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A Páscoa e o dilema do consumo de carne

Mas se o “jejum de carne” representa algo em tão alta estima pelos cristãos, sendo apontado como uma grande virtude moral, por que não se abster completamente desse consumo, e não somente no período de Páscoa?
Para os cristãos, a Páscoa é uma data de extrema importância que celebra a ressurreição de Cristo três dias após a sua morte por crucificação. A Páscoa também é definida por teólogos do mundo todo como uma “esperança viva” atribuída por Deus. Ou seja, uma data propícia para a restauração da fé em um mundo mais auspicioso, justo e misericordioso.
É exatamente no período que antecede a Páscoa que os cristãos católicos se abstêm de “carne” – na realidade, quase sempre carne vermelha, e jejuam principalmente na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa. No entanto, é usual o consumo de peixes. Mas não seria o peixe um ser carnoso? Assim como o boi, o porco, o frango?
De fato, e inclusive com níveis de senciência e consciência equiparáveis aos dos mamíferos, segundo o artigo “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition em janeiro de 2015. Mas, claro, não precisamos de pesquisa alguma para concluir que um peixe sofre antes de morrer – basta testemunhá-lo se debatendo fora d’água enquanto é violentamente vitimado por asfixia.
Porém, é importante ressaltar tal fato porque exemplifica o equívoco da ideia de um “jejum de carne” nesse período – algo tão propalado por tanta gente que ignora o fato de que o peixe também é essencialmente um ser carnoso repleto de vida e interesse em não sofrer e morrer precocemente.
De acordo com o padre Paulo Ricardo, o jejum no período de Páscoa é uma prática plurissecular que mostra aos cristãos católicos a importância de uma vida de ascese. Ou seja, o jejum do consumo de animais, desconsiderando o peixe, é uma forma de se alcançar à virtude da temperança, “uma virtude moral que modera a atração pelos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade.”
Mas se o “jejum de carne” representa algo em tão alta estima pelos cristãos, sendo apontado como uma grande virtude moral, por que não se abster completamente desse consumo, e não somente no período de Páscoa? Por que não incluir os peixes nessa abstenção fundamentada na virtude moral, já que eles também são animais? E como são sencientes, será que não inspiram a misericórdia da renovação da fé cristã? O exercício da violência contra outras espécies não é inclemente, em oposição ao desejo de um mundo justo e misericordioso?
Francisco de Assis, uma referência para milhões de católicos do mundo todo que se alimentam de animais, dizia que “todas as criaturas são nossos irmãos e irmãs”, e que eles não são seres com menos direito à vida do que os humanos – tanto que ele compartilhava suas pregações com pessoas e animais. Discursava que o seu amor por Deus se manifestava por meio de seu amor e respeito por criaturas humanas e não humanas.
Independente de seus hábitos alimentares, não seria uma mensagem de que não devemos endossar a violência contra outras espécies? Animais que domesticamos e tornamos vulneráveis para atender aos prazeres que não controlamos? À volúpia do paladar? Embora símbolo inquestionável do antropocentrismo no seio da civilização cristã ocidental, Tomás de Aquino escreveu na “Suma Teológica” que “o jejum [de ‘carne’] foi estabelecido pela Igreja para reprimir as concupiscências da carne, cujo objeto são os prazeres sensíveis da mesa.”
Mas não é isso que a maioria dos cristãos faz o ano todo, quando se alimentam desnecessariamente de animais? E, claro, para além da questão da virtude moral vaticinada pela Igreja Católica, sabemos que o consumo de carne não é essencial à vida; basta considerarmos a existência de veganos e vegetarianos saudáveis. Sendo assim, resta-nos uma conclusão – não há nada de nobre e equânime em comer animais, porque representa basicamente a primazia do paladar, ou seja, os “prazeres sensíveis da mesa”, que normalmente as pessoas não controlam por condicionamento, hábito e conveniência.
Andrey Beketov, o pai da botânica e a sua defesa do vegetarianismo
Andrey Nikolayevich Beketov foi um cientista russo e defensor do vegetarianismo que ficou conhecido como o pai da botânica russa e mundial, além de criador da geografia das plantas e da morfologia experimental. Além disso, foi reitor da Universidade de São Petersburgo, uma das mais prestigiadas da Rússia, e um dos homens que influenciou o escritor Liev Tolstói a adotar o vegetarianismo.
