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O vegetarianismo na vida de Nikolai Ge, um dos mais importantes pintores russos da história

Nikolai Ge não concordava com a exploração animal nem humana (Pintura: Nikolaj Alexandrowitsch Jaroschenko)
Em 1913, quando o 1º Congresso Vegetariano Russo foi realizado em Moscou, fazia quase 20 anos que o pintor realista russo Nikolai Ge havia falecido. Ainda assim, em sua homenagem, a “exposição vegetariana”, que ficou em exibição entre os dias 16 e 21 de abril, foi baseada em suas pinturas.
Foi uma justa homenagem a um dos vegetarianos russos mais respeitados pelo escritor Liev Tolstói. Em 8 de junho de 1910, Ge escreveu, em referência ao ensaio “Первая ступень” , “O Primeiro Passo”, de Tolstói, que “para que o primeiro passo se torne realmente um primeiro passo é necessário que outras etapas venham em seguida, porque o vegetarianismo em si é apenas uma limpeza que leva à hipocrisia e à exaltação da autoestima se não assumir a forma primordial de uma vida humana mais justa e inteligente.”
O ensaio, em que Tolstói qualifica a abstenção do consumo de animais como um sinal da aspiração séria e sincera da humanidade em direção a uma evolução moral que beneficie seres humanos e não humanos, atraiu a atenção de Ge no início de junho de 1892, quando ele o leu pela primeira vez. O pintor russo, que já se correspondia com Tolstói, passou a elogiar a sua defesa de uma vida moral que rejeita a exploração animal por entender as implicações dessa violência para a vida humana e não humana. Em uma das cartas, informou que estava satisfeito com suas modestas plantações de milho, batata e feijão.
A identificação de Nikolai Ge com Tolstói começou em 1882, quando o pintor leu um artigo de Tolstói sobre o censo em Moscou, publicado no jornal “Sovremennye Izvestia”. Após visitar adegas e observar o comportamento de seus infelizes frequentadores, o escritor russo escreveu uma passagem jamais esquecida por Ge: “Nosso desagrado e indiferença pelos desfavorecidos é a causa de seu estado de pobreza”. O pintor então se aproximou de Tolstói e os dois se tornaram amigos e confidentes. Nos seus últimos doze anos de vida, Nikolai Ge visitou Tolstói em Moscou e depois em Yasnaya Polyana, no Oblast de Tula.
Tatiana Sukhotina-Tolstaya, a filha mais velha de Tolstói, registrou que Nikolai Ge, que foi um bom amigo de seu pai, era um sujeito bastante peculiar – um vegetariano estrito completamente indiferente ao dinheiro, e se vestia não raramente como um indigente. De modestas predileções alimentares, o pintor russo gostava de kasha de trigo mourisco preparado com água e milho cozido.
“Muitas vezes, minha irmã e eu precisamos remendar as suas roupas. Minha mãe costurou um par de calças que o deixou muito orgulhoso. Ele vestia camisas simples e uma blusa velha e desgastada. Ficou conhecido por ir de Moscou a São Petersburgo assim, e nunca mudou seus hábitos, mesmo transitando por diferentes círculos sociais. Fiz um colete que ele usou na ocasião de seu falecimento”, narrou Tatiana.
Depois que se tornou vegetariano em 1885, e aparentemente por influência de Tolstói, Ge se preocupou em ir um pouco mais além, evitando usar mão de obra assalariada ou requerer o serviço de servos ou camponeses sob os padrões da época. Ele chegou a construir fogões para que os campônios mais desafortunados pudessem preparar pães em suas próprias casas. No início, esse novo estilo de vida singelo gerou grande desconforto na casa do artista, já que suas ações não eram muito bem vistas por sua família acostumada a um padrão mais elevado.
Um homem imerso em princípios, Ge, que foi considerado um dos maiores pintores de seu tempo, dizia que a arte não pode ser um meio de renda porque a arte não deve ser negociável sob o risco de ser maculada pelas implicações da mercantilização. Curiosamente, esse mesmo raciocínio foi partilhado no século XI pelo poeta sírio Al-Ma’arri, que também condenava a exploração e o consumo de animais e se recusava a escrever panegíricos, odes aos ricos patronos, por considerar isso uma forma de “prostituição artística”. Então Nikolai Ge adotou como profissão o trabalho de agricultor e o ofício de “fabricante de fogões”, atividade que exerceu em várias localidades. Assim ele poderia dar continuidade à sua arte em seu tempo livre, sem ter de se submeter a ninguém.
