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Paranavaí terá “Conversa Entre Amigos” em junho

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Programa literário visa estimular não apenas a leitura, mas também o senso crítico

Dia 11 de junho, às 18h, será realizado mais um encontro do programa de incentivo a leitura Conversa Entre Amigos na Biblioteca Municipal Júlia Wanderley. O livro a ser discutido é “Terra Vermelha”, do escritor paranaense Domingos Pellegrini. O evento vai contar com a participação do deputado federal Marcelo Almeida, idealizador do programa.

O programa Conversa Entre Amigos é voluntário e gratuito, e visa facilitar o acesso às grandes obras da literatura brasileira e internacional, além de formar uma rede de grupos de discussão. Criado em Curitiba em fevereiro de 2004, o programa já conta com mais de 1,5 mil leitores cadastrados, divididos em grupos por todo o Paraná.

O Conversa Entre Amigos não impõe nenhuma restrição quanto a faixa etária, profissão, crença e origem. Inclusive tal diversidade contribui para o enriquecimento dos debates, segundo o deputado federal Marcelo Almeida, conhecido pelo trabalho que desenvolve em prol da cultura. Almeida é o responsável por disponibilizar gratuitamente livros aos grupos de leitura espalhados pelo Paraná.

Em Paranavaí, o primeiro encontro do programa Conversa Entre Amigos foi em março, quando houve discussão da obra “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini. Os encontros são realizados a cada dois meses na Biblioteca Municipal Júlia Wanderley. “A escolha de cada livro é definida pelo próprio grupo. Atualmente, temos 56 pessoas participando do programa”, revela a assessora de projetos culturais da Fundação Cultural, Ivonete Almeida.

Programa foi criado em Curitiba há seis anos (Foto: Programa Conversa Entre Amigos)

O livro da vez, “Terra Vermelha”, a ser debatido às 18h do dia 11 de junho na Biblioteca Municipal, foi escrito por Domingos Pellegrini que conta a trajetória de um casal de migrantes durante a colonização do Norte do Paraná. A história de José e Tiana, no entanto, é apenas simbólica, pois o que Pellegrini faz com profundidade é traçar reflexões sobre temas atemporais da existência humana. Paixões, valores e conflitos servem de alicerce a obra que se tornou um clássico da literatura brasileira.

Entre os livros que o grupo de leitura do programa “Conversa Entre Amigos” de Paranavaí tem disponível para leitura e debate estão: “1808”, de Laurentino Gomes; “O Advogado”, de John Grisham”; “A Distância Entre Nós”; de Thrity Umrigar; “Um Doce Aroma de Morte”, de Guilhermo Arriaga; “A Eternidade e o Desejo”, de Inês Pedrosa; “O Filho Eterno” e “O Fotógrafo”, de “Cristovão Tezza; “O Guardião de Memórias”, de Kim Edwards; “Herdando uma Biblioteca”, de Miguel Sanches Neto; “O Livreiro de Cabul”, de Asne Seierstad; “A Menina que Roubava Livros”, de Markus Zuzak; “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mólnar; “Rota 66 – A História da Polícia que Mata”, de Caco Barcellos; “Sua Resposta Vale Um Bilhão”, de Vikas Swarup; e “Tocquevilleanas”, de Roberto da Matta.

Saiba Mais

Cada participante tem o prazo de um mês para ler o livro a ser debatido.  Os exemplares estão disponíveis na Fundação Cultural. Para mais informações, ligar para (44) 3902-1128

Seringueira garante estabilidade ao produtor

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Seringais despontam como negócio rentável no Noroeste do Paraná

Lucro com a cultura é de R$ 1,8 mil por hectare ao mês (Foto: Reprodução)

Ideal para o solo do Noroeste do Paraná, a seringueira desponta como alternativa de produção e garantia de estabilidade ao produtor. A partir do oitavo ano, lucro com a cultura é de pelo menos R$ 1,8 mil por hectare ao mês.

A seis quilômetros de Paranapoema, em uma região dominada por pastos e canaviais, uma propriedade inspira ao exótico. É a Fazenda Guanabara, onde José Aparecido da Costa coordena o plantio de milhares de seringueiras bem distribuídas em centenas de alqueires. “Começamos o plantio em 1988, mas plantamos bastante também em 2002. Todo ano ocupamos cerca de 60 hectares com novas mudas”, explica Costa em tom de satisfação, apontando no horizonte um paredão formado por centenas de árvores.

Quilo da borracha é comercializado por R$ 1,85 (Foto: Reprodução)

A heveicultura é perene, mas realmente lucrativa. O plantio médio de 1210 árvores por alqueire rende ao produtor cerca de mil quilos de borracha do tipo cernambi virgem prensado (CVB). “Cada quilo é vendido por R$ 1,85, o que significa R$ 1850 por alqueire. Se o produtor preferir comercializar a borracha seca já beneficiada, ele pode lucrar facilmente R$ 4,20 por quilo”, destaca o coordenador de produtividade.

Para a produção de látex, o clone ideal é o RRIM 600, importado da Malásia, o mesmo usado também no Estado de São Paulo. “Outros clones têm qualidade inferior, então esse é o melhor”, assegura e acrescenta que a produtividade depende muito do trabalho profissional, pois sem conhecimento técnico o prejuízo pode ser grande.

