David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Cinema’ Category

Os mais de 70 anos de Casablanca

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Amor, antinazismo e exploração da figura do “herói americano” no Marrocos

Obra se tornou clássica ao abordar a impossibilidade do amor (Foto: Reprodução)

Obra se tornou clássica ao abordar a impossibilidade do amor (Foto: Reprodução)

Lançado em 1942, Casablanca vai ser sempre lembrado como um clássico estadunidense que aborda a impossibilidade do amor. O filme do cineasta tcheco Michael Curtiz conta a história do exilado estadunidense Rick Blaine (Humphrey Bogart) que mora em Casablanca, no Marrocos, onde administra uma casa noturna e ajuda refugiados estrangeiros no início dos anos 1940.

O protagonista vive um dilema quando reencontra acidentalmente a antiga paixão Ilsa (Ingrid Bergman) que tenta fugir para os Estados Unidos com o marido Victor Laszlo (Paul Henreid), um antinazista tcheco. A obra aproveitou com certo caráter propagandístico, e bastante favorável aos EUA, o sentimento de contrariedade ao Nacional Socialismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Embora secundário, Peter Lorre se destaca pela interpretação sempre enigmática (Foto: Reprodução)

Embora secundário, Peter Lorre se destaca pela interpretação sempre enigmática (Foto: Reprodução)

Embora hoje seja cultuado em todo o mundo, a verdade é que quando Casablanca começou a ser produzido não havia tantas expectativas em torno do sucesso da película. Nem mesmo o elenco, principalmente a atriz Ingrid Bergman – que não acreditava tanto no filme – imaginava que a obra figuraria até hoje entre as dez das mais importantes listas de melhores trabalhos cinematográficos da história. Casablanca surgiu a partir de um roteiro de teatro intitulado Everybody Comes To Rick’s dos teatrólogos Murray Burnett e Joan Alison que o escreveram após uma viagem internacional.

Sem dinheiro e investidores para produzirem o espetáculo, optaram por vendê-lo por vinte mil dólares, à época, um valor bem elevado para uma história nunca encenada. Mas a fórmula do filme deu certo e o investimento de pouco mais de um milhão de dólares garantiu quase quatro milhões em faturamento. Casablanca ainda arrecadou muito mais nas décadas subsequentes, a partir de lançamentos especiais e merchandising.

A essência antinazista da obra também teve repercussão muito positiva da crítica que naquele tempo já era favorável em explorar até a exaustão a figura do “herói americano”, sujeito aparentemente falho, mas capaz de abdicar do amor em prol da liberdade e felicidade coletiva. Reflexo dessa grande aceitação são os três Oscars que o filme conquistou nas categorias melhor roteiro, filme e diretor. Na minha opinião, uma interpretação esfíngica, sempre digna de destaque, é a do inconfundível eslovaco Peter Lorre que vive Ugarte, um estrangeiro e amigo de Rick que vende cartas de trânsito para refugiados.

Gondry, Kaufman e as dores da alma

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Eternal Sunshine of the Spotless Mind aborda a instabilidade humana frente às adversidades das relações amorosas

O filme é elevado a um caráter metafórico excepcional (Foto: Reprodução)

O filme é elevado a um caráter metafórico excepcional (Foto: Reprodução)

Lançado em 2004, Eternal Sunshine of the Spotless Mind, que chegou ao Brasil com o fidedigno título Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, é um filme do gênero drama do cineasta francês Michel Gondry em parceria com o estadunidense Charlie Kaufman, roteirista muito conhecido por obras conceituais como Being John Malkovich, de 1999, e Adaptation, de 2002.

Protagonizado por Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet), que se somam a outros personagens interpretados por famosos como Elijah Wood, Kirsten Dunst e Mark Ruffalo, Eternal Sunshine of the Spotless Mind é um filme interessante sobre a ficcional possibilidade de desconstrução das emoções e sentimentos. Após um conflito amoroso, Clementine decide se submeter a um procedimento neurocirúrgico para apagar Joel de sua memória. A iniciativa parte de uma premissa e anseio de idealização instintivamente humana após grande, mas natural experiência de sofrimento.