Em 1876, antes da amizade com Tolstói, Ge abandonou o conforto de sua casa em São Petersburgo e migrou para a aldeia de Ivanovo, na Província de Chernigov, no Oblast de Chernihiv, atual Ucrânia. Sobre o motivo dessa mudança, ele escreveu que quatro anos conciliando a arte e a vida agitada e cara em São Petersburgo mostrou que não valia a pena continuar vivendo daquela maneira. “Qualquer coisa que pudesse constituir meu bem-estar material estava em franca oposição ao que senti no fundo de minha alma. Como amo a arte como ocupação espiritual, tenho que encontrar um caminho para mim, independente da arte. Fui para a aldeia e pensei: “Com uma vida mais barata e mais fácil, conseguirei viver essa realidade, e a arte será livre’”, justificou.
Com o crescimento da amizade entre Tolstói e Ge, os dois se tornaram cada vez mais semelhantes no que diz respeito à aspiração de uma vida voltada à evolução moral e espiritual. Em agradecimento a Tolstói, o pintor fez um retrato do escritor em 1884 na famosa casa em Kharmovniki, em Moscou, obra que pode ser vista na Galeria Tretyakov, em Moscou, nas proximidades do Kremlin.
Na pintura reconhecida como uma das mais simples e verdadeiras do autor, Tolstói está sentado diante de uma mesa. Em suas pinturas que fugiam à recorrente pretensão de muitos artistas da época, Nikolai Ge passou a imprimir um realismo cada vez mais bucólico, que remetia ao despojamento e lhaneza – traduzindo as transparências de sua própria essência artística e anseio em transmitir nada mais do que a singeleza.
Até mesmo temas espirituais eternizados em seus quadros descortinavam e quebrantavam a ideia de uma realidade em que o ser humano está acima de tudo e de todos. Ainda assim, jamais deixou de revelar esperança no ser humano ou de direcionar sua energia para a fé utópica em um tipo de protesto espiritual que vê no sofrimento humano, físico ou não, um chamado para a renovação e evolução. Ge transmitia o conceito de uma unidade que habita todos nós, humanos, não humanos e a própria natureza.
Nikolai Ge ficou conhecido em seu tempo como um “pregador da beleza espiritual” que manipulava com rara habilidade as cores, as sombras, a composição e a complexidade do despertar humano. Por causa dessas características, que fatalmente o colocavam na contramão do apreço em voga, Ge era visto como uma figura solitária não apenas da arte russa como da arte europeia em geral. Se por um lado, ele evocava em certas obras um romantismo inabalável em relação à sua interpretação espiritual da natureza, por outro, Ge retratava também uma natureza inexpugnável, concreta ou mutável, e completamente diferente. Em 1886, ele renunciou à sua propriedade e comunicou a sua decisão à esposa Anna Petrovna e aos filhos, assim vivendo os seus últimos anos despojado de qualquer bem material.
Nikolai Ge
Nikolai Nikolaevich Ge nasceu em 15 de fevereiro de 1831 em Voronezh. Em 1841, ele foi levado a Kiev onde estudou a maior parte da sua juventude e ingressou na Faculdade de Física e Matemática da Universidade de Kiev. Depois transferiu os estudos para a Universidade de São Petersburgo, até que em 1850 ingressou na Academia de Artes, onde dedicou sete anos.
Em 1855, recebeu uma medalha de ouro, o seu primeiro prêmio como artista pela pintura “Aquiles lamenta a Morte de Pátroclo”. Em 1857, foi novamente premiado – dessa vez com uma grande medalha de ouro e uma viagem para a França e para a Itália. Em 1860, deixou Roma e se mudou pra Florença, onde produziu diversas obras, até que decidiu retornar a São Petersburgo em 1870.
Então passou a se dedicar a temas históricos e lançou em 1817 uma de suas pinturas mais famosas – “Pedro O Grande interrogando o Tsarevich Alexei Petrovic”, que mais tarde alcançaria projeção internacional. Em 1875, Ge tomou a decisão de migrar para a área rural de Chernigov, na Ucrânia, onde, mais tarde rejeitou a exploração animal e humana, assumindo a sua responsabilidade de levar uma vida mais ética e mais espiritual. O artista viveu assim até falecer em 13 de abril de 1894.
