica, ele desprezava com poucas ressalvas a arte contemporânea.

Por volta dos 20 anos, Benílio abandonou o curso de medicina da Universidade Federal do Paraná, mais tarde sendo relegado à pária por colegas, amigos e até familiares. Não se importava com as convenções sociais e as postulações de um mundo em que se deve viver sob a égide cronológica dos deveres. Parecia-lhe um despautério a ideia de que o ser humano deveria se limitar a estudar o suficiente para conseguir um bom trabalho, se casar, ter filhos, netos e falecer; assim não fazendo mais do que uma formiga obreira que percorre o chão nu transportando alimentos em horários estratégicos.

Seu nível de inteligência e cultura estava muito acima da média, o que era endossado por décadas mergulhado em livros, música e outras formas de arte. Um dia, me relatou alguns de seus conflitos amorosos com uma jovem com quem rompeu relacionamento de longa data. “Eis uma perda de tempo, uma relação que minora a alma em vez de alongá-la”, dizia. Em complemento e observação, citei que todo o nosso saber se reduz a aprender a renunciar nossa existência para podermos existir, segundo um aforismo de Goethe.

Ocasionalmente, Benílio me pedia carona na saída da Casa da Cultura. O deixei algumas vezes no cruzamento da Rua Manoel Ribas com a Avenida Paraná, no centro de Paranavaí. À época, eu dirigia ouvindo uma banda romena de rock chamada Travka que curiosamente falava de conflitos de identidade, do recrudescimento humano e da minoração da sensibilidade. Enfim, existentialisme par l’existentialisme.

Notei mais tarde que o rapaz era emocionalmente inconstante e por isso consumia com frequência medicamentos controlados. Solitário, tinha um pai aventureiro que há muito tempo se mudou para Rondônia. A mãe, com quem também pouco convivia, recebia visitas esporádicas do filho no Jardim Santos Dumont. Benílio morava sozinho em uma velha pensão na Rua Amapá, onde dividia o espaço com os mais diferentes personagens marginalizados. A maioria, pessoas que percorriam sob os ditames da penúria um chão de paralelepípedos tão maciço quanto a dor da invisibilidade velada por um sorriso frugal.

Um dia, eu corria pela Avenida Lázaro Vieira, no Jardim Progresso, quando ouvi Benílio me chamando. Olhei para o lado, ele sorriu e se aproximou de mim. Relatou que estava estudando Programação Neurolinguística (PNL) porque acreditava que as ações humanas são motivadas pelas próprias experiências, não pela realidade em si. “A mente e o corpo formam um sistema que a PNL ajuda a harmonizar, estimulando novas formas de pensar, sentir e agir. É um meio de minimizar conflitos entre o corpo e a mente”, comentou.

Na semana seguinte, após mais uma sessão do projeto Mais Cinema, Benílio pediu que eu o deixasse na Praça dos Pioneiros. Eram quase 23h, ele desceu do carro e começou a caminhar sozinho em torno da praça, sem se enfastiar com a solitude e a frágil iluminação precária e açafroada dos postes que atraíam somente insetos. Andou alguns metros e desapareceu no meio da quadra na outonal escuridão enevoada. Ignorava lados e direções, despreocupado em ser expulso da própria introspecção por sacomanos, ladrões, delinquentes ou vadios.

Como já fazia parte da minha rotina percorrer a cidade a trabalho, vez ou outra eu o via vagando sozinho pelos mais distantes pontos da área urbana. Nunca perguntei o que fazia. De qualquer modo, não era difícil perceber que Benílio não se importava em ignorar pessoas e deixar claro que sentia ojeriza pela superficialidade. Demonstrava grande amor por muitas conquistas humanas. Em contraponto, nutria indiferença e desgosto por tanta gente. Julgava o mundo como tornado doente e usava isso como justificativa da pontual ausência de empatia.

Uma vez, há alguns anos, eu e meu amigo Sobhi Abdallah fomos até a casa da mãe de Benílio, onde ele estava hospedado enquanto ela viajava. O objetivo era conversar sobre o roteiro e a pré-produção de um documentário baseado na vida de um eremita conhecido como Negão do Surucuá. Entre tereré e palavras, a tarde até que rendeu bem. Dias depois, Benílio me ligou avisando que precisávamos discutir novamente sobre o roteiro. Segundo ele, a reunião também havia sido acertada com Abdallah e meu amigo Amauri Martineli.

