David Arioch – Jornalismo Cultural

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O sofrimento dos Casarin

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Família de imigrantes italianos foi expulsa das próprias terras nos anos 1950

Conflito aconteceu em área que hoje pertence a São Pedro do Paraná (Foto: Reprodução)

No Noroeste do Paraná dos anos 1950, jagunços expulsaram a família Casarin das próprias terras. À época, toda a família que trabalhava no plantio de café ficou sem moradia e o patriarca ainda foi preso.

O imigrante italiano Zaqueo Casarin veio para o Paraná em 1940. Fixou residência em Bela Vista do Paraíso, no Norte Central Paranaense, onde trabalhou como colono na produção de café. Em 1950, de tanto ouvir falar da Colônia Paranavaí, Casarin decidiu se mudar.

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o italiano conheceu o corretor de imóveis rurais Antonio Borba, funcionário da Colonizadora Paranapanema, do empresário José Volpato, que lhe ofereceu uma propriedade na Gleba 21, próxima ao Porto São José, em área que hoje pertence a São Pedro do Paraná. Casarin achou viável o preço das terras na região e comprou dez alqueires com todo o dinheiro guardado ao longo de anos.

“O registro de venda foi feito no Tabelionato Rocha, de Londrina, mas o documento só saiu em Mandaguari [pois Paranavaí ainda era distrito]”, relatou o imigrante italiano em entrevista ao escritor Paulo Marcelo Soares Silva, publicada no livro História de Paranavaí, lançado em 1988. Naquele tempo, Casarin, que não recebeu o título de propriedade pelo fato de uma empresa privada não poder emitir títulos, nem imaginava que o sonho de sua vida, ter o próprio pedaço de chão, se tornaria um pesadelo.

Em maio de 1952, a família Casarin recebeu a visita de 14 jagunços. Um deles, de forma intimista, se aproximou de Zaqueo e falou: “Você é grileiro aqui.” O imigrante italiano ficou sem reação, pois além de não entender o que estava acontecendo, segundo ele, nunca tinha dado nem mesmo um tapa em alguém. Com medo do pior, a família Casarin deixou a propriedade sem resistir. Antes, assustado, Casarin perguntou quem os mandou até ele.

“Afirmaram que estavam a serviço do ex-desembargador João Alves da Rocha Loures”, revelou. Documentos do Departamento de Geografia, Terras e Colonização (DGTC) mostram que Rocha Loures havia requerido três mil alqueires junto ao Governo do Paraná em 1951, nas imediações do Porto São José, alegando compensação por terras transferidas a terceiros.

O que chama atenção é que a expulsão dos moradores da Gleba 21 aconteceu antes do ex-desembargador obter o título de terras daquela região, durante o segundo governo de Moisés Lupion (1956-1961). No conflito com jagunços em 1952, além da família Casarin ficar sem moradia, Zaqueo ainda foi preso por um homem conhecido como tenente Antunes que, de acordo com pioneiros, participou de inúmeras injustiças envolvendo pequenos proprietários rurais de Paranavaí. A sorte de Casarin foi que um influente policial, jamais identificado, foi até a delegacia e exigiu que o soltassem.

Jagunços perturbavam moradores da Gleba 21

Alguns dos filhos de Zaqueo Casarin ainda eram crianças quando a família, que estava preparando o solo para o plantio de café, foi expulsa das próprias terras. Mesmo assim, Paulo Casarin, que na época tinha 13 anos, nunca esqueceu a injustiça e a humilhação que viveram. “Os pequenos sofrem no desbravamento, depois vêm os grandes querendo tomar tudo”, afirmou Paulo em tom de mágoa.

O pioneiro paranaense Jaime Mendonça Alves vivia na colônia quando a família Casarin foi expulsa da Gleba 21. Em entrevista ao escritor Paulo Marcelo, Alves declarou que assistiu tantas injustiças de perto que decidiu ir embora.“Não gostei de Paranavaí por causa do Telmo [Capitão Telmo Ribeiro] e dos jagunços do Rocha Loures [ex-desembargador João Alves da Rocha Loures]. Só tinha picareta”, reclamou.

No mesmo dia em que os Casarin foram expulsos, outras famílias passaram pela mesma situação, inclusive algumas tiveram as residências incendiadas, conforme relatos de pioneiros. A situação estava tão crítica que o governo teve de enviar o tenente Achilles Pimpão, chefe de polícia de Londrina, para impor ordem na gleba.

Na década de 1970, outros jagunços perturbaram a família Casarin e muitos outros moradores do Bairro Leoni (antiga Gleba 21). “Depois ficamos livres, mas isso não apagou as lembranças das vezes em que fomos atacados”, desabafou o agricultor João Demeu. Na década de 1980, o Governo do Paraná reconheceu o direito dos moradores do Bairro Leoni (Ex-Gleba 21) e lhes concedeu licenças expedidas pelo Instituto de Terras, Cartografia e Geociências (ITC), conforme palavras do produtor rural Waldomiro Suntach, de São Pedro do Paraná.

Governo Lupion é culpado pelo impasse de terras

Santos Filho: “O Governo Lupion não respeitou os pequenos proprietários que haviam pagado por aquelas terras” (Foto: Reprodução)

Nos anos 1950, as dificuldades, principalmente burocráticas, para se comprar propriedades rurais do Governo do Paraná fez muita gente recorrer a iniciativa privada. Na Colônia Paranavaí, quem se destacou foi a Colonizadora Paranapanema, do empresário José Volpato, que vendeu 25 mil alqueires de terras. Segundo Volpato, os direitos foram comprados de uma família de Irati, no Sudeste Paranaense.

À época, o ex-desembargador João Alves da Rocha Loures entrou na justiça contra o Governo Paranaense exigindo, como compensação por terras da Companhia Industrial Brasileira que foram repassadas a terceiros, empresa da qual se declarou herdeiro, uma área de três mil alqueires em Paranavaí, na Gleba 21, onde José Volpato já havia vendido todas as propriedades a colonos de Londrina e Bela Vista do Paraíso, no Norte Pioneiro Paranaense.

Guataçara Carneiro assinou documento que beneficiou Rocha Loures (Foto: Reprodução)

A partir disso, surgiu um conflito judiciário entre Rocha Loures e Volpato. Em 1951, o governo paranaense embargou as vendas da Colonizadora Paranapanema até resolver o impasse. O problema maior é que quando tudo isso aconteceu cerca de 600 famílias de ex-colonos viviam na Gleba 21, numa área que hoje pertence a São Pedro do Paraná, em propriedades que variavam de 2 a 25 alqueires. Lá, os produtores rurais já se dedicavam a cafeicultura e intercalavam os cafeeiros com arroz, milho, feijão mandioca e amendoim.

Na documentação dos 25 mil alqueires comercializados pela Colonizadora Paranapanema havia algumas irregularidades, então o governador Moisés Lupion deu o título das terras a Rocha Loures. O documento foi assinado pelo governador interino Guataçara Borba Carneiro. “O Governo Lupion não respeitou os pequenos proprietários que haviam pagado por aquelas terras”, admitiu o consultor do Instituto de Terras, Cartografia e Geociências (ITC), do Governo do Paraná, David dos Santos Filho.