Em 1891, Andrey Beketov publicou o livro “A Dieta Humana no Presente e no Futuro”. Na obra que chamou a atenção de Tolstói, ele apresenta razões morais e psicológicas sobre o porquê os seres humanos na sua progressão de um estado primitivo para um estado verdadeiramente civilizado devem se abster do consumo de animais.
De acordo com o pesquisador Alexey Shulga, o trabalho de Beketov pode ser considerado o primeiro ensaio russo sobre vegetarianismo que deu origem ao movimento de educação e moral científica na Rússia, cuja preocupação era superar o paradigma de que alimentos de origem animal são produtos “comuns” gerados por uma condição de “inevitabilidade”, desconsiderando a perspectiva imoral e prejudicial aos animais não humanos – além dos efeitos na saúde humana e no meio ambiente.
“Estamos todos tão acostumados a comer ou ver outras pessoas comendo carne, que nunca ponderamos que aqueles cujas partes estão diante de nós em nossos pratos foram abatidos. Em algum lugar fora da cidade, há um matadouro, lugar nojento, fétido e sangrento, onde cortam, retalham e fatiam, escoando o sangue das veias [dos animais], mas ninguém está olhando para lá”, registrou em “A Dieta Humana no Presente e no Futuro”.
Beketov reconheceu que o hábito de matar animais e consumi-los já era naturalizado pela legitimada artificialidade da tradição, e que a mudança depende das pessoas relacionarem o que consomem com a história do que está sendo consumido. Ou seja, o processo que antecede o contato do consumidor com o produto de origem animal. Na perspectiva do cientista russo, a aversão a qualquer derramamento de sangue é um primeiro sinal de humanidade. O “abate de um animal sem voz”, segundo o autor, se opõe ao respeito à vida.
“Parece-me que esses dois matadouros estão em uma conexão muito mais forte do que normalmente pensamos: a carne e a bucha de canhão são duas coisas que se pressupõem ou pelo menos apoiam umas às outras”, escreveu. Andrey Nikolayevich Beketov acreditava que o sistema digestivo humano sempre se adaptou melhor ao consumo de plantas, vegetais e frutas, não de alimentos de origem animal. “Ele também considerou a prática da agropecuária ineficiente, chamando a atenção para o fato de que é sempre mais caro plantar e produzir vegetais para alimentar os animais do que consumir diretamente os vegetais; e que a dieta vegetariana pode satisfazer todas as necessidades nutricionais humanas”, enfatiza Shulga.
Como um visionário do século 19, Andrey Beketov também declarou à época que no futuro a Terra iria requerer uma diminuição de pastagens e uma redução natural do gado e de outros animais criados para consumo. Segundo o pesquisador V. K. Teplyakov, antes de Charles Darwin apresentar a sua teoria de “A Origem das Espécies”, Beketov já havia divulgado a ideia da influência de fatores externos e da luta pela sobrevivência na evolução dos organismos.
Suas primeiras e importantes contribuições à ciência aparecem no livro “Harmonia na Natureza”, que antecede “A Origem das Espécies”, em que ele apresenta princípios cientificamente fundamentados da teoria do desenvolvimento evolucionário no mundo orgânico. Na perspectiva de Beketov, a matéria pode assumir uma infinita variedade de formas, mas de modo algum pode escapar à influência de condições externas – a estrutura, a aparência externa e a essência de cada ser são determinadas pelas condições ambientais. Ele também descobriu o papel da luz no ciclo da vida das plantas.
Em 1862 e em 1871, o cientista russo publicou os volumes I e II do trabalho científico “Curso Botânico”, considerado o primeiro e melhor livro de botânica do mundo. “Graças ao seu trabalho, ele foi chamado de pai da botânica russa e mundial. Também foi o primeiro no mundo a escrever e publicar um livro sobre geografia vegetal”, destacou Teplyakov em referência à obra “A Geografia das Plantas”, de 1896.
Em 1870, o renomado cientista K.A. Timiryazev escreveu que os textos de Beketov foram únicos na literatura europeia e estavam pelo menos 50 anos à frente de seu tempo em princípios científicos. Andrey Nikolayevich Beketov faleceu em 1º de julho de 1902 em Shakhmatovo, em Moscou, deixando um extenso legado que até hoje permanece desconhecido por muita gente, inclusive da área botânica.