Quando cheguei ao local, estacionei o carro e estranhei que não havia nenhuma movimentação na varanda. De repente, Benílio gritou, pedindo que eu entrasse. Lá dentro, perguntei sobre os outros convidados e ele mentiu afirmando que eles não puderam comparecer. Após minutos, o rapaz se aproximou e me convidou para tomar café. Assim que coloquei os pés na soleira, perguntei o que ele estava preparando. “Não estou preparando nada. O café somos nós dois!”, comentou com naturalidade enquanto penetrava a massa escura de um pão preto com uma longa faca de cozinha. Em seguida, me observou atentamente os olhos, revelando um sorriso narcísico e pela primeira vez naturalmente mórbido.

Me afastei de Benílio, que não reconheci naquela figura tétrica e medonha. Contrariando todas as minhas possibilidades de reação diante de situação tão imprevisível e espantosa, expliquei tranquilamente que iria até o carro buscar o pré-roteiro do documentário. “Já volto. É rapidinho!”, argumentei sem titubear. Ele assentiu com a cabeça e continuou na cozinha. Caminhei a passos curtos e pesados, enojado, sentindo meu olhos queimando e minhas mãos suando. O enorme portão parecia a quilômetros de distância e suspeitei até que Benílio poderia tê-lo trancado. Então me preparei para saltá-lo se necessário. Questionei até se ele não teria deixado ao alcance das mãos uma arma de fogo, caso eu fugisse. Por bem, consegui abri-lo e lá fora senti o sol em todo seu esplendor me revigorando, me banhando com sua energia imperecível.

Por segundos, meus sentidos ficaram mais aguçados do que nunca. Ouvi cães latindo, mãe empurrando carrinho de bebê, homem estacionando carreta e duas crianças brincando de pular corda. Assim que entrei no carro, virei a chave e ouvi o som do motor, meu coração desacelerou. Parti com a sensação de que apesar de tudo o mundo ainda era o mesmo e estava lá para lucilar diante de meus olhos escuros. Nunca mais vi Benílio. Fiquei sabendo apenas que, assim como um tipo peculiar de Verlaine travestido de Rimbaud, foi embora para Rondônia tornar-se desbravador de coisa alguma.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





O amor e a romã

with 2 comments

Jamais entendi como o amor, tão colorido simbolicamente, poderia ter compleição tão funesta

Eu nos tempos de amizade com Seu Onofre (Foto: Arquivo Familiar)

Eu nos tempos de amizade com Seu Onofre (Foto: Arquivo Familiar)

Ao longo da vida, sempre ouvi alguém dizendo que o amor, confundido com paixão, é arrebatador, como se feito de fagulhas de insipiência. Quando chega até você o cega e o torna avesso ao juízo e à razão das coisas serenas. O consome de forma inesperada, deixando os lábios ressequidos como chão tracejado pela estiagem severa. Quantas histórias conheci de suicídio por amor; pessoas saltando de prédios, lançando carros contra árvores, se enforcando, consumindo estricnina e atirando contra a própria cabeça. Jamais entendi como o amor, tão colorido simbolicamente, poderia ter compleição tão funesta.

O amor não deve ser como o luto, um manifesto de pesar. Nem merece ser relacionado à morte se abarca na sua essência os destemores da luz. O coração que ama em abnegação só obscurece quando deixa de bater, este sim fato irremediável do nosso epílogo. Mas enquanto vive é corado e robusto como uma manga colhida em março. Está além do bem e do mal. O amor é belo na literalidade, na pureza de sua semântica. Nem por isso unilateral ou menos distorcido e depreciado por imperícia, fabulações e desconstruções de sentido.

Não que não haja dor no amor, afinal ela é inerente à vida e nos envia iterados sinais de que o sofrimento também dignifica a existência; ensina que somos pechosos, frágeis e efêmeros como todos os seres que habitam a Terra. Porém, um sentimento torna-se nocivo somente se assim o permitirmos. Pelo menos é o que me mostra a vida desde que comecei a reconhecer o seu enredamento e profundidade.

Com não mais que sete anos, eu morava com meus pais e irmão em uma velha casa na Rua Pernambuco. À época, uma parte da população de Paranavaí ainda tinha o costume de realizar velórios na sala da própria residência. Um dia, do outro lado da rua, a pouco mais de 50 metros de casa, caminhando e passando os dedos da mão direita pelo muro pintado com cal, parei em frente a um portão onde vi e ouvi pessoas num choro tacanho, conversando e coçando os olhos.