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Entre as suas obras mais famosas estão “O Julgamento de Sanhedrin”, “A Última Ceia”, “Quod Est Veritas?”, “Pedro O Grande Interrogando o Tsarevich Alexei Petrovich”, “Liev Tolstói”, “Consciência: Judas”, “Sophia Tolstói”, “Alexei Potechin” e “Calvário”.
Referências
Sukhotin-Tolstoy,T.L. Memoirs. Moscou. Páginas 262-263 (1976).
Golovko, Oxana. 10 картин Николая Ге, которые стоит увидеть Pravmir (2014).
Tolstói, Natalia. Николай Ге: жизнь в поисках истины. Наука и жизнь (2012).
Н. Н. Ге. Толстовец avant-la-lettre. Vegetarian.ru (2007).
Россия неизвестная. История культуры вегетарианских образов жизни от начала до наших дней (2006).
Ге Николай Николаевич. (1831-1894). Продолжение. Artsait.ru (2014)
Diga não aos testes em animais
Reflexão sobre a importância de sermos contra a realização de testes em animais. Estamos em 2018 e há inúmeras alternativas que não envolvem exploração, sofrimento e morte de animais.
Sobre o mito das “vacas felizes” e das “galinhas felizes”
Como Tolstói rejeitou o consumo de animais
Se você já leu “O Primeiro Passo”, considerado na Rússia como um manifesto contra o consumo de animais, e que inclusive teve grande influência sobre o ressurgimento do vegetarianismo entre os povos eslavos do final do século 19 e início do século 20, você sabe que a influência de Liev Tolstói estava muito além do campo literário ficcional. Inclusive ele não raramente dizia que preferia mais ser lembrado por seus ensaios filosóficos e pela contrariedade ao consumo de animais do que por suas obras-primas como “Guerra e Paz” e Anna Karenina”.
No entanto, não foi por um despertar casual que ele decidiu parar de comer animais. Mas sim por uma série de eventos – talvez o mais importante deles quando recebeu em sua casa em Yasnaya Polyana, no Oblast de Tula, a visita do senhor William Frey em uma tarde de outono de 1885. Frey, ou Vadim Konstantinovich Geins, deu uma verdadeira palestra a Tolstói abordando desde os benefícios da dieta vegetariana até as implicações morais da exploração de animais. Inclusive essa conscientização sobre o sofrimento animal foi o que o motivou a escrever o ensaio “O Primeiro Passo”, publicado em 1892.
As ideias de William Frey foram trazidas dos Estados Unidos, onde ele viveu por 17 anos em comunidades protovegetarianas e vegetarianas nos estados do Missouri, Kansas e Oregon. Frey inclusive declarou a Tolstói que no decorrer da história da humanidade chegará um dia em que todos, seja por conscientização ou inevitabilidade, terão que adotar uma alimentação vegetariana. O escritor russo não se surpreendeu, mas apenas aquiesceu e exclamou:
“Sim, meu amigo, você está certo! Obrigado por suas palavras sábias e honestas. Certamente, seguirei o seu exemplo e abandonarei a carne.” Antes desse encontro, Tolstói já havia ensaiado a abstenção desse consumo. Segundo o livro “The Vegetable Passion: A History of the Vegetarian State of Mind”, de Janet Barkas, publicado em 1975, ele começou a reduzir o consumo de carne logo depois de escrever “Confissão”, de 1879, e então foi mudando a sua alimentação até adotar definitivamente uma dieta que não incluía o consumo e a exploração de animais.
Em 1882, Tolstói já havia descrito em um de seus diários o seu interesse em se alimentar apenas de kasha, geleias e conservas. Além do escritor, suas filhas Tanya e Masha também adotaram imediatamente uma alimentação livre de carne após os relatos bem convincentes de Frey argumentando que é possível viver muito bem consumindo apenas cereais, frutas e castanhas. Segundo a obra “Vegetarianism in Russia: The Tolstoyan Legacy”, de Ronald D. LeBlanc, de 2001, outra pessoa a quem é creditada a conversão de Tolstói ao vegetarianismo é o seu discípulo e amigo Vladimir Chertkov, que se tornou vegetariano quando viveu na Inglaterra nos anos de 1884 e 1885, e que levou à Rússia tudo que encontrou relacionado ao tema. Naquele tempo, a literatura vegetariana inglesa ou voltada aos direitos animais era publicada na Inglaterra pela Humanitarian League, fundada em 1891 pelo pioneiro dos direitos animais Henry Salt, o que curiosamente revela a estreita relação entre os humanitaristas e os vegetarianos da época.