Beketov foi um dos fundadores do Cursos Bestuzhev, que oferecia educação de alto nível às mulheres
Andrey Beketov nasceu em 8 de dezembro de 1825 no vilarejo de Apferevka, na província de Penza. Em 1841, se graduou em ciências naturais pela Faculdade de Física e Matemática de Kazan. Em 1858, concluiu o doutorado sob o tema “As Relações Morfológicas das Folhas e Caules” na Universidade de Moscou. Tornou-se professor de botânica da Universidade da Cracóvia em 1861, depois transferindo-se para a Universidade de São Petersburgo, onde atuou como professor e coordenador do Departamento de Botânica. Mais tarde, ocupou o cargo de diretor da Faculdade de Física e Matemática e, então, reitor, função exercida entre 1876 e 1883.
Beketov, que fundou a Scripta Botânica em parceria com Kristofor Gobi, a primeira revista russa de botânica, também se destacou como um dos fundadores da Sociedade Econômica Livre da Rússia, que presidiu de 1891 a 1897. Também foi um dos fundadores do Cursos Bestuzhev, em São Petersburgo, um instituto que possibilitava às mulheres receberem educação de alto nível na Rússia Imperial. “Ele foi o primeiro a estudar o problema da reprodução florestal na tundra. Ficou intrigado com os efeitos do clima na taxa de crescimento de pinheiros e abetos. Sua pesquisa em flora e geotecnia o levou a investigar a distribuição de espécies madeireiras e as razões do desmatamento das estepes. Ele sugeriu que a propagação das estepes se resultou principalmente de mudanças climáticas e fatores pré-históricos”, informou V. K. Teplyakov.
Saiba Mais
Andrey Beketov traduziu para o russo muitos trabalhos seminais de Alphonse Pyramus de Candolle, August Grisebach, Matthias Jakob Schleiden e Thomas Henry Huxley.
Referências
Shulga, Alexey. The History of Russian Veganism: In a Nutshell (2015).
Teplyakov, V.K. A History of Russian Forestry and Its Leaders. Página 23. Diane Publishing (1998).
Shcherbakova, A.A. Andrey N. Beketov, Андрей Николаевич Бекетов – выдающийся русский ботаник и общественный деятель. Издательство Академии наук СССР (1958).
A natureza é incrível, uma breve reflexão sobre comer animais
A natureza é incrível. Se comemos uma fruta, podemos guardar as sementes, plantá-las e no futuro teremos mais frutas. Se nos alimentamos de uma planta, podemos preservar suas raízes para que ela continue prosperando e nos fornecendo nutrientes.
No caso dos animais, se os comemos, isso significa que os matamos. Há não apenas violência, mas terror, sangue, sujeira e mau cheiro. Se demorarmos demais, ou se o processo não for “bem feito”, restará a podridão.
O seu sofrimento é perceptível aos olhos de qualquer criança. E não há nada que possa ser feito para restaurarmos suas vidas. Eles não renascerão se plantarmos seus pés. Não há nem mesmo funeral, e simplesmente porque não há nada significativo a enterrar.
Quando uma pessoa decide se tornar vegana…
Como as redes de fast food contribuíram para a expansão da exploração animal
Como Tolstói rejeitou o consumo de animais
Se você já leu “O Primeiro Passo”, considerado na Rússia como um manifesto contra o consumo de animais, e que inclusive teve grande influência sobre o ressurgimento do vegetarianismo entre os povos eslavos do final do século 19 e início do século 20, você sabe que a influência de Liev Tolstói estava muito além do campo literário ficcional. Inclusive ele não raramente dizia que preferia mais ser lembrado por seus ensaios filosóficos e pela contrariedade ao consumo de animais do que por suas obras-primas como “Guerra e Paz” e Anna Karenina”.
No entanto, não foi por um despertar casual que ele decidiu parar de comer animais. Mas sim por uma série de eventos – talvez o mais importante deles quando recebeu em sua casa em Yasnaya Polyana, no Oblast de Tula, a visita do senhor William Frey em uma tarde de outono de 1885. Frey, ou Vadim Konstantinovich Geins, deu uma verdadeira palestra a Tolstói abordando desde os benefícios da dieta vegetariana até as implicações morais da exploração de animais. Inclusive essa conscientização sobre o sofrimento animal foi o que o motivou a escrever o ensaio “O Primeiro Passo”, publicado em 1892.
