David Arioch – Jornalismo Cultural

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Deusdete, o peão que se tornou exemplo de superação  

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“Posso dizer que os políticos mais atrapalharam do que ajudaram no crescimento de Paranavaí. É uma cidade marcada por mais injustiça do que justiça”

O pioneiro segurando a única mala que restou da época em que tinha uma fábrica de malas na Rua Santa Catarina (Foto: David Arioch)

O pioneiro segurando a única mala que restou da época em que tinha uma fábrica de malas na Rua Santa Catarina (Foto: David Arioch)

Em 1952, aos 22 anos, o pioneiro Deusdete Ferreira de Cerqueira deixou Monte Alegre, na Bahia, e viajou de trem de Mundo Novo até a divisa com Minas Gerais, onde subiu em um caminhão pau de arara que parava em qualquer lugar onde alguém acenasse com a mão. Mais adiante, entrou em outro trem na divisa com São Paulo. “Em Ourinhos, peguei o ônibus e a mala errada. Desci com a bagagem de um companheiro. Quando cheguei em Paranavaí, entreguei a mala dele. Perdi tudo”, conta Deusdete às gargalhadas, acrescentando que as malas azuis de madeira foram feitas pelo próprio irmão.

Depois de nove dias de viagem, o pioneiro chegou a Paranavaí em 9 de julho de 1952. A ideia de sair da Bahia surgiu quando Cerqueira ficou sabendo que um irmão do seu cunhado estava morando em Paranavaí. “Viemos em cinco, incluindo meu irmão e outro parente. Parei na Pensão São João, em frente ao Posto Minas, onde fiquei uma semana. Lá estava hospedado um rapaz que era gerente da fazenda onde meu irmão e cunhado trabalhavam”, relata.

O homem que ficaria conhecido como Toninho do Cartório administrava uma fazenda em Itaúna do Sul, onde Deusdete começou a trabalhar como peão. Meses mais tarde, a inexperiência o deixou com as mãos tão feridas que teve de assumir o posto de cozinheiro nas incursões pela mata virgem da região. Depois de preparar a boia, tinha de levá-la para os peões.

O trabalho era tão difícil que poucos resistiam. “Até quem tinha uma vida ruim na cidade natal preferia voltar assim que recebia um dinheirinho, inclusive meu irmão. Eu quis vencer e sempre fui da opinião de ficar”, afirma. Um dia, Deusdete Ferreira percorreu três quilômetros de mata fechada para levar o café da tarde aos peões. Durante o trajeto, se deparou com uma peroba enorme caída no meio de um estreito carreador. Receoso, olhou para um lado e para o outro.

Ao longe, viu uma onça e ficou tão desesperado que gritou, jogou tudo no chão e saiu correndo. Quando chegou ao galpão, teve de aguentar as broncas do fiscal e dos peões. “E olha que onça não pegava ninguém cara a cara. Ela se escondia e atacava de surpresa”, comenta Deusdete rindo e lembrando que como peão trabalhou na abertura de muitas estradas de três a cinco quilômetros de extensão nas fazendas. Naquele tempo as ferramentas mais usadas eram o machado e o traçador.

Cerqueira também derrubou muitas árvores de cedro e canjerana usadas na construção de residências, tulhas e casinhas para manter a sustentação dos pés de café. O salário baixo não o esmorecia. Em pouco tempo foi promovido a subempreiteiro, responsável pela contratação e fiscalização do trabalho de 10 a 20 peões. “Buscava gente nas pensões de Paranavaí e levava pro mato. Fazia o trabalho de peão e ganhava um pouco mais pra cuidar do serviço da turma e cozinhar. O trabalho se estendia por até 12 horas”, enfatiza.

1960 - Deusdete e Raquel na primeira casa que compraram, situada na Rua Pernambuco (Foto: Arquivo Familiar)

1960 – Deusdete e Raquel na primeira casa que compraram, situada na Rua Pernambuco (Foto: Arquivo Familiar)

Nos tempos da colonização de Paranavaí, eram poucos os que se arriscavam a trabalhar como subempreiteiro, já que havia peões brutos. Entre os mais valentes, a moda da época era o bigode com as pontas mirando os olhos. Armados e bravos, não gostavam de lidar com os teimosos, nome dado aos empreiteiros sem experiência profissional, como era o caso de Cerqueira.

Uma vez, trabalhando na Fazenda 5R, o patrão atrasou o pagamento e Deusdete teve de vender o próprio encerado para pagar os peões. “O cara poderia até te matar se você não pagasse. Então era preciso se virar”, explica o pioneiro que também complementava a renda comercializando leite, leite condensado e fumo.

A situação só melhorou quando Cerqueira recebeu uma proposta do proprietário da Pensão Jacobina, onde vivia há um bom tempo. Sem condições de assumir a derrubada de 200 alqueires de mata em uma propriedade em Mirador, que pertencia ao diretor da Mercedes-Benz, o homem ofereceu a Deusdete a oportunidade de coordenar metade do trabalho, desde que ele recebesse uma parte dos lucros.

Deu tudo certo e plantaram 200 mil pés de café. A força de vontade de Cerqueira era tão grande que quando faltava comida ele saía de Mirador a pé para fazer compras em Paranavaí. A vantagem era que o proprietário do armazém mandava entregar tudo de caminhão. “Tinha gente que derrubava o mato e deixava margens de quiçaça de pelo menos 10 alqueires, o que era um problema na hora do plantio de café. Nesses casos os fazendeiros geralmente dispensavam ou davam preferência para outras pessoas”, pontua.

Quando o trabalho na mata durava meses, era normal o empreiteiro montar um barracão para vender alimentos aos peões, principalmente arroz, feijão, jabá e peixe. Deusdete percebeu que a maioria tinha o costume de comprar pinga, beber e abandonar a garrafa. Então ele as recolhia e levava para a cidade. “Eu percorria dois quilômetros a pé para trocar por garrafas cheias. Daí à noite, como eu sabia que os peões não tinham mais pinga pra beber durante o jogo de baralho, eu aparecia com as garrafas e vendia os copinhos de pinga”, garante.

Após as noitadas de bebida e jogatina, os peões se amontoavam em um barracão e dormiam sobre camas de palhas de milho e sacos que antes serviram para o armazenamento de carne seca. Quando esfriava, faziam fogueira, mas tinham o cuidado de isolá-la para evitar incêndio. Aos domingos, Deusdete lucrava de outra forma. Enquanto os demais relaxavam ou jogavam, ele ia até uma mina, onde lavava as roupas dos peões sobre uma pedra. Só entregava à noite. “Como fazia frio, ninguém reclamava e pagava certinho”, assegura.

Em 1958, Cerqueira deixou o trabalho na mata e usou as economias para comprar o Bar Continental, um dos pontos preferidos da população mais humilde de Paranavaí. O estabelecimento antes pertencia a uma família italiana que veio do Rio de Janeiro. No local o movimento era constante. Além do espaço amplo e das dez mesas de sinuca, a freguesia era atraída por cerveja, whisky, gim, Fogo Paulista, Cinzano, conhaque de alcatrão São João da Barra, cachaça Jurubeba, pinga Tatuzinho, refrigerantes Garoto, cigarros e charutos. “Eu vendia dois tipos de cerveja. Só que tinha uma que ninguém queria, então quando todo mundo ficava bêbado eu tirava o rótulo da cerveja boa e colocava na outra. Aí bebiam do mesmo jeito”, confidencia gargalhando.

Anos depois, Deusdete viveu uma situação constrangedora. Um dia houve briga e troca de tiros em um bar ao lado do Bar Continental e o chamaram na delegacia para se explicar sobre o acontecido. “Falei que não foi no meu bar e ainda provei. Não deram a mínima para o que falei porque a confusão tinha acontecido em um local frequentado pelos ricos e poderosos de Paranavaí. Queriam me culpar, já que eu não era ninguém na cidade”, reclama.

Com a experiência de quem se tornou comerciante na Bahia quando era criança, Deusdete ganhou dinheiro o suficiente para comprar uma casa na Rua Pernambuco e investir em pequenas propriedades rurais. “Adquiri uma chácara de um português atrás do 8º Batalhão da Polícia Militar. Depois vendi e comprei cinco alqueires do pioneiro Severino Colombelli perto da Fafipa [Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí]”, assinala.

Cerqueira viu uma boa oportunidade quando o governo começou a pagar para que os produtores rurais cortassem seus pés de café. Numa época em que as terras eram desvalorizadas, Deusdete comprou propriedades cheias de café, derrubou os cafezais e, seguindo a determinação governamental, plantou outra cultura por dois anos. “Quando ficava pronta, eu vendia pro vizinho. Fui indo, comprando e vendendo, até que consegui adquirir uma área de mais de 35 alqueires. Vendi também e comprei outra na Água da Cobra, perto do finado Luiz Lorenzetti”, cita.

Mais tarde, com a ajuda de Raul Piccinin, comprou uma fazenda de café de pouco mais de 100 alqueires em Santa Isabel do Ivaí. O imóvel pertencia a um senhor árabe de Londrina, conhecido como “Seu Nagibe”. Em 1965, Deusdete vendeu o Bar Continental, adquirido com o dinheiro que ganhou trabalhando na fazenda em Mirador. “Não cheguei e comprei. Continuei trabalhando até quitar o valor total. Falava-se em reserva de domínio. Depois vendi a minha metade do bar para um sócio”, revela e informa que o bar abria às 8h e fechava por volta da 1h.

Mais tarde, investiu em uma fábrica de malas de duratex na Rua Santa Catarina, no cruzamento com a Rua Souza Naves. Além de 10 funcionários, tinha também um caminhão. Deusdete vendia tantas malas que precisava viajar de avião com frequência para São Paulo, onde buscava matéria-prima na indústria de Paulo Maluf.

Em melhores condições financeiras, o pioneiro adquiriu a Fazenda Nova Marília, com 120 mil pés de café, de um fazendeiro árabe chamado Ney Jorge. Aproveitou que os bancos estavam oferecendo financiamento com juros baixos e investiu.

"Com o meu touro Reno, fui campeão nacional em 1974 em Uberaba, Minas Gerais" (Foto: David Arioch)

“Com o meu touro Reno, fui campeão nacional em 1974 em Uberaba, Minas Gerais” (Foto: David Arioch)

Deusdete e Raquel se casaram após um mês de namoro

Em 1960, depois de oito anos em Paranavaí, Deusdete Ferreira de Cerqueira foi para a Bahia rever a família. Desembarcou de avião em Feira de Santana e subiu em um caminhão pau de arara com destino a Angico, onde na infância já costumava participar da feira, vendendo galinha, fumo de corda, rapadura, leitoa e banana. “Vi uma mocinha e gostei muito dela. Fiquei na casa do primo João Soares e ela parava lá porque tinha comércio também. Então deu certo da gente namorar. Antes falei com a família dela. A mãe aceitou, até porque o pai da Raquel era afilhado do meu avô e nossas famílias moravam perto. Mas exigiu que eu ficasse lá. Eu disse que não porque estava recomeçando a vida no Paraná”, narra.

Após um mês de namoro, o vínculo de confiança entre os dois era tão forte que decidiram se casar na Bahia com a bênção das duas famílias. Deusdete tinha 30 anos e Raquel Reis, a primeira de uma família de 14 irmãos a sair da Bahia, tinha 18. “Vim pra um lugar completamente diferente, mas não foi muito difícil. Senti muita saudade da família. Fui me adaptando, construindo a vida, fazendo amizades. Gosto de Paranavaí. Lá eu morei 18 anos e aqui 55 anos, então aqui é a minha cidade. Meus filhos nasceram aqui e pretendo ficar aqui por toda a vida”, diz Raquel Reis de Cerqueira.

Deusdete declara que não seria quem é hoje se não fosse a companhia de Raquel. Segundo o pioneiro, a esposa só merece elogios. “O casamento me ajudou demais. Minha mulher me acompanhou desde o começo. Sofreu muito quando tínhamos filhos pequenos e íamos de um lugar para o outro na tentativa de melhorar de vida”, analisa.