O livro “A Dieta Humana no Presente e no Futuro”, escrito pelo cientista Andrey Nikolaevich Beketov e lançado em 1878, também teve considerável influência sobre Tolstói. Na obra, Beketov apresenta razões morais e psicológicas sobre o porquê seres humanos na sua progressão de um estado primitivo para um estado verdadeiramente civilizado devem se abster do consumo de animais.
Em 1890, Tolstói escreveu o prefácio de um panfleto sobre os males da caça – intitulado “Um Passatempo Maligno: Reflexões Sobre a Caça”, publicado por Chertkov em 1890. No texto, Vladimir Chertkov argumenta que não é mais necessário, em termos de evolução, o ser humano ter que matar animais para se alimentar. “A matança de animais não é mais uma forma natural de luta pela existência, mas sim um retorno voluntário a um estado primitivo e bestial.” Segundo Chertkov, a caça instiga no ser humano civilizado instintos animais que a consciência humana superou há muito tempo. Esse posicionamento foi endossado por Tolstói.
O escritor russo passou a interpretar que o ato de se alimentar de animais é imoral na medida em que envolve a realização de um ato contrário ao sentimento moral, ou seja, a matança. LeBlanc narra que um dia a tia de Tolstói se juntou a eles para o jantar e encontrou uma faca e uma galinha viva sobre a cadeira. O escritor justificou que sabia que ela gostaria de comer galinha, mas que nenhum deles a mataria, assim delegando a ela o ato de matar o animal se quisesse comê-lo – o que naturalmente ela não o fez.
“Para uma senhora de classe alta de seu tempo, isso passou perto de um escândalo”, avalia Ronald D. LeBlanc. Porém, Tolstói era pacífico e tais ações tinham apenas a intenção de conscientizar, não de ofender. Inclusive ele sempre permitiu que seus familiares, amigos e conhecidos tirassem as suas próprias conclusões a respeito de seu posicionamento em relação ao não consumo de animais.
Pouco tempo antes de falecer, Tolstói disse que preferia ser celebrado por suas obras voltadas à sua filosofia de vida e filosofia moral, o que incluía a sua defesa de que os animais não humanos também têm direito à vida, do que pelos seus romances. Claro que o alcance de seu trabalho como romancista o levou muito mais longe em popularidade, mas de alguma forma a sua filosofia teve um impacto muito significativo. Exemplos?
“O Primeiro Passo”, que deu origem às bases do vegetarianismo ético russo e a sua obra “O Reino de Deus está em vós”, de 1894. Esta segunda traz uma abordagem espiritual não dogmática e que teve grande influência sobre a juventude de Gandhi, tanto que depois o líder pacifista fundou nas imediações de Joanesburgo, na África do Sul, a Fazenda Tolstói. Gandhi, que foi influenciado pelos ensaios de não violência de Tolstói, que incluía animais humanos e não humanos, se considerava um tolstoiano.
Referências
Barkas, Janet. The Vegetable Passion: A History of the Vegetarian State of Mind. Scribner; First Edition (1975).
LeBlanc, Ronald D. Vegetarianism in Russia: The Tolstoy(an) Legacy. The Carl Beck Papers in Russian and East European Studies. No. 1507 (2001).
Gregory, James. Of Victorians and Vegetarians: The Vegetarian Movement in Nineteenth-century. I.B.Tauris (2007).
Alston, Charlotte. Tolstoy and Vegetarianism (junho de 2014).
Por que a exploração de animais está na contramão da justiça social
Mark Rowlands explica por que os animais não humanos são sujeitos morais
“Se ele [um animal não humano] é um paciente moral, […] é uma entidade que tem interesses que devem ser levados em consideração”

Animais são facilmente motivados por estados emocionais que Mark Rowlands define como emoções morais (Acervo: Mark Rowlands)
Em 2012, o filósofo galês Mark Rowlands, professor da Universidade de Miami e autor do best-seller “The Philosopher and the Wolf”, publicou o livro “Can Animals be Moral?”, em que explica por que os animais não humanos são sujeitos morais. No livro, Rowlands apresenta argumentos que ratificam o quão equivocado é o discurso de que os seres humanos têm capacidades que os outros animais não têm, por isso eles não são sujeitos morais.