Ao saber do ato de Clementine, Joel opta por fazer o mesmo. Durante o processo se arrepende e começa uma batalha psicológica e emocional para preservar fragmentos de sua vida com a namorada. A dor se intensifica ainda mais conforme a mulher se desvanece da memória de Joel. Momentos vividos a dois tornam-se vazios quando o homem é relegado a ser o único personagem de uma realidade que só poderia ser intensa se vivida de forma compartilhada. Tudo parece desértico, difuso e disperso em um contexto mental fugidio e atroz, onde a dor desequilibra a essência humana e submete o homem ao desespero das incertezas da própria existência.

Joel e Clementine chegam a representar a desmaterialização do amor (Foto: Reprodução)

Joel e Clementine chegam a representar a desmaterialização do amor (Foto: Reprodução)

A introspecção leva Joel ao cume da solidão, assim o filme se eleva a um caráter metafórico excepcional. Juntos, Joel e Clementine, inertes em mundos paralelos, mas dissonantes, chegam a representar a desmaterialização do amor. É algo tão dolorosamente humano que lança turbilhões de luz sobre as falhas da natureza social, principalmente a individualização motivada pela insegurança e franca possibilidade de incompreensão. No fundo, tudo é sustentado como consequência de uma comunicação canhestra.

Em suma, Eternal Sunshine of the Spotless Mind é uma obra bela e triste que mistura humanismo, existencialismo e surrealismo. Muito bonita ao traduzir a interiorização e as dores da alma com requinte poético, mas sensivelmente tétrica em premeditar e denunciar o princípio do fim das boas e tradicionais relações humanas. Afinal, o filme parece se embasar na ideia de que em situações de conflito amoroso e existencial cresce o número de pessoas que preferem reclamar de não ter acesso a uma tecnologia capaz de eliminar os desconfortos que as afligem. Não se dão conta que melhor seria ponderar e tentar lidar de frente com as situações mais complicadas.

Lola precisa correr

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No filme Lola Rennt, protagonista tem três oportunidades de salvar o namorado em 20 minutos

Lola precisa recuperar cem mil francos para evitar que Manni seja assassinado (Foto: Reprodução)

Lola precisa recuperar cem mil francos para evitar que Manni seja assassinado (Foto: Reprodução)

Lançado em 1998, Lola Rennt, que chegou ao Brasil como Corra, Lola, Corra, é um filme do cineasta alemão Tom Tykwer com uma estrutura tão importante e reveladora quanto a história. Na obra, Lola (Franka Potente) vivencia três tentativas de salvar a vida do namorado em vinte minutos. Manni (Moritz Bleibtreu) entra em um metrô e quando sai esquece uma bolsa com cem mil francos. A quantia pertence a um grupo criminoso do qual o rapaz tenta fazer parte. Desesperado pela perda do dinheiro que lhe custará a vida, Manni liga para a namorada Lola relatando o acontecido e informando que ele tem apenas vinte minutos para recuperar a grana. Sensibilizada com a situação, Lola inicia uma batalha contra o relógio.

Em Lola Rennt, a protagonista vive o mesmo dilema três vezes, com a história se repetindo consecutivamente. A grande diferença é que em cada uma as casualidades, encontros e desencontros, interferem nos atos da personagem e também nas ações de outras pessoas, alterando sempre a sequência e o desfecho do episódio. Por exemplo, um atraso de poucos segundos pode evitar que alguém seja atropelado.