Com as mudas prontas, o processo produtivo começa depois de seis anos. “Se a pessoa tiver só as sementes leva dois anos para prepará-las, totalizando oito anos até o início da produção”, explica Costa, lembrando que é preciso ser esperto e poupar tempo.

A seringueira é uma cultura de longo prazo que exige investimento inicial de R$ 4 a R$ 7 mil por hectare. “Se o produtor pagar R$ 3 por muda, ele vai gastar R$ 4,5 mil no total. Só que o plantio em si não fica caro porque não exige um solo muito fértil”, afirma Costa. Segundo o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), o solo da região Noroeste do Paraná é considerado um dos melhores para o cultivo da seringueira.

José Aparecido justifica a afirmação do Iapar mostrando várias árvores saudáveis plantadas em meio aos cafezais danificados pelos nematoides. “Mesmo com essa praga, não tivemos problema nem na formação da seringueira e nem na extração do látex”, ressalta.

Além disso, a heveicultura pode proporcionar mais lucro para o pequeno do que para o grande produtor. José Aparecido da Costa, com a experiência de mais de 20 anos cultivando seringueiras, relata que quem tem uma propriedade pequena pode extrair o látex durante o ano todo.

“Os grandes produtores não gozam desse privilégio porque precisam dar férias aos funcionários, interrompendo a produção por dois meses”, revela. Em uma área de cinco mil seringueiras, duas pessoas dão conta de toda a produção. “Rende cinco toneladas de borracha por mês e um lucro de pelo menos R$ 9 mil”, enfatiza.

Área pode ser ocupada por outras culturas

Um dos grandes benefícios da heveicultura é a possibilidade do produtor aproveitar a mesma área para investir em outras culturas. “Entre as seringueiras, você pode cultivar milho, arroz, feijão, soja, algodão, palmito, etc. Só não pode mandioca, mamona e mamão. Essas três não têm uma adaptação boa com a seringueira, daí surgem fungos”, informa o coordenador de produtividade da Fazenda Guanabara, José Aparecido da Costa, que planta café nas entrelinhas dos seringais.

Seringais podem dividir espaço com outras culturas (Foto: Reprodução)

O padrão de plantio de cada árvore é de 8 x 2,5  m², deixando uma área livre de 20 m². Contudo, hoje em dia já se faz o plantio de 7 x 2,5 m² para aproveitar melhor a área. José Aparecido conta que a maior parte da borracha produzida no Paraná é enviada para São Paulo.

“A demanda lá é muito grande, tanto que eles buscam a borracha sem cobrar pelo transporte”, declara. O único ponto negativo da seringueira é a incidência de fungos. Segundo Costa, com a devida qualificação, o próprio sangrador recupera rapidamente a árvore. “O custo é baixo e faz valer a pena”, comenta.

Saiba mais

A Hevea-Tec, maior produtora de mudas de seringueira do Estado de São Paulo, fornece mudas gratuitamente para quem quer investir na heveicultura. Antes o interessado deve firmar um contrato com a empresa se comprometendo a fornecer todo o látex produzido.

“É Nóis Cinco”: entreter para informar

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Grupo de humor usa bonecos gigantes para oferecer entretenimento e ao mesmo tempo informação

Bonecos criados pelo grupo tem quatro metros de altura (Foto: Amauri Martineli)

Bonecos criados pelo grupo têm quatro metros de altura (Foto: Amauri Martineli)

Além de trabalhar com shows de humor, palestras, oficinas e publicidade, a trupe “É Nóis Cinco” está apostando também na criação e no uso de bonecos gigantes como meio de oferecer entretenimento e ao mesmo conscientização sobre assuntos importantes.

Em Paranavaí, é difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar do grupo “É Nóis Cinco”, conhecido por seus espetáculos paradoxais que misturam o humor das ruas, baseado na realidade, a elementos surreais, nascidos do improviso.

Desta vez, a trupe formada por Aleks Alves, Moacir Barini, Antônio Soares, Márcio Cândido e Amarildo Travain está investindo na criação de fantoches grandes. “Já fizemos cinco. Foi um trabalho que levou dois meses para ser concluído”, revela o artista Márcio Cândido. Os bonecos gigantes chamam a atenção não apenas pelos quatro metros de altura, mas também, e principalmente, pela riqueza de detalhes; é impossível não identificar as feições dos membros da trupe em cada um daqueles personagens caricatos.

"É Nóis Cinco" mistura humor das ruas a elementos surreais (Foto: Arquivo)

"É Nóis Cinco" mistura humor das ruas a elementos surreais (Foto: Arquivo do grupo)

Embora tenham usado basicamente isopor, madeira e ferragens na composição, o que se vê são figuras tão realistas e próximas da arte popular que a simpatia com os bonecos surge à primeira vista. Além disso, os fantoches da trupe também remetem aos clássicos bonecões do folclórico carnaval de Olinda, em Pernambuco.

“As ferragens foram trabalhadas de modo a termos todo o conforto necessário na hora de manipular os bonecos”, relata o artista Aleks Alves. Os fantoches gigantes podem ser interpretados como um grande apelo visual do grupo para assuntos sérios. “Criamos eles enormes pra realmente chamar atenção. Assim podemos usá-los para trabalhar com campanhas de conscientização, tratar de assuntos importantes de forma descontraída”, revela Márcio Cândido, referindo-se a especialidade do grupo.