“Única coisa que me deu prejuízo foi a política”

Ao receber o convite dos amigos para ser candidato a prefeito de Paranavaí em 2000, Deudete Ferreira de Cerqueira aceitou porque tinha o sonho de ver Paranavaí retomar o caminho do desenvolvimento que rendeu tanta popularidade ao município até o final da década de 1960. “Única coisa que me deu prejuízo foi a política. Você não vence uma eleição se não gastar. Banquei tudo do meu bolso. Gastei demais. É claro que ganhando R$ 4 mil por mês eu nunca iria recuperar isso”, admite.

Porém, o que desanimou mais Deusdete não foram os gastos com a campanha, mas sim o que veio depois. Sem grandes apoiadores, sentiu o peso da influência dos grupos políticos mais representativos de Paranavaí. Um deles interviu para que o município não recebesse recursos dos governos estadual e federal. “Paranavaí tinha R$ 3,5 milhões para receber. E só consegui fazer esse dinheiro chegar depois de muito tempo. Eu não tinha apoio. Dei R$ 1 milhão para a Santa Casa de Paranavaí e sobrou R$ 2,5 milhões. Foi o único recurso que recebi na minha gestão”, desabafa, acrescentando que a cidade tem uma história política marcada pela malandragem de grupos que agem como mafiosos.

A preocupação maior não era o futuro da cidade, mas sim atrapalhar o trabalho do poder público municipal. “Meu apoio era a minha família e o povo que acreditava em mim. Muita gente me defendeu, mas minha família sofreu muito por causa da exposição”, afirma Deusdete e revela que os opositores só não conseguiram prejudicar sua imagem porque ele não devia nada a ninguém. De 2001 a 2004, o então prefeito teve de trabalhar no limite, contando principalmente com recursos municipais.

“Não fiz tudo que gostaria porque não havia muito dinheiro, mas pelo menos deixei para a população algumas escolas novas, reformei praças, ruas, avenidas, investi um pouco em saúde e nos pequenos empresários. Tenho orgulho de ter ajudado na criação de uma cooperativa de costura para mais de 600 donas de casa. O resultado foi bom, mas quando saí acabaram com a cooperativa”, lamenta.

Cerqueira relata que deu continuidade a vários projetos do prefeito anterior. No entanto, desabafa que desde que Paranavaí surgiu a cidade é castigada pela inveja entre prefeitos. É rara a preocupação de não sacrificar o progresso em benefício próprio. “Por que Paranavaí não cresceu tanto quanto os outros municípios? Tínhamos tudo nas mãos, mas aqueles que têm o poder sempre fizeram o possível para que a cidade ficasse para trás. Sabe por quê? Porque eles se beneficiam disso”, enfatiza.

Mesmo quando era prefeito, Deusdete Cerqueira teve de enfrentar o preconceito. Ouvia ofensas até nos corredores da prefeitura. “Sofri muito por causa da minha cor e por ter pouco estudo. Nunca deixei de passar por essa situação. Só que enfrentei tudo de cabeça erguida, ignorando quem me agredia. Não me arrependi de ser prefeito, mas o resultado não foi o esperado. Posso dizer que os políticos mais atrapalharam do que ajudaram no crescimento de Paranavaí. É uma cidade marcada por mais injustiça do que justiça”, avalia.

Saiba Mais

Deusdete Ferreira de Cerqueira nasceu no dia 13 de março de 1930.

Frases do pioneiro e ex-prefeito Deusdete Ferreira de Cerqueira

“Tudo que tenho eu devo a Paranavaí.”

“Prefeitura foi feita para ser tocada como uma empresa, um comércio. Não pode ser administrada com base na politicagem.”

“Peguei a prefeitura com uma dívida de R$ 2,7 milhões. Paguei tudo e não deixei nenhuma dívida quando saí.”

A casa queimada e o início da alvorada

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Glutão, o fogo tomou conta do local, formando vultosas labaredas que chamuscavam as paredes

Esquina da Rua Antônio Fachin, onde eu morava em 1985 (Foto: David Arioch)

Esquina da Rua Antônio Fachin, onde eu morava em 1985 (Foto: David Arioch)

No dia 6 de novembro de 1985, quando eu ainda era bebê e estava dormindo, minha mãe conversava na sala com um amigo chamado Jamil. De repente, meu irmão, também pequeno, se aproximou e disse: “Nossa! Tem um vermelhão enorme lá na cozinha. Vai lá ver!” Quanto mais se aproximava, mais minha mãe sentia cheiro de queimado. Glutão, o fogo tomou conta do local, formando vultosas labaredas que chamuscavam as paredes nevadas e limpas. Obscurecia tudo sem reservas e derrubava sobre o piso quente e úmido os restolhos que abrasava sem muito esforço.

Sem pensar nos danos materiais, minha mãe me pegou em seus braços, chamou o Jamil e gritou o nome do meu irmão algumas vezes: “Douglas! Douglas! Venha aqui! Venha aqui! A casa está pegando fogo. Vamos sair! Vamos sair!” E continuei dormindo no caloroso aconchego materno que me protegia da destruição que se intensificava. Minha fisionomia persistia serena. Era cedo demais para reconhecer uma tragédia. Estava imerso num mundo cândido de sonhos onde crianças são sempiternas.

Só abri os olhos grandes, pretos e redondos como duas jabuticabas quando estava fora de casa, como se ainda não me fosse permitido testemunhar os infortúnios da vida. Balancei as pernas no colo de minha mãe e num sorriso singelo e desdentado tentei consolá-la involuntariamente. Estiquei os braços para tocar-lhe o queixo, mas eram curtos demais. Mesmo assim, lágrimas mornas escorriam pelo seu rosto e desciam pelos meus braços curtos que formavam uma ponte disforme.

Soltei uma curta gargalhada e minha mãe voltou sua atenção pra mim. Percebeu que as águas salinas que desciam dos seus olhos me levaram ao riso assim que invadiram uma das aberturas da minha camisetinha regata, tocando minhas axilas e fazendo cócegas. Ela riu e me asseou com uma fralda que trazia uma estampa do Pernalonga comendo cenoura. Passivas, muitas pessoas se aproximavam para assistir a desfortuna como se estivessem prestigiando um espetáculo de piromania. As paredes da casa de madeira da Rua Antônio Fachin, perto da antiga Antarctica, em Paranavaí, caíam uma a uma, como num jogo de dominó. Vencidas pelo fogo, retumbavam e deitavam sobre o chão calcinado, expondo ao público a destruição de um todo que exigiu milhares de horas de trabalho.

Em meio ao intenso bodum de queimado, todos sentiam o sutil aroma dos pães que minha mãe fazia todos os dias. Alheia aos cochichos dos estranhos, ela se mantinha inerte, observando o empenho dos bombeiros. Nada mais podia ser feito. Tarde demais. O rompimento do teto e a queda violenta das telhas de cerâmica vermelha ecoavam um som labiríntico seguido por cortinas de poeira trigueira que velavam um vazio vertical. Tudo parecia rasteiro, menos a tristeza de minha mãe que se amplificou com a chegada das suas irmãs Paula e Smaida e do seu pai João. Eles também moravam na casa e não conseguiam acreditar no que viam. Paula que chorou desesperadamente trouxe na cesta da bicicletinha Caloi verde alguns pães caseiros que não teve tempo de vender naquele dia.

Antes que minha mãe pudesse contabilizar os estragos, alguns repórteres se aproximaram e perguntaram como ela se sentia ao ver a casa em ruínas. Apesar da voz fragilizada e rareada, respondeu educadamente: “Me sinto mal. Muito mal. Tudo que eu tinha estava lá dentro.” Minha mãe, com 27 anos, se afastou da plateia e me carregando no colo caminhou em direção aos escombros. A cada passo, sentia uma pontada no peito. O corpo estremecia e ela resistia, mais pela família do que por si mesma.

“Ainda bem que queimou só essa casa aí. Imagine se o fogo se espalhasse até as nossas? Hunf!”, comentou uma mulher. Com a chegada da polícia, os curiosos foram dispersados. Quando ficamos sozinhos, minha mãe circulou por mais de hora no centro da residência que não existia mais. Observava tudo atenciosamente e caminhava com sapatos sujos entre os detritos, tentando encontrar algo que pudesse ser aproveitado. Meu irmão, minhas tias, Jamil e meu avô faziam o mesmo. Mas a verdade era uma suplantadora de crenças e expectativas, reforçada por duas tábuas caídas no chão. Com pregos mirando o chão, formavam uma cruz acinzentada. Então minha mãe, responsável por criar dois filhos e duas irmãs, não chorou mais.

Mais tarde, Seu Dino, um alemão supersticioso que morava na Rua Minas Gerais e era amigo da minha família, nos procurou para dizer que uma casa queimada marcava o início de uma alvorada. “Não fiquem tristes. Olhe, o fogo queima todo o azar e com ele leva o arremedo de um pesar. Marca um renascimento, um sinal de reavivamento”, profetizou e citou a lenda de Benu, o pássaro egípcio nascido do coração de Osíris e que se aninhava entre ervas aromáticas antes de ressurgir após atear fogo em si mesmo.

Trinta minutos depois que Seu Dino partiu, o calor primaveril deu trégua e o sol complacente desapareceu atrás da copa de um enorme pé de manga que cobria e arrefecia nossa casa. A brisa repentina e duradoura afastou o mau cheiro de crestado, trazendo junto com o frescor da tarde, no seio do descampado, um chuvisco vaporoso com gosto adocicado.

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Meu pai e eu, a despedida que não aconteceu

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Quando segurava sua mão, eu a sentia fria e frágil. Queria apertá-la, mas temia lhe ferir os dedos

Douglas, meu pai e eu dois anos antes de descobrirmos a doença (Foto: Acervo Familiar)

Douglas, meu pai e eu dois anos antes de descobrirmos a doença (Foto: Acervo Familiar)

No dia 21 de setembro de 1997, domingo, uma semana antes do meu aniversário, eu dormia em um colchão no quarto do meu irmão Douglas quando ouvi minha mãe chamando. Olhei para a porta e a vi nos observando naquela manhã que nem a primavera antecipada garantiu o sol aquecendo nossa janela. As luzes estavam apagadas, assim como o sol que costumava invadir nossa casa com um esplendor enternecido e jubiloso.

Cães e gatos, que se engalfinhavam por brincadeira todas as manhãs, também endossavam um silêncio que ecoava um vazio inenarrável. “David, Douglas, preciso muito dizer uma coisa… É muito sério… Seu pai não resistiu e morreu…”, revelou minha mãe com olhos afogueados e um tom de voz aluído que denunciavam ter ensaiado aquele momento por várias horas. Nos calamos por segundos que pareciam minutos. Então ela se afastou, se esforçando para reprimir a emoção.

Levei as mãos ao rosto e esfreguei os olhos que formigavam mais do que lã em eczema. “Poderia ser apenas uma alucinação, vai saber.” Prossegui com a fleuma, me negando a aceitar a gravidade da situação. Afinal, na minha concepção juvenil de finitude ninguém morria até que eu o visse morto. “Não, ele não pode ter morrido. É meu pai e pais não podem viver menos de 100 anos. Como ele tem 56, ainda restam 44. Não sei onde ele tá, mas tenho certeza que vai se levantar.”

Apesar da descrença no passamento, me sentei, aproximei os joelhos do peito e divaguei pelo passado recente. Lembrei das vezes em que fiquei de castigo sentado no chão ao lado da cabeceira enquanto meu pai lia um dos quatro ou cinco livros escolhidos a cada semana; um castigo que não era tão castigo porque me permitia ler junto. Recordei também das noites em que eu tinha de tocar polca no quarto. Com o passar das horas, parecia um martírio e eu só pensava em dormir. Criança que era, não tinha a mínima ideia de que um dia sentiria falta de suas cobranças, castigos, reprimendas, discursos bravios e das vezes em que simulou me bater e judiou da cama.

Algum tempo depois, me levantei, fui até o quintal e observei o céu. Apesar de tudo, ele continuava igual, na sua apatia que prenunciava a aurora primaveril. Até a pequena plantação de hortelã seguia galharda, exalando profuso frescor. Aquilo era uma ofensa pra mim que perdi meu pai na madrugada. “Vou lá fora!”, pensei. Abri o portão, coloquei os pés na calçada e notei que o mundo não mudou porque meu pai partiu. Crianças atravessavam a rua rindo e correndo. Cães de diversos tamanhos latiam e mostravam os dentes entre as grades dos portões, tudo para tentar intimidar os passantes.