Lola Rennt parece um jogo eletrônico em que o cineasta brinca com as cores (Foto: Reprodução)

Lola Rennt parece um jogo eletrônico em que o cineasta brinca com sons e cores (Foto: Reprodução)

Sem dúvida, o maior atrativo do filme é a criatividade do diretor Tom Tykwer que mistura vídeo, música, desenho animado e fotografia como elementos intrínsecos de um mesmo universo. Por meio de sons eletrônicos, o cineasta transmite a tenacidade da eletrizante correria de Lola pelas ruas de Berlim, na Alemanha. No contexto, o gênero techno pode ser interpretado como uma conexão dialética, um desdobramento musical das tantas repetições e intervalos ao longo da história, dando mais dinâmica à lógica espaço-temporal da obra. Já o desenho animado, que dá um caráter virtual e surreal a algumas cenas, remete aos jogos de videogame.

O filme parece um jogo eletrônico em que Tykwer brinca com sons e cores. A cada episódio, Lola encontra uma maneira curiosa de recuperar a grana. No primeiro, ela pratica um roubo e deposita tudo dentro de bolsas vermelhas, uma simbologia do amor, embora a atitude seja desesperada e irrefletida. Na segunda tentativa, a protagonista pega o dinheiro do banco do próprio pai, então tudo é armazenado em uma bolsa verde que representa positividade pelo fato da figura paterna ser uma pessoa de caráter duvidoso. Ao mesmo tempo, a cor remete à imaturidade e intemperança da jovem.

Na última história, Lola consegue a grana sem lesar ninguém ao participar de uma jogatina em um cassino. Ao final, o dinheiro é colocado em uma bolsa amarela que curiosamente se traduz na reflexão e ponderação da personagem. Reunindo as cores de cada história, temos a composição de um semáforo, em uma implícita e brilhante alusão aos momentos em que Lola pôde parar, prestar atenção e seguir em frente.

A trilha sonora da obra foi concebida por Tom Tykwer, Johnny Klimek e Reinhold Heil, mas conta com excertos de The Unanswered Question, de 1906, do compositor estadunidense Charles Ives, que traduz musicalmente o conceito do silêncio dos druidas. Em síntese, Lola Rennt é um filme veloz que rompe as amarras com o cinema convencional e faz referências ao clássico Przypadek, de 1987, do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski.

Written by David Arioch

May 2nd, 2013 at 1:24 pm

Psicopatia Tarantinesca

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Reservoir Dogs e a incursão por um mundo dissocial

Em Reservoir Dogs, Tarantino explora a violência e a ironia (Foto: Reprodução)

Em Reservoir Dogs, Tarantino explora a violência e a ironia da criminalidade (Foto: Reprodução)

Lançado em 1992, Reservoir Dogs, que chegou ao Brasil com o título de Cães de Aluguel, é o longa-metragem de estreia do cineasta Quentin Tarantino. A partir de imagens e diálogos tão violentos quanto irônicos, o filme propõe incursão a um universo onde criminosos se confrontam, motivados pela própria natureza.

É sempre bom lembrar que Quentin Tarantino se tornou cineasta tendo como principal formação os centenas de filmes que assistiu quando trabalhava como atendente de uma videolocadora. Justamente por isso, a sua primeira obra reúne heterogeneidade e cosmopolitismo, características que o acompanhariam por toda a filmografia da carreira.

Com influências que vão da cultura pop até o cinema alternativo, Reservoir Dogs conta a história de seis criminosos que não se conhecem e são contratados para praticar um grande assalto a uma joalheria. No entanto, durante o crime, a polícia chega ao local antes do previsto e na fuga um dos assaltantes é baleado e morre. Os sobreviventes, entre eles um gravemente ferido, fogem e vão para um galpão, onde aguardam a chegada do chefe da quadrilha. Enquanto isso, os bandidos trocam acusações sobre quem os delatou para a polícia.