Ninguém conseguiu provar direitos sobre a gleba

Entretanto, em 30 de novembro de 1955, o governador interino Adolfo de Oliveira Franco pediu que o caso fosse revisto e exigiu que o ex-desembargador João Alves da Rocha Loures apresentasse um novo documento que provasse que ele era o herdeiro da Companhia Industrial Brasileira. Rocha Loures entregou somente uma escritura da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco), o que não provou o direito de posse sobre os três mil alqueires da Gleba 21, de acordo com Santos Filho.

Adolfo Franco retormou a Gleba 21 para o Estado do Paraná (Foto: Reprodução)

Em 1964, após tantas confusões, o Governo do Estado declarou a área como de utilidade pública para fins de desapropriação. Porém, já em 1976, Rocha Loures tentou receber 30 mil cruzeiros por cada alqueire perdido; um valor exorbitante, segundo o Tribunal de Justiça que avaliou cada alqueire em 100 cruzeiros. O perito do ex-desembargador, Luiz Gonçalves Campelo, justificou o valor dizendo que o Porto São José se tornaria um dos portos fluviais mais importantes do Brasil. Por isso, segundo Campelo, era justo valorizar as terras ao máximo. Para o consultor do ITC, tal projeção era totalmente sem sentido.

 

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O primeiro administrador de Paranavaí

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Hugo Doubek, o marceneiro que cuidou dos enfermos e tentou promover a paz na colônia

Família Doubek quando chegou a Paranavaí na década de 1940 (Foto: Acervo Familiar)

Família Doubek quando chegou a Paranavaí na década de 1940 (Foto: Acervo Familiar)

O curitibano Hugo Doubek foi o primeiro administrador de Paranavaí e mesmo tendo deixado o distrito em 1948 fez muito pela população local ao longo de cinco anos.

A viagem

Em 1943, o marceneiro Hugo Doubek estava participando de uma exposição de artes em Curitiba quando conheceu o diretor do Departamento de Geografia, Terras e Colonização (DGTC) do Governo do Paraná, Antonio Batista Ribas. O diretor convidou Doubek para ser o administrador geral da Fazenda Velha Brasileira, então o marceneiro aceitou. Hugo Doubek já conhecia a Brasileira, onde trabalhou desmanchando casas em algumas áreas para reconstruí-las em outros pontos.

Paranavaí na época em que era administrada por Hugo Doubek (Foto: Yolanda Winche)

Acompanhado da mulher e de cinco filhos, o marceneiro viajou de trem até Marques dos Reis, distrito de Jacarezinho, no Norte Pioneiro Paranaense. “Lá, pegamos um trem até Londrina, onde ficamos hospedados na casa do inspetor de terras”, relatou Hugo Doubek em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás. Por causa de uma grave sinusite, o marceneiro teve de passar por uma cirurgia de emergência.

Dias depois, já recuperado, seguiram viagem de caminhão até Maringá, distrito de Mandaguari, onde pararam em um barracão para descanso de viajantes. Levaram mais de três horas para achar a saída do distrito, quase um labirinto por causa da mata primitiva que cercava o povoado. “A próxima parada foi em Cala Boca [atual Mandaguaçu], onde a estrada parecia um campo de batalha cheio de trincheiras”, avaliou o pioneiro, acrescentando que em alguns trechos, as rodas desapareciam, cobertas pelo solo arenoso.

Muitas vezes, Doubek teve de descer do caminhão e procurar galhos para desenterrar as rodas. E para piorar a situação, não havia nenhuma moradia na estrada. “Nem riacho para mitigar nossa sede”, comentou. Chegaram à Brasileira em dia chuvoso e se instalaram em um barracão que se tornaria sede administrativa da colônia. “Onde hoje está Paranavaí, quando cheguei aqui era só um capoeirão, uma densa mata cheia de rastros de onça”, destacou Hugo Doubek.

Antonio Batista Ribas (segundo da esquerda para a direita) quem deu ao pioneiro o cargo de administrador da colônia

Os conflitos

Quando se mudou para Paranavaí, o pioneiro tomou algumas precauções. Trouxe uma espingarda de calibre 16 e dois revólveres: um winchester e um H.O., de calibre 38, para garantir a própria segurança e a dos familiares. Na colônia, o administrador teve de resolver conflitos de grilagem de terras.

Sobre o assunto, há algumas décadas, o pioneiro admitiu que no início cometeu injustiças por acreditar que o reclamante sempre tinha razão. A situação só melhorou quando Doubek ponderou que seria melhor ouvir todos os envolvidos antes de tomar uma decisão. Em casos mais graves, o administrador contava com o apoio do sargento Marcelino, o chefe de polícia do povoado. “Naquele tempo, isso aqui parecia um acampamento de ciganos. Era feliz quem tinha uma lona e podia armar uma barraca”, enfatizou o administrador.

Na época em que a colônia era dividida em glebas e cada uma somava 15 mil alqueires, Hugo Doubek foi designado a percorrer o povoado a pé até as margens dos rios para localizar todos os moradores. ”Lembro que a 2ª Gleba começava a 10 quilômetros da área urbana e tive que percorrer 20 quilômetros para achar os primeiros colonos”, revelou.

Primeira sede administrativa de Paranavaí (Acervo: Fundação Cultural)

Primeira sede administrativa de Paranavaí (Acervo: Fundação Cultural)

Os enfermos

Ao assumir a administração da colônia, Doubek teve de lidar com a falta de assistência médica. O marceneiro costumava cuidar dos enfermos com chás de ervas, álcool, água oxigenada, pomada Riclei e ataduras que trouxe de Curitiba.

Certa vez, o administrador atendeu um rapaz com um ferimento de oito centímetros causado por um galho. A ferida estava cheia de pus e tinha odor de carne em decomposição. “Havia sido infeccionada por mosca varejeira”, explicou o marceneiro que submeteu o rapaz a um tratamento a base de creolina. Em um mês, o ferimento cicatrizou.

Outro caso nunca esquecido por Hugo Doubek foi de um jovem que carregava um machado sobre o ombro quando estava atravessando um tronco sobre um riacho (pinguela). “O rapaz caiu e se feriu. Como sangrava muito, seus companheiros queimaram um chapéu de feltro e colocaram o chumaço sobre o ferimento, parando o sangue”, disse o pioneiro.

Doubek fez curativos no ferimento do rapaz todos os dias até ele se curar. Segundo o marceneiro, para não desanimar ninguém era preciso fazer semblante doce mordendo maçã azeda. Muitas pessoas foram tratadas pelo pioneiro, principalmente moradores que contraíam doenças, como malária e leishmaniose, além de peões que se machucavam na derrubada de árvores.

A partida

Hugo Doubek deixou Paranavaí com a família em 1948, quando, por motivos nunca declarados, pediu transferência para Curitiba. Alguns pioneiros supõem que a partida do marceneiro foi motivada por pressão política do capitão Telmo Ribeiro, que era o líder local do Partido Social Democrata (PSD). “Aqui houve muita alegria, mas depois que começou a política, eu desgostei muito. Tive muita tristeza e até medo”, ressaltou a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger.

Em apenas dois anos morando na colônia, Hugo Doubek viveu a transição da Fazenda Velha Brasileira para Paranavaí. De acordo com pioneiros, um nome que ajudou a escolher. Além disso, o marceneiro tentou promover a paz na colônia, realizando acordos entre os moradores e também salvando muitas vidas quando ainda não havia nenhum médico em Paranavaí.