Logo ouvi o sino da igreja simulado por um disco de vinil e dezenas de pessoas caminhando até ela, assim como se repetia todo domingo. A padaria a 50 metros de casa estava aberta, recebendo os fregueses. “Por que ninguém se importa?”, me perguntei enraivecido. Quando vi sombras e vozes em frente ao portão de casa, me afastei e retornei a passos rápidos para o quarto do meu irmão.

Deitei no colchão e fiquei por lá, aventando minhas voláteis conclusões: “Claro! Se tá tudo igual é porque meu pai não morreu. Deve ser algum tipo de engano.” Então mirei o teto com a visão ligeiramente difusa e pensei que talvez fosse uma boa ideia ir até o hospital vê-lo. Em poucos minutos, veio um novo choque de realidade. Minha mãe retornou e perguntou se preferíamos ir ao velório ou ficar em casa.

Ilusão desfeita, eu e meu irmão nos entreolhamos e hesitamos por alguns instantes. No entanto, numa situação como essa, a resposta era previsível. “Prefiro ficar…”, respondemos juntos. Ela entendeu e respeitou nossa decisão, pois desde sempre não tínhamos o hábito de ir a velórios nem a enterros. No caso do meu pai em especial, a ideia de jamais vê-lo morto não era simplesmente uma forma de preservar a imagem que tínhamos dele, mas também a esperança de que um dia ele poderia retornar.

Por um momento, fui até o quarto do meu irmão Juninho, contíguo ao da minha mãe, e o observei no berço. Balançava as perninhas rechonchudas com o vigor de uma pedalada. Seus olhos grandes, redondos e castanhos cintilavam como avelãs envernizadas. A agitação hasteava a camisetinha com estampa do “Tico e Teco”, expondo a barriguinha farta. Nascido há um ano, sorria com doçura, mostrando a vivaz gengiva nua e os poucos dentinhos enquanto apontava a mão para um móbile de animaizinhos que giravam sobre sua cabeça.

A vida me parecia um jogo de chegadas e partidas. “Mas por que a partida tinha de ser do meu pai?”, reclamava. E assim minha mãe assumia total responsabilidade sobre três crianças que sabiam nada ou quase nada da vida, do mundo e dos seres humanos. Apesar de tudo, eu e Douglas não choramos, não gritamos, não brigamos com ninguém. Seguimos nossas vidas em silêncio. Nem mesmo na escola tocamos no assunto. Entre nós a reticência também era imperativa. Por que deveríamos dizer algo a alguém? Era um mundo distorcido, tanto quanto uma pintura do Otto Dix.

Com o tempo a consternação se intensificou, despertada num rompante insólito. A ausência tinha consequências progressivas – fustigava e dava lições de vida e morte. Crescia aos poucos, abrindo espaços entre o coração e o cérebro, como se formasse raízes no cerne da existência. O vácuo deixado pelo meu pai amplificava a impressão de um mundo oco em que não é dado aos bons seres a oportunidade de corrigirem suas falhas e renascerem. Com 13 anos, concluí e amarguei no coração diminuto, como uma noz prestes a ser esmagada, a ideia de que o mundo nunca foi justo porque não cabe a ele fazer qualquer tipo de justiça. Apenas segue de acordo com o curso das nossas ações, independente do nosso estado de consciência ou passionalidade.

Tardiamente, me via na esteira da dualidade, interpelando: “Que seja! Por que a vida não poderia imitar um jogo de videogame? Continuar de onde paramos. A morte deveria ser sinônimo da vida, um reinício e não um fim.” Era impossível esquecer que durante um ano e oito meses vi meu pai definhando aos poucos. Ele se esforçou para tentar levar uma vida normal. Quando recebeu a notícia de que estava com câncer de pulmão, deu um sorriso e, com um olhar sereno, comentou: “Vai dar tudo certo. É só um probleminha passageiro.”

Em Maringá, acompanhei meus pais até o Hospital Paraná em muitas sessões de quimioterapia e radioterapia. No começo, tudo ia bem. Meu pai continuava se alimentando normalmente e fazia brincadeiras enquanto aguardava atendimento. Em meses, perdeu os cabelos, mais de 20 quilos e sua pele que era rosácea se tornou translúcida e esquálida. As maçãs do rosto se afundaram a ponto de abrir fendas nas laterais que raleiam o maxilar.

Ele continuava acreditando na própria recuperação, assim como nós. Após um ano recebemos a melhor notícia de nossas vidas. Meu pai estava curado! Saímos até para festejar. Era incrível! Então a doença voltou… Depois de buscar métodos alternativos que não funcionaram, ele começou um novo tratamento no Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. O resultado foi ainda mais agressivo e o seu peso caiu pela metade.

Era difícil reconhecê-lo, e eu já não o via tanto porque precisava ir para a escola. Em casa, meu pai repousava em um quarto adaptado à sua situação. Quando segurava sua mão, eu a sentia fria e frágil. Queria apertá-la calorosamente, mas temia lhe ferir os dedos. Seus olhos estavam mais baixos do que nunca. Quebrantado, fazia poucos movimentos com a boca e seus lábios tinham de ser umedecidos constantemente para não ficarem ressequidos e sangrarem.

Seu corpo escanzelado ocupava pouco espaço em um colchão d’água que evitava escoriações na pele delgada. Era azul como o mar e o céu que contemplou tantas vezes com uma expressão enlevada. Um dia, quando eu estava ao lado da cama sentado em uma cadeira, me pediu, com a voz embargada e paulatina, para ler um trecho de “O Andarilho das Estrelas”, do Jack London.

“…Sorri para mim mesmo um imenso sorriso cósmico e mergulhei na imensidão da pequena morte que fazia de mim o herdeiro de todas as eras e o cavaleiro de reluzente armadura a cavalgar o tempo.” Meu pai me olhou, fechou os olhos e dormiu sem desfazer o terno sorriso. Foi a última vez que conversamos.

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Cheiro de relva

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“Fazia ruídos insólitos, contorcendo a boca, enrugando a testa e esticando o pescoço”

"Bonachão, percorreu dois quilômetros a pé sem saber que jamais o deixariam partir (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

“Bonachão, percorreu dois quilômetros a pé sem saber que jamais o deixariam partir (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Foi numa manhã fria e especialmente escura de 1949 que Nicanor acordou assustado e com dificuldades para se movimentar. Sentiu o cheiro de ferrugem do próprio sangue seco que cobria parte das maçãs do rosto e do queixo. O odor nauseante o entorpecia e o fazia lacrimejar a ponto do sangue espesso e sequioso se transformar em bolinhas que se chocavam contra o chão de terra batida. No solo arenoso, iam se juntando e formando uma orbe maior e opaca como uma esfera de terra que as crianças moldam para atirar por brincadeira em amigos e vizinhos.

Rouco, febril e com apenas um olho debilmente aberto, o rapaz não tinha forças para articular palavra sem balbuciar e sentir um tremor que começava nos calcanhares e terminava na nuca. Quando balançava as pernas em vão, sentia os dedos enegrecidos, de pele grossa, saltados para fora do par de sandálias brancas de farrapos. Tocava sem querer uma pasta fétida que se formava a partir de suas fezes, urina e sangue. Sofreu tanto nos últimos dias que desaprendeu a chorar. Fazia ruídos insólitos, contorcendo a boca, enrugando a testa e esticando o pescoço. Com a força que restara, se espicaçava tentando enxergar alguma coisa por uma fresta alongada e espaçosa. Nicanor cobiçava um pequeno raio de sol, mas a única visitante ocasional era uma rajada fortuita de vento glacial e lancinante que tocava-lhe a pele com a delicadeza da lâmina de um canivete.

Às vezes, meneava a cabeça e mirava o teto com o nariz, observando os buracos por onde a água da chuva invadia o velho rancho que um dia serviu para estocagem de café. Apesar de tudo, via alguma beleza no acaso e se sentia grato. Se não fosse a invasão da natureza, completaria 23 dias sem sentir a água ungindo os lábios. Cada gota era sorvida com a satisfação de uma caneca robusta e referta. No entanto, o ânimo oscilava com as horas. Num início de noite sem chuva, somente o canto das cigarras e os guinchos agudos de uma coruja o acalmavam. O silêncio o amedrontava porque trazia o vácuo indescritível da inexistência e do luto daquilo que ainda não faleceu. Sim, espavorizava menos, bem menos que o som sincronizado das botas se aproximando da tapera escura. Com os ouvidos anômalos pelo desespero, Nicanor reconhecia de longe o tinido do facão de penacho em atrito com a parabélum balançando num coldre frouxo.

Nessas horas os seus olhos umedeciam bruscamente, concentrando nas bordas uma dor oxítona que fazia as lágrimas fervilharem. Consoante, o palato inflamava de maneira tão vertiginosa que não conseguia manter a boca fechada, assim como a porta por onde quatro sujeitos de olhos abissais entravam sorrindo uma vez por dia. Sardônicos, sempre chegavam de surpresa. Batiam palmas e diziam as mesmas palavras: “Ô de casa, buona gente, tamu cheganu e tamu entranu!” Fechavam a porta com o cabo de um machado e testemunhavam a agonia de Nicanor como se estivessem diante de um festim.

No frequente esforço sobressaltado para evitar a incontinência urinária, o rapaz reconhecia a derrota. Ficava constrangido e, sentindo-se pior que um sevandija, defecava, sujando mais as pernas e os pés que raleavam o chão com o dorso e as unhas amarelecidas. A zombaria seguia intercalados golpes de vara de marmelo na porção interna das coxas arroxeadas. Quando Nicanor fechava os olhos e o seu queixo encostava no peito, um dos verdugos balançava a corrente que prendia seus pulsos cruzados e ensanguentados. Acordava assustado, titubeava e contraía alguns músculos, principalmente o esfíncter.

Esquecia até da roupa esfrangalhada que usava há mais de mês, tempo suficiente para que colasse em seu corpo como segunda pele. Desejava a morte ao ouvir ao pé da orelha o som estalante de um pedaço de madeira em brasas. Só se tranquilizava ao ver o funesto sujeito careca, parrudo e de dentes escuros se afastando com o naco alaranjado. Enquanto Nicanor fenecia um pouco mais, os quatro algozes comiam broa de milho com manteiga e bebiam um mate tão quente que o vapor molhava as mãos flageladas do rapaz. Após o intervalo, os quatro se levantavam, retiravam seus relhos presos ao cinto da calça e iniciavam o açoite que se prolongava por mais de hora.

Em esforço de reflexão tão dedicado que sentia algo se comprimindo dentro da caixa craniana, Nicanor recordava-se apenas que um mês antes tinha explicado ao patrão, para quem trabalhava desde 1944 em uma propriedade rural de Paranavaí, que mudaria de serviço, abriria o próprio negócio na cidade. O homem então concordou e sugeriu que o rapaz fosse até um rancho no meio da mata no final da tarde para fazer o acerto de contas. Bonachão, percorreu dois quilômetros a pé sem saber que jamais o deixariam partir. Vencido pela aflição incontrolável, gaguejava e suplicava a Deus que o tirasse dali; o permitisse sentir pelo menos mais uma vez o cheiro da relva molhada.

No fim da noite, Nicanor teve convulsão e desmaiou. Prostrado, com a pulsação fraca e principiando o fim, foi arrastado por dois quebra milho para fora da tapera como se fosse pedaço de carniça. Arremessaram seu corpo nas cercanias de um ribeirão e correram, temendo pela própria vida, rememorando a antiga lenda do folclórico Tabaréu do Castiçal, sujeito místico conhecido por cobrar em dobro as mortes em dia de cerração. Na manhã seguinte, o jovem acordou assustado esfregando as mãos pelo corpo. Era difícil acreditar que continuava vivo e que parte dos ferimentos desapareceu, assim como as severas dores nas costas. Perplexo, olhou à sua volta e levou as mãos ao rosto livre do sangue ressequido. Rolou e chorou como criança redescobrindo o mundo ao aspirar intensamente o perfume da tenra relva orvalhada que envolveu seu corpo numa madrugada romanesca.

Curiosidades

Quebra milho era o termo usado para se referir aos jagunços e capangas dos anos 1940 e 1950 em Paranavaí

Dedico “Cheiro de relva” aos peões e colonos explorados e assassinados em Paranavaí nos tempos da colonização.