A trupe acrescenta que os bonecos estarão disponíveis para trabalhos com publicidade. “Eles podem ser desmontados, o que facilita o transporte”, frisa o artista Moacir Barini.  O grupo ainda agradece o apoio da Fundação Cultural pelo espaço cedido para a criação dos bonecos.

Trupe se apresenta para 15 mil estudantes

Até o final do mês de novembro, o grupo de humor “É Nóis Cinco” vai encerrar um ciclo de 42 apresentações que misturam humor, teatro e conta com a participação dos bonecos gigantes. São espetáculos destinados a estudantes da rede municipal de ensino. “É um trabalho de conscientização ambiental em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, inclusive até o cenário do espetáculo é feito de materiais recicláveis”, relata o artista Márcio Cândido.

A trupe tem muita experiência em trabalhos envolvendo temas como DST/Aids, alcoolismo, ergonomia, atendimento ao cliente, motivação, direção defensiva, qualidade de vida e relações familiares. O grupo também oferece oficinas de materiais recicláveis, pintura em azulejo e decoração.

“É Nóis Cinco” surgiu há três anos

O Grupo humorístico “É Nóis Cinco” surgiu em Paranavaí há três anos, e desde então já levou ao público cinco peças autorais: “É Nóis de Férias”, “É Nóis trabalhando”, “É Nóis de Férias, Trabalhando e Estudando”, “Nóis é Show” e “É Nóis Cinco Ponto Com”. Agora o grupo se prepara para estrear o espetáculo “Talentos” em que vão interpretar personagens famosos. “Vamos nos apresentar nos dias 20 e 21 de novembro no Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa. Vai ser muito legal”, garante o artista Moacir Barini.

A marca registrada do grupo é a capacidade em transformar o improviso em arte.  As apresentações da trupe são tão imprevisíveis que os próprios artistas surpreendem uns aos outros. Segundo o “É Nóis Cinco”, errar também faz parte do show porque aproxima mais o público do espetáculo. Em suma, a trupe é composta por artistas que trabalham por prazer e que valorizam a liberdade criativa de cada um.

Saiba mais

Os integrantes do grupo de humor “É Nóis Cinco” já excursionaram por muitas cidades do Paraná, além de Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.

Serviço

Interessados podem entrar em contato com o grupo por meio da Educa Assessoria. O telefone é (44) 3045-4510. Para mais informações, basta acessar o site http://www.enois5.com

O solo frágil que prosperou

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A redenção do Noroeste veio com a evolução do solo do arenito Caiuá

Solo que um dia foi considerado frágil (Foto: Iapar)

Jonez Fidalski: “Ficou claro que o potencial de produtividade do arenito Caiuá poderia ser igual ao do basalto” (Foto: Iapar)

Durante muito tempo, a região do arenito Caiuá foi estigmatizada como uma grande área de terras inférteis por causa da fragilidade do solo arenoso. Felizmente, o tempo e as técnicas adequadas se encarregaram de dar ao Noroeste do Paraná a merecida redenção.

No passado, muitos agricultores tentaram produzir na região do arenito Caiuá o que se produzia no basalto, nas áreas de terra roxa. O resultado foi um grande prejuízo e a crença de que o solo era infértil. A desinformação incutiu na mente da classe rural a ideia de que a solução seria ocupar o solo somente com pastagens, e assim logo o campo foi tomado pelo gado. Uma das grandes consequências foi o êxodo dos colonos, transformando a zona rural em um espaço pouco habitado. “Os grãos do arenito não proporcionavam bons rendimentos, então a escolha pelo pasto foi quase unânime”, conta o pesquisador Pedro Auler, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).

As dificuldades em se trabalhar com lavouras no arenito Caiuá perduraram por muito tempo, mas isso jamais significou que o solo fosse incapaz de evoluir. “Aos poucos, levando em conta condições diferenciadas de clima e solo para uma mesma cultura, ficou claro que o potencial de produtividade do arenito Caiuá poderia ser igual ao do basalto”, diz o pesquisador Jonez Fidalski, também do Iapar.

Os pesquisadores descobriram que as necessidades nutricionais do solo arenoso são mais fáceis de serem atendidas do que as da terra roxa. Fidalski explica que na região do arenito Caiuá é fácil reconhecer a deficiência nutricional da planta e repor o que ela precisa para produzir. “O nosso solo tem uma grande capacidade de resposta, ao contrário do solo basáltico”, avalia.

Pastagem era encarada como condição e não opção (Foto: Iapar)

Pedro Auler: “Escolha pelo pasto foi quase unânime” (Foto: Iapar)

Segundo engenheiros agrônomos e pesquisadores, os gastos para se produzir no solo arenoso e no basalto podem ser tranquilamente equiparados. No entanto, é importante tomar algumas precauções. “No arenito Caiuá, recomendo que não se faça o trato cultural com herbicidas, e sim na base da roçada porque mantém mais umidade e segura os micronutrientes dos insumos”, destaca o gerente da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Paranavaí, Valter Martins Pessoa.

O pesquisador Jonez Fidalski afirma que é muito seguro investir em lavouras na região do arenito Caiuá graças as novas técnicas de plantio direto. “Além de ser uma prática bastante cômoda, o sistema de adubação da técnica proporciona a renovação do solo”, complementa Fidalski. O engenheiro florestal João Arthur de Paula Machado declara que apesar dos contratempos vividos pelos agricultores no passado, a região do arenito Caiuá pode ser considerada altamente próspera. “Representa muito bem a agricultura do Paraná e do Brasil”, enfatiza.