Curiosidade

O pioneiro era o responsável por investigar as causas das mortes que aconteciam na colônia.

Hugo Doubek foi o primeiro inspetor de terras de Paranavaí, depois substituído por Ulisses Faria Bandeira.

Frases dos pioneiros sobre Hugo Doubek

Enéias Tirapeli

“A maior autoridade aqui era o Hugo Doubek.”

“Para conseguir terra tinha que ligar na casa do Hugo e esperar um tempo para eles cortarem o terreno.”

Izabel Andreo Machado

“Quando cheguei aqui só tinha umas três ou quatro casas, e uma era do chefe da colônia, o Hugo Doubek.”

José Alves de Oliveira (Zé do Bar)

“Acho que foi o Hugo Doubek e o Ulisses Faria Bandeira que colocaram o nome de Paranavaí.”

“Quando a gente fazia o requerimento de terras para o Hugo Doubek, ele dava mais ou menos 42 alqueires para cada famíllia.”

A velha jardineira deixou saudades

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Catita e Pavão foram os principais meios de transporte em Paranavaí nos anos 1940 e 1950

Jardineira chegou a Paranavaí graças ao empresário Celso Garcia (Foto: Reprodução)

Jardineira chegou a Paranavaí graças ao empresário Celso Garcia, de Londrina (Foto: Acil)

O antigo ônibus jardineira da Viação Garcia deixou muitas saudades para os pioneiros de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. São lembranças que começam em 1939, quando a empresa de transporte londrinense começou a investir na Fazenda Brasileira, atual Paranavaí.

Até 1938, todos os pioneiros que se aventuravam na Brasileira chegavam ao povoado de jipe, caminhão, carroça, cavalo ou a pé. A escassez de estradas, e também o fato da colônia se situar em uma área isolada, fazia com que somente os corajosos viessem para cá.

O pioneiro pernambucano Frutuoso Joaquim de Salles contou em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás que o povoado estava distante do resto do Paraná. “A gente tinha que viajar até Presidente Prudente [interior de São Paulo], daí lá pegava um trem até Ourinhos e depois a cavalo ou a pé ia pra Tibagi [no Centro Oriental Paranaense]. Dava toda essa volta pra chegar em outras cidades do Paraná”, contou.

Foi assim até 1936, quando o Capitão Telmo Ribeiro reabriu a Estrada Boiadeira ligando Paranavaí ao resto do Paraná. Três anos depois, a iniciativa despertou o interesse do empresário Celso Garcia Cid que viu grande viabilidade comercial no povoado. Em 16 de dezembro de 1939, o empreendedor que atuava no ramo de transportes há cinco anos inaugurou a linha Londrina-Fazenda Brasileira. Naquele dia, Celso Garcia conduziu a jardineira “Catita”, adaptação de um caminhão Ford TT de 1933, até o seu destino.

Muitos pioneiros chegaram à Brasileira no “Pavão”

Segundo o ex-prefeito Ulisses Faria Bandeira, em entrevista à prefeitura há algumas décadas, a viagem teve início às 17h30. “Chegamos aqui por volta das 14h do dia seguinte”, afirmou. Além de Faria Bandeira, entre os passageiros da primeira viagem da Viação Garcia a Paranavaí, estavam o prefeito de Londrina, João Lopes, e o fazendeiro Humberto Alves de Almeida.

Os viajantes logo apelidaram a estrada Londrina-Fazenda Brasileira como “Túnel Verde” por causa da mata densa e virgem que predominava na região Noroeste do Paraná. De acordo com pioneiros, o cenário era tão bonito que chegava a ser inacreditável. Durante o percurso era comum muitos mosquitos e borboletas invadirem a jardineira nas imediações da Capelinha, atual Nova Esperança.

Os insetos circulavam livremente no interior do veículo. “Isso acontecia porque os ônibus eram abertos como bondes”, relatou o pioneiro Oscar Gerônimo Leite. Por um bom tempo, o Governo do Paraná bancou as despesas da Viação Garcia, pois a demanda era pequena e a realização de duas viagens por mês não cobria o investimento.

O “Pavão” da Brasileira

Durante a Segunda Guerra Mundial, o ônibus que mais fez a linha Londrina-Paranavaí era conhecida como “Pavão”. O ônibus movido a gasogênio era econômico, ideal para o período de guerra que ficou marcado pelo racionamento de combustível. Considerado revolucionário, o veículo chegava a Paranavaí em 16 horas na década de 1940.

Viagem de Londrina a Paranavaí durava até 18 horas

Por vários anos, a Viação Garcia transportou passageiros que não tinham condições de comprar passagem. Cada um pagava conforme podia, até mesmo com galinhas. Quando chovia durante a viagem, o motorista encostava o ônibus e amarrava correntes nos pneus para evitar que atolasse. “Lembro que uma vez a gente levou oito dias de Londrina até aqui. Cheguei com os peitos doendo de ajudar a empurrar um carro velho da Garcia pelo picadão”, revelou o pioneiro José Francisco Siqueira, conhecido como Zé Peão.

O pioneiro paulista Paulo Tereziano de Barros disse que nunca se esqueceu das viagens com o “Pavão”. “A gente tinha que atravessar um barro preto lá perto de Mandaguari e depois o areião de Maringá pra cá”, assinalou. Muitos pioneiros chegaram a Paranavaí com a jardineira. Alguns exemplos são o catarinense Carlos Faber, o gaúcho Severino Colombelli e os mineiros Enéias Tirapeli e José Antonio Gonçalves.

Naquele tempo em que as viagens duravam de 17 a 18 horas, o “Pavão” nunca deixou de cumprir a linha, nem quando havia só dois ou três passageiros. Com o passar dos anos, a demanda aumentou e a Garcia quadruplicou o número de viagens. “Em vez de duas por mês, ampliou para duas por semana”, enfatizou a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger.

Ônibus também trazia notícias (Foto: Francisca Schueroff)

Com as jardineiras não chegavam apenas pessoas, mas também informações, conforme palavras da pioneira Inês Colombelli. “Sempre às 11h e às 14h, mulheres e crianças corriam até os ônibus para saber das notícias”, explicou. Era o único jeito da população se informar sobre o que acontecia no Paraná, no país e no mundo.

Frases dos pioneiros sobre a época das jardineiras

Joao da Silva Franco

“A jardineira era velha, não era estofada, e se entrasse de um lado saía do outro.”

Cincinato Cassiano Silva

O ônibus era todo aberto e só com as bancadas pregadas, e duro que nem pau.”

Salatiel Loureiro

“O fundador da primeira empresa de ônibus da Brasileira foi o Manezinho. Esse coitado acabou em nada e os ônibus dele não aguentavam nem fazer daqui até o Porto São José.”

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O primeiro cemitério de Paranavaí

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Cemitério abrigou vítimas de doenças, desastres e assassinatos

Primeiro cemitério surgiu no início dos anos 1940 (Acervo: Fundação Cultural)

O primeiro cemitério de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foi criado na Avenida Rio Grande do Norte, cruzamento com a Rua Minas Gerais, no início dos anos 1940. Lá, foram enterradas principalmente vítimas de doenças, desastres e assassinatos.