Rowlands reconhece que os seres humanos têm a capacidade de uma consciência moral com a qual os outros animais não podem rivalizar, porém rebate que não é necessário que um indivíduo não humano tenha a capacidade de analisar seus motivos enquanto sujeito moral para ser um sujeito moral.
Para contrapor essa perspectiva, entre outros exemplos, ele cita o luto dos animais ao perderem membros familiares, e também casos de seres não humanos que se recusam a se alimentarem caso o custo de uma refeição seja infligir dor a um semelhante. Essas são evidentemente razões morais básicas que compõem o universo dos animais não humanos.
“Quando fazem isso, eles [os animais] estão fazendo exatamente o que fazemos quando agimos com base nessas razões: estão agindo de forma moral”, defende o filósofo que na obra apresenta falhas nos discursos de Aristóteles, Immanuel Kant e muitos outros filósofos, pensadores e cientistas que concordariam que os animais não se qualificam como sujeitos morais porque não são capazes de analisar criticamente suas motivações e a relação entre suas ações e motivações.
Em “Can Animals Be Moral?”, o autor defende a reivindicação de possibilidade, ponderando que animais são facilmente motivados por estados emocionais que ele define como emoções morais. Entre os exemplos estão a compaixão, empatia, simpatia, tolerância, luto, ciúmes, malícia, medo e pavor. Rowlands frisa que os animais podem agir moralmente com base nessas emoções que possuem conteúdo moral identificável. “A atribuição de motivação moral aos animais é quase sempre considerada como impossível. Em parte, [muitos] filósofos têm razões respeitáveis, embora em última análise, equivocadas. Mas, em parte, eles estão confusos”, declara.
O filósofo argumenta que os animais são sujeitos morais no sentido de que eles são sujeitos de emoções carregadas moralmente. Os animais não humanos compõem a sua própria categoria de “assuntos morais”. Ademais, enquanto sujeitos morais, podem ser agentes morais, pacientes morais; ou ambos, como defendido pelo filósofo moral David DeGrazia. “Se ele [um animal não humano] é um paciente moral, […] é uma entidade que tem interesses que devem ser levados em consideração quando são tomadas decisões sobre ele ou que impactam sobre ele”, escreveu Mark Rowlands.
Para DeGrazia, em uma perspectiva também compartilhada por Rowlands, uma manifestação de que os animais podem ser agentes morais são ações não condicionadas ou não instintivas em que eles manifestam virtudes ou escolhas. Partindo desse exemplo, os animais podem ser considerados agentes morais sempre que suas ações permitirem uma concepção razoável de agência moral, ou seja, de capacidade de agir ou de se abster de agir intencionalmente ou de forma não previamente determinada.
“Devo argumentar que existe outra opção: enquanto os animais são realmente pacientes morais, e não apenas agentes morais, eles também podem ser sujeitos morais”, enfatiza Mark Rowlands. No entanto, um problema comum é que enquanto pacientes morais, normalmente os interesses dos animais não humanos não são considerados, principalmente quando submetidos a ações de agentes morais que não os consideram como sujeitos morais.
A própria filosofia é um exemplo disso, já que ainda hoje a moralidade não humana sofre com a negação filosófica em muitos círculos. Rowlands critica o desinteresse de muitos filósofos, inclusive alguns grandes pensadores, em relação ao status moral não humano. Ele vê isso como uma grande falha histórica, ponderando que a filosofia sempre se debruçou sobre questões como racionalidade, motivação, autonomia, normatividade, autoconsciência e livre arbítrio. São questões que poderiam ter sido muito melhor discutidas se desde o princípio não tivéssemos nos limitado a uma perspectiva que não se preocupou em ir além da observação humana sobre seres humanos.
A maior falha de muitos filósofos da atualidade, assim como filósofos de outros tempos, é que eles não perceberam como os animais são bons em nos fazer refletir, segundo Mark Rowlands. Outra observação interessante apresentada pelo filósofo galês é que a ciência nunca simpatizou muito com a filosofia moral. Porém, ainda assim se apropriou da linguagem da moralidade; passando a usar terminologias morais como altruísmo, empatia, equidade e justiça no contexto do discurso científico.
São apropriações que surgiram principalmente nas últimas décadas quando cientistas passaram a se dedicar mais aos estudos de fundamentação empírica sobre cognição e emoção envolvendo animais não humanos. Contudo, isso prova que a mudança em relação ao entendimento de seres não humanos como sujeitos morais também está acontecendo no campo da ciência, embora ainda haja resistência.