As ideias de William Frey foram trazidas dos Estados Unidos, onde ele viveu por 17 anos em comunidades protovegetarianas e vegetarianas nos estados do Missouri, Kansas e Oregon. Frey inclusive declarou a Tolstói que no decorrer da história da humanidade chegará um dia em que todos, seja por conscientização ou inevitabilidade, terão que adotar uma alimentação vegetariana. O escritor russo não se surpreendeu, mas apenas aquiesceu e exclamou:
“Sim, meu amigo, você está certo! Obrigado por suas palavras sábias e honestas. Certamente, seguirei o seu exemplo e abandonarei a carne.” Antes desse encontro, Tolstói já havia ensaiado a abstenção desse consumo. Segundo o livro “The Vegetable Passion: A History of the Vegetarian State of Mind”, de Janet Barkas, publicado em 1975, ele começou a reduzir o consumo de carne logo depois de escrever “Confissão”, de 1879, e então foi mudando a sua alimentação até adotar definitivamente uma dieta que não incluía o consumo e a exploração de animais.
Em 1882, Tolstói já havia descrito em um de seus diários o seu interesse em se alimentar apenas de kasha, geleias e conservas. Além do escritor, suas filhas Tanya e Masha também adotaram imediatamente uma alimentação livre de carne após os relatos bem convincentes de Frey argumentando que é possível viver muito bem consumindo apenas cereais, frutas e castanhas. Segundo a obra “Vegetarianism in Russia: The Tolstoyan Legacy”, de Ronald D. LeBlanc, de 2001, outra pessoa a quem é creditada a conversão de Tolstói ao vegetarianismo é o seu discípulo e amigo Vladimir Chertkov, que se tornou vegetariano quando viveu na Inglaterra nos anos de 1884 e 1885, e que levou à Rússia tudo que encontrou relacionado ao tema. Naquele tempo, a literatura vegetariana inglesa ou voltada aos direitos animais era publicada na Inglaterra pela Humanitarian League, fundada em 1891 pelo pioneiro dos direitos animais Henry Salt, o que curiosamente revela a estreita relação entre os humanitaristas e os vegetarianos da época.
O livro “A Dieta Humana no Presente e no Futuro”, escrito pelo cientista Andrey Nikolaevich Beketov e lançado em 1878, também teve considerável influência sobre Tolstói. Na obra, Beketov apresenta razões morais e psicológicas sobre o porquê seres humanos na sua progressão de um estado primitivo para um estado verdadeiramente civilizado devem se abster do consumo de animais.
Em 1890, Tolstói escreveu o prefácio de um panfleto sobre os males da caça – intitulado “Um Passatempo Maligno: Reflexões Sobre a Caça”, publicado por Chertkov em 1890. No texto, Vladimir Chertkov argumenta que não é mais necessário, em termos de evolução, o ser humano ter que matar animais para se alimentar. “A matança de animais não é mais uma forma natural de luta pela existência, mas sim um retorno voluntário a um estado primitivo e bestial.” Segundo Chertkov, a caça instiga no ser humano civilizado instintos animais que a consciência humana superou há muito tempo. Esse posicionamento foi endossado por Tolstói.
O escritor russo passou a interpretar que o ato de se alimentar de animais é imoral na medida em que envolve a realização de um ato contrário ao sentimento moral, ou seja, a matança. LeBlanc narra que um dia a tia de Tolstói se juntou a eles para o jantar e encontrou uma faca e uma galinha viva sobre a cadeira. O escritor justificou que sabia que ela gostaria de comer galinha, mas que nenhum deles a mataria, assim delegando a ela o ato de matar o animal se quisesse comê-lo – o que naturalmente ela não o fez.
“Para uma senhora de classe alta de seu tempo, isso passou perto de um escândalo”, avalia Ronald D. LeBlanc. Porém, Tolstói era pacífico e tais ações tinham apenas a intenção de conscientizar, não de ofender. Inclusive ele sempre permitiu que seus familiares, amigos e conhecidos tirassem as suas próprias conclusões a respeito de seu posicionamento em relação ao não consumo de animais.
Pouco tempo antes de falecer, Tolstói disse que preferia ser celebrado por suas obras voltadas à sua filosofia de vida e filosofia moral, o que incluía a sua defesa de que os animais não humanos também têm direito à vida, do que pelos seus romances. Claro que o alcance de seu trabalho como romancista o levou muito mais longe em popularidade, mas de alguma forma a sua filosofia teve um impacto muito significativo. Exemplos?