A importância da classificação do solo

Segundo o pesquisador Jonez Fidalski, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), a partir do momento que um produtor rural conhece as classes de solo existentes em uma propriedade, ele evita principalmente a erosão hídrica. “A classificação de solos também é importante para se identificar qual é o tipo de cultura que melhor se adapta a determinada região. Por isso, levamos em conta o teor de argila”, justifica o pesquisador.

Classificação do solo previne erosão hídrica (Foto: Embrapa)

Classificação do solo previne erosão hídrica (Foto: Embrapa)

Segundo Fidalski, a melhor forma de definir as classes de solo é por meio da determinação granulométrica (areia, silte e argila) feita a partir da abertura de uma trincheira com dimensões de 1m por 1,50m. “É oportuno salientar que a região Noroeste do Paraná, com seus três milhões de hectares, apresenta outras classes de solos, principalmente nas áreas de transição com o basalto”, frisa o pesquisador.

Grama mato grosso é a ideal

A grama mato grosso ou batatais é a mais recomendada para agricultores da região Noroeste do Paraná. A planta oferece mais umidade do solo e também melhor taxa de fotossíntese, segundo estudos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). “Ela age profundamente no solo, adquirindo mais nutrientes e usufruindo de recursos que outras plantas mais rasteiras não conseguem captar, como a leguminosa amendoim forrageiro”, explica o pesquisador Jonez Fidalski.

A escolha da grama inadequada para se trabalhar com determinada cultura na região do arenito Caiuá pode ter como consequência uma cobertura de solo comprometida. “O resultado é a grande perda de teores de carbono, o que culmina na incapacidade do solo em filtrar toda a água”, revela o pesquisador Pedro Auler.

Um pouco de história

O engenheiro civil Alcione Pacheco conta que nas décadas de 1960 e 1970, quando muitas cidades do Noroeste do Paraná estavam em expansão, faziam-se muitas construções errôneas, principalmente com espigões ou obras fluviais defletoras (dispositivos que servem para direcionar o fluxo de uma corrente e preservar ou recuperar a margem de um curso de água). O resultado a longo prazo foi a degradação do solo.

Dona Maria e o carrinho branco

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Dona Maria criou nove filhos com a renda de um carrinho de doces

Dona Maria em frente ao companheiro de longa data (Foto: David Arioch)

Abandonada pelo marido na juventude, a vendedora ambulante Maria Vieira dos Santos, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, conseguiu se reerguer e sozinha criou nove filhos com a renda de um carrinho branco de doces.

No início da década de 1970, Dona Maria, como é mais conhecida, trabalhou como diarista e lavadeira. À época, era mal remunerada. Recebia o equivalente a R$ 2,50 para lavar dois sacos grandes de roupa que pesavam cerca de 20 kg. Para a mulher que falava das dificuldades do passado com um sorriso tímido, era inevitável mostrar os calos remanescentes, lembranças de uma fase de agruras.

Quando atuava como diarista era muito comum Dona Maria iniciar a jornada de trabalho às 6h e retornar para casa somente à noite, carregando no bolso um punhado de notas que garantia a subsistência da família. Na moeda de hoje, não passaria de R$ 5. Quando não ofereciam alimentação no serviço, Maria ficava sem comer.

Além do trabalho pesado e dos nove filhos pequenos para criar, ela teve de lidar com a indiferença do marido, alguém que passava o dia em casa, desinteressado em procurar emprego. Um dia, sem avisar, o homem foi embora para o Mato Grosso. A situação ficou tão difícil que teve dúvidas sobre o que fazer da vida, então surgiu uma oportunidade. “Minha irmã que vivia em São Paulo adoeceu. Pediu que eu fosse até lá visitá-la. Quando cheguei, vi um negócio compridinho de diversas cores. O marido de minha irmã falou que chamava ‘gelinho’, então decidi trazer a Paranavaí”, relembrou.

O cunhado de Dona Maria comprou 10 mil saquinhos para geladinho e 10 litros de liga para o preparo. “Quando cheguei aqui, percebi que ninguém nunca tinha visto geladinho. O problema era que eu não tinha um freezer para conservá-los”, reiterou. Solidários com a situação, alguns amigos compraram o refrigerador. “Me deram o freezer e falaram que eu iria pagar com as vendas. Foi o que aconteceu, paguei cada centavo”, destacou orgulhosa. A princípio, se limitou a comercializar geladinhos, até que encontrou um amigo disposto a trocar um carrinho de doces por uma bicicleta.

Já com o novo veículo, Dona Maria comercializou uma grande gama de produtos ao preço de dez a cinquenta centavos. Chips, geladinho, goma de mascar, cocada, doce de abóbora, mariola, maria-mole, bala, pirulito e muitos outros que sempre estiveram alinhados cuidadosamente por trás da vidraça do velho companheiro. “Graças a esse carrinho, consegui comprar uma casa e criar meus nove filhos. São seis mulheres e três homens”, enfatizou.