Não se sabe ao certo em que ano surgiu o primeiro cemitério da Fazenda Brasileira, atual Paranavaí, mas pioneiros afirmam que foi no início da década de 1940. A ideia de construí-lo surgiu quando a Brasileira ainda não contava com assistência médica especializada. Á época, um homem contraiu varíola e faleceu pouco tempo depois. Como não havia cemitério em Paranavaí, o administrador geral da Colônia, Hugo Doubek, reuniu alguns homens e juntos transportaram o falecido até Londrina.

No dia, chovia sem parar e a estrada de chão só complicou a situação. A proximidade com a mata também dificultou o tráfego. “Se empurrou mais o caminhão do que se aproveitou dele”, disse Hugo Doubek. Quando chegaram a Londrina, foram até a delegacia explicar a situação para o delegado Achilles Pimpão, amigo do capitão Telmo Ribeiro.

Pimpão os repreendeu por levarem o morto até lá e ordenou que arrumassem um lugar para a construção do cemitério na Brasileira. Doubek então decidiu que a necrópole seria construída entre a Avenida Rio Grande do Norte e a Rua Minas Gerais, onde surgiu mais tarde a Seicho-No-Ie.. “O cemitério foi lá por muito tempo. Dali em diante era tudo mato, uma quiçaça só”, relatou o pioneiro paulista José Ferreira de Araújo, conhecido como Palhacinho, acrescentando que muita gente importante foi enterrada na necrópole.

As mortes mais comuns aconteciam quando os migrantes estavam na mata cortando árvores. Às vezes, não dava tempo dos trabalhadores desviarem dos troncos e morriam esmagados e soterrados. Doubek investigava cada fatalidade para se certificar de que realmente era acidente e não homicídio. “Caía muito pau em cima das pessoas. Muita gente também foi vítima de doença”, complementou Palhacinho. Havia muitas crianças enterradas no cemitério da Avenida Rio Grande do Norte, principalmente vítimas de tifo, pneumonia e doença de macaco.

Mortes aconteciam durante o corte de árvores imensas

“Morreram muitos macacos aqui, então a doença se alastrou. Tinha dia que morria até quatro crianças. Quem consolava as mães era o frei alemão Ulrico Goevert”, revelou o pioneiro paulista João da Silva Franco. Uma morte que chamou atenção nos anos 1940 foi a de um rapaz que quis se exibir. “Pegou um avião pequeno e ficou voando por cima da colônia, fazendo gracinha para a namorada. Ele se descuidou e caiu”, contou o pioneiro mineiro Enéias Tirapeli. Muita gente assistiu a tragédia.

Frei Ulrico Goevert consolava as mães que perdiam os filhos (Foto: Wilmar Santin)

Mortos de toda a região eram enterrados em Paranavaí

A grande fase do crime em Paranavaí começou em 1944 e foi até 1946, segundo o pioneiro catarinense Carlos Faber. “Muita gente morreu nesse período”, declarou. Por isso, não demorou muito para o cemitério ser ocupado por centenas de cadáveres. O pioneiro espanhol Thomaz Estrada chegou a ver até seis homicídios em apenas um dia em frente ao Hospital do Estado, atual Praça Dr. Sinval Reis, mais conhecida como Praça da Xícara. “Tinha que correr para não morrer”, comentou a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger.

No cemitério da Rua Rio Grande do Norte não foram enterrados apenas moradores de Paranavaí, mas também de muitas glebas, povoados e vilas que não tinham necrópole. Perto do antigo Grupo Escolar, próximo ao local onde está a Praça da Xícara, havia um necrotério para onde enviavam os mortos da região.

“Quantas vezes nós vimos os caminhões chegarem lá carregados de cadáveres. Vinham da região de Nova Londrina e Areia Branca [atual São Pedro do Paraná e Porto São José]. Isso era normal”, afirmou o pioneiro mineiro José Antonio Gonçalves. Sobre o motivo das mortes, Gonçalves é enfático: “Alguns queriam glebas do tamanho da região. Não dava nem tempo de brigar. O que morria de gente aqui era incrível, uma barbaridade.”

Capitão Telmo: herói ou vilão?

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Telmo Ribeiro é um paradoxo na história de Paranavaí, o herói que se transformava em vilão

Ribeiro chegou a Paranavaí em 1936 (Foto: Reprodução)

O capitão Telmo Ribeiro é um dos personagens mais controversos da história de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Viveu aqui entre os anos de 1936 e 1964. Durante esse período, conquistou amigos, inimigos e apatia.

O tenente

Em 1932, o tenente gaúcho Telmo Ribeiro deixou o Rio Grande do Sul e foi para Porto Murtinho, no Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul), lutar na Revolução Constitucionalista. Com o fim dos conflitos, Ribeiro comandou o regimento de cavalaria de uma brigada militar em Ponta Porã. A missão era defender a fronteira brasileira. “Eu era tenente no esquadrão do Telmo. Naquele tempo, quem comandava a brigada era o coronel Mário Garcia”, relatou o pioneiro mato-grossense Alcides Loureiro de Almeida em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás.

Enquanto trabalhou em Ponta Porã, Telmo Ribeiro morou em Bela Vista, na Fazenda Casualidade, de João Loureiro de Almeida, pai de Alcides Loureiro. “Depois de um tempo, a brigada foi extinta e surgiu o convite para trabalhar na Fazenda Caaporã. Contratamos alguns homens e começamos o plantio e transporte de erva-mate para exportação”, lembrou Loureiro. Mais tarde, Telmo e Alcides retornaram a Ponta Porã. Loureiro continuou trabalhando na cidade e Ribeiro fechou um contrato com a Companhia Mate-Laranjeira para transportar erva-mate através do rio em um barco a vapor.

Em uma das viagens pelo estado, Telmo Ribeiro conheceu o engenheiro Francisco Natel de Camargo que atuava como boiadeiro, levando gado vacum do Mato Grosso para a Fazenda Brasileira, futura Paranavaí. A carne bovina alimentaria os migrantes que viviam no povoado. “O Natel levou o Telmo até Londrina para conversar com o representante do governo, o delegado Achilles Pimpão, intermediário do interventor Manoel Ribas”, revelou o pioneiro Alcides Loureiro.

Ao conquistar a simpatia do delegado e do interventor, Telmo Ribeiro foi contratado para abrir estradas ligando a Brasileira ao restante do Paraná. “Lembro quando ele foi encarregado por Natel de Camargo para abrir uma estrada para a movimentação de gado da Brasileira até a Gleba Roland [atual Rolândia]”, pontuou o pioneiro pernambucano Frutuoso Joaquim de Salles, ex-empregado e amigo do tenente Telmo.

Salles contou que Ribeiro fixou residência onde é atualmente o Jardim São Jorge. Lá, havia uma colônia abandonada, com casas boas e móveis coloniais de finíssima qualidade. “As árvores já tinham varado o teto das residências. Telmo aproveitou o que deu pra aproveitar”, assegurou o pernambucano.