Estavam ao redor de um caixão preto tão lustroso que parecia um sapato desmesurado recém-engraxado. A sala era pequena e as pessoas, dependendo da estatura, quase roçavam o umbigo e o peito na cabeça da falecida para chegarem ao banheiro. Por causa da distância, eu não conseguia ver seu rosto coberto por um tecido níveo que mais lembrava um véu de noiva. Sabia que era mulher porque ouvi alguém dizer que a finada era a Dona Estela. “Ué, tão enterrando ela com pano de festa?”, me perguntei num rompante de espontaneidade e singeleza.

Na manhã seguinte, quando saí pra comprar pão, encontrei Seu Onofre, marido de Dona Estela, caminhando a passos lentos, rindo sozinho, e sem apontar os olhos para nada que o cercava nas imediações de uma padaria na Avenida Distrito Federal. Parecia num transe solene e talvez disparatado na concepção de alguns. Me aproximei, o cumprimentei, e num ato tipicamente irrefletido de criança, questionei: “Seu Onofre, por que o senhor tá rindo se sua mulher morreu ontem?”

Então ele continuou em silêncio por três ou quatro segundos enquanto me observava e ajeitava o penúltimo botão superior de uma camisa florida, dessas que os aposentados usam quando saem de férias para um paraíso tropical. Sua tez e seus olhos reluziam tanto que eu podia ver o meu pequeno reflexo distorcido nas suas pupilas amendoadas e aveludadas.

“Olhe, David, você ainda é muito criança, não sei se vai entender, mas vou lhe revelar um segredo. Não me sinto feliz, só que me comprometi em reencontrar um novo sentido na minha vida. Antes de Estela falecer, ela sabia o quanto eu era dependente dela. Ela foi minha primeira e única companheira por mais de 40 anos, desde a adolescência. Então sabe o que ela fez quando ficou doente e lhe contaram que não viveria por muito tempo? Não se lamentou. Tirou um caderninho de dentro do criado-mudo, pegou uma caneta e planejou minha vida, meu dia a dia pelos próximos cinco anos. Ela sempre soube que sou relaxado. Disse que era pra eu seguir direitinho, assim não me sentiria perdido. Se antes eu conseguisse recomeçar uma nova vida, eu poderia abandonar o caderninho. Senão, bastaria reiniciar as tarefas. O primeiro dia é hoje. Dê uma olhada!”

Peguei o caderninho com as duas mãos e lá estavam as primeira sugestões. “Querido Onofre, meu grande amor, se levante amanhã, tome um bom banho, vista a camisa florida que está no primeiro cabide, a bermuda bege da segunda gaveta e as sandálias castanhas que estão na primeira fileira da sapateira. Vá até a padaria caminhando vagarosamente e sorria. Lembre-se da primeira vez que nos vimos, de quando nos casamos, de quando Laurinha nasceu. Não deixe de sorrir, mesmo que as pessoas o julguem. Ignore toda a negatividade. Mais cedo ou mais tarde esse exercício há de contagiar o seu coração, transformando a dor em uma nova forma de amor.”

Devolvi o caderninho e caminhamos até a padaria. Lá, me pagou um doce e uma sodinha. Preservou o sorriso a maior parte do tempo, inclusive quando me relatou as dificuldades que passaram nos anos 1950 em Paranavaí. “Nossa casinha era praticamente um ranchinho. A gente não tinha geladeira, então só podia comprar alimento que não estragasse rápido. Éramos jovens, muito jovens, só que felizes num lugarzinho no meio do mato”, disse, já com os olhos marejados.

Na volta, notei que durante o trajeto Seu Onofre acariciava com esmero a aliança na mão esquerda. Havia um silêncio morno e abafado como o de um escafandro que se misturava aos sons de motos, carros e caminhões atravessando a Avenida Distrito Federal. De repente, a rescendência desconfortável daquela fugaz amostra de poluição foi ofuscada pela olência uniforme e sutil de um buquê de lírio azul transportado a pé por uma jovem funcionária de uma floricultura. “Era a preferida da Estela. Ela chamava de Xodó Azul”, comentou Seu Onofre num riso lacônico.