“O Primeiro Passo”, que deu origem às bases do vegetarianismo ético russo e a sua obra “O Reino de Deus está em vós”, de 1894. Esta segunda traz uma abordagem espiritual não dogmática e que teve grande influência sobre a juventude de Gandhi, tanto que depois o líder pacifista fundou nas imediações de Joanesburgo, na África do Sul, a Fazenda Tolstói. Gandhi, que foi influenciado pelos ensaios de não violência de Tolstói, que incluía animais humanos e não humanos, se considerava um tolstoiano.
Referências
Barkas, Janet. The Vegetable Passion: A History of the Vegetarian State of Mind. Scribner; First Edition (1975).
LeBlanc, Ronald D. Vegetarianism in Russia: The Tolstoy(an) Legacy. The Carl Beck Papers in Russian and East European Studies. No. 1507 (2001).
Gregory, James. Of Victorians and Vegetarians: The Vegetarian Movement in Nineteenth-century. I.B.Tauris (2007).
Alston, Charlotte. Tolstoy and Vegetarianism (junho de 2014).
O que existe de errado com o chamado “bem-estarismo animal”
Cheri Vandersluis: “Os animais usados nos testes [em laboratórios] não deveriam ter contato humano, porque isso faria com que tivessem vontade de viver”
“Ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora”

O casal vegano Cheri e Jim administra o santuário Maple Farm no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos (Foto: Maple Farm Sacntuary)
Cheri Ezell-Vandersluis é a fundadora do santuário Maple Farm, criado em parceria com o marido Jim Vandersluis. O local situado na pequena Mendon, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, funciona como um refúgio seguro e amoroso para os chamados “animais de criação” ou seja, animais criados para consumo; criaturas que por diversos motivos escaparam de serem enviados para o matadouro. Lá, eles vivem suas vidas em paz e fazem tudo que têm vontade sob a tutela do casal vegano.
No entanto, Cheri admite que antes de fundarem um santuário, ela conheceu o lado mais obscuro e insensível da natureza humana no que diz respeito ao tratamento dispensado aos animais. “Sempre amei os animais, mas cresci em uma sociedade que os trata como bens, coisas. […] Eu não tinha ideia de que a carne que eu comia vinha de vacas de olhos arregalados e galinhas fofinhas e inocentes. Embora eu sempre quisesse trabalhar com animais, levou tempo e várias lições de vida para encontrar um emprego que realmente os beneficiasse”, relata.
O primeiro trabalho em que Cheri Ezell teve contato constante com os animais foi em um laboratório de testes de toxicidade de medicamentos. Ela atuava como técnica em histologia e autópsia: “Disseram-me que a pesquisa beneficiava a humanidade e que o assassinato de animais era um tipo de ‘sacrifício’. Nos diários de bordo onde gravávamos os dados da sala de autópsia, não havia o conceito de matar, mas apenas de “sacrificar números’.”
Essa dissimulação da realidade foi o que sempre facilitou o trabalho das pessoas em laboratórios. Ou seja, evita-se confrontar a realidade e refletir sobre as implicações das ações para as vítimas, nesse caso, os animais. Cheri se recorda de quando caminhava para as seções onde pequenos e doces beagles eram confinados e rotineiramente vitimados pela administração de compostos promotores de crescimento, antibióticos, dopamina e muitos outros fármacos.
“Eu queria conversar com eles, alcançar as gaiolas para acariciá-los, olhar em seus olhos confiantes e desconhecidos. Fiz isso por alguns dias antes de ser flagrada e repreendida por esse comportamento. Me disseram que os animais usados nos testes não deveriam ter contato humano. Deveriam apenas receber os medicamentos, serem examinados, limpos e alimentados, uma vez que qualquer expressão de carinho faria com que tivessem vontade de viver, afetando negativamente sua reação aos compostos”, revela.
Ela conviveu com essa justificativa por quatro anos até que pediu demissão. Então conseguiu um emprego em um aquário destinado a entreter visitantes. Em síntese, mais um trabalho em que “bolsos cheios significam o derramamento de sangue animal”, na perspectiva de Cheri. A sua função de “aquarista” incluía alimentar e monitorar a saúde dos milhares de peixes e mamíferos marinhos – supervisionando a qualidade da água e ajudando a equipe a cuidar dos mamíferos marinhos, além de auxiliar na realização de autópsias.