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A alegria e a tristeza de ser analfabeto

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“Me considero um ignorante de sorte porque carrego dentro de mim centenas de histórias”

João Silvano: “Agora não quero aprender pra não sentir remorso pelo que perdi” (Foto: David Arioch)

Pedro Silvano: “Agora não quero aprender a ler pra não sentir remorso pelo que perdi” (Foto: David Arioch)

Baixinho, franzino, e de cabelos brancos e fartos, o aposentado Pedro Silvano nunca aprendeu a ler e escrever. Hoje, com 86 anos, afirma que já não tem mais interesse no significado das letras e das palavras. “Queria saber ler quando era mais novo. Agora não quero aprender pra não sentir remorso pelo que perdi”, conta num tom de voz remansoso.

Entre um gole e outro de café amargo, o aposentado relata que chegou a Paranavaí, no Noroeste do Paraná, em 1954, fugindo da estiagem que assolava Iguatu, no Ceará. “Abandonei minha terra, onde já não crescia nada, e vaguei como um retirante no final da década de 1940”, narra. A situação era a mesma que a vivida pelo vaqueiro Fabiano do romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, lançado na década anterior. Inclusive Silvano também sabia lidar com gado.

Acompanhado do irmão também analfabeto, chegou a São Paulo contando com a sorte e a gentileza de pessoas que encontrou pelo caminho. Viajou levando apenas duas peças de roupa, um saco de farinha com rapadura e um puído par de sandálias feito à mão. “Vivia numa selva de analfabetos. Difícil era encontrar quem sabia ler e escrever”, garante em referência aos anos 1940 e 1950.

Na capital paulista, viu pela primeira vez um arranha-céu – Edifício Altino Arantes, conhecido como Banespão, que o fez sentir-se “menor do que uma muriçoca”. “Tinha medo que aquilo caísse em cima de mim. Até comentei com meu irmão: ‘Quim, chega pra lá que não acho que a gente tá seguro aqui não. Melhor tirar os calço logo’”, lembra rindo.

"Abandonei minha terra, onde já não crescia nada, e vaguei como um retirante" (Foto: David Arioch)

“Abandonei minha terra, onde já não crescia nada, e vaguei como um retirante” (Foto: David Arioch)

Quando observava placas, cartazes e jornais, tentava interpretar o conteúdo através das imagens. Cada observação cuidadosa tinha um significado peculiar para Pedro, na tentativa de compensar o vácuo da informação escrita. “Tenho certeza que uma imagem não é vista da mesma forma por uma pessoa analfabeta e outra que não é. Quem sabe ler às vezes nem presta atenção na imagem. Como analfabeto que sou, sobrevivi porque fui obrigado a ver informação sem ver palavra”, confidencia.

Apesar das dificuldades, o analfabetismo o livrou da morte em São Paulo. Com apenas 20 anos, Silvano conheceu ocasionalmente um homem que lhe prometeu um bom trabalho como meeiro em uma fazenda de café em Londrina, no Norte do Paraná. Ingênuo, ficou muito feliz. Então o sujeito pediu que o cearense fosse até as imediações da Estação da Luz ao final do entardecer de 21 de novembro de 1949 para receber as últimas informações sobre o novo serviço.

“Como eu não sabia ler, acabei me atrapalhando e fui parar a mais de três de quilômetros do local onde ficamos de nos encontrar. Só achei o lugar certo à noite. Quando cheguei lá, vi a polícia e um rapaz morto. O homem que disse ter um serviço pra mim assassinou aquele menino a facadas e levou todo o seu dinheiro”, revela.

Assim como Pedro Silvano, o jovem também foi ludibriado pela promessa de um bom trabalho em Londrina. Um dos investigadores explicou que o criminoso agia em grupo e possivelmente era responsável pela morte de nove migrantes nordestinos. O cearense se recordou que o assassino lhe perguntou pela manhã se ele tinha algumas economias para recomeçar a vida em outro lugar. “Respondi que sim. Ele só sorriu e falou que assim ficaria mais fácil me ajudar porque o patrão dele só queria gente de visão, não gente morta de fome e desesperada”, rememora.

"Sobrevivi porque fui obrigado a ver informação sem ver palavra" (Foto: David Arioch)

“Sobrevivi porque fui obrigado a ver informação sem ver palavra” (Foto: David Arioch)

Dias depois, Pedro ouviu falar novamente de Londrina quando estava em um bonde. Intrigado, conversou com o irmão sobre a cidade e juntos decidiram se arriscar no Norte do Paraná. Se despediu de São Paulo levando lembranças de uma criança pulando a cerca, uma mulher amamentando um bebê, dois homens bem vestidos apertando as mãos e o riso da cantora Carmen Miranda. Eram imagens publicitárias do achocolatado Toddy, leite condensado Moça, medicamento Melhoral e creme dental Eucalol.

“Uma musiquinha de rádio que ‘grudou na minha cabeça’ naquele tempo era a da Brilhantina Glostora. Cantava assim: ‘A elegância masculina, ô ô ô ô, Aurora, brilha mais com brilhantina, ô ô ô ô, Glostora’. Ainda tinha aquele chiadinho de fundo que fazia sonhar acordado”, cita com um sorriso largo. Depois de alguns anos em Londrina, Silvano ficou sabendo que havia melhores oportunidades no Noroeste do Paraná. Por isso se mudou mais uma vez.

Em Paranavaí, descobriu na prática que alguns fazendeiros tinham preferência por colonos analfabetos, justificando que poderiam dar menos problemas do que os “letrados”. Preocupado com a situação, Pedro Silvano, que sabia realizar as quatro operações básicas de matemática, decidiu se reunir escondido com outros colonos para ensiná-los o que sabia. “Muita gente era enganada, então mesmo sem saber ler e escrever eu fazia o possível pra contribuir”, afirma, referindo-se a uma época em que mais de 50% da população brasileira com idade acima de 15 anos era analfabeta, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O cearense, assim como muitos outros migrantes com quem trabalhou, ajudou vários patrões a enriquecerem antes e depois da monocultura cafeeira. “Não ganhei o suficiente para ficar numa situação confortável. Patrão nenhum permitiria isso. Eles queriam o colono como dependente deles. Talvez eu também não tenha enxergado as boas oportunidades. Só comprei minha primeira casa há menos de dez anos. Mas agora não quero perder tempo me queixando. Vou apenas continuar vivendo, aproveitando a vida como posso”, pondera enquanto limpa o quintal com as mãos calejadas, de pele tão fina que parecem diáfanas. Antes de se despedir, Pedro Silvano exibe com orgulho uma pequena horta onde cultiva alface, rúcula, cenoura, tomate, abobrinha, manjericão, ervilha, cebola e espinafre. “Agora você viu minha riqueza”, declara com um olhar pudico e singelo.

Pedro Silvano se reunia com a família em torno de uma fogueira

O migrante cearense Pedro Silvano começou a trabalhar com seis anos e, apesar de nunca ter ingressado em uma escola, chama a atenção pelo vasto conhecimento baseado na cultura oral. Quando criança, se reunia com a família em torno de uma fogueira ou de uma mesa próxima a um fogão à lenha para ouvir causos, charadas e histórias que misturam realidade e fantasia. Sem saber ler e escrever, exercitou com rigor a força de vontade para reter na memória, com requinte de detalhes, tudo que aprendeu vendo e ouvindo.

De acordo com Silvano, o ouvido de um analfabeto pode não ser tão aguçado quanto o de um cego, mas facilmente ultrapassa o de uma pessoa alfabetizada que não valoriza o que possui. “Me considero um ignorante, um ignorante de sorte porque carrego dentro de mim centenas de histórias”, argumenta. Além de muitos fatos e causos pouco conhecidos que remetem ao realismo fantástico, o cearense afeiçoado ao cordel sabe de cor muitas histórias de escritores populares como Cego Aderaldo, Leandro Gomes de Barros, Patativa do Assaré, João Martins de Athayde, João Melchiades Ferreira, Silvino Pirauá, José Camelo de Melo Resende, Zé da Luz, José Pacheco, Manoel Camilo dos Santos e Manuel d’Almeida Filho.

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Tirar os calço significa ir embora.

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As tatuagens de Tiziu

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As formas irregulares revelam o sofrimento que passou para registrar no corpo os nomes dos pais

“Saí da escola porque tiravam sarro de mim, não me encaixava. Me ofendiam, me chamavam de burro" (Foto: David Arioch)

“Saí da escola porque tiravam sarro de mim, não me encaixava. Me ofendiam, me chamavam de burro” (Foto: David Arioch)

Tiziu tem 12 anos e passa a maior parte do tempo nas ruas da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Quem não o conhece, pensa que ele está sempre com raiva. Circunspecto e bicudo, engana apenas os estranhos. Os mais próximos sabem que a feição carrancuda é apenas uma forma de velar a natureza sensível. Mas não é preciso mais do que alguns minutos de conversa para perceber o quanto Tiziu é carente. Suas confidências sobre a vida e o cotidiano revelam mágoa, solidão e ao mesmo tempo um desejo incólume de ser incentivado de alguma forma. “Saí da escola porque tiravam sarro de mim, não me encaixava. Me ofendiam, me chamavam de burro. É o pior lugar do mundo. Prefiro a rua”, sentencia ao pressionar as próprias mãos.

Tiziu costuma conversar evitando contato visual. Quando se sente intimidado, observa tudo a meio metro de altura. Foi condicionado a encarar a vida e o mundo como se fosse um ser rastejante, dotado de um visão limitante que poucas vezes o permite contemplar a totalidade de alguma coisa. “Fico andando pela vila quando não tenho nada pra fazer”, comenta. O garoto normalmente fica pouco à vontade fora do bairro. Deslocado, parece que sente a visão se comprimindo diante de tantos olhares inquisidores. Distante da Vila Alta, já percebeu muitas pessoas o observando, tentando fundamentar suspeitas injustificáveis. “Acho que na mente deles eu não poderia sair daqui nunca”, afirma.

Apesar disso, Tiziu gosta de ir ao shopping, ambiente que segundo ele tem “cheiro de beleza”, onde se sente imerso num universo de “coisas boas”. “Quando estou lá, só vivo o momento. Fui lá poucas vezes. Uma vez comi tão bem que até esqueci quem me olhava torto”, comenta com um sorriso enviesado. Em um antebraço, Tiziu tem tatuado o nome da mãe e no outro o do pai. Há entre eles o desenho de um diamante concebido com esmero. A ideia é mostrar que são duas partes de um todo simbolizando aquilo que o garoto considera o bem mais precioso e raro em sua vida – o amor familiar. A grafia em caixa alta é simples, mas profunda. As formas irregulares das letras revelam o sofrimento que passou para registrar no corpo os nomes dos pais. “Tem a ver com amor, né? Família é pra sempre”, destaca num tom de voz embargado.

As três tatuagens foram feitas por Tiziu com uma maquininha que ele mesmo criou à base de garfo velho, tinta de caneta, fita isolante, agulha de costura, motorzinho, pilhas, isqueiro e estilete. “A gente inventa o que precisa”, diz. O garoto surpreende, não apenas pelas invencionices, mas também porque homenageou duas pessoas com quem não tem convivência diária. A mãe o levou para morar com os avós, alegando que não se davam bem. Tiziu então cresceu sem a presença materna. O pai, morador de outro bairro, não costuma visitá-lo mais de uma vez por mês. “Acho que me criei por aí. Minha avó já é bem idosa e meu avô vive pelos bares”, enfatiza enquanto desliza cuidadosamente os dedos pelas tatuagens, a alternativa encontrada para se sentir mais próximo dos pais.

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Tiziu é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.

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Written by David Arioch

August 7th, 2015 at 7:59 pm

Lenhador, uma vida de sofrimento

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Péu, Márcio, Egon e Zé descobriram muito cedo que o trabalho pode destruir sonhos e até matar

Zé, Márcio, Egon e Péu sofrem até hoje com as consequências do trabalho como lenhador (Foto: David Arioch)

Zé, Márcio, Egon e Péu sofrem até hoje com as consequências do trabalho como lenhador (Foto: David Arioch)

Por anos, Péu, Márcio, Egon e Zé, moradores da Vila Alta de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, acordaram às 3h para trabalhar. Assim que ouviam a buzina do caminhão às 3h30 em frente de casa, se aproximavam e subiam na cabine carregando as mochilas com as marmitas e as garrafas térmicas com água. A labuta quase sempre começava às 4h15, quando a escuridão impedia que enxergassem as árvores que eram pagos para derrubar e transportar.