Madalena dá continuidade ao legado da mãe (Foto: David Arioch)

Madalena dá continuidade ao legado da mãe (Foto: David Arioch)

Desde 1974, a vendedora estacionava o velho carrinho branco em frente ao Colégio Estadual Sílvio Vidal. “Vi muitas crianças se formarem nesse colégio, inclusive os meus filhos. Os pais daqueles que hoje estudam aqui também compravam doces comigo”, revelou. Infelizmente, após mais de 30 anos dedicados a mesma atividade, em dezembro de 2008, Maria Vieira dos Santos foi vítima de um ataque cardíaco, mal que a separou do carrinho branco, da família, amigos e estudantes do Sílvio Vidal. Hoje, Madalena Vieira dos Santos, uma das filhas de Dona Maria, é quem com a parceria do velho carrinho branco dá continuidade ao legado da mãe.

Saiba mais

A reportagem acima homenageia a bem-humorada mineira Maria Vieira dos Santos, a quem tive o prazer de entrevistar em 2006/2007. É uma personalidade que faz parte da história de milhares de pessoas, principalmente na infância, que estudaram no Colégio Estadual Sílvio Vidal.

No dia da entrevista, Dona Maria disse uma frase inesquecível e que fez jus à sua personalidade aguerrida e perseverante. “Sinto uma paz de espírito muito grande quando estou trabalhando. Me falaram que eu já devia ter parado, mas eu digo que enquanto estiver mexendo as pernas vou continuar.”

A vendedora Maria Vieira dos Santos começou a trabalhar no campo com oito anos de idade. Atuou nas lavouras de mamona, algodão, arroz e feijão.

Atendia em média 80 crianças e adolescentes todos os dias e foi pioneira na comercialização de geladinhos em Paranavaí. Segundo ela, na década de 1970 os sabores que mais atraíam as crianças eram menta, uva, groselha e abacaxi.

Eronildo e o cachimbo da nostalgia

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Eronildo

Fumo de corda faz parte da tradição familiar de “Seu Eronildo” (Foto: David Arioch)

O aposentado Eronildo dos Santos vive no Paraná há mais de 40 anos, mas resguarda no coração as lembranças de quando vivia em um humilde sítio no interior do Sergipe.

A nostalgia sempre surge após o almoço, quando “Seu Eronildo”, que mora em São João do Caiuá, no Noroeste do Paraná, senta sobre um banco de madeira envelhecida e, com os dedos calejados pelas décadas de trabalho na lavoura, acende o rústico e artesanal cachimbo de barro que ele mesmo criou.

Entre uma baforada e outra, a fumaça transporta o velho sergipano para a época em que a mãe e a avó o ensinaram a preparar fumo de corda para o cachimbo; uma liturgia com duração de 25 minutos.

Eronildo detesta cigarro, mas acha besteira dizer que fumo de corda faz mal. “Minha mãe morreu com 99 anos e minha avó com 110”, enfatiza o aposentado enquanto sorri e aponta para a fumaça que desvanece aos poucos.

Written by David Arioch

September 18th, 2009 at 1:09 am

O dom de talhar a madeira

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Olegário aperfeiçoou as habilidades como carpinteiro e se tornou um mestre em talhar madeira

Artesão é especialista em esculturas de madeira (Foto: David Arioch)

Artesão é especialista em esculturas de madeira (Foto: David Arioch)

Há 28 anos, Olegário José dos Santos, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, aproveitou as habilidades como carpinteiro para reproduzir uma obra de arte. O resultado foi tão positivo que desde então se dedica a criar placas, quadros e esculturas, peças que já foram comercializadas em muitos estados do Brasil e em outros países.

Tudo começou em 1981, quando “Seu Olegário” trabalhava como mestre de obras e marceneiro. À época, a habilidade em talhar madeira despertou no artista o desejo de fazer algo mais do que criar apenas produtos funcionais. “Vi um trabalho e decidi produzir também. Comecei a fazer esculturas e não parei mais. Tem peças minhas nos Estados Unidos, Japão, França, Espanha, Argentina, Costa Rica e Portugal”, diz o artesão em tom de orgulho.

Houve um período em que Santos participava de feiras agropecuárias com o intuito de divulgar e também comercializar as peças que produzia. “Em exposições no Paraná e São Paulo, eu vendia pelo menos 10 placas para fazenda e ainda levava trabalho pra casa. A procura era grande”, explica o artista plástico que já participou de exposições agropecuárias em Paranavaí, Maringá, Umuarama, Londrina, Foz do Iguaçu, Santo Antônio da Platina, Wenceslau Braz, Maringá, Ourinhos, Votuporanga, Presidente Prudente e Assis. Santos também vendeu muitas peças no litoral de Santa Catarina, principalmente pequenos artigos.

Independente do tamanho da obra, seja um chaveirinho feito na hora e vendido por R$ 4 ou um altar de R$ 7 mil que levou 90 dias para ser produzido, a verdade é que depois do trabalho concluído sempre surge o momento de fruição. “Sinto prazer em criar qualquer coisa”, enfatiza Seu Olegário que preza pela riqueza de detalhes. O perfeccionismo está embutido em cada uma de suas esculturas; nas formas e nas curvas que tiram do anonimato pedaços de cedro e cerejeira que provavelmente seriam transformados em produtos em série, como móveis.