Um dia, o aquário recebeu quatro golfinhos nariz-de-garrafa. Cheri sentiu-se privilegiada pela oportunidade de nadar com eles durante a adaptação ao cativeiro. Mas a ideia romanesca de golfinhos vivendo muito bem em um ambiente artificial logo foi descortinada pela realidade: “No começo de uma manhã, ouvi gritos agudos. Nós não podemos falar a língua deles, mas a angústia, a tristeza e a frustração são facilmente traduzíveis. Um dos golfinhos machos prendeu seu nariz em uma rede e tentou se libertar. Ele estava retorcido e apertado – aprisionado sob a água. Na natureza, se um golfinho fica doente ou ferido, outros o auxiliam e o empurram para a superfície para conseguir ar. Nessa configuração cativa, eles só poderiam assistir o companheiro se afogando lentamente [os outros não atinham acesso ao local onde um dos golfinhos agonizava].”
Cheri e outro funcionário do aquário mergulharam com uma faca na esperança de cortar a rede onde o golfinho estava preso. Era tarde demais, e o corpo do animal já estava sem vida. Pouco tempo depois, o golfinho foi substituído por outro espécime capturado na natureza, e a rede substituída por uma corrente de metal. Assim o show prosseguiu. “Depois que saí do aquário, passei pouco tempo atuando como designer gráfica antes de entrar para o ramo de leite de cabra. Conheci meu marido, Jim, quando eu estava comprando cabras para o meu negócio. Ele estava vendendo suas vacas leiteiras e se preparando para adquirir novilhas. Nos tornamos inseparáveis”, revela.
Em uma ocasião, quando Jim estava ordenhando uma vaca, Cheri entrou no celeiro e encontrou uma bezerra doente. O marido explicou que a novilha seria vendida para um comerciante de carne e logo mais reduzida a pedaços de carne. “Naquele tempo, eu tinha algum dinheiro e implorei para que ele me deixasse cuidar dela. Ele concordou relutantemente. A levei para uma clínica veterinária, onde aplicaram fluidos intravenosos e antibióticos, e disseram que mais um dia sem cuidados e ela teria morrido. Quando ficou boa o suficiente, eu a trouxe para a fazenda onde ela acabou se tornando uma vaca leiteira”, confidencia.
Com o tempo, Jim e Cheri não conseguiram mais continuar ordenhando vacas. Por isso, aumentaram o rebanho de cabras e começaram a vender leite de caprinos: “O infeliz subproduto disso é: ‘O que fazer com todas as crianças?” Não demorou, e o casal percebeu que em certas comunidades étnicas é uma tradição consumir carne de cabras ainda bebês, ou seja, cabritos, durante o feriado de Páscoa. Pessoas de descendência portuguesa e grega sempre os procuravam nessa época do ano.
“Nós pesávamos os pequenos de 11 a 15 quilos e os clientes pagavam. Eles eram recolhidos e jogados na parte de trás do porta-malas ou na carroceria de uma caminhonete como se fossem pedaços de bagagem. Esses bebês olhavam nos meus olhos com confiança, admiração e medo. Jim e eu sabíamos o destino deles. Trabalhando com laticínios a vida toda, Jim tentava endurecer as minhas emoções. […] Muitas vezes, ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora. Foi em um daqueles momentos terríveis que Jim e eu nos olhamos de esguelha e decidimos começar a nossa jornada a favor da vida.”
Cheri e Jim conheceram a organização não-governamental Pessoas Pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta) e receberam toda a ajuda necessária para fazer uma transição para uma vida em verdadeira conformidade com o bem-estar animal:
“Entre soluços, falei com uma pessoa maravilhosa que me tranquilizou e disse que estávamos fazendo a coisa certa. Para aliviar o fardo financeiro, nos deram uma lista de santuários para onde poderíamos levar algumas das cabras. Depois de fazer contato com vários santuários sem espaço para mais animais, encontramos o OohMahNee. Os fundadores Cayce Mell e Jason Tracy garantiram que estávamos realmente fazendo o que era certo. Meu coração estava doendo. Eu amava minhas cabras e mandá-las para longe foi difícil mesmo sabendo que seria um lugar seguro para elas. Depois de muito refletirmos, enviamos metade do nosso rebanho para os santuários OohMahNee e PIGs. Foi um dia de sentimentos mistos, mas Cayce e Jason foram meus anjos e nos confortaram durante esse momento angustiante.”
Referência
Satya Magazine. From goat farmer to sanctuary founder. Vandersluis, Cheri-Ezell (junho de 2007).