No local, se preparavam fazendo uma rápida ginástica laboral e aos poucos se embrenhavam no mato com cuidado, checando a presença de animais, principalmente cobras como cascavel, a mais comum em grandes áreas de eucalipto. “Quando a lenha fica amontoada, não pode chegar batendo a mão. Tem que levantar uma a uma, fazendo barulho. O farolete você leva por conta própria senão algum animal te pega”, avisa Marcelo Martins Melo, o Péu, de 27 anos, que trabalha há mais de nove anos como lenhador.

Mesmo com os cuidados, o perigo sempre foi iminente. Pisadas em cobras, quedas em buracos de tatus e ataques de marimbondos mamangava-de-toco, uma das espécies mais perigosas, acontecem mais cedo ou mais tarde. Maicon Martins Melo, o Egon, de 24 anos, e lenhador desde a adolescência, se recorda das picadas que levou do inseto. Teve de trabalhar o dia todo agonizando, com febre e dor de cabeça. “Cada marimbondo desse dá várias picadas, não só uma. Mesmo assim não pude parar o serviço porque o patrão disse que não me pagaria se eu não ajudasse a carregar toda a lenha”, explica. Os lenhadores também costumam ser picados por escorpiões e aranhas. Tudo isso pode acontecer na primeira hora de serviço de cada manhã, antes do sol despontar no horizonte.

Péu: "Estou com a coluna muito machucada até hoje. Com o tempo foi só piorando" (Foto: David Arioch)

Péu: “Graças a Deus que o pau bateu na cabine e no retrovisor antes de vir pra cima de mim, senão teria aberto a minha cabeça” (Foto: David Arioch)

Preocupados com o horário, colocavam à prova a força e a coragem. Para ganhar tempo, nos primeiros minutos na área de corte, sentavam no chão ou escoravam em uma árvore e abriam as marmitas. Depois de comer rapidamente um pouco de arroz, feijão, carne e salada, o corte e o carregamento prosseguiam por pelo menos seis horas. “Lá pelas 8h, se o cortador estiver muito atrasado, a gente para bem rapidinho pra comer um pouco mais, até em pé mesmo. Daí ajudamos a cortar a lenha pra adiantar o serviço. O cortador retribui ajudando a carregar e descarregar”, conta Péu, acrescentando que os lenhadores nem sempre têm tempo de descanso.

Os adeptos do fumo de corda e do cigarro de palha são dispensados logo no primeiro dia de serviço. A justificativa é que atrasam o trabalho dos outros lenhadores. “Não pode parar pra fumar. Senão a gente já começa a falar: ‘Vamos embora, vamos embora’”, relata Egon. Sem imprevistos, a jornada chega ao fim entre 14h30 e 15h30, assim que os lenhadores descarregam a lenha no local de destino, onde a madeira serve para abastecer principalmente as caldeiras das farinheiras e indústrias de cerâmicas. No entanto, se algo der errado, não chegam em casa antes de anoitecer.

A atividade possui um alto índice de desistência. Além de força, é preciso desenvolver boas técnicas de corte e transporte para controlar a exaustão. “Quando vai descarregar pau pesado, você tem que abraçar ele, ‘macaquear’ pra cima e jogar certinho lá embaixo. Pra ficar bom mesmo leva anos. O cara tem que aprender a suportar o calor, lidar com câimbras e beber muita água pra evitar a desidratação”, recomenda Péu que perdeu as contas de quantos lenhadores viu passando mal e desmaiando na mata por causa da alta intensidade do trabalho.

Apesar do risco de hipoglicemia, alguns lenhadores mais experientes passam o dia em jejum. O objetivo é acelerar o serviço e economizar, já que as refeições no campo são de responsabilidade dos trabalhadores. “Você consegue ganhar cem reais num dia, mas as roupas, algumas ferramentas e a comida são por sua conta. Se pensar bem, o seu lucro não passa de R$ 50”, reclama Márcio Alexandre Santos, de 23 anos, que ingressou no ramo aos 12. Para receber o valor integral da diária, três lenhadores precisam carregar 23 toneladas de lenha. Ou seja, 7,6 mil quilos por pessoa. Uma peça de eucalipto com apenas 1,50m chega a pesar até 80 quilos. “A gente se esforça pra sair da roça antes do meio-dia porque esse horário é terrível. O calor vem com tudo e você começa a sentir muita dor”, garante Péu.

Outro problema comum são os acidentes. Sem equipamentos de segurança, os trabalhadores vivem muitas situações de perigo. Há três anos, José Paulo Silva Pereira, de 18 anos, conhecido como Zé, estava cortando um eucalipto com uma motosserra. Antes que percebesse, o vento jogou sobre ele uma árvore que estava logo atrás, cortada por um companheiro. Lenhador desde os 11 anos, Zé sentiu uma pancada muito forte no ombro e caiu no chão, gemendo de dor. No dia seguinte, mesmo ferido, voltou ao trabalho após a ameaça do patrão de mandá-lo embora. “Até hoje sinto dor no ombro, uma queimação bem forte”, comenta.

"Como não temos registro em carteira, os patrões apenas viram as costas. Para segurar você no serviço, eles fazem muitas promessas que não são cumpridas” (Foto: David Arioch)

Márcio: “Como não temos registro em carteira, os patrões apenas viram as costas. Para segurar você no serviço, eles fazem muitas promessas que não são cumpridas” (Foto: David Arioch)

Em 2007, Péu passou por situação semelhante quando o tronco de uma árvore atingiu-lhe o pescoço, causando uma luxação. Depois de três dias em casa, voltou ao trabalho na segunda-feira. Se embrenhou na mata para carregar uma das primeiras toras derrubadas na madrugada fria e escura. De repente, ouviu um estalo incomum na coluna vertebral e caiu no descampado se contorcendo de dor. “Tinha uns galhos atrapalhando e fiz força demais. Estou com a coluna muito machucada até hoje. Com o tempo foi só piorando”, assegura enquanto muda de posição com receio de não conseguir se levantar até o final da entrevista.

O rapaz também se recorda do episódio em que de forma impensada um colega puxou uma tora de eucalipto que estava sustentando a base da pirâmide de madeiras sobre a carroceria do caminhão. Como resultado, um tronco bateu diretamente no tórax e em seguida nas pernas de Péu. O lenhador desmaiou e teve de ser carregado por colegas. Até melhorar, ficou alguns dias em casa. Quando retornou, o patrão acusou o rapaz de abandono de serviço e se recusou a pagar as diárias atrasadas. “O problema é a velocidade que a madeira cai. Dependendo da altura, uma tora ganha força de 150, 200 quilos. Graças a Deus que o pau bateu na cabine e no retrovisor antes de vir pra cima de mim, senão teria aberto a minha cabeça”, enfatiza.

Independente dos cuidados, é impossível encontrar lenhadores que nunca foram atingidos pela queda de um tronco. Quando o rosto é ferido por galhos a maior preocupação é ficar cego. “Você sente um graveto entrando e saindo como se fosse uma agulha. Não cheguei a perder a visão, mas ganhei uma cicatriz no canto do olho”, revela Péu que se aproxima para mostrar a marca que se assemelha a um borrão vermelho. Apesar disso, há jovens que tiveram experiências ainda piores, como é o caso de Márcio Alexandre Santos que se considera um homem de sorte por estar vivo. Na luta para sobreviver com dignidade, o rapaz enfrentou os primeiros percalços aos 14 anos.

À época, estava trabalhando em uma fazenda perto de Loanda, no Noroeste do Paraná, quando um toco quase arrancou dois dedos de sua mão. Como ainda eram 10h, o homem que contratou Márcio Alexandre não quis ir embora, esbravejando que o prejuízo seria grande. Sem kit de primeiros socorros, enrolaram a mão ensanguentada do adolescente com fita crepe. Com medo de não receber nenhum centavo, continuou chorando de dor enquanto arrastava alguns galhos com a outra mão. “Quando viu o ferimento, o patrão falou que eu podia ir embora, só que sozinho e a pé. Preocupado, usei uma mão para ajudar a descarregar a lenha na farinheira. Fiquei até o final e cheguei em casa lá pelas seis da tarde, totalmente pálido porque perdi muito sangue. Só que o pagamento pelo serviço nunca recebi”, relembra.

Egon: "Um dia quase morri na BR-376. Tinha cinco na cabine, o caminhão ficou sem freio e nos envolvemos em um acidente com uma carreta" (Foto: David Arioch)

Egon: “Um dia quase morri na BR-376. Tinha cinco na cabine, o caminhão ficou sem freio e nos envolvemos em um acidente com uma carreta” (Foto: David Arioch)

Mesmo com as agruras do trabalho, o rapaz estava feliz por ter conseguido comprar uma moto e ainda ajudar nas despesas de casa. Sonhava em conquistar a independência, um ideal que foi interrompido em 12 de julho de 2013. Naquele dia, por volta das 15h, após encher a carroceria do caminhão com lenha, Márcio e mais cinco homens deixaram uma fazenda em Santa Cruz do Monte Castelo, também no Noroeste do Paraná. Muito cansado, cochilou ao lado do motorista na cabine superlotada, até que mil metros adiante na rodovia PR-182 sentiu uma movimentação estranha. Quando olhou pelo retrovisor, a quinta-roda do caminhão quebrou e a carroceria começou a tombar. O motorista tentou reverter a situação, mas era tarde demais.

No acidente, a lenha se espalhou pela rodovia e três pessoas se feriram gravemente. Márcio ficou em pior estado. Só não morreu porque uma família que morava em uma casa à beira da estrada ligou a tempo para o Corpo de Bombeiros. Depois de receber os primeiros socorros no Hospital Municipal de Loanda, o rapaz foi enviado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Paranavaí, onde ficou internado por 15 dias. Segundo os médicos, Márcio nunca mais andaria. “Falaram que eu viraria um vegetal. No primeiro mês, meu patrão conseguiu um encaminhamento para o Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul [Região Metropolitana de Curitiba], comprou medicamentos três vezes e me deu um colete. Depois nunca mais, inclusive não recebi as últimas diárias. Acho que ele descontou do que gastou”, deduz.

Para Márcio, as maiores consequências foram a perda total dos movimentos do braço direito e cinco fraturas da coluna cervical. Só voltou a andar porque teve muita força de vontade, segundo a mãe Maria de Fátima Oliveira. Sem condições de trabalhar e sem receber nenhum tipo de auxílio, o jovem passou por quatro cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e hoje conta apenas com o suporte da família. “Meu braço continua na mesma situação. Como não temos registro em carteira, os patrões apenas viram as costas. Para segurar você no serviço, eles fazem muitas promessas que não são cumpridas”, desabafa o jovem que ganhou uma grande cicatriz que começa no peito e termina perto da orelha. Márcio e outro rapaz envolvido no acidente decidiram lutar por direitos trabalhistas há dois meses, após as recusas do patrão de oferecer assistência. Por enquanto não houve acordo.

O que também mostra a negligência por parte dos comerciantes de lenha, responsáveis por abastecer dezenas de indústrias de Paranavaí e região, é a exigência de que o caminhão não pode retornar com menos de 23 toneladas de lenha, sendo que por medidas de segurança é recomendado não ultrapassar 15 toneladas. “Se você levar 20 mil quilos o patrão fala que não cobre nem as despesas dele”, denuncia Egon. Com o caminhão muito pesado, os riscos de acidente na estrada aumentam por causa da perda de estabilidade. Outro problema é o limite de passageiros que normalmente não é respeitado.

Zé: “Trabalho com lenha há sete anos e fui tratado como bandido. Me expulsou da casa dele e ainda ameaçou chamar a polícia" (Foto: David Arioch)

Zé: “Trabalho com lenha há sete anos e fui tratado como bandido. Me expulsou da casa dele e ainda ameaçou chamar a polícia” (Foto: David Arioch)

O assunto faz Péu se recordar do dia em que iria buscar lenha com dois amigos, mas surgiu um imprevisto e foi substituído por outro companheiro de longa data. Na volta, o motorista perdeu o controle do caminhão que rompeu a proteção da ponte e caiu no Rio Ivaí. Os três rapazes morreram. Depois do acidente, muitos lenhadores cogitaram abandonar a atividade. “Foi em 2012. Fiquei tão assustado que me ocupei com outro tipo de serviço por alguns meses. A verdade é que ainda tenho medo. Você nunca sabe se vai chegar em casa”, afirma Péu.