Olegário dos Santos: “Sinto prazer em criar qualquer coisa” (Foto: David Arioch)

Olegário dos Santos: “Sinto prazer em criar qualquer coisa” (Foto: David Arioch)

“São ótimas madeiras para o trabalho que desenvolvo. Só uso outros tipos para fazer placas de fazenda”, informa e acrescenta que a cerejeira é trazida de Rondônia. Uma das especialidades de Seu Olegário é a criação de esculturas de imagens de santos, talento que combina com o sobrenome do artista. “Tenho algumas obras disponíveis para venda. São réplicas de São Expedito, São José, São Paulo e Nossa Senhora Aparecida”, destaca o escultor que está sempre aberto a encomendas e comercializa esculturas pelos mais diversos preços. Quem quiser conhecer de perto o trabalho do artista, pode vistar o seu atelier na Avenida Heitor Alencar Furtado, em frente ao trevo de acesso à Vila Operária.

Saiba mais

Cada escultura leva em média 30 dias para ficar pronta e um quadro é concluído em quatro dias.

O artista plástico Olegário José dos Santos também pode ser encontrado na Rua Augusto Fabretti, 877 –  Jardim Alvorada do Sul, Paranavaí. Ou pelo telefone: (44) 3423-4633

A arte de transformar o trivial em extraordinário

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Artista plástico usa pedras e pedaços de madeira descartados como matéria-prima

Barbosa com escultura criada em homenagem a filha e a neta (Crédito: David Arioch)

“Se você prestar atenção, a madeira sempre olha pra gente” (Foto: David Arioch

O talento para as artes plásticas, Antonio de Menezes Barbosa descobriu décadas atrás, quando recriou símbolos do pioneirismo em Paranavaí. Após um longo hiato, retomou a atividade há dois anos, período em que já transformou pedras e pedaços de madeira descartados em obras de contemplação.

“Comecei trabalhando a madeira, fazendo miniaturas de traçador, marreta e rastelo. Achei interessante”, conta o ex-caminhoneiro Antonio de Menezes Barbosa, citando as primeiras obras carregadas de nostalgia. Barbosa e o pai derrubaram muitas árvores usando traçador durante a colonização de Paranavaí.

Desde a primeira experiência como artista, se passaram mais de 30 anos. A profissão de caminhoneiro o afastou das artes plásticas até julho de 2007. “Eu estava em uma praia ao lado do Porto de Savona, a 43 quilômetros de Gênova, na Itália. Comecei a recolher pedrinhas que a água do mar trazia até as margens. Então as usei para criar uma réplica do Pão-de-Açúcar e outra de um navio. Foi o retorno”, lembra Barbosa.

Já no final de 2008, Menezes trabalhava em Maringá quando se deparou com uma peça de madeira que seria incinerada. O então caminhoneiro ofereceu um pedaço de lenha ao proprietário em troca da peça. A sensibilidade de Barbosa o fez enxergar na pequena bacia de madeira a idealização de uma barriga feminina.

Artista com obra criada a partir de pedaços de seis tipos de madeira (Foto: David Arioch)

Artista e obra criada a partir de pedaços de seis tipos de madeira (Foto: David Arioch)

Com pequenos pedaços de seis tipos de madeira encontrados ocasionalmente, o artista criou uma mulher grávida em três meses. “Usei morcegueira, ipê, pau-brasil, eucalipto, sibipiruna e mais outra espécie. Durante o período de produção, dediquei uma hora a uma hora e meia por dia”, afirma Menezes. A diversidade dos tipos de madeira usadas pelo artista remete a uma simbologia da natureza heterogênea da mulher brasileira, conhecida pela miscigenação.

Algumas das peças, Barbosa precisa lapidar para chegar a forma ideal. Outras, como que por um advento divino, parecem existir para serem encontradas pelo artista que vê beleza e perfeição naquilo que muitos consideram trivial. “Usei folhas de ipê para fazer as lentes dos óculos da mulher grávida”, justifica.

A profusão da sensibilidade artística de Antonio de Menezes Barbosa também é percebida em simples, mas poéticas frases como: “Se você prestar atenção, a madeira sempre olha pra gente.” Independente da interpretação, é inegável que a árvore um dia ceifada transcende, como se ganhasse uma nova vida, sob a criatividade de Barbosa. Exemplo disso é a escultura da personagem feminina que segura uma lamparina. “É pra iluminar os homens. Eles precisam de muita luz”, declara. Com um sorriso bucólico, diz não se considerar artista, mas um catador de galhos e pedras.

“Pedras e galhos sempre dão o formato de alguma coisa”

O ex-caminhoneiro Antonio de Menezes Barbosa encara a criação de esculturas como um passatempo. “Provavelmente vou me dedicar mais quando me aposentar, quem sabe ainda este ano”, informa o artista. Barbosa coleciona pedras do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Pará e Rondônia. “Pedras e galhos sempre dão o formato de alguma coisa. Não desperdiço nada”, declara.

Menezes, que também faz esculturas em arame, já homenageou a filha e a neta, professora e estudante de música, ao criar uma personagem feminina tocando um violino. “Aproveitei até a semente do pau-brasil pra fazer o instrumento”, enfatiza, acrescentando que a peça foi totalmente idealizada antes de começar a criá-la.

A próxima obra de Barbosa será o homem fatiado, talvez a criação de caráter mais subjetivo. “Também quero fazer um médico segurando uma garotinha recém-nascida”, adianta. Com olhos marejados, Antonio de Menezes mostra algumas preciosidades da Segunda Guerra Mundial. São restos de porcelana e azulejos de banheiro que ele guarda como se fossem tesouro, pequenos fragmentos que remetem a um bombardeio em Milão, na Itália.