“Em certas comunidades étnicas é uma tradição ter carne de cabras ainda bebês durante o feriado de Páscoa”

“Muitas vezes, ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora” (Foto: Vermont Public Radio)
“Aumentamos o rebanho de cabras e começamos a vender leite de cabra. O infeliz subproduto disso é: ‘O que fazer com todas as crianças?’
“Em certas comunidades étnicas é uma tradição ter carne de cabras ainda bebês [cabritos] durante o feriado de Páscoa. Aqueles de descendência portuguesa e grega que conheciam nossa fazenda nos procuravam nesse período. Nós pesávamos os pequenos de 11 a 15 quilos e os clientes pagavam. Eles então eram recolhidos e jogados na parte de trás do porta-malas ou na carroceria de uma caminhonete como se fossem pedaços de bagagem. Esses bebês olhavam nos meus olhos com confiança, admiração e medo. Jim e eu sabíamos o destino deles. Trabalhando com laticínios a vida toda, Jim tentava endurecer as minhas emoções. […] Muitas vezes, ficamos no portão ouvindo os nossos cabritos chorando enquanto eles eram levados embora. Foi em um daqueles momentos terríveis que Jim e eu nos olhamos de esguelha e decidimos começar a nossa jornada a favor da vida.”
Depoimento de Cheri Ezell-Vandersluis, do Maple Farm Sanctuary, nos Estados Unidos.
Referência
Susana Romatz: “Não é difícil ficar sem carne ou laticínios. Difícil é ver as pessoas presas a uma mentalidade em desacordo com seus valores morais básicos”

Susana: ” Demorei para fazer a conexão com o leite que acompanhava o meu cereal matinal” (Foto: Acervo Pessoal)
Susana Romatz conta que estava trabalhando em um PetSmart uma rede de petshop, quando conheceu Pinkie, uma pequena cadelinha preta com manchas brancas e olhos azuis. “Me apaixonei por ela e a adotei. Mas, infelizmente, os seus rins não se formaram corretamente e à medida em que ela crescia seus rins começaram a falhar. Ela viveu por apenas dois anos, mas naqueles dois anos aprendi o que era amar um cão. Fiquei devastada quando ela morreu”, explica.
O relato poderia ser apenas uma experiência comum de alguém amargando a perda de um animal doméstico. Porém, no caso de Susana, a experiência fez com que ela não conseguisse mais se alimentar de animais, embora não definitivamente. “Eu não conseguia ver a diferença entre a minha amada cachorra e os animais em meu prato. Comecei a assistir vídeos sobre bem-estar animal e doei dinheiro para grupos de ativismo animalista. Tentei ser vegana, mas não consegui por uma infinidade de razões, principalmente força de vontade e educação”, admite.
Quando se mudou para o Estado do Oregon em 2002, ela ouviu pela primeira vez alguém falando em animais “criados de forma humanitária”, em referência à carne e aos laticínios com “certificado humanitário”; e aquilo chamou a sua atenção, já que em Saginaw, Michigan, sua cidade natal, nunca ouviu tal termo, simplesmente porque as pessoas não pensavam em carne como partes de animais, mas apenas como algo para comer. “Tendo sido enganada pelo fascínio da carne abatida humanamente, vejo a grande ironia dessa estratégia de rotulagem. Os profissionais de marketing precisam trabalhar mais para dessensibilizar as pessoas que estão mais conscientes da verdade. Consumidores que têm alguma compreensão da injustiça de se matar animais, mas optam por pagar por isso, precisam trabalhar mais para rejeitarem a realidade de suas próprias escolhas”, diz.
Susana acredita que o asteísmo disso tudo é que as pessoas que optam por gastar dinheiro extra comprando produtos de origem animal que resultam do “abate com compaixão” são mais cúmplices da violência e da morte prematura de animais do que aqueles que nunca pensaram que seus hambúrgueres um dia foram indivíduos que desejavam viver: “No Oregon, comecei a comprar a mentira de que se pode matar um animal com humanidade para atender a preferência do paladar […] Claro, a voz mais suave da compaixão muitas vezes é difícil de ser ouvida.” Ela percebeu o próprio contrassenso vindo de alguém que não queria machucar qualquer ser vivo, nem mesmo pequenos insetos que se afogavam em poças.