O herói

Em 1936, nas palavras do pioneiro paulista Natal Francisco, o tenente e uma turma de paraguaios acabaram com a onda de assassinatos praticados por grileiros na Fazenda Brasileira. Nessa época, o tenente já se destacava entre a população humilde do povoado. Tinha boa postura e passo firme, mas o que mais chamava atenção era o carisma, o requinte e a elegância. Ribeiro usava paletó de alta qualidade combinando com botas feitas sob medida, além de um cinturão que tinha como fivela a letra T.

Fumava apenas charutos importados da Holanda e só usava perfume francês. “Ele tinha um anel madrepérola feito por um famoso joalheiro carioca. No pescoço, sempre trazia um lenço de cetim preso por um broche de ouro”, detalhou Alcides Loureiro, acrescentando que apesar da fama de violento, Telmo Ribeiro era um homem delicado.

O título de capitão, o tenente gaúcho recebeu por serviços prestados ao Estado do Paraná na Brasileira, segundo o pioneiro paulista Valdomiro Carvalho. Contudo, o pioneiro curitibano Aldo Silva deu outra versão sobre o assunto: “Ele foi promovido a capitão pelo próprio povo da região, então ficou conhecido assim.” Telmo Ribeiro se tornou uma figura tão influente na cidade que a jardineira da Viação Garcia que fazia a linha Paranavaí-Londrina adotou como ponto de parada a casa do capitão.

Ao longo da vida, o pioneiro paulista Salatiel Loureiro nunca se esqueceu de um favor feito por Telmo na década de 1940. “Uma vez, ele foi até Curitiba requerer meu título de terras. Fez isso e não cobrou nada.” Carlos Faber, José Alves de Oliveira, José Ferreira de Araújo (Palhacinho), Severino Colombelli, José Francisco Siqueira (Zé Peão) e Izabel Andreo Machado são alguns pioneiros que sempre tiveram bom relacionamento com o capitão Telmo Ribeiro.

“O meu amigo sempre foi um líder, homem com fibra de pioneiro, com o qual partilhei bons e maus momentos”, destacou Alcides Loureiro. Outro pioneiro que defendia a idoneidade e o caráter de Ribeiro era o paulista João da Silva Franco. “Muita gente falava que ele era ruim e ganancioso. Mas eu acredito que ele nunca matou ninguém. O problema era a cabroeira dele, usavam o nome do Telmo pra fazer coisas erradas aqui”, salientou.

O vilão

Se por um lado, o capitão Telmo Ribeiro foi admirado e fez valiosas amizades nos 28 anos dedicados a Fazenda Brasileira, depois Paranavaí, por outro, também conviveu com pessoas que não aprovavam suas atitudes, não gostavam dele ou lhe eram indiferentes. “Lembro que ele andava com dois revólveres, uns dez capangas e insultava muita gente na rua. Telmo achava que só ele tinha razão”, desabafou o pioneiro cearense Raimundo Leite.

Leite costumava relembrar o episódio em que entrou em conflito com o capitão. “Certo dia, o Raimundo Arruda e o Zé Andrade insultaram ele no Bar do Zé e depois foram pra minha casa. O Telmo apareceu lá e o pau quebrou. Teve gente que apanhou e correu. Eu não tinha nada com o peixe, mas quase sobrou pra mim. A minha sorte foi que chegou um pessoal e pediu pra ele não fazer nada comigo”, enfatizou.

Com o tempo, Ribeiro conquistou muitas inimizades em Paranavaí. “Aqui tinha os capa-preta e me recordo que eles queriam matar o capitão Telmo Ribeiro”, revelou o pioneiro espanhol Thomaz Estrada. Para a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger, o capitão Telmo perseguiu muita gente e fez muitas coisas que não deveria ter feito.

Capitão Telmo (primeiro da direita para a esquerda) viveu aqui até 1964 (Foto: Reprodução)

De acordo com o pioneiro gaúcho Otávio Marques de Siqueira, Telmo ajudou muito Paranavaí, mas nunca permitiu que alguém se lançasse contra ele na política. “No fundo, era boa pessoa, mas também sabia ser violento quando eram com ele”, avaliou. O pioneiro mineiro Enéias Tirapeli pertencia a um grupo que não simpatizava e nem desgostava de Telmo Ribeiro, apenas era indiferente ao capitão.

“Nunca me relacionei com ele, mas achei errado ele ter matado aquele rapaz na cadeia”, ressaltou, referindo-se ao assassinato do jovem Alcides de Sordi, de quem o capitão assumiu a autoria do crime. Fato sobre o qual houve divergências de opiniões. O pioneiro João Franco dizia que Telmo Ribeiro nunca atirou no rapaz. Para ele, o capitão tinha as “costas quentes” e chamou a responsabilidade para si na tentativa de livrar os amigos da prisão.

A decadência do capitão

Nas décadas de 1940 e 1950, Ribeiro conseguiu status e fortuna em Paranavaí. Entre as suas propriedades estava uma fazenda que compreende todo o Jardim São Jorge. Também tinha fama de perdulário. Ostentava um padrão de vida elevadíssimo, gastava muito dinheiro com a própria vaidade, amigos e mulheres em ambientes como a Boate da Cigana.

“Tal extravagância o levou a decadência. Depois de um tempo, começou a vender suas terras”, salientou Alcides Loureiro. Em 1964, às raias da falência, Telmo Ribeiro fixou residência em Maringá. Três anos mais tarde, viajou até Cornélio Procópio, no Norte Pioneiro, para cobrar um devedor e levou um tiro no peito.

O capitão influente e de muitos amigos, conhecido como rápido no gatilho, e que um dia participou da Guerra Paulista, enfrentou grileiros e jagunços, foi surpreendido e morreu no próprio local, longe de casa e sozinho, sem tempo de ao menos tirar a arma do coldre.

Curiosidade

Pioneiros contam que na época da colonização diziam que Telmo Ribeiro ameaçou roubar uma das filhas do pioneiro Arthur de Melo. Para evitar o pior foi enviado reforço policial de Arapongas.

Frases dos pioneiros sobre o capitão Telmo Ribeiro

Carlos Faber

“Nunca vi ele bravo, estava sempre alegre. Embora falassem certas coisas dele, nunca vi nada. O Telmo sempre me oferecia ajuda, mas nunca precisei.”

Raimundo Leite

“Ele me desacatou dentro da minha casa. E eu não morri porque não corri.”

Severino Colombelli

“O capitão Telmo era uma pessoa muito boa e de coração mole.”

Cincinato Cassiano Silva

“A parada era dura com o Capitão Telmo. Ele que expulsou os jagunços daqui. Para alguns ele era bom, mas pra outros não.”

Izabel Andreo Machado

“O capitão era pra nós uma pessoa muito boa.”

José Antonio Gonçalves

“Ele usava um chapéu grande e um lenço no pescoço. Era educadíssimo, mas a coisa com ele era meio brava.”

Valdomiro Carvalho

“Ele era realmente grande aqui. Eu ia com ele buscar boi no Mato Grosso, pra ganhar um dinheiro. Levava um mês. A gente ia pelo Porto São José, pegava um vaporzinho e atravessava a boiada de pouco em pouco.”

Paulo Tereziano de Barros

“O Capitão Telmo trouxe muita gente que ele achava que podia trabalhar no mato.”

José Francisco Siqueira (Zé Peão)

“Meu primeiro negócio com ele foi 30 sacas de arroz e 10 capados. Tudo fiado. Falavam que ele não pagava ninguém, tudo mentira. Depois de três dias, ele acertou comigo.”