Décadas de voçorocas

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As primeiras voçorocas surgiram em Paranavaí há mais de 40 anos

Algumas voçorocas surgiram na década de 1960

Algumas voçorocas surgiram na década de 1960 (Foto: Embrapa)

Nos anos 1980, Paranavaí, no Noroeste do Paraná, atraía muitos turistas interessados em ver de perto as voçorocas que surgiram nas décadas anteriores. Desde então, a cidade enfrentou muitas adversidades para conter as profundas erosões hídricas.

“Na década de 1980, a situação era alarmante, falavam que a região Noroeste desapareceria. A gente via que o problema era muito grande, inclusive muitas pessoas vinham de outras cidades e estados para fotografar as voçorocas”, conta o gerente da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Paranavaí, Valter Martins Pessoa.

De acordo com o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Jonez Fidalski, o maior agravante foi o desmatamento generalizado que se estendeu até a década de 1990. “Houve perdas de solo superior a 30 toneladas por hectare ao ano. Era uma quantia realmente alta”, frisa.

As voçorocas surgiram muito antes, nas décadas de 1960 e 1970, quando houve um processo de intensificação agrícola que resultou no aumento de erosões profundas. À época, a região ficou conhecida pelas voçorocas com mais de 50 metros de profundidade, consequência das práticas inadequadas de cultivo do solo aliadas aos grandes índices pluviométricos. “Por desinformação, era comum o produtor rural remover toda a vegetação da propriedade, logo a perda de solo era sempre acentuada”, explica Fidalski. Em 1980, o contraponto foi o aumento das áreas de pastagens, o que contribuiu para evitar situação ainda pior.

De acordo com o engenheiro civil da Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (Suderhsa) de Paranavaí, Alcione Pacheco, o que determina se o processo erosivo será acelerado ou não é a quantidade de chuvas. “Com o impacto das grandes precipitações é impossível escoar toda a água. A primeira consequência é a formação de pequenos buracos que deixam o solo mais frágil e suscetível a perda de material orgânico”, argumenta Pacheco.

Erosões hídricas no perímetro urbano de Paranavaí (Crédito: Diário do Noroeste)

Erosões hídricas no perímetro urbano de Paranavaí (Foto: Diário do Noroeste)

Jonez Fidalski lembra que há quatro anos Paranavaí recebeu uma chuva de 130 milímetros ao longo de uma hora. “Em casos assim, sempre surgem erosões. O prejuízo é enorme”, afirma o pesquisador, acrescentando que na área rural o único meio de minimizar o problema é seguir técnicas para manter o solo com boa vegetação.

Para o engenheiro florestal João Arthur de Paula Machado, as voçorocas sempre exigem conscientização, pois quando a situação fica grave o ônus recai sobre o poder público municipal. “Há produtores que ainda precisam conhecer a importância do terraceamento e da mata ciliar”, destaca Machado que, somado a outros engenheiros, agrônomos e pesquisadores, afirma que todo cuidado é pouco quando o assunto são as voçorocas. Recentemente as secretarias municipais de Desenvolvimento Urbano e de Infraestrutura fizeram um levantamento e concluíram que Paranavaí precisa de R$ 168 milhões para resolver o problema das erosões.

Terraceamento evita erosões

Como forma de evitar erosões, a técnica mais recomendada aos agricultores é o terraceamento. Desenvolvida ao longo de curvas de nível, a prática é muito usada no sistema de plantio direto. Mesmo assim, até ser implantada na região do arenito Caiuá houve resistência por parte dos produtores rurais.

Os agricultores não gostaram da ideia pelo fato de demandar muita mão-de-obra e pouca mecanização. “O produtor preferia máquinas pesadas para fazer o terraço tipo murundus. Ele vislumbrava que seria o suficiente para segurar a água das precipitações, um ledo engano”, relembra o pesquisador do Iapar, Jonez Fidalski.

Aqueles que resistiram por muito tempo ao terraceamento alegavam também que a técnica impediria o bom desenvolvimento do trabalho na propriedade. “Diziam ser impossível transitar com as máquinas. Apesar das queixas, com o tempo os produtores decidiram adotar o terraceamento”, afirma Fidalski. Os agricultores perceberam que nas áreas de drenagem, onde escorre a água, surgem formações de canais que contribuem para a formação de voçorocas.

Além disso, fazer o terraceamento apenas uma vez, ou de acordo com a possibilidade, não é uma opção. “Em áreas onde só há pastagens, o terraço pode ser colocado em prática a cada três anos. Onde se faz a rotação de culturas, recomendamos que seja feito anualmente. É importante manter o  terraceamento com capacidade para suportar as chuvas”, explica o gerente da Emater, Valter Martins Pessoa.

Dedicação à música clássica

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Conservatório Nice Braga levou arte erudita a mais de mil pessoas durante 44 anos

Salas de onde ressoavam os pianos Essenfelder e Schwartzmann (Crédito: David Arioch)

É impossível falar de música erudita em Paranavaí sem citar o saudoso Conservatório Nice Braga. Com uma história de 44 anos, a escola que encerrou atividades no final de 2006 formou mais de mil alunos em piano clássico. E mais, se tornou referência no Noroeste do Paraná, principalmente por usar as metodologias dos conservatórios europeus.