Antes de se tornar vegana, Susana Romatz aceitou um emprego em uma fazenda de “cabras felizes” e na mesma época comeu o seu primeiro hambúrguer preparado com carne de um animal supostamente abatido de forma humanitária. Foi mais além. Passou a comprar peitos e bifes orgânicos de frango. Para aliviar a consciência, pagou bem mais caro em pedaços de bacon com “certificado humanitário”:
“É incrível o que você consegue bloquear quando coloca força nisso. Eu, que dez anos antes tinha me reduzido às lágrimas, observando vídeos secretos de como os animais de criação eram tratados – privados, violentados, esfaqueados, degolados, eletrocutados – agora estava trabalhando em uma fazenda de produtos lácteos onde recém-nascidos eram tirados de suas mães logo após o nascimento, e seus gritos de aflição eram ignorados.”
Para não ter um grande conflito de consciência, Susana se esforçou para evitar pensar a respeito. Mas às vezes uma compreensão lancinante do que estavam fazendo era inevitável. Enquanto trabalhava, ela acreditava que os animais tinham seus chifres removidos para a sua própria segurança, e que o processo era indolor. Até que uma vez testemunhou como isso realmente era feito. “Os cabritos foram capturados e seus chifres queimados com ferro quente enquanto eles gritavam e chutavam tentando escapar. Depois de libertados, ficavam tão abalados que tropeçavam e saíam balançando a cabeça violentamente, confusos e com muita dor”, narra. Alguns deles nunca mais permitiram que qualquer pessoa se aproximasse sem que demonstrassem um terrível pavor.
Um dia, quando chegou ao trabalho, ela percebeu que uma das cabras de quem ela mais gostava tinha sido morta porque estava com um abscesso e uma mastite. Alegaram que o abscesso era possivelmente contagioso e que ela não estava produzindo uma boa quantidade de leite: “Tentei não pensar sobre o fato de que ela era uma cabra engraçada e brincalhona que me fazia rir o tempo todo.”
Em outra ocasião, Susana encontrou uma cabra grávida deitada e com os olhos fechados. Logo suspeitou que havia algo de errado. A cabra estava morta. Abriram-na com uma lâmina de barbear e tiraram três cabritos pálidos. “Eu podia sentir seu coração batendo tão rápido sobre a minha mão. Todos eles morreram. A mulher [proprietária da fazenda] começou a chorar balançando a cabeça e lamentou: “Oh, minha melhor provedora. Meu belo prêmio.” No entanto, não foi esse episódio que levou Susana definitivamente para o veganismo. Mais tarde, ela resgatou um chihuahua e a sua namorada disse que não poderia mais continuar se alimentando de animais. Então as duas fizeram a transição para o veganismo.
Susana Romatz era viciada em queijo. Para se ter uma ideia, ela consumia mais de dois quilos de cheddar por semana. “Experimentei alguns queijos veganos e eles eram realmente bons, mas decidi fazer o meu próprio, encontrar uma receita diferente usando ingredientes mais acessíveis. Estar no Oregon foi uma benção por causa das incríveis avelãs que crescem em todos os quintais e cantos. Os queijos ficaram tão deliciosos que decidimos criar um negócio. Como amamos a palavra latina para avelãs, Avellana, assim nasceu a Avellana Creamery”, revela em referência à sua pequena fábrica de queijos veganos baseados em avelãs orgânicas e cultivadas localmente.
Depois que se tornou vegana, Susana passou a refletir com mais clareza inclusive sobre os sinais que recebeu na infância, indicando que havia algo de errado em explorar animais. Com 10 ou 11 anos, ela testemunhou quando sua tia comprou uma máquina brilhante para a ordenha mecânica das vacas:
“Eles colocaram os tubos e a ligaram. Ela [a vaca] era bastante serena, mas me lembro de uma sensação de tristeza em sua situação. Parecia-me errado forçá-la a entregar o seu próprio leite. Embora não tenha ficado visivelmente ferida, isso me marcou profundamente. Demorei para fazer a conexão com o leite que acompanhava o meu cereal matinal. […] Em nossa cultura, temos o hábito de afastar-nos de coisas que nos trazem dor. Estou aprendendo que se afastar não ajuda em nada. Encarar de frente o que nos aflige nos dá a oportunidade de transformar o que é prejudicial em algo bonito. Não é difícil ficar sem carne ou laticínios. Difícil é ver as pessoas presas a uma mentalidade em que suas decisões diárias estão fundamentalmente e violentamente em desacordo com seus valores morais básicos. Nós podemos e devemos fazer o melhor.”
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