Oscar Geronimo Leite

“Telmo Ribeiro era um dos mandões da época.”

José Ferreira de Araújo (Palhacinho)

“O telmo jogava snooker com a gente, andava com nós.”

José Alves de Oliveira

“Ele foi um dos grandes fregueses do meu bar. Nunca me deu um único prejuízo. Ia lá, comprava e pagava direitinho.”

Written by David Arioch

August 4th, 2010 at 12:12 pm

Posted in História,Paranavaí,Pioneirismo

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Um show à brasileira

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Próxima apresentação da OSP será pautada na música popular

Orquestra fará o segundo show da temporada (Foto: Amauri Martineli)

No domingo, 27, às 20h30, a Orquestra de Sopros Paranavaí sobe ao palco do Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa para apresentar o show “Noite da Música Brasileira”. O espetáculo leva ao público os grandes clássicos da música popular. Ingressos estão à venda na Fundação Cultural por R$ 10.

O show “Noite da Música Brasileira” é o segundo espetáculo da temporada de concertos da Orquestra de Sopros que este ano ainda fará shows temáticos de jazz, samba e choro, música regionalista e concerto de natal. “O fato de um show ser diferente do outro é uma forma de atendermos aos mais variados gostos e, assim, divulgarmos a boa música”, explica o presidente da Fundação Cultural, Paulo Cesar de Oliveira.

Para o show de domingo, a OSP está preparando um show que inclui grandes clássicos da música brasileira como “Samba de Uma Nota Só”, de Tom Jobim e Newton Mendonça; “Zazueira”, de Jorge Ben Jor; “Cromático” e “Cristalina”, de Antônio Adolfo, grande compositor carioca que faz parte do clube da bossa nova. Há também composições autorais como “Aí tem coisa”, de Gabriel Forlani Zara.

Orquestra de Sopros existe há 12 anos (Foto: Amauri Martineli)

As canções executadas pela OSP não são apenas releituras, mas músicas adaptadas para orquestra. “Eles sempre acrescentam novos arranjos, isso dá um toque especial”, explica o diretor cultural da FC, Amauri Martineli, acrescentando que a Orquestra de Sopros é mantida pela Fundação Cultural. Segundo o trombonista e maestro-adjunto da orquestra Luciano Ferreira Torres, o apoio financeiro da FC é imprescindível para que a Orquestra de Sopros continue na ativa. “Acredito que não há outra banda no Estado que seja mantida com recursos municipais. Podemos nos orgulhar disso”, diz o maestro-adjunto.

Ao longo dos 12 anos de apresentações da OSP, do eclético repertório que inclui MPB, chorinho, foxtrot, bolero, jazz e trilhas sonoras, o destaque para o público são sempre as clássicas canções de Glenn Miller e Henry Mancini. “Também gostam muito de ouvir Tico-tico no Fubá, do Zequinha de Abreu”, lembra Torres. A orquestra já se apresentou por muitas cidades do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Contudo, para os integrantes o grande trunfo são as participações no Festival de Música de Londrina (Filo), onde a orquestra foi banda base do evento por vários anos.

Os shows da orquestra têm um compromisso sociocultural, ajudam a manter o Projeto Clave de Luz, uma iniciativa da Fundação Cultural que oferece formação musical profissional a dezenas de estudantes de baixa renda por um período de quatro anos. “Toda a renda dos shows é usada para manter o projeto”, ressalta Oliveira. A OSP também realiza concertos didáticos nas escolas. Os músicos se informam sobre o gênero preferido dos estudantes, então depois realizam uma apresentação seguida de análise das canções e dos instrumentos.

OSP é remanescente da Banda Lira do Noroeste

Fundada pelo maestro Arnold Poll em 18 de maio de 1961, a Banda Lira do Noroeste era conhecida por embalar a população com releituras de samba-canção e chorinho, gêneros musicais disseminados pelas rádios da época. “O maestro Nílson Antônio dos Santos fez uma revolução transformando-a na Banda Sinfônica Municipal.

Banda Lira foi fundada há 49 anos (Foto: Casa da Cultura)

O repertório mudou e o número de integrantes chegou a 40. Ele conseguiu fazer com que todos os músicos se dedicassem integralmente ao projeto”, conta o trombonista e maestro-adjunto da Orquestra de Sopros Paranavaí (OSP), Luciano Ferreira Torres, acrescentando que quatro anos depois Santos daria lugar ao regente Sales Douglas Santiago.

Lira do Noroeste embalava o público com samba-canção e chorinho (Foto: Casa da Cultura)

Santiago transformou a Banda Sinfônica em Orquestra de Sopros Paranavaí (OSP) no dia 19 de novembro de 1998. À época, houve uma grande mudança. “Alguns músicos se casaram e estabeleceram famílias, assim abandonando a carreira musical. Percebemos que do total de integrantes apenas 20 estavam dispostos a tornarem-se músicos profissionais”, revela o trombonista. Segundo a OSP, Sales tinha uma visão de Big Band, orquestras formadas por músicos de jazz nos Estados Unidos da década de 1920.

Banda Lira na década de 1980 (Foto: Casa da Cultura)

Em 2002, Santiago deixou a OSP e deu lugar a um novo maestro, Vitor Hugo Gorni que assim como os outros regentes que passaram por Paranavaí também é de Londrina. “Ele começou a vir aqui uma vez por semana”, enfatiza o trombonista. Com Gorni, a orquestra se dedicou a um repertório mais refinado. Exemplos são as canções eternizadas por Frank Sinatra e Tony Bennett. Depois a orquestra começou a homenagear artistas brasileiros. “Já fizemos apresentações especiais apenas com músicas do Roberto Carlos e Tim Maia”, informa o maestro-adjunto.

Mesmo com inúmeras mudanças ao longo da trajetória, a orquestra ainda carrega a nostalgia dos tempos áureos da Banda Lira e Sinfônica Municipal. “Sempre tocamos os dobrados e os hinos que fazem parte de uma história musical que ultrapassa o tempo, como o Hino do Paraná, Hino da Independência e Hino à Bandeira”, finaliza Luciano Torres.

Saiba mais

A OSP fará cinco shows até o final do ano: de MPB, jazz, samba e choro, de música regionalista e concerto de natal. O pacote para todos os espetáculos está à venda na Fundação Cultural por R$ 50. Para mais informações, ligar para (44) 3902-1128

O dom de talhar a madeira

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Olegário aperfeiçoou as habilidades como carpinteiro e se tornou um mestre em talhar madeira

Artesão é especialista em esculturas de madeira (Foto: David Arioch)

Artesão é especialista em esculturas de madeira (Foto: David Arioch)

Há 28 anos, Olegário José dos Santos, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, aproveitou as habilidades como carpinteiro para reproduzir uma obra de arte. O resultado foi tão positivo que desde então se dedica a criar placas, quadros e esculturas, peças que já foram comercializadas em muitos estados do Brasil e em outros países.

Tudo começou em 1981, quando “Seu Olegário” trabalhava como mestre de obras e marceneiro. À época, a habilidade em talhar madeira despertou no artista o desejo de fazer algo mais do que criar apenas produtos funcionais. “Vi um trabalho e decidi produzir também. Comecei a fazer esculturas e não parei mais. Tem peças minhas nos Estados Unidos, Japão, França, Espanha, Argentina, Costa Rica e Portugal”, diz o artesão em tom de orgulho.