Em 1962, o professor Arnoldo Poll entrou em contato com a Prefeitura de Paranavaí e solicitou um terreno para a implantação de uma escola de música. No mesmo ano, o pedido foi atendido e a construção foi concluída em pouco tempo, graças ao empenho da comunidade que trabalhou sem cobrar nada. Assim surgiu o Conservatório Nice Braga que recebeu tal nome em homenagem a mulher do então governador Ney Braga.

Alguns anos depois, ainda na década de 1960, o professor vendeu o conservatório, a título de direito, para Luzia Guina Machado, também falecida, que administrou a escola durante 38 anos, segundo o ex-auxiliar administrativo do Conservatório Nice Braga, Israel Rodrigues, que entrou na escola de música em 1984 para estudar órgão. “A Luzia me convidou para ajudá-la na administração por dez dias. O tempo passou e fiquei 22 anos”, reitera Israel sorrindo.

Entre 1962 e 2003, sob dedos habilidosos os pianos ressoavam pelas imediações da escola de música, fazendo os transeuntes se sentirem imersos em um universo de beleza e sensibilidade. “Não conhecia música clássica, mas sempre que passava lá em frente ficava encantada”, relata a dona de casa Roberta Castelo. As releituras no conservatório incluíam composições como as clássicas sonatas de Beethoven e o primitivismo de Bartók.

Até o final da década de 1990, foram realizados muitos concursos no auditório da escola, segundo a professora de música Neuza Diogo que se matriculou no Conservatório Nice Braga com o objetivo de concluir o curso de piano clássico iniciado em São Paulo. “Em 1962, eu estava no sétimo ano fundamental e quando terminei me convidaram para dar aula”, lembra. O que começou como uma atividade remunerada casual durou 35 anos.

À época, quatro professores lecionavam na escola de música, mas logo foram contratados mais quatro. Segundo Neuza, a procura pelo curso de piano clássico era tão grande que o interessado tinha de reservar uma vaga em novembro para começar a estudar em janeiro. “Pra você ter uma ideia, só eu como professora assinei mais de 800 diplomas de alunos que concluíram estudos de piano. Em Paranavaí, a maioria dos conservatórios que vieram depois foram fundados por professoras que foram minhas alunas”, frisa.

A escola não era referência apenas para a população local. Professores de música de Nova Londrina, Loanda, Querência do Norte, Paraíso do Norte, Terra Rica, Alto Paraná, Nova Esperança, Nova Aliança do Ivaí e muitas outras cidades se formaram no Nice Braga. A qualificação profissional sempre foi o maior objetivo do conservatório que foi comparado às escolas de música da Europa.”Lembro da carta de uma aluna que se mudou para a Alemanha. Ela nos parabenizou pelo curso porque a nossa grade curricular é compatível com a deles. Houve o caso de um rapaz também que vive na Inglaterra e falou a mesma coisa”, enfatiza Rodrigues.

A professora Neuza Diogo admite ser impossível mensurar com precisão o total de alunos que passaram pelo conservatório. “Foram muitos, provavelmente mais de mil. Mas o auge, sem dúvidas, foi em 1968, quando tínhamos mais de 200 alunos. Dávamos aulas de piano, teclado, órgão, violão, violino, balé e jazz”, pontua.

O Silêncio do Nice Braga

Em 2006, o Conservatório Nice Braga perdeu a magia de outros tempos. Com apenas oito alunos matriculados, a impossibilidade de manter a escola aberta crescia a cada dia. Em um passeio pelas pequenas salas do conservatório, tornou-se comum encontrar os belos e bem conservados pianos Essenfelder e Schwartzmann, que antes pareciam ter vida própria e emocionavam os passantes, aposentados, relegados ao ostracismo. Lá fora, até mesmo vizinhos estranharam o silêncio.

O auxiliar-administrativo do Conservatório Nice Braga, Israel Rodrigues, diz acreditar que tudo foi uma consequência natural do desinteresse pela música clássica. Para ele, era como se as pessoas tivessem um bloqueio em relação ao erudito. “Se divulgar que teremos uma audição do gênero, acredite, apenas estudantes de música vão participar. Os demais não se importam”, lamenta. Opinião também dividida pela professora de música Neuza Diogo. “Hoje em dia, os alunos querem apenas o popular”, frisa.

Espaço agora abriga Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado (Crédito: David Arioch)

Espaço agora abriga Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado (Crédito: David Arioch)

Os primeiros sinais de mudanças surgiram na década de 1990, e dez anos depois as dificuldades aumentaram. Segundo Rodrigues, não sobrava mais dinheiro para suprir despesas com manutenção, limpeza e jardinagem. Até 2003, a situação foi contida porque os gastos eram proporcionais ao número de aprendizes. “Até o último momento, tínhamos oito alunos. Mas a situação já era insustentável e o jeito foi fechar a escola”, destaca.

Com o fechamento do Conservatório Nice Braga, o município reassumiu a propriedade e repassou R$ 12 mil aos familiares da ex-diretora Luzia Guina Machado pela realização de benfeitorias ao longo de décadas. Mantido pela Fundação Cultural, hoje o espaço é sede da Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado, onde dezenas de crianças e adolescentes participam gratuitamente de oficinas de música. Além disso, as características originais do imóvel foram mantidas, preservando a história do conservatório.

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