Rowlands acredita que muitos cientistas rejeitam a filosofia moral que envolvem também seres não humanos porque creem que é uma ameaça à objetividade. Contudo, além de ser uma crença equivocada, é contraproducente, porque o ceticismo exagerado em relação aos outros animais ajudou a fortalecer o antropocentrismo e o especismo, impondo limites inexoráveis ao conhecimento humano sobre a vida, o mundo e a natureza. O filósofo galês vê a ciência como um caminho, mas não a considera prioritária ou exclusiva no entendimento das emoções animais, isto porque a filosofia moral também depende de evidências empíricas; e hoje a própria ciência tem buscado, mais do que em qualquer outro período, entender o comportamento animal a partir dessas evidências.
Saiba Mais
Mark Rowlands é um filósofo que se dedica ao estudo do status moral de animais não humanos. Ele nasceu em Newport, no País de Gales, em 1962.
Referência
Rowlands, Mark. Can Animals be Moral? Oxford University Press. Reprint Edition (2012-2015).
Mary Midgley: “Os animais são muito mais sutis e complicados do que pensávamos”
Segundo a filósofa britânica, um problema comum por parte de muitos cientistas é que eles ignoram a complexidade psicológica e motivacional que também faz parte dos animais

Mary declara que em diversos aspectos ainda somos verdadeiramente primitivos, enquanto outros animais, a quem não legamos direitos, são mais sofisticados do que nós em inúmeros aspectos (Foto: The Guardian)
Mary Midgley é uma filósofa moral britânica que durante muito tempo lecionou na Universidade de Newscastle, na Inglaterra. Ela é mais conhecida por seu trabalho no campo da ética e dos direitos animais. Em 1978, aos 59 anos, ela lançou o livro “Beast and Man”, em que defende que os seres humanos são mais parecidos com os animais do que muitos filósofos e cientistas sociais sempre julgaram; isto porque sempre se preocuparam mais com as nossas diferenças em relação às outras espécies do que as nossas semelhanças.
Na obra, ela declara que em diversos aspectos ainda somos verdadeiramente primitivos, enquanto outros animais, a quem não legamos direitos, são mais sofisticados do que nós em inúmeros aspectos. A obra foi o primeiro manifesto de Midgley contra o reducionismo, o determinismo, o behaviorismo e o relativismo que ela considera limitantes.
Em “Animals and Why They Matter”, outro de seus mais famosos livros, publicado em 1983, Mary analisa como a divisão e a oposição entre razão e emoção influenciaram nossas ideias morais e políticas; e como fizeram com que no decorrer do tempo ignorássemos a importância dos animais não humanos.
Ao longo de sua carreira, ela publicou mais de 15 livros. Uma das suas obras mais recentes é “Are you an illusion?”, lançada em 2014. O livro é uma reação à obra “The Astonishing Hypothesis”, do biólogo Francis Crick, que reduz os conceitos de livre-arbítrio e identidade pessoal a uma reação das células nervosas. Migdley rebateu essa tese considerando que pensamentos e memórias são parte da realidade de animais humanos e não humanos, e que precisam ser estudados como tais, assim exigindo diferentes métodos analíticos que não cabem dentro de uma perspectiva reducionista e determinista.
A identificação de Mary Midgley com os direitos animais começou no final dos anos 1950, quando ela conheceu o trabalho do zoólogo e ornitólogo Konrad Lorenz e da bióloga Jane Goodall. Em 1985, o seu ensaio “Persons and Non-Persons” foi publicado no livro “In Defense of Animals”, páginas 52-62, do filósofo australiano Peter Singer. No ensaio, ela apresenta argumentos que devemos considerar em contrariedade à objetificação animal.
Em 1999 e em 2003, o escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, citou Mary Midgley e Tom Regan como referência em direitos animais nos livros “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello”. O trabalho de Mary é bastante enfático no que diz respeito ao que os filósofos podem aprender especialmente com os animais não humanos, ignorados por importantes pensadores que ajudaram a fundamentar e a moldar o antropocentrismo e o especismo.
Em 27 de fevereiro de 2013, aos 93 anos, Mary Midgley concedeu uma entrevista a Simon Jenkins, do The Guardian. Ela o recebeu em sua casa em Newcastle, e na ocasião disse que quando se trata de falar sobre as diferenças entre pessoas e animais, na verdade, essa diferença não é tão grande quanto consideramos. “Os animais são muito mais sutis e complicados do que pensávamos”, enfatizou.