Houve um período em que Santos participava de feiras agropecuárias com o intuito de divulgar e também comercializar as peças que produzia. “Em exposições no Paraná e São Paulo, eu vendia pelo menos 10 placas para fazenda e ainda levava trabalho pra casa. A procura era grande”, explica o artista plástico que já participou de exposições agropecuárias em Paranavaí, Maringá, Umuarama, Londrina, Foz do Iguaçu, Santo Antônio da Platina, Wenceslau Braz, Maringá, Ourinhos, Votuporanga, Presidente Prudente e Assis. Santos também vendeu muitas peças no litoral de Santa Catarina, principalmente pequenos artigos.

Independente do tamanho da obra, seja um chaveirinho feito na hora e vendido por R$ 4 ou um altar de R$ 7 mil que levou 90 dias para ser produzido, a verdade é que depois do trabalho concluído sempre surge o momento de fruição. “Sinto prazer em criar qualquer coisa”, enfatiza Seu Olegário que preza pela riqueza de detalhes. O perfeccionismo está embutido em cada uma de suas esculturas; nas formas e nas curvas que tiram do anonimato pedaços de cedro e cerejeira que provavelmente seriam transformados em produtos em série, como móveis.

Olegário dos Santos: “Sinto prazer em criar qualquer coisa” (Foto: David Arioch)

Olegário dos Santos: “Sinto prazer em criar qualquer coisa” (Foto: David Arioch)

“São ótimas madeiras para o trabalho que desenvolvo. Só uso outros tipos para fazer placas de fazenda”, informa e acrescenta que a cerejeira é trazida de Rondônia. Uma das especialidades de Seu Olegário é a criação de esculturas de imagens de santos, talento que combina com o sobrenome do artista. “Tenho algumas obras disponíveis para venda. São réplicas de São Expedito, São José, São Paulo e Nossa Senhora Aparecida”, destaca o escultor que está sempre aberto a encomendas e comercializa esculturas pelos mais diversos preços. Quem quiser conhecer de perto o trabalho do artista, pode vistar o seu atelier na Avenida Heitor Alencar Furtado, em frente ao trevo de acesso à Vila Operária.

Saiba mais

Cada escultura leva em média 30 dias para ficar pronta e um quadro é concluído em quatro dias.

O artista plástico Olegário José dos Santos também pode ser encontrado na Rua Augusto Fabretti, 877 –  Jardim Alvorada do Sul, Paranavaí. Ou pelo telefone: (44) 3423-4633

Cemitério é mais antigo que a cidade

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Necrópole surgiu quando Paranavaí ainda era um distrito

Jazigo da Família Moraes é o mais visitado

Jazigo da Família Moraes é o mais visitado (Foto: David Arioch)

Os primeiros sepultamentos no Cemitério Municipal de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foram realizados em 1947. À época, antes de se tornar cidade, a Colônia Paranavaí, distrito de Mandaguari, ainda era conhecida como Fazenda Brasileira.

Naquele tempo, o portão de entrada do cemitério ficava localizado onde hoje é a área central da necrópole. A atual fachada foi construída somente décadas depois. A demora, segundo pioneiros, se deve a um problema de planejamento. O espaço era pequeno e não contemplava o desenvolvimento da cidade, então precisaram comprar novos lotes e extinguir uma larga rua que atravessava o cemitério.

O administrador do Cemitério Municipal, Amilcar Pereira do Santos, sabe muito bem o que isso significa. Ele viu o espaço ser ampliado três vezes ao longo de 33 anos de trabalho. “Já carpi, construí muro, fui coveiro, auxiliar de médico-legista e hoje estou aqui como administrador”, frisa, acrescentando que durante muito tempo ele e dois colegas de trabalho foram responsáveis pela manutenção da necrópole.

Oito funcionários cuidam dos cinco mil túmulos onde estão enterradas mais de 30 mil pessoas. Segundo Santos, o trabalho se torna mais intenso no final de outubro, quando o fluxo de visitas no Cemitério Municipal aumenta muito por causa do feriado de Dia de Finados. “O horário de expediente passa a ser das 6h às 19h. Posso dizer que o nosso trabalho triplica. Sempre tem alguém pedindo informação ou precisando de alguma ajuda. Mas tudo corre bem porque atendemos um de cada vez”, pondera Amilcar.

Apesar da maioria dos túmulos serem visitados apenas no período que precede o feriado, alguns são recordistas de público. Exemplo é o jazigo da Família Moraes, próximo à entrada do Cemitério Municipal, que apresenta a imagem de um avião sobrevoando o campo e recebe até três visitas por dia. “As pessoas sempre perguntam como foi o acidente”, destaca Amilcar Santos. O belo desenho impresso em azulejo é uma representação simbólica do último momento vivido por Oswaldy Teixeira de Moraes.

“Em 1976, ele e mais três pessoas foram para o Mato Grosso do Sul. Viajaram a trabalho para negociar a venda de terras. Durante o voo, começou a chover e eles tentaram descer e, sem sucesso, o avião se chocou contra uma peroba. Isso aconteceu perto de Naviraí”, conta o administrador do cemitério. No acidente morreram duas pessoas de Paranavaí e duas de Londrina.

Outro túmulo que recebe um bom número de visitas é o de Armando Trindade Fonseca que ficou conhecido como um grande radialista. “Pelo menos três pessoas, inclusive de outras cidades, visitam o túmulo dele toda semana. Não é pra menos. Ele era muito conhecido na região e foi pioneiro do rádio. Infelizmente, problemas de saúde o levaram à morte”, comenta Amilcar Pereira.

Curiosidades

Em 1950, a Prefeitura de Mandaguari enviou um livro oficial de inumações que passou a ser administrado pelos próprios moradores.

No Cemitério Municipal, 400 pessoas estão sepultadas na ala de “gavetas”, onde são depositados os restos mortais de indigentes e pessoas sem condições financeiras para comprar um túmulo.

O Cruzeiro das Almas é bastante frequentado. No local, os visitantes deixam garrafas com água, velas, flores e pedidos para se curar de alguma enfermidade ou conseguir emprego.

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O empacotador que virou ícone do rádio

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Armando Trindade se apaixonou pelo rádio na mocidade, um casamento que durou 47 anos

Armando Trindade começou a trajetória no rádio em 1957 (Foto: Acervo Familiar)

Armando Trindade começou a trajetória no rádio em 1957 (Foto: Acervo Familiar)

No limiar da adolescência, Armando Trindade Fonseca descobriu o amor pelo rádio. Foi discotecário, sonoplasta, apresentador de programas de auditório e jornalista esportivo e investigativo – a grande paixão do homem que dedicou 47 anos ao rádio. Em 2005, apenas a morte conseguiu interromper a trajetória do radialista que parecia carregar o coração no topo do microfone.

A história de Armando Trindade Fonseca com o rádio começou há mais de 50 anos, quando sua mãe era faxineira da Rádio Paranavaí. “Era julho de 1957, e eu tinha perdido o emprego como empacotador. Minha sorte foi que me convidaram para ser discotecário. Pouco tempo depois, me tornei sonoplasta. Era um trabalho difícil. Eu tinha 14 anos e precisava ficar atento ao locutor o tempo todo”, relatou emocionado.