“O cara pensa até em tirar a própria vida”

Após se ferir gravemente em 2013, o então lenhador Márcio Alexandre Santos entrou em depressão. Se sentiu desnorteado ao saber que não poderia mais trabalhar, se exercitar ou dirigir. “Única coisa que faço hoje é bater uma enxadinha pra fingir que tô carpindo. O médico alertou que se eu cair de mau jeito, sofrer alguma queda, corro o risco de nunca mais levantar. Dizem que não vou mais andar como antes. Tem dia que essa lembrança acaba comigo”, se queixa visivelmente emocionado.

Tão nocivo quanto a dor física, o sentimento de inutilidade também atinge a maioria dos lenhadores em algum momento da vida. O fato de serem jovens e já diagnosticados com diversos problemas de saúde faz com que deixem de acreditar em um futuro melhor ou até mesmo em uma vida longa. “Com 20 e poucos anos você tá pior que cara de 40, 50. Esse é o preço de começar a atuar em serviço pesado na infância ou adolescência. Se ficar encostado, qual mulher vai te querer? Nessa hora o cara pensa até em tirar a própria vida”, admite o lenhador Marcelo Martins Melo, o Péu, que muitas vezes ficou deprimido e inquieto dentro de casa por não estar em condições de trabalhar.

Nos finais de semana a diversão do rapaz era jogar bola com os amigos. Hoje não pode mais porque está com a coluna vertebral severamente comprometida. É a segunda vez que Péu fica impossibilitado de trabalhar por um longo período. “Na primeira, fiquei nove meses debilitado e não recebi nada do patrão. Me machuquei de novo há dois meses e tive que abandonar a lenha. Fiz até um empréstimo pra comprar medicamentos. Rapaz, se faltar remédio eu nem ando!”, confessa enquanto se levanta e caminha a passos curtos e rasteiros.

Há poucos dias, quando Péu foi até a casa do patrão mostrar o atestado e a receita médica, o homem o chamou de mentiroso e vagabundo. Em seguida, virou as costas e fechou a porta. Humilhações são constantes na vida dos lenhadores. “Quando você se machuca, tem patrão que te xinga e sai falando mal pra ninguém te contratar. Na lógica dele, se o cara consegue ficar em pé é porque ainda está bom pra trabalhar, até mesmo no caso de uma árvore prensar sua cabeça e você perder uma orelha. Agora se acertar um pneu e causar algum dano, ele te ameaça e faz você pagar”, lamenta.

Márcio quase morreu quando transportava lenha em 12 de julho de 2013 (Foto: Acervo Familiar)

Lenhador quase morreu em acidente no dia 12 de julho de 2013 (Foto: Acervo Familiar)

O lenhador Maicon Martins Melo, o Egon, conta que um dia o motorista do caminhão de lenha não viu a motosserra deixada no chão e passou por cima, a danificando. Na hora de receber, o patrão descontou R$ 100 de Egon. Só depois o rapaz soube que o motorista o culpou. “O patrão nem quis ouvir a verdade. Pra prejudicar mais ainda, ele nunca dá nota ou recibo de nada. Pra você ter uma ideia da situação, em Paranavaí tem 15 comerciantes de lenha. Desse total, só três respeitam os lenhadores ou dão algum tipo de assistência”, declara Egon.

“Enriqueceram às custas do trabalho de crianças e adolescentes”

Desde que a Vila Alta surgiu nos anos 1970, o bairro se tornou o maior reduto de lenhadores de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Até hoje dezenas de jovens são seduzidos pela promessa de receber um bom pagamento no mesmo dia, logo ao final do serviço. “Vem gente de todos os cantos buscar lenhador aqui. Sempre foi assim. Enriqueceram às custas do trabalho de crianças e adolescentes. Se não fosse os menores de antigamente, eles não teriam nada. Muita gente perdeu e ainda perde a vida na lenha, até porque não leva mais de um ano pra você se machucar”, desabafa Márcio Alexandre Santos enquanto ajeita o braço inutilizado quando trabalhava na área.

Quem também sofreu muito foi o lenhador José Alexandre Silva Pereira, o Zé, que há poucos dias foi até a casa do patrão receber o pagamento das últimas diárias. “Trabalho com lenha há sete anos e fui tratado como bandido. Me expulsou da casa dele e ainda ameaçou chamar a polícia. Me senti tão mal que só virei as costas e parti”, assinala o rapaz que atualmente atua como lombador e dorme na câmara fria de um caminhão nas noites em que passa longe de casa.

Estado do caminhão que estava com sobrecarga e superlotado no dia do acidente (Foto: Acervo de Márcio Santos)

Caminhão de lenha que tombou na PR-182 estava com sobrecarga e superlotado (Foto: Acervo de Márcio Santos)

Em Paranavaí, um comerciante de lenha vende cada carga por R$ 2,1 mil, o que garante pelo menos R$ 1,3 mil de lucro diário, livre de despesas. “Um patrão com quatro caminhões e que faça uma viagem por dia ganha mais de R$ 100 mil por mês. Se for duas viagens, o lucro passa de R$ 200 mil”, destaca Péu que atua no ramo desde 2006. O que torna o mercado realmente lucrativo é que cada empresa que compra lenha tem uma demanda diária de até 200 toneladas.

“Vamos ralar o peito dele”

Uma prática que os lenhadores mais conscientes tem se esforçado para banir do campo é o “rala peito” que consiste em jogar toras de árvores sobre os mais jovens, obrigando-os a ganhar força rapidamente. Incentivada por comerciantes de lenha, a brutal forma de iniciação de lenhadores costuma ser aplicada principalmente em crianças e adolescentes nos 15 primeiros dias de trabalho. “Eles viam um novato e já gritavam ‘vamos ralar o peito dele’. Isso aí judia demais. Tem que ajudar a evitar de se machucar, não o contrário”, reprova Péu.

De acordo com Egon, é impossível um lenhador não se deparar com injustiças no cotidiano. “Um dia quase morri na BR-376. Tinha cinco na cabine, o caminhão ficou sem freio e nos envolvemos em um acidente com uma carreta. O carreteiro morreu e ficamos até as 2h juntando lenha, morrendo de fome. Cheguei em casa às 4h. Você acha que o patrão me deu algum extra? Pagou só pelo primeiro carregamento e ainda reclamou do prejuízo”, narra o rapaz que até hoje se recorda de um companheiro que morreu prensado entre toras de eucalipto.

Os lenhadores são unânimes em sugerir que os motoristas mantenham distância de caminhões que transportam lenha. Argumentam que já viram toras cair sobre automóveis e motocicletas. “Quando você atravessa uma cidade o risco de algo dar errado é ainda maior. Alguém tem que ficar sempre na porta, observando a carga. Se um pau mudar um pouquinho de posição, o motorista precisa parar pra você alinhar tudo”, sugere Márcio.

Egon também faz questão de mencionar o dia em que um cabo de aço amarrado a uma árvore arrebentou e passou de raspão pela sua cabeça. O companheiro de serviço foi atingido violentamente no queixo e na boca. Como o jovem estava desmaiado e sangrando muito, os demais lenhadores aproveitaram a ausência do patrão para levar o rapaz ao Pronto Atendimento Municipal de Paranavaí. Mais tarde, receberam o recado de que a diária não seria paga.

Frases dos lenhadores

“Duvido chegar um lenhador e falar que o corpo é filé. Não é. Tem problema nas costas, no joelho, no ombro e no cotovelo.”

Marcelo Martins de Melo, o Péu, 27.

“A lenha é tão pesada e cruel que você perde até o vigor físico pra praticar um esporte e se exercitar.”

Márcio Alexandre Santos, 23.

“Quando o pessoal começa a se machucar e espalhar os riscos do serviço, o patrão dispensa todo mundo e monta uma equipe nova.”

Maicon Martins Melo, o Egon, 24.

“Acontece de cortar e amontoar num dia e falarem pra voltar só no outro dia pra carregar. Daí você ganha só uma diária, mesmo trabalhando dois dias.”

José Paulo Silva Pereira, o Zé, 18.

Saiba Mais

O número de lenhadores para o corte e transporte de uma carga pode oscilar de 3 a 6.

De acordo com os quatro lenhadores entrevistados, os caminhões que transportam lenha raramente passam por manutenção.

Um vídeo que mostra brevemente uma parte da rotina dos lenhadores de Paranavaí:

Refugiado húngaro criou as maiores obras da Igreja São Sebastião

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Em Paranavaí, Bálint Fehérkúti criou as mais importantes obras da Igreja São Sebastião

Fehérkúti produziu obras em Paranavaí entre os anos de 1966 e 1971 (Acervo: Ordem do Carmo)

Bálint Fehérkúti produziu obras em Paranavaí entre os anos de 1966 e 1971 (Acervo: Ordem do Carmo)

Entre os anos de 1966 e 1971, depois de escapar de um gúlag, campo de trabalho forçado na União Soviética, o artista plástico húngaro Bálint Fehérkúti viveu em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, e produziu as mais importantes obras da Igreja São Sebastião. Com uma sublime capacidade de transmitir sentimentos pessoais por meio da arte, Fehérkúti despertou admiração e repulsa.

“Na via-crúcis tradicional a cena é muito restrita a cruz e mais duas ou três pessoas. Bálint preferiu fazer diferente. Incluiu mais personagens, alguns como se estivessem dialogando. Foi realmente inovador”, conta frei Filomeno dos Santos após analisar a obra de caráter estético arcaico produzida em argila pelo artista húngaro em 1966.

Em essência, a Via-Sacra de Fehérkúti foi pouco compreendida. Com o passar dos anos, os fiéis se dividiram entre favoráveis e contrários à exposição da obra. Alguns alegavam que mesmo muito bonita não despertava piedade. Outros foram mais intolerantes e intransigentes nas críticas. Em 1990, quando a Via-Sacra começou a se deteriorar, o frei Gentil Lima alegou que não encontraram restauradores habilitados para conservar a estética original, então decidiu substituí-la.

Via-Sacra do artista húngaro gerou muita polêmica (Acervo: Ordem do Carmo)

Via-Sacra do artista começou a se deteriorar e foi substituída (Acervo: Ordem do Carmo)

De 1966 a 1971, Fehérkúti produziu as populares esculturas de quatro grandes estátuas de São José, São Sebastião, Maria do Monte Carmelo e Santa Teresa de Lisieux. As estátuas foram finalizadas pelo escultor austríaco Conrado Moser. Para a Ordem do Carmo de Paranavaí, o artista húngaro criou também uma pintura do batismo de Jesus e outra da ressurreição de Cristo. A primeira pode ser vista na capela do batismo e a segunda na cripta embaixo do altar-mor.

Em 2006, durante visita à Paróquia São Sebastião, atual Santuário do Carmo, me surpreendi com a intrigante pintura de “A Última Ceia”, inspirada no afresco de Leonardo da Vinci. A imagem que ocupa uma parede inteira do refeitório foi idealizada pelo húngaro em 1970. Quem observa a pintura com atenção percebe que pouco acima da cabeça de Jesus Cristo há um par de olhos, chifres e um focinho. A primeira pessoa que notou a suposta figuração do demônio foi um padre franciscano que visitou a paróquia em 1990.

Ninguém sabe se a representação foi intencional ou não, já que é muito comum o inconsciente se revelar durante uma prática artística. “Acredito que simboliza a tentação que Judas sofreu em trair Jesus”, interpreta frei Filomeno. Na “Última Ceia” de Bálint, a aparência clássica e hermética dos apóstolos foi substituída por feições mais familiares dos padres alemães que viviam em Paranavaí.

“Na sala de recreação, uma grande pintura com uma vista de Bamberg [cidade de origem de muitos padres que viveram em Paranavaí] testemunha a sua capacidade, assim como a pintura que está no altar da Igreja Nossa Senhora das Graças [situada em Graciosa, distrito de Paranavaí]”, escreveu o frei alemão Alberto Föerst no livro Erinnerungen eines Brasilienmissionars, lançado na Alemanha em 2012.