Steve Buscemi e Harvey Keitel em cena antológica (Foto: Reprodução)

Steve Buscemi e Harvey Keitel em cena antológica (Foto: Reprodução)

No filme, a primeira cena em que discutem sobre a música Like a Virgin, da diva pop Madonna, funciona como uma ponte de alegorias. Cada personagem interpreta com extrema pessoalidade o significado da letra, denunciando traços da personalidade. Tarantino ousa ainda mais. Tanto que um dos criminosos cita uma canção como referência para a criação de uma metáfora que revela importantes informações sobre a história.

Sem se ater a linearidade, o cineasta mostra com requinte descritivo alguns fragmentos da vida dos bandidos. Aos poucos, o espectador percebe que a quadrilha reúne muitas das características inerentes a um ser humano aparentemente comum, seja sob uma perspectiva maniqueísta ou não. Nesses momentos, são destacados desde a complacência até a exasperação e a psicopatia – transtorno de personalidade dissocial que no filme só pode ser percebido de acordo com a ânsia do personagem.

Para o elenco, o diretor reuniu nomes de peso como Harvey Keitel, Steve Buscemi, Tim Roth, Michael Madsen e Chris Penn. No primeiro longa-metragem da carreira, Quentin Tarantino apresenta uma curiosa estética cinematográfica – enaltece os detalhes sem prejudicar a trama. Além de uma câmera testemunhal, o filme é pautado em uma narrativa agressiva e que combate o falso moralismo.

O autor deixa evidente sua opinião na obra: “Para uma mente criminosa, a vida é descartável como um copo.” Prova isso visualmente quando mistura – sem qualquer parcimônia – sangue, morte e comicidade, ratificando a banalização do “existir”.

A (des)conhecida pobreza branca dos EUA

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Gummo aborda a miséria e a defasagem intelectual dos chamados white trash

Solomon e Tummler são dois adolescentes que ganham a vida matando gatos (Foto: Reprodução)

Solomon e Tummler são dois adolescentes que ganham a vida matando gatos (Foto: Reprodução)

Personalidade do cinema marginal estadunidense, Harmony Korine lançou em 1997 um filme que chamou a atenção do mundo. Intitulado Gummo, o drama de caráter documental apresenta o universo perturbador e miserável dos brancos pobres dos EUA. São pessoas que vivem à margem da sociedade, conhecidas pejorativamente como white trash.

Gummo conta a história de Solomon (Jacob Reynolds) e Tummler (Nick Sutton), dois adolescentes de Xenia, Ohio, que ganham a vida matando gatos, depois vendidos a um restaurante chinês. A partir dos protagonistas, reféns da mediocridade humana, Korine mostra outros personagens, igualmente degradantes, em fragmentos bem estruturados e angustiantes.

Embora no decorrer do filme haja uma progressão de perspectivas e aberturas para contextualizações, o cineasta faz questão de destacar que os personagens estão fechados em um mundo minúsculo e peculiar, onde predominam os sentimentos coletivos de conformismo e desesperança. Em uma das cenas mais pesadas de Gummo, um jovem desempregado fala naturalmente sobre as possibilidades do suicídio enquanto a câmera se move com certa inquietação.

Gummo mostra o conformismo e desesperança dos brancos pobres (Foto: Reprodução)

Gummo mostra o conformismo e desesperança dos caucasianos pobres (Foto: Reprodução)

Harmony Korine explora isso como um desdobramento das consequências sociais da economia e da política estadunidense que há muito tempo priorizam as classes mais altas. E como resultado da falta de oportunidades, a pobreza intelectual é abordada de forma crua e ríspida, sem qualquer resquício de sentimentalismo. Há momentos em que os personagens dialogam aleatoriamente e com um vocabulário tão limitado, falho e errado que beira ao nonsense.

Para quem está acostumado a acompanhar apenas a cultura cinematográfica de Hollywood, é difícil acreditar que o filme de Korine se passa nos EUA, pois abre as portas de um universo tão marginalizado e nauseante quanto as periferias das nações mais pobres do Terceiro Mundo. Em Gummo, o conceito de beleza é distorcido pelo referencial de proximidade. Os habitantes desse universo particular aprendem, por força da convivência, a admirar o feio, o que é enaltecido pelas tomadas com lentes objetivas de grande-angular.