Em frente ao portão de sua casa nos despedimos. Quando eu estava me afastando, gritou meu nome e pediu que eu o aguardasse. Logo voltou trazendo nas mãos de palmas rosadas uma porção de romãs colhidas no quintal. “Que nunca falte amor na sua casa, assim como nunca faltou na minha”, falou com um lhano sorriso. Continuei visitando Seu Onofre até 1993, quando morávamos no Jardim Progresso. Com o tempo, minha rotina mudou e a dele também, até que perdemos contato.

Um dia, em 2002, recebi uma carta assinada pela sua filha Laurinha que vivia em Curitiba há mais de 15 anos. Achei até que a correspondência foi enviada por engano, pois já não me recordava dela. Quando abri o envelope, encontrei sementes de romã, trazidas da Palestina, e uma pequena carta. “Meu querido e bom amigo David, o que morre hoje, renasce amanhã, desde que o coração assim o aceite. Saiba que nem mesmo o Mar Morto conseguiu ofuscar o perfume das romãs que irradiavam até Jericó”, escreveu Seu Onofre.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Os Olhos de Ivad

without comments

Quando dormia, sentia-se sempre nos confins de sonhos ilógicos, estáticos e inalterados

"Não preciso existir em um lugar, mas junto de alguém" (Pintura: Leonid Afremov)

“Não preciso existir em um lugar, mas junto de alguém” (Pintura: Leonid Afremov)

Por muito tempo, Ivad foi um ser nostálgico, embriagado em um lago de devaneios impessoais que canibalizavam sua pessoalidade. Pueril, demorou a perceber sua capacidade de observar o mundo com seus próprios olhos. Quando dormia, sentia-se sempre nos confins de sonhos ilógicos, estáticos e inalterados. Pela manhã, acordava questionando-se sobre o motivo pelo qual os seres humanos adotavam para si a ideologia de outrem, mesmo sem a certeza da crença em algo.

Questionava se apenas rememoravam a insipidez da crise existencial ou também mercantilizavam a própria imagem. Divagava tanto que logo surgia uma súbita dificuldade de enxergar. Seria o primeiro sinal de catarata ou glaucoma? Nada disso, era Ivad emocionado. Sentado sobre o galho de uma árvore, banhava-se em lágrimas e, apático, logo sucumbia diante das agruras da realidade humana. Vivia assim, caindo e levantando; monologando e refletindo sobre a condição existencial dos humanos.

Quando completou 24 anos, Ivad, insatisfeito e repleto de dúvidas sobre o comportamento humano, resolveu fazer sua primeira viagem longe do clã dos Choira. Conscientes de que o jovem Ivad deveria conhecer vários mundos, diferente daquele com o qual se acostumara, os anciãos o apoiaram em sua jornada, mas exigiram que ele aceitasse a companhia de Ainos, uma jovem da mesma idade. Os dois partiram em uma madrugada de lua nova, quando o entristecer das pradarias foi reconfortado, mais adiante, pelo despontar de girassóis em tons tão purificados que pareciam envoltos por nimbos.

Ivad, de aspecto sorumbático e olhos acinzentados, caminhava calado. Ainos, o contraponto de feições gentis e olhar vivificado, o observava constantemente, tentando encontrar em alguma expressão singela a informação que pudesse cristalizar uma ponte de comunicação entre eles. Ivad temia dividir suas dúvidas e curiosidades com a companheira de viagem. Para ele, mesmo que pertencessem a um mesmo mundo material, ela ainda era-lhe como alguém de outra espécie. Ainos o percebia distante, mas sentia-se impelida a saber o que tanto Ivad procurava e por que era-lhe tão importante.

No terceiro dia da jornada, Ainos, estarrecida pelo silêncio de Ivad, decidiu questioná-lo. “O que procura em outros mundos que não existe no seu? Não temes o ardil de seus olhos? Somos reféns deles, podem tanto clarear quanto obscurecer nossas vidas e nossos sonhos. Se abri-los demais, pode se ferir com o argueiro de outra realidade. Mas, também, se não abri-lo, há de enxergar apenas o mundo semeado em seu interior.”

Ivad, então, dialogou pela primeira vez durante a viagem. “Na minha busca não há certezas, apenas incertezas. Mas preciso ir além do meu universo simbólico para conhecer a verdade dos relatos que me fizeram sobre os humanos. Realmente dividem características de deuses e demônios? A mais pura metáfora da incoerência mundana? “, perguntou com expressão tímida. Ivad quis observá-la melhor tanto quanto quis desviar a profundidade de seus olhos – anseios paradoxais.