Ultrapassando estilos, técnicas e formas, Fehérkúti encontrou na subjetividade da arte um meio de tentar se reencontrar, dialogar consigo mesmo e registrar a própria história, além de materializar em desenhos, pinturas e esculturas as impressões e cicatrizes deixadas pelo passado.

Escultor, pintor e desenhista, Bálint era acima de tudo um artista múltiplo, apto a enfrentar qualquer desafio. Ousado, sabia como se lançar em cada obra de forma implícita e explícita. Não hesitava em apresentar uma perspectiva mais contemporânea e pessoal de tudo. Manipulava os mais diferentes materiais com uma facilidade impressionante.

"A Última Ceia", obra que mais tarde gerou muita polêmica (Acervo: Ordem do Carmo)

“A Última Ceia”, obra que mais tarde gerou muita polêmica (Acervo: Ordem do Carmo)

Surpreendia trabalhando com pinturas em aquarela e têmpera, lápis sobre papel, vitrais, mosaicos e esculturas em pedra, cerâmica e madeira. Padres que conviveram com o artista em Paranavaí confidenciaram que possivelmente as obras retratam o sofrimento de Fehérkúti antes de chegar ao Brasil.

De acordo com o frei Tiago Correia, da Ordem do Carmo, o húngaro fez muitos trabalhos de temática religiosa, envolvendo passagens das sagradas escrituras, imagens de Jesus Cristo e da Virgem Maria. No entanto, há também projetos de mobiliários e muitas pinturas de paisagens e rostos de pessoas comuns. “Sim, Bálint era um artista realmente distinto e polivalente”, registrou Föerst na obra Erinnerungen eines Brasilienmissionars.

Pintura da Cidade de Bamberg, situada na sala de recreação do Santuário do Carmo (Acervo: Ordem do Carmo)

Arte fiel da Cidade de Bamberg, situada na sala de recreação do Santuário do Carmo (Acervo: Ordem do Carmo)

Somando-se as obras de grande expressão que podem ser vistas em Paranavaí, Graciosa e no Museu da Abadia de São Geraldo, no Jardim Colombo, em São Paulo, na capital paulista, Bálint deixou um legado de mais de 50 criações históricas e inovadoras. São trabalhos que foram catalogados pela Ordem dos Carmelitas. Em 1951, Fehérkúti participou e se destacou na 1ª Bienal Internacional de São Paulo. Em 1968, atraiu muita atenção no XXXIII Salão Paulista de Belas Artes.

Embora tenha passado quase despercebido pela população de Paranavaí, Bálint está entre os maiores nomes da arte húngara contemporânea. Em Budapeste, na Hungria, algumas de suas obras fazem parte dos acervos do Museu de Artes Aplicadas (Iparművészeti Múzeum) e Universidade Húngara de Belas Artes (Magyar Képzőművészeti Egyetem). O trabalho do artista também integra a Biblioteca Europeana, fundada pela União Europeia em 2008.

Pintura que pode ser vista na Capela do Batismo da Igreja São Sebastião (Acervo: Ordem do Carmo)

Pintura que pode ser vista na capela do batismo da Igreja São Sebastião (Acervo: Ordem do Carmo)

Fehérkúti foi considerado um inimigo da União Soviética

Bálint Fehérkúti nasceu na Hungria em 5 de novembro de 1923. Nos anos 1940, já atuava como artista plástico, designer de objetos e arquiteto. Com a iminente derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) invadiu a Hungria, aliada dos alemães, e assumiu o controle da capital Budapeste em 13 de fevereiro de 1945.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética começou a perseguir e prender nazistas e simpatizantes até que surgiu um problema operacional. Para a manutenção de cada gulag (campo de concentração), os soviéticos precisavam de pelo menos dois mil prisioneiros. Então muitas vezes a cota não era atingida. Para alcançar a meta, o Exército Vermelho decidiu prender alemães étnicos não nazistas e húngaros nativos, de origem magyar.

“A serviço dos vencedores da Segunda Guerra Mundial, a imprensa mundial virou as costas para os fatos e concordou em divulgar apenas que o Exército Vermelho era formado por libertadores. Nos países ocupados pela União Soviética, quem ousasse dizer o contrário era punido”, garante o pesquisador e professor universitário húngaro Károly Szerencsés, doutor em história da Hungria no século XX pela Universidade Eötvös Loránd, de Budapeste.

Ao longo de anos pesquisando sobre o assunto, o historiador descobriu que a interferência econômica e a destruição patrimonial provocada pelos soviéticos custaram 40% das riquezas da Hungria. “Foi um longo período de pobreza, privação e terror. Temos uma estimativa de que entre 1945 e 1948 até 200 mil mulheres húngaras foram estupradas pelo Exército Vermelho”, revela o professor e escritor estadunidense Peter Kenez, autor do livro Hungary From The Nazis To The Soviets e doutor em história da Rússia e do Leste Europeu pela Universidade Harvard.

Em pouco tempo, a vida de Bálint Fehérkúti mudou. Ainda muito jovem, o artista foi considerado um inimigo da União Soviética. Perseguido e condenado com base em provas forjadas, o deportaram para um gulag na Sibéria por volta de 1946. “Cidadãos húngaros foram enviados a dois mil campos de prisioneiros. Do total, 64 ficavam na Sibéria. Muitos morreram antes de chegarem ao destino. O número de pessoas que jamais retornaram à Hungria ultrapassa 380 mil”, explica Szerencsés. Os gulags eram considerados colônias corretivas em que os prisioneiros eram escravizados 14 horas por dia em minas, derrubadas de árvores e projetos de construções de canais e ferrovias.

Bálint Fehérkuty também era especialista em vitrais (Acervo: Ordem do Carmo)

Bálint Fehérkúti também era especialista em vitrais (Acervo: Ordem do Carmo)

“Tinham de trabalhar sob constante ameaça de fome e execução. As árvores eram cortadas com serrotes ruins e o solo congelado era escavado com picaretas primitivas. Os homens que trabalhavam extraindo carvão ou cobre só podiam usar as mãos. Quem inalava o pó de minério com frequência, logo contraía doenças pulmonares dolorosas”, enfatiza o pesquisador e professor universitário estadunidense Roy Rosenzweig, doutor em história pela Universidade Harvard e autor do projeto Gulag: Many Days, Many Lives, considerado um dos mais ricos trabalhos de pesquisa sobre os campos de concentração da União Soviética.

Inúmeros historiadores defendem que é mais fácil uma pessoa ganhar na loteria hoje do que um prisioneiro escapar de um gulag siberiano. “Eram mal alimentados, espancados e executados por motivos diversos. A cada ano havia uma queda de 10% do total de prisioneiros. Estimamos que de 15 a 30 milhões de pessoas morreram nesses campos de concentração entre 1918 e 1956”, declara Rosenzweig.

Pintura feita para a Paróquia São Sebastião em 1968 (Acervo: Ordem do Carmo)

Pintura feita para a Paróquia São Sebastião em 1968 (Acervo: Ordem do Carmo)

Provavelmente, Fehérkúti vivenciou as piores experiências de sua vida em um gulag siberiano. A região tinha a fama de ter as prisões mais aterrorizantes da União Soviética. Era preciso suportar um inverno com duração de nove meses e temperatura média de 50 graus Celsius negativos, chegando a ultrapassar 60 entre os meses de dezembro e janeiro. “Os presos viajavam até lá de trem, mas havia uma época do ano em que o frio era tão intenso que os serviços de transporte eram interrompidos”, frisa Roy Rosenzweig.

Artista fugiu de um gulag na Sibéria e veio para o Brasil

Segundo o pesquisador Károly Szerencsés, aos olhos das autoridades soviéticas, a vida dos prisioneiros não tinha valor algum. “A substituição era rápida porque o sistema podia encontrar mais pessoas para reposição nos campos de trabalho”, comenta. Entre 1949 e 1950, ciente de que não continuaria vivo por muito tempo, Bálint Fehérkúti preparou um plano de fuga e decidiu se arriscar pela primeira vez, mesmo sabendo que caso fosse capturado a pena seria aumentada em pelo menos dez anos.

Supostamente, por sorte ou artifício do destino, conseguiu fugir carregando apenas uma corda. A usou para se amarrar embaixo do trem que o levou até a Sibéria como prisioneiro. Sem poder retornar para casa, vagou pela Europa e se distanciou de países ocupados pelos soviéticos até chegar a Portugal. “De lá, embarcou em um navio com destino ao Brasil. Em São Paulo, Bálint foi acolhido pela comunidade húngara”, relata frei Filomeno dos Santos.

Pintura que garantiu destaque ao artista na 1ª Bienal Internacional de São Paulo (Acervo: Ordem do Carmo)

Trabalho que garantiu destaque ao artista na 1ª Bienal Internacional de São Paulo (Acervo: Ordem do Carmo)

Na capital paulista, Fehérkúti recebeu ajuda e voltou a trabalhar como artista, arquiteto e designer de objetos. Mais tarde, fez amizade com o arquiteto Eugênio Szilágyi e o engenheiro Karl Kögl, imigrantes que deixaram a Hungria no final da Segunda Guerra Mundial, fugindo das perseguições, e vieram para o Brasil.

Em 1960, a convite da Ordem dos Carmelitas, Szilágyi e Kögl aceitaram o desafio de construir em Paranavaí a Igreja São Sebastião. “A pedra fundamental foi colocada no mês de outubro. Demorou cinco anos até que pudéssemos mudar para a nova casa de Deus, projetada de forma ampla e útil”, narra o frei alemão Joaquim Knoblauch no livro “Os 25 Anos dos Carmelitas da Província Germaniae Superioris no Brasil”, escrito em 1976.

Os húngaros projetaram e construíram também o convento. Um ano após a inauguração, padres alemães da Ordem dos Carmelitas de Paranavaí conheceram o trabalho de Bálint Fehérkúti e pediram a Eugênio Szilágyi e Karl Kögl que o trouxessem a Paranavaí. O artista foi além das expectativas, tanto que criou obras para a paróquia local ao longo de cinco anos. Alberto Föerst, que conviveu com Fehérkúti por meses, registrou muitos elogios ao húngaro no livro Erinnerungen eines Brasilienmissionars.

O advogado e escritor paranavaiense Paulo Campos ainda se recorda das poucas vezes em que escalou um muro nas imediações da Igreja São Sebastião para observar Fehérkúti. “Eu era menino e muito curioso. Para mim, aquele artista foi uma figura enigmática e intrigante, ainda mais porque não sabíamos quase nada sobre ele”, confidencia Campos.

Fehérkúti faleceu com apenas 53 anos em 30 de março de 1977 (Acervo: Ordem do Carmo)

Fehérkúti faleceu com apenas 53 anos em 30 de março de 1977 (Acervo: Ordem do Carmo)

Introspectivo e praticamente ostracista, o húngaro passava a maior parte do tempo trabalhando. Raramente era visto fora da Igreja São Sebastião ou do convento. Föerst escreveu que a única fraqueza de Bálint Fehérkúti era o alcoolismo. Bebia para tentar esquecer os traumas da perseguição na Hungria e da vida desumana em um gulag. “Após o fim da Guerra [Segunda Guerra Mundial], ele teve de suportar muitas dificuldades. Isto o marcou a longo prazo”, pondera frei Alberto na obra Erinnerungen eines Brasilienmissionars.

Com o tempo, a dependência alcoólica se tornou o maior obstáculo na vida de Fehérkúti. No dia 30 de março de 1977, em São Paulo, o artista que escapou de um campo de trabalho forçado na Sibéria faleceu com apenas 53 anos em decorrência de problemas de saúde causados pelo alcoolismo.

Saiba Mais

O arquiteto Eugênio Szilágyi e o engenheiro Karl Kögl foram os responsáveis pela construção da Embaixada da Hungria no Brasil. Situada em Brasília, foi inaugurada em 21 de agosto de 1972.

A ocupação soviética da Hungria chegou ao fim somente em junho de 1991.