Em três meses, Armando Trindade se tornou referência em sonoplastia. A facilidade em aprender e o amor precoce pela profissão o estimulava a chegar às 5h30 na Rádio Paranavaí. “Saia de lá só meia-noite. Isso porque exigiam pouco de mim. Curioso como eu era, quis aprender tudo, principalmente a trabalhar com programa de auditório. Ainda assim, continuava na discoteca e na sonoplastia, meu forte”, afirmou.

A primeira oportunidade de entrar no ar surgiu pouco tempo depois, em uma segunda-feira. Encarregado da sonoplastia de uma peça teatral radiofônica do autor Jackson Frazzoni, Fonseca foi convocado a substituir um ator que na última hora desistiu de participar. “O rapaz ficou com medo porque o papel dele era de uma bichinha. Então me chamaram e eu aceitei. Depois que acabou a peça começaram a me chamar de bichinha”, lembrou, às gargalhadas.

Em 1962, Fonseca foi chamado para substituir o apresentador Neideval Oliveira Guimarães que comandava um programa infantil. “Fiz isso durante 12 anos, sempre me espelhando em outros programas, como do César Alencar, da Rádio Nacional. Na época, eu gostava mais de trabalhar com as crianças. Com o tempo, adquiri gosto pelas notícias, independente do tema ou do assunto”, justificou.

Armando, que acompanhava a transmissão das rádios de São Paulo e do Rio de Janeiro, sempre ouvia reportagens policiais, mas tinha receio de trilhar tal caminho. “Um dia, em 1963, decidi pegar o gravador e fui atrás da notícia. Gostei do negócio, tanto que de 10 minutos para reportagens locais, aumentamos para 15. Com o tempo, consegui 25 minutos em produção local, deixando só 15 para notícias estaduais e nacionais. Virou um radiojornal diário, de segunda a sábado”, explicou.

Radialista entrevistando o atual senador Álvaro Dias

Fonseca entrevistando o ex-governador Álvaro Dias (Foto: Acervo Pessoal)

No auge da profissão, o radialista trabalhava em torno de 14 horas por dia. Não havia horário específico de entrada e saída na emissora. Sempre levantava às 5h e era questionado pela mãe. “Queria saber pra onde eu ia. Sempre respondia que quando quisesse me encontrar era só ligar na emissora. Comecei, aprendi e me estabeleci no rádio. É o que faço há 47 anos”, revelou com olhos marejados.

Mesmo com graves problemas renais, no último ano de vida, Armando Trindade Fonseca travava uma luta diária consigo mesmo para não se distanciar do rádio. Fazia hemodiálise às 4h30, três vezes por semana e, com dedicação e esforço inigualáveis, procurava notícias, lia jornais e ia para a emissora às 12h, encerrando o expediente às 14h. O radialista faleceu no dia 12 de julho de 2005 e marcou para sempre a história do rádio em Paranavaí, com um exemplo de perseverança tão raro que hoje em dia é mais fácil ser encontrado no cinema do que na realidade.

Radialista era ameaçado

O radialista Armando Trindade Fonseca foi ameaçado muitas vezes. Em 1980, Fonseca estava em uma reunião da Câmara de Vereadores, trabalhando para a Rádio Cultura, quando lhe disseram que havia uma pessoa lá fora, com um fuzil, o esperando para matá-lo. “Um rapaz da rádio disse que eu estava na Câmara. O indivíduo achou que ele estava mentindo e chutou a porta que acabou quebrando. Aí o sujeito passou pela minha casa e não tinha ninguém. Minha mulher estava no hospital porque tinha ganhado bebê”, lembrou.

Mesmo ciente da situação, Armando Trindade continuou agindo com naturalidade. “Saí na rua de peito aberto. Cheguei ao trabalho e coloquei a reportagem esportiva no ar. Em seguida, o telefone tocou. Quando atendi, era o indivíduo falando que iria me matar. Falei pra ele que quem quer matar não fala. Vem quietinho, mata e depois vai embora”, declarou. O radialista desligou o telefone e nunca mais foi perturbado pelo homem. “Houve muitas outras ameaças, de políticos mesmo, só que ninguém me intimidava não”, garantiu.

Auge das reportagens esportivas

Sem pestanejar, o radialista Armando Trindade Fonseca afirmou que o auge das reportagens esportivas em Paranavaí foi na década de 1970, quando a cidade tinha um grande time de futebol e os melhores jogos. “O Estádio Natal Francisco lotava. Lembro das arquibancadas de madeira como se fosse hoje. Eu corria pra lá e pra cá naquele sol quente para fazer a cobertura”, frisou.

Quando os jogos ocorriam em outras cidades, Armando Trindade sempre se apressava. Ia para Curitiba, Cambará, Jacarezinho, Santo Antônio da Platina, Londrina, Paranaguá e muitos outros municípios. “As cidades do Oeste do Paraná ainda não tinham times. Os clubes de Toledo, Cascavel, Pato Branco e Clevelândia surgiram bem mais tarde. Eu sempre viajava aos domingos quando os jogos eram fora. Saía de madrugada e voltava no dia seguinte por volta das quatro, cinco horas da manhã”, exemplifica. As transmissões eram feitas ao vivo, um trabalho complicado porque ainda não existiam as micro-ondas. “Era tudo linha física, o que fazia a transmissão atrasar alguns segundos, atrapalhando o locutor”, revelou o radialista.

Frases do radialista Armando Trindade Fonseca

Já fui ameaçado sim, mas quem ameaça não faz. Cão que ladra não morde.”

“Me recordo quando eu ficava atrás da casa brincando, pegava uma latinha e fazia de conta que era o microfone e que havia um auditório.”

“A gente sempre acha alguém que gosta de trabalhar com rádio. Na Rádio Cultura mesmo sempre teve uns três, quatro que trabalhavam porque gostavam. Mas é claro que tem aqueles que fazem porque querem aparecer.”

“Para alguns, o rádio é como se fosse uma obrigação. Para outros, o motivo são as meninas, principalmente porque no rádio dá mulher pra arrebentar. O cara começou a aparecer um pouquinho as mulheres invadem.”

“Programa de auditório era gostoso. Antigamente o público fazia muito barulho. O locutor pedia para fazer silêncio e gritavam mesmo assim. Daí havia essa briga, no bom sentido. Eu falava “silêncio” e o público gritava. Às vezes, vaiava. Era bem diferente do que eu queria, eles faziam exatamente o contrário, mas mesmo assim era muito agradável.”

“O jornalismo representa muito na minha vida. Tenho três filhas e nenhuma quis seguir o rádio, nem fazer jornalismo. Eu queria que pelo menos uma delas seguisse isso, mas nem a caçula quis. Ela escolheu fazer educação física, a do meio preferiu direito e a mais velha optou por biologia.”

Considerações

Em 2004, tive a oportunidade de entrevistar o radialista Armando Trindade Fonseca que, mesmo combalido por problemas de saúde, me relatou toda a sua trajetória em prol da cultura radiofônica local. A entrevista lapidada resultou no material acima que figura como uma homenagem póstuma.