No oitavo dia da jornada, Ainos fez um comentário que surpreendeu Ivad: “Percebes que o interesse de alguém por algo pode torná-lo parte do que procura, do seu próprio interesse? Tudo depende da intensidade, e não do seu valor positivo ou negativo. Um ser confunde-se com outro quando a curiosidade chega a torná-lo avesso à sua própria natureza.” Ivad, acostumado ao ostracismo, decidiu não refugiar-se em seus receios.

“Talvez tenha razão. Quem sabe minha preocupação com os humanos tenha nascido de um tácito anseio de tornar-me um. Ou melhor, uma razão desconhecida para existir; algo que me fizesse crer que sou real, e ao mesmo tempo destribalizado, diferente de meus semelhantes. Para ser sincero, não dá para afirmar que essa foi minha única intenção. Isso porque também sou ilusão; uma oferenda a mim mesmo quando faço uso do açoite psicológico”, disse Ivad, sentindo-se vulnerável.

A natureza de Ivad intrigava Ainos que jamais encontrara alguém tão peculiar. Tais existências antagônicas eram como peças que dão sustentabilidade a uma ponte que liga dois universos esculpidos dentro de um. No décimo dia de viagem, quando chegaram à entrada do mundo dos humanos, Ivad olhou para Ainos e hesitou. Deu três passos para trás e ela o acompanhou com olhos marejados. Aproximou-se dele, encostou sutilmente a mão em seu ombro e perguntou com voz trêmula: “Vai desistir de sanar suas dúvidas? Encontrar respostas para as questões que o incomodam? Vai abandonar o sonho de adentrar a realidade dos humanos?”

Ivad não desviou os olhos de Ainos. Deu o seu primeiro sorriso sincero, embora acanhado, e explicou:

— Agora percebo por que a designaram para me acompanhar. Não foi coincidência ou receio de que eu pudesse não retornar, muito pelo contrário. Vejo agora o quão confuso estive; não procurava ninguém, a não ser a mim mesmo. Por um artifício de ingenuidade, decidi vagar para encontrar meu espaço entre os mundos. Tolice de minha parte acreditar que precisaria ir tão longe para sentir-me vivo. Agora ouço a minha respiração. Ela acompanha a sua voz. Não preciso existir em um lugar, mas junto de alguém; uma existência que complementa a minha e para a qual eu também sirva de extensão. Algo como o encontro das águas de dois rios que antes do poente entrelaçam-se dignificando uma existência-mor. É assim que todos os seres sensíveis e pensantes sobrevivem, não enaltecendo a grandiosidade da própria sapiência, mas encontrando-a e ampliando-a na experiência partilhada com o outro.

Naquele dia, Ivad desistiu de continuar a viagem, mas descobriu, no cerne de sua existência, curiosamente despertada por uma pessoa que não a si mesmo, motivo para iniciar uma nova jornada, sem hesitações ou receios. “Não preciso mais conhecer o mundo dos humanos, pois sei que dentro de mim não habita apenas uma espécie, mas o sincretismo de todas aquelas que, embora imperfeitas, resplandecem sob o manto da Terra”, afirmou.

Os Olhos de Ivad foi escrito e publicado pela primeira vez em 2008.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

August 16th, 2015 at 10:39 am

O mundo seria um lugar melhor sem religiões?

without comments

Não há como afirmar que o homem não encontraria outros meios de segregação que compensassem a ausência religiosa

Segregação cresce a cada ano e reforça sua posição multifacetada (Imagem: Irdeb)

Conversando sobre dialética com um amigo, ele me fez uma pergunta interessante. “Você acha que o mundo seria um lugar melhor sem religiões?” Respondi que acho que seria diferente, não sei se seria melhor. Então pediu que eu explanasse o que penso. Bom, o ser humano é segregacionista por natureza. A partir do momento que nasce, ele é instantaneamente inserido em um contexto social, logo se torna parte de um meio. Sendo assim, tudo que ele faz, de algum modo, tende a incluir e ao mesmo tempo excluir pessoas. Na realidade, todos nós somos segregacionistas.

Há um equívoco muito grande quando se fala em segregação e logo se pensa em preconceito racial ou mesmo racialismo. Vai muito além disso. Até mesmo quando defendemos boas causas somos segregacionistas, pois levamos em conta nossas preferências, conhecimento e experiências de vida para definir o que merece e o que não merece a nossa luta e o nosso tempo. Claro que isso não deve minimizar o esforço de ninguém, mas obviamente merece uma reflexão.