Ela explicou a Jenkins que muitos dos problemas que enfrentamos hoje em relação à negação dos direitos dos animais à vida no contexto da ciência, por exemplo, está relacionado com o fato de que muitos cientistas não têm um senso de filosofia ou história.
“O culto à ciência agora é amplamente praticado. Quando comecei a olhar a maneira como as pessoas falam sobre a ciência, percebi que existe essa noção grotescamente exagerada do que é e o que faz. Foi quando me interessei pelo comportamento animal, no final da guerra. Até então, não acho que pensei sobre ciência como uma espécie de campo rival do pensamento, mas uma vez que você começa…”, revelou.
Segundo Mary, um problema comum por parte de muitos cientistas é que eles ignoram a complexidade psicológica e motivacional que também faz parte dos animais. Ela crê que se começarmos a reduzir tudo ao comportamento das células, estaremos reduzindo tudo ao determinismo, o que é um grande equívoco sob a perspectiva da filosofia moral.
Saiba Mais
Mary Midgley, que hoje tem 98 anos, nasceu em Londres em 13 de setembro de 1919.
Referência
Tom Regan: “Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado”
“Embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas acreditam”

“Acredito que ambas as ideias [de Peter Singer] não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais” (Acervo: The Animals Voice)
Tom Regan, autor do clássico “Empty Cages”, de 2004, relatou que com o tempo Peter Singer passou a defender unicamente duas ideias principais: “[De acordo com Singer], Primeiro, devemos considerar os interesses de todos e ter igual igualdade de interesses. Segundo, depois de ter feito isso, devemos fazer o que traz o melhor equilíbrio geral dos interesses dos afetados. A primeira ideia diz respeito ao procedimento: o que temos que fazer antes de decidir o que é o certo a se fazer? A segunda ideia diz respeito ao julgamento moral: o que é o certo a se fazer? Acredito que ambas as ideias não são apenas equivocadas, são fundamentalmente enganosas, de maneira que são prejudiciais aos animais.”
Regan discordava de Singer quanto ao procedimento de consideração de interesses porque, de acordo com ele, isso significa colocar em uma balança, e em nível de igualdade, não apenas os interesses dos explorados, mas também dos exploradores em continuar fazendo o que fazem. Para Regan, a perspectiva ética de Singer em relação ao procedimento, ou seja, o que temos de fazer antes de decidir o que é certo, é perigosa, porque, com base nisso, alguém pode dizer também que é importante considerar os interesses de estupradores, proprietários de escravizados e pedófilos antes de julgar que o que eles fizeram e fazem é absolutamente reprovável e inaceitável.
“Similarmente, acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado. Minha posição não poderia ser mais oposta a essa ideia. Você nunca deve considerar os interesses daqueles que violam os direitos dos animais (ou humanos) antes de julgar o que estão fazendo como errado, isto porque estão violando os direitos de alguém”, justificou Tom Regan a Claudette Vaughan.
Tom Regan afirmou em entrevista ao Vegan Voice que muitas pessoas acreditam que o seu trabalho e o de Singer são muito similares. “‘Singer não diz o mesmo?’, ‘Singer não acredita nos direitos animais?’ Para essas perguntas, a resposta honesta é: ‘Não, ele não diz a mesma coisa. Não, ele não acredita nos direitos animais.’ E se alguém pergunta: ‘No que ele acredita então?’ A resposta é: ‘Ele acredita nas duas ideias que descrevi.’”

“Acredito que é profundamente equivocado dizer que devemos considerar os interesses das pessoas na indústria de pele, vivissecção ou agricultura animal antes de julgarmos que essas pessoas estão fazendo algo terrivelmente errado” (Foto: American Anti-Vivisection Society)
Regan citou que Peter Singer não acredita que a vivissecção seja sempre errada, apontando que o filósofo australiano crê que há situações em que a vivissecção é justificável. “Se os resultados estão em melhor equilíbrio do que se fossem obtidos de outra maneira, então sua visão é a de que não há nada de errado em usar animais em pesquisa. Este é um motivo pelo qual penso que as ideias de Singer são prejudiciais aos animais. Minha posição não poderia ser mais oposta à sua”, explicou o filósofo a Claudette Vaughan.