No filme, a degradação oscila do campo material ao imaterial (Foto: Reprodução)

No filme, a degradação oscila do campo material ao imaterial (Foto: Reprodução)

Duas cenas representam com precisão e minimalismo o objetivo do autor. Na primeira, um mundo caótico é representado pela natureza por meio de um tornado. Na segunda, a desordem no interior da casa de Solomon ressalta o caos humano. Ou seja, em grande ou pequena proporção, nada naquele universo aspira à civilidade. Com exceção da atriz Chloe Sevigny, o filme tem um elenco formado por desconhecidos, até mesmo atores amadores e pessoas comuns, o que faz o autor ultrapassar as barreiras do cinema tradicional para estreitar a relação com a realidade.

Harmony Korine mistura ficção, documentário e videoarte numa produção baseada em filmagens que exploram desde equipamentos profissionais até os mais compactos e domésticos. Quem sabe, uma referência ao Dogma 95 do dinamarquês Lars Von Trier. Há ainda algumas quebras de movimentos propondo rupturas de contexto. Exemplos são as situações em que vídeos são substituídos por fotos, neutralizando a ação da trama e apresentando um panorama mais descritivo.

Outro elemento interessante de Gummo é a trilha sonora que capta a essência de cada cena, migrando do campo claro ao ruidoso, sustentada em composições de músicos dos gêneros clássico, bluegrass, folk, powerviolence, stoner rock e metal extremo. Apesar de ainda ser um cineasta pouco conhecido no Brasil, Harmony Korine começou a ganhar espaço no cinema estadunidense muito cedo. Em 1994, aos 21 anos, escreveu o roteiro do filme Kids, do cineasta Larry Clark, que obteve grande sucesso de crítica e público.

Um manifesto sobre a fragilidade

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Ivanovo Detstvo e o sonho da infância espoliada

Filme mostra um garoto dividido entre o pesadelo da guerra e o sonho da infância (Foto: Reprodução)

Filme apresenta um garoto dividido entre o pesadelo da guerra e o sonho da infância (Foto: Reprodução)

Lançado em 1962, Ivanovo Detstvo, que chegou ao Brasil com o título A Infância de Ivan, é um filme do cineasta humanista russo Andrei Tarkovsky e aborda o estado de introspecção de uma criança órfã dividida entre o pesadelo da Segunda Guerra Mundial e o sonho da infância espoliada.

Ivanovo Detstvo conta a história de Ivan (Nikolai Burlyayev) que teve a inocência dilacerada quando soldados nazistas assassinaram seus familiares. Ignorando a própria condição existencial como criança, o garoto ingressa no exército soviético em busca de retaliação. Sob a perspectiva de Tarkovsky, a guerra assume um caráter individualista a partir das ações de Ivan.

A animosidade da contenda e a ausência de relações familiares levam o protagonista a um endurecimento e negação da juventude. Mesmo quando outros combatentes soviéticos tentam protegê-lo e o lembram de sua idade, o garoto age como se não estivessem se referindo a ele. Uma das cenas mais intensas da obra surge quando Ivan se torna refém de uma tormenta psicológica.

Sem a mãe, Ivan perde o seu elo com o mundo (Foto: Reprodução)

Sem a mãe, Ivan perde o elo com o mundo (Foto: Reprodução)

Consumido por desespero e delírio, o jovem armado com uma faca circula pela escura, gélida e sombria base militar a procura de nazistas. Mas não encontra nada, pois naquele ambiente a sua única companhia é a solidão. Incapaz de aceitar e lidar com a realidade, Ivan luta para velar a fragilidade e a sensibilidade com um manto de frieza. No entanto, ao dormir, é vencido por sentimentos e lembranças que retornam para reafirmar a sua condição infantil e conflitante.