No fundo, o que fazemos é isso, segregar pessoas, sob os mais diferentes aspectos. Temos uma tendência nada equitativa de uni-las e ao mesmo tempo separá-las. Vou citar um exemplo bem simples. Em algum momento da vida, quando alguém convida uma pessoa para fazer parte de um grupo, é possível que se perceba somente o lado positivo, a integração. Na contramão, você também pode estar trazendo a pessoa para um grupo com a intenção de privá-la de fazer parte de outro. Ou talvez algo assim aconteça até involuntariamente.

A verdade é que a partir de suas ações ao longo da vida, mesmo que indiretamente, você define quem vai conhecer, quem merece e quem não merece estar próximo de você. É comum as pessoas optarem por evitar alguém com quem nunca conversaram. No mundo que vivemos a segregação surge de muitas formas. Até mesmo no olhar. Todos os dias nos deparamos com pessoas sendo segregadas pelo gosto musical, visão política, religião, nível cultural, fisionomia, roupas, tipo de cabelo e postura, além de outras dezenas de exemplos que poderiam ser citados.

Como resultado de um meio, começamos a fazer isso logo na infância, quando excluímos uma criança por algum motivo banal. Parece que passamos a vida em busca de aceitação e de aliados, o que não deixa de ser uma forma de guerra social. É inerente ao ser humano encontrar meios de se sentir especial e diferente. Em um nível mais crônico, há ainda a ânsia por fazer parte de um grupo que o faça sentir-se “superior”. Existe um grande desejo de ser observado, de existir socialmente, mesmo em grupos considerados antissociais e até religiosos.

Temos mais de 10 mil religiões no mundo todo, segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária (Arte: Kal)

Temos mais de 10 mil religiões no mundo todo, segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária (Arte: Kal)

É exatamente o que acontece hoje em dia em mídias sociais. No Facebook, todos os dias vemos pessoas criando grupos, páginas, se empenhando em aumentar o seu círculo virtual de amizades e também em conquistar o maior número possível de “curtidas”. Por outro lado, vemos muita gente desprezando, insultando e banindo quem pensa diferente. Mas aí alguém pode perguntar. “Ok, mas qual é a relação disso com um mundo ser melhor ou não sem religiões?” Bom, na minha opinião, tem tudo a ver. Religiões unem e segregam pessoas há milhares de anos, mas elas não são as únicas a fazerem isso.

Claro, hoje temos mais de 10 mil religiões no mundo todo, segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária, publicado em 2012, o que é um indicativo de que a segregação cresce a cada ano e reforça sua posição multifacetada. Então o amigo em questão me perguntou se eu acredito que há alguma razão específica para um número tão alto. Muitas religiões e igrejas surgiram a partir de um viés curioso, a dissidência. Ou seja, novas formas de segregação que nasceram dentro das próprias instituições religiosas fizeram com que por incompatibilidade de ideias e condutas muitos optassem por criar suas próprias igrejas e religiões.

Vivemos uma época em que principalmente na internet muita gente critica todas ou algumas religiões, qualificando-as como os grandes males da humanidade. Há uma crença de que o mundo seria muito melhor sem igrejas e sem religiões. Supõe-se que as pessoas realmente viveriam em harmonia e se respeitariam, pois as diferenças diminuiriam ao ponto de renascer um mundo de paz. Em teoria, parece algo bonito, e que sem dúvida lembra a canção “Imagine”, de John Lennon.

No entanto, distante de uma visão romanceada e mais realista do mundo, acredito que isso seja não apenas utopia, mas também a simplificação e superficialização dos problemas do mundo. Na ausência das religiões, não há como afirmar que o homem não encontraria outros meios de segregação que compensassem essa ausência, até porque surgiria um embate com a questão existencialista humana que é a inerência à fé e à crença, mesmo quando não direcionada a Deus.

Em síntese, admito que as religiões também têm peso negativo sobre a vida em sociedade, mas não podem ser responsabilizadas por todos os males da humanidade, até porque desde o início da civilização vemos nossos ancestrais distorcendo bons preceitos coletivos para benefício individualista. Infelizmente, é algo que acontece em todas as esferas da vida em sociedade e não apenas na religião. Ao longo dos séculos, quantas teorias e ideologias que nasceram de boas intenções perderam o seu valor pela distorção conceitual ou popularização da sua pobreza prática?

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

March 16th, 2015 at 10:45 am