Tom Regan enfatizou que as pessoas não deveriam ficar chocadas ao saberem disso, levando em conta que Peter Singer diz que não é moralmente errado ter relações sexuais com animais. “Desde que o sexo ocorra em local privado, e assumindo que os participantes estão gostando, ele não vê nada de errado nisso. Isso é perfeitamente condizente com as duas principais ideias de Singer. Na verdade, isso é exigido pelas suas duas principais ideias. Novamente, a minha posição não poderia ser mais oposta a dele. Na minha visão, bestialidade é sempre moralmente errada pelas mesmas razões que sexo com crianças é moralmente errado: os direitos daqueles que não podem dar o consentimento são violados”, criticou.
O filósofo estadunidense argumentou que a última coisa que os animais precisam é que os exploradores de animais insinuem que os ativistas da militância pelos direitos animais estão reivindicando direitos para que possamos ter sexo mutuamente satisfatório com seres não humanos: “Quero dizer, meu Deus! Se isso acontecesse, os ativistas seriam vistos como desonestos, na melhor das hipóteses, e depravados, na pior das hipóteses. Em ambos os casos, o que os ativistas dizem em nome dos animais seria totalmente desconsiderado. Seria muito difícil calcular o dano maciço que seria causado aos animais. Então, embora eu reconheça o papel importante que Singer desempenhou nos estágios iniciais do movimento moderno, além de eu gostar muito dele como pessoa, não acredito que suas ideias representem o que os ativistas da militância pelos direitos animais acreditam. Espero que isso se torne mais claro à medida que avançamos. E precisa ser assim.”
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Professor de filosofia da Universidade Estadual da Carolina do Norte, onde lecionou por 34 anos, Tom Regan conquistou prestígio internacional por sua produção prolífica voltada ao abolicionismo animal. Em 2006, Regan teve o seu livro “Empty Cages”, ou “Jaulas Vazias”, publicado no Brasil. Outras de suas obras de referência são “All That Dwell Therein: Essays on Animal Rights and Environmental Ethics”, de 1982; e “The Case for Animal Rights”, de 1983.
Referência
Propaganda jamais deve estar acima da moral e da ética
Propaganda jamais deve estar acima da moral e da ética. Quando você faz da propaganda o seu principal veículo de transformação e deixa a moral e a ética em segundo plano, isso significa que direta ou indiretamente você pode recorrer a meios caliginosos, rasos, hiperbólicos, conflitantes ou incertos para convencer o maior número de pessoas a compartilharem de suas ideias. É claro que a propaganda pode triunfar, mas também pode ter um prazo de validade bem curto dependendo da forma como é conduzida. Ainda mais no mundo atual, em que a propaganda pode ser tão sólida quanto um castelo de areia.
“Você sabe que não como nada de origem animal”
Um amigo me ofereceu um pedaço de bolo.
— Você sabe que não como nada de origem animal.
— É praticamente um bolo vegetariano, só tem um ovo. Nada de mais. Come aí, só hoje, um pedaço. Você não vai nem sentir o gosto de ovo porque a gema foi peneirada. Não tem leite.
— Entendi. Então, o problema não é o gosto de ovo. Qual mensagem eu estou te passando se eu comer um pedaço desse bolo?
— Sei lá…a mensagem de que você é um vegano flexível.
— A mensagem que eu passaria seria a de que não tem nada de errado em ocasionalmente comer algo de origem animal. E isso não condiz com o que eu defendo, que é não enxergar os animais como fonte de alimentos ou produtos. Conheço a realidade das galinhas poedeiras, e isso não é algo que eu gostaria de incentivar, mesmo que minimamente, até porque não penso só na galinha que botou esse ovo, mas em todas. Inclusive aquelas que nesse momento estão confinadas em gaiolas. Talvez esse ovo não traga o pior dos sofrimentos, mas em algum nível traz algum tipo de exploração. Isso já vem implícito quando pensamos na galinha como fonte de alimento para seres humanos, na ideia de que elas podem e até devem nos servir. E a ideia de servir, para não falar em servidão, reflete, no melhor cenário, conveniência, caso alguém diga que as galinhas são “bem tratadas”. Não concordo com isso porque não reconheço nada de origem animal como algo que eu possa ou deva consumir. Um ovo foi botado por uma galinha, e não creio que ela o botou para que eu o comesse. Afinal, ovos nada mais são do que ovulação de galinha.
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