O jovem soviético tenta ultrapassar a etapa da vida que deveria ser marcada pela ingenuidade justamente porque simboliza o momento mais doloroso de sua existência. Rejeitar a infância na fase de transição para a adolescência é uma forma de Ivan se desvincular do passado – uma tentativa sem sucesso. Ainda assim, não são poucos os momentos em que o garoto é transportado a um universo de nostalgia, onde se sente plenamente livre, estimulado por imagens de beleza e candura protagonizadas pela mãe, até pouco tempo seu maior elo com o mundo.

Tarkovsky projeta humanismo na figura do Capitão Kholin (Foto: Reprodução)

Tarkovsky projeta humanismo na figura do Capitão Kholin (Foto: Reprodução)

Ivan sofre sempre que acorda. Apesar disso, conta com o humanismo projetado na figura do capitão Kholin (Valentin Zubkov), um homem com quem estabelece uma difícil, mas alentadora relação. Kholin se torna a ponte entre o velho e o novo mundo do garoto, tentando mantê-lo em uma linha de equilíbrio, onde a sobriedade precisa ser nutrida com sonhos e expectativas.

Sobre a estética e os planos de filmagem da obra de Tarkovsky, o tempo todo a câmera assume papel de personagem, transmitindo sentimentos e emoções em meio a uma contumaz escuridão desértica. No chão, a consternação é marcada pelo solo improdutivo. No céu, onde há muito tempo as estrelas não brilham, as nuvens são substituídas por cortinas de fumaça cor de chumbo. A natureza parece sepultada, assim como tantas vidas representadas por escombros e ruínas. Em suma, Ivanovo Detstvo é um manifesto sobre a fragilidade humana.

Le Salaire de La Peur e a poesia da degradação humana

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Filme aborda a mercantilização da vida em uma missão suicida

Imigrantes europeus aceitam a missão de transportar nitroglicerina pelas precárias estradas do Terceiro Mundo (Foto: Reprodução)

Imigrantes europeus aceitam a missão de transportar nitroglicerina pelas precárias estradas do Terceiro Mundo (Foto: Reprodução)

Obra-prima do cineasta francês Henri-Georges Clouzot, Le Salaire de La Peur, que chegou ao Brasil tardiamente sob o título O Salário do Medo, conta a história de quatro imigrantes europeus contratados por uma companhia petrolífera dos EUA para transportar uma carga de nitroglicerina pelas estradas precárias de um país do Terceiro Mundo.

Quando Le Salaire de La Peur foi lançado em 1953, a França vivia o apogeu do existencialismo de autores como Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Georges Arnaud, pensadores que influenciaram Henri-Georges Clouzot a criar um filme que mostra homens como indivíduos desorientados em um mundo cada vez mais caótico e aberrante, onde os valores são deglutidos pela esperança de sobrevivência.

Na história, Mario (Yves Montand), Bimba (Peter Van Eyck), Luigi (Folco Lulli) e Jo (Charles Vanel) são personagens desgastados pela miséria que vivem no vilarejo de Las Piedras, onde decidem mercantilizar a vida em uma missão suicida que pode render dois mil dólares a cada um. Os quatro são contratados por uma empresa estadunidense de petróleo para garantir que um carregamento de nitroglicerina chegue ao destino.

Clouzot emociona com cenas influenciadas pelo realismo poético (Foto: Reprodução)

Clouzot emociona com cenas influenciadas pelo realismo poético (Foto: Reprodução)

Embora a missão seja na Guatemala, o filme de Clouzot deixa claro que a história poderia se passar em qualquer país de Terceiro Mundo, onde a dominação econômica dos EUA é quase sempre proeminente, deixando graves consequências como a degradação social e o esgotamento dos recursos naturais.

Ironicamente, em um dos diálogos da obra, o personagem Mario parece visualizar tanto o presente quanto o futuro quando diz: “Onde tem petróleo, tem americanos.” Além de fazer severas críticas ao capitalismo, mostrando que ninguém sofre mais com as ações dos países ricos do que as nações subdesenvolvidas, o cineasta francês ainda consegue emocionar o espectador com uma estética baseada no realismo poético.

Logo na abertura, somos introduzidos por uma criança a um mundo de insetos mergulhados em uma poça de lama, metáfora que amarra toda a trama de Le Salaire de La Peur. Muitas cenas como a mencionada se repetem no decorrer do filme, transmitindo um sem-número de mensagens que flertam com o niilismo.

São imagens capazes de instigar reflexões e emoções conflitantes. Também é interessante a forma como Henri-Georges Clouzot aborda a perda da identidade dos personagens. Sem sobrenomes, se atêm a pequenos sonhos e devaneios de um dia se encontrarem novamente como parte de um algo concreto.

A versão sulista do poema Odisseia

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Filme conduz três condenados por importante etapa da história dos EUA

Detentos são interpretados por George Clooney, Tim Blake Nelson e John Turturro (Foto: Reprodução)

Detentos são interpretados por George Clooney, Tim Blake Nelson e John Turturro (Foto: Reprodução)

Lançado em 2000, o filme O Brother, Where Art Thou? (E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?), dos irmãos Joel e Ethan Coen, é uma comédia que mostra três foragidos de uma prisão no Mississippi fazendo o possível para manterem-se livres e voltarem para casa.

Inspirado no poema épico Odisseia, do poeta grego Homero, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? tem como cenário o Sul dos EUA durante a Grande Depressão. No filme, um cego faz a introdução das aventuras que estão por vir. “Vocês três acorrentados encontrarão fortuna, mas não a que procuram. Vão viajar por uma estrada repleta de perigos. Verão coisas maravilhosas, até mesmo uma vaca no telhado de uma fazenda de algodão. A estrada pode dobrar-se e seus corações podem se abater, mas mesmo assim sigam pela estrada que os levará à salvação”, profetiza.

Personagens incorporam com muito bom humor a cultura sulista estadunidense (Foto: Reprodução)

Personagens incorporam com muito bom humor a cultura sulista estadunidense (Foto: Reprodução)

Os três protagonistas são interpretados por George Clooney, John Turturro e Tim Blake Nelson que fazem os papeis de Ulysses, Pete e Delmar. São personagens azarados que conduzidos pela história incorporam com muito bom humor a cultura sulista estadunidense. O trio conhece Tommy Johnson, o rapaz que foi até uma encruzilhada vender a alma ao diabo para se tornar um músico virtuoso, e confronta a organização racista Ku Klux Klan. Curiosamente, o diabo descrito por Johnson tem as mesmas características do xerife que os persegue ao longo do filme.

Uma clara referência ao poema Odisseia é o personagem Big Dan, interpretado por John Goodman, um vilão que tem apenas um olho, assim como o ciclope mitológico. Enquanto no poema os homens de Odisseu abatem o gado, na obra dos Irmãos Coen o gângster Baby Face Nelson quem atropela uma vaca. Além da bela fotografia e das tomadas que remetem ao realismo fantástico, outro ponto alto de E Aí, meu irmão, cadê você? é a antológica trilha sonora regionalista que pauta os acontecimentos, dialogando perfeitamente com o enredo do começo ao fim.

A crise de Kaufman

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Quando as dificuldades de um roteirista se tornam tema de um filme

Nicolas Cage interpreta o próprio roteirista do filme (Foto: Reprodução)

Nicolas Cage interpreta o próprio roteirista do filme (Foto: Reprodução)

Lançado em 2002, Adaptação, do cineasta Spike Jonze, é um filme de caráter metalinguístico que conta a história de um roteirista vivendo uma crise criativa ao adaptar um livro para o cinema.

Depois de Being John Malkovich, Spike Jonze e Charlie Kaufman conquistaram outra parceria de sucesso com o filme Adaptação que conta a história do próprio Kaufman quando teve dificuldades em adaptar o conteúdo de um livro para o cinema. Na obra, Charlie e Donald são dois irmãos interpretados por Nicolas Cage que enveredam pelo mercado cinematográfico.

No filme, personagens antagônicos representam o mesmo autor (Foto: Reprodução)

No filme, personagens antagônicos representam o mesmo autor (Foto: Reprodução)

Enquanto o antisocial Charlie, roteirista com alguma experiência, mais sensível e introspectivo, não consegue dar vida a história de um vendedor de orquídeas, Donald, o extrovertido roteirista iniciante, o faz. A partir das lições aprendidas em workshops sobre roteiro de cinema, o inexperiente Donald atende todas as expectativas da indústria cultural. Cria uma história baseada numa fórmula recheada dos clichês que costumam lotar as salas de cinema.

Donald, que existe apenas no filme, é uma representação das qualidades que faltavam ao verdadeiro Charlie Kaufman durante a crise criativa. Além de ser uma particular idealização de Charlie, Donald é também uma subjetiva figura antagônica do irmão. Do início ao fim, o filme mistura fatos e ficção, tornando mais difícil para o espectador desatento distinguir a realidade da ilusão, se tratando da verdadeira concepção da obra. O filme também traz no elenco algumas estrelas como Meryl Streep, Chris Cooper, Cara Seymour, Tilda Swinton e Brian Cox. A trilha sonora é de Carter Burwell.

Written by David Arioch

March 30th, 2013 at 1:37 pm

Todos querem ser John Malkovich

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A busca do ser humano por uma identidade que o faça sentir-se especial

Being John Malkovich trata da complexidade da natureza humana (Foto: Reprodução)

Being John Malkovich aborda a complexidade da natureza humana (Foto: Reprodução)

Lançado em 1999, Being John Malkovich (Quero Ser John Malkovich), do cineasta estadunidense Spike Jonze, é um filme sobre a busca do ser humano por uma identidade que o faça sentir-se especial, mesmo por alguns minutos.

A obra marcou a estreia do cineasta Spike Jonze que teve o mérito de contar com um bom roteiro de Charlie Kaufman, também conhecido por roteirizar filmes que estão muito além do padrão hollywoodiano – como Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Confissões de uma Mente Perigosa.

Obra é protagonizada por John Cusack (Foto: Reprodução)

Obra é protagonizada por John Cusack (Foto: Reprodução)

O argumento do filme de Jonze se sustenta na psicologia da natureza humana, o que justifica porque Quero Ser John Malkovich é pautado na subjetividade da existência. No filme, Craig Schwartz (John Cusack em uma de suas melhores interpretações) é um titereiro que descobre acidentalmente como entrar na mente de John Makovich ao longo de 15 minutos. A descoberta torna-se um refúgio para dar vazão ao sentimento de inferioridade do protagonista.

Logo Craig tem a ideia de partilhar a oportunidade com outras pessoas. Sob influência de uma colega de trabalho, decide cobrar U$ 200 para proporcionar a mesma experiência aos outros. A chance de ser o famoso Malkovich por alguns instantes torna-se uma catarse para muitos, pessoas que se apegam a tal realidade virtual como uma ilusória autoafirmação, e mais, a confirmação da crescente falta de identidade do ser humano.

Nem o homenageado, que na história é um personagem caricato, abre mão da oportunidade de entrar dentro da sua própria mente. Quero Ser John Makovich é um filme que recria diversas realidades pessoais que se afunilam e homogeneizam não partindo apenas do que cada um se condiciona a ver, mas também da necessidade que cada personagem tem de existir para além de si mesmo. O filme também traz no elenco Cameron Diaz, Catherine Keener, Orson Bean e Charlie Sheen. A trilha sonora é de Carter Burwell.