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Paranavaí e a sociedade de “colonização bruta”

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Uma cidade que de tão heterogênea surgiu com grandes falhas sociais

Paranavaí foi colonizada pelo próprio governo paranaense (Foto: Reprodução)

Sem planejamento, Paranavaí foi colonizada pelo próprio governo paranaense (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Não são poucos os pioneiros que afirmam que Paranavaí, no Noroeste do Paraná, é uma cidade formada a partir de uma sociedade de “colonização bruta”. Mas qual é o significado disso?Declarações como essa são justificadas por fatos envolvendo principalmente distinções culturais. Paranavaí foi colonizada pelo governo paranaense, ou seja, houve pouca participação ou abertura para a colonização de iniciativa privada ou planejada. Assim a organização precisava partir da própria comunidade.

Nos anos 1940, nos tempos da Fazenda Brasileira, Paranavaí contava com uma sociedade restrita, pouco sociável e formada pela política da conquista de novas terras. A colônia atraía todo tipo de gente porque os lotes eram baratos e, em algumas situações, até doados. “Havia a coletividade, mas sem articulação social. A maior parte das pessoas vinha pra cá com esse interesse em comum. Não socializavam quase. Assim surgiu uma sociedade com uma colonização bruta, sustentada apenas pelos mesmos objetivos econômicos”, afirma o pioneiro Ephraim Marques Machado.

Como havia povos das mais diferentes origens, por vários anos persistiu uma segregação entre os moradores. Muitos se relacionavam apenas com pessoas que vieram do mesmo estado, região ou país. “Em Paranavaí, naquele tempo, mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos. Sofri muito com isso”, lembra o pioneiro Sátiro Dias de Melo. O testemunho é endossado pelo pioneiro cearense João Mariano que viu muitos peões e colonos nordestinos serem escravizados por migrantes do Sul e Sudeste nos anos 1950 e 1960.

De acordo com Ephraim Machado, a heterogeneidade podia ser vista como um problema social, já que Paranavaí lembrava uma colônia dividida em pequenos povoados. “Os nortistas e os sulistas eram muito diferentes, então o distanciamento foi inevitável. Sem dúvida, algo que interferiu na evolução local. Paranavaí demorou para começar a se constituir como o que chamamos de sociedade nos moldes atuais”, avalia Machado.

População demorou para se articular socialmente (Foto: Toshikazu Takahashi)

População demorou para se articular socialmente (Foto: Toshikazu Takahashi)

A facilidade de acesso às terras fez Paranavaí receber muita gente diferente, não apenas migrantes que sonhavam com um pedaço de terra para construir uma moradia, plantar e assegurar o futuro da família. Aventureiros e oportunistas das mais diversas regiões do Brasil, até mesmo assassinos e ladrões, vinham para a região, crentes de que encontrariam um lugar isolado e de muitas riquezas. “O governo até fretava aviões para abandonar criminosos nas matas virgens das imediações de Paranavaí. O objetivo era não ter despesas e responsabilidades com essa gente”, diz João Mariano.

Pelo país afora, a colônia era conhecida como um local administrado pelo poder público, com pouca interferência da iniciativa privada. “Muitos gostaram daqui por isso”, declara Mariano. Já cidades colonizadas por companhias não atraíam tanta gente assim. O custo de vida não era barato e o investimento era maior em função do planejamento minucioso. E claro, também tinha mais exigências e mais burocracia. Outro diferencial é que em áreas loteadas pelo poder público havia menor participação de autoridades e maior facilidade na realização de negociações escusas.

Intimidada pelo baixo custo dos lotes da antiga Fazenda Brasileira, a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), conhecida por vender imóveis por preços mais altos, criou uma situação desconfortável entre as décadas de 1940 e 1950. “A companhia chegou até Nova Esperança e ali parou. Eles queriam nos isolar. Não deixavam ninguém fazer nada em Paranavaí, inclusive convenciam quem queria investir aqui de que seria um mau negócio”, lamenta Mariano.

Nos tempos de colonização, Paranavaí foi palco de muitas brigas de corretores de imóveis. “Não esqueço que em 1950, antes de me casar, eu morava no Hotel Real, na antiga Rua Espírito Santo, e ali mesmo o Cangerana assassinou um sujeito por causa de comissão de terras”, relata Machado. Os pioneiros também se recordam do episódio em que um homem matou na Avenida Paraná, no prédio do antigo Banespa, três pessoas que o enganaram em uma negociação.

Ephraim Machado: "As pessoas partilhavam apenas os mesmos interesses econômicos" (Foto: Toshikazu Takahashi)

Ephraim Machado: “As pessoas partilhavam apenas os mesmos interesses econômicos” (Foto: Toshikazu Takahashi)

“Os maiores crimes dos tempos da colonização foram provocados por causa de comissão e não disputa de terras”, ressalta Ephraim Machado, embora admita que houve muitas situações em que o capitão Telmo Ribeiro, braço direito do ex-diretor da Penitenciária do Estado do Paraná, Achilles Pimpão, e amigo do interventor federal Manoel Ribas, teve de intervir em casos de grilagem de terras. Ribeiro foi proprietário de uma fazenda que se transformou no Jardim São Jorge.

No entanto, nada se sabe sobre as implicações legais das atuações de grileiros em Paranavaí, deixando subentendido que muita gente pode ter construído fortunas sem se submeter, em qualquer momento, aos rigores da lei. “Desconheço qualquer caso de alguém de Paranavaí que foi punido por causa disso. Ainda assim, sei que encrenca maior se deu na Gleba Sutucu, Areia Branca, dos Pismel e também na Gleba 23. Teve quem foi tirado da terra à força. Juridicamente, não tenho a mínima ideia de como tudo foi feito”, comenta Machado.

O fato de Paranavaí ser tão grande até o início dos anos 1950 facilitava a grilagem de terras. À época, a colônia tinha uma vasta área que ia até as fronteiras com os estados do Mato Grosso (área do atual Mato Grosso do Sul) e São Paulo. Quem iria fiscalizar tudo isso e com quais recursos, sendo que hoje, mesmo com tantos avanços, ainda existe grilagem no Brasil?”, questiona João Mariano.

Sátiro de Melo: "Mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos" (Foto: Toshikazu Takahashi)

Sátiro de Melo: “Mineiro era chamado de nortista e nortista aqui era considerado ladrão para os migrantes preconceituosos” (Foto: Toshikazu Takahashi)

Uma transformação social imposta pela pecuária

O pioneiro Ephraim Marques Machado explica que até os anos 1960 era comum um proprietário de terras contratar meeiros para se responsabilizarem pela produção agrícola. “O camarada ia até São Paulo e Minas e falava: ‘Olha, eu tenho 200 alqueires em Paranavaí e vou produzir 100 mil pés de café. Preciso de cinco famílias e dou a ‘meia’ para plantar. Então ele dividia tudo em partes iguais e cada um cuidava de um pedaço”, exemplifica. Com isso, o bom resultado financeiro foi garantido até o surgimento das geadas. A última que castigou a região foi a de 1975.

Nas décadas de 1960 e 1970, Machado viu centenas de meeiros de Paranavaí migrarem para as regiões de Toledo, Marechal Cândido Rondon, Umuarama e Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Outros se mudaram para o Norte. Muitas propriedades foram transformadas em pasto depois de 1964 e 1965, quando a colonização caiu bastante. “É aquela: ‘onde entra o boi sai o homem’. O café já não tinha mais tanto valor e o pasto acabou com o que sobrou”, pondera Ephraim. Quem partiu para novas frentes de trabalho trocou a lavoura de café por algodão, amendoim e arroz.

Fazendas que tinham 300 alqueires e garantiam o sustento de pelo menos 15 famílias passaram a ser ocupadas por apenas uma. Em outros casos, nem isso. “A migração modificou a sociedade local. A própria cultura da cidade passou por uma transformação”, enfatiza Ephraim Machado.  A partir da década de 1970, Paranavaí, que até então atraiu tanta mão de obra para as lavouras, chamou muita atenção de empreendedores e pecuaristas de outras cidades e estados. Eram pessoas de alto poder aquisitivo que aqui se fixaram para ocupar posição de grande status econômico e social.

Saiba Mais

Nos anos 1950, já viviam em Paranavaí, além de migrantes de todas as regiões do Brasil, portugueses, italianos, alemães, poloneses, russos, ucranianos, tchecos, iugoslavos, húngaros, espanhóis, neerlandeses, japoneses, franceses, suíços, sírios e libaneses, além de outros povos.

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Alegria e sofrimento na era de ouro do rádio

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Ephraim Machado: “A gente tocava tudo com motor e bateria de carro”

Machado: "Difícil era fazer o aparelho funcionar numa época sem energia elétrica" (Foto: Diário do Noroeste)

Machado: “Difícil era fazer o aparelho funcionar numa época sem energia elétrica” (Foto: Diário do Noroeste)

 O pioneiro e empresário Ephraim Marques Machado chegou a Paranavaí, no Noroeste Paranaense, em 1948, pouco tempo depois que seu pai, agente fiscal do Governo do Paraná, foi enviado para instalar a Coletoria Estadual. Admite que no primeiro momento não gostou do que viu na colônia, então retornou para Londrina, onde morava com o tio Odinot Machado, homenageado com um nome de rua em Paranavaí. “Fiquei lá uns seis meses e meu pai insistiu outra vez. Disse que estava muito bom aqui, então voltei”, relata.

A princípio, Machado iria apenas ajudar o pai, mas dois meses depois decidiu investir em um serviço de alto-falantes. “Eu já queria conquistar a minha independência”, conta o pioneiro que nasceu em Castro, na região de Ponta Grossa, no Centro Oriental Paranaense. No final de 1948, Ephraim circulava pela cidade com um microfone e uma caixa amplificadora. Até hoje, lembra como as “vozes saíam por cima”. A sede da modesta rede de comunicação de Machado ficava em frente à Banca do Wiegando, na Rua Marechal Cândido Rondon, de onde administrava os dez alto-falantes espalhados em pontos estratégicos da cidade.

Algumas caixas podiam ser vistas perto do antigo Terminal Rodoviário e outras onde é hoje a Academia Unimed, na Avenida Distrito Federal. Quando o pioneiro anunciava algo em uma caixa, a mesma mensagem era reproduzida em todas as outras. “Foi assim até 1956, quando coloquei a Rádio Cultura no ar, um trabalho iniciado em 1950. Contratava gente da cidade e de fora, o que aparecesse”, explica. A sede da emissora na Rua Getúlio Vargas no cruzamento com a Rua Minas Gerais, onde era a Loja Ipiranga, chegou a ter três andares, dois construídos por Machado e um por Luiz Ambrósio.

Como a maior parte da população não tinha televisor e o cinema abria as portas somente aos sábados e domingos, o pioneiro cativava a comunidade com os programas de auditório. “Sempre aproveitava para levar ao Aeroclube [atual tênis Clube – em frente ao Ginásio Lacerdinha] os artistas que se apresentavam na rádio. Então o povo tinha a chance de assistir shows do Jorge Goulart, Nora Ney, Mestre Sivuca, Orquestra Casino de Sevilla e muitos outros”, cita.

No começo, o empresário tinha uma equipe de oito profissionais. Do total, cinco eram locutores. Quem chefiava a redação era o jornalista Ivo Cardoso, mas as notícias eram apresentadas por Jackson Franzoni e Evaldo Galindo. Havia muitos colaboradores, o que fazia a diferença quando surgiam problemas técnicos. “O equipamento de transmissão não era tão caro. O difícil era fazer o aparelho funcionar numa época sem energia elétrica. A gente tocava a rádio com motor e bateria de carro. Tudo era grande, até o gravador”, destaca.

Os problemas de transmissão eram frequentes, pois nem sempre o gerador de energia funcionava como o esperado. Às vezes, a rádio ficava dias fora do ar, um sofrimento inevitável. “Quando surgiu a primeira instalação elétrica, tive que puxar uma fiação de mais de um quilômetro de distância. Começava em uma chácara pra lá da Avenida Tancredo Neves e tinha que trazer por trás da Igreja São Sebastião”, conta o homem que trouxe a Paranavaí os mais diversos tipos de geradores de energia. O melhor funcionou bem por apenas seis meses.

À direita, construção da primeira rádio do pioneiro (Foto: Toshikazu Takahashi)

À direita, construção da primeira rádio do pioneiro (Foto: Toshikazu Takahashi)

No Brasil da época, pouco se ouvia falar em equipamentos de qualidade. A solução era importar quase tudo, inclusive gravadores, um privilégio para poucas emissoras do Norte do Paraná. Certa vez, o pioneiro fez a transmissão de uma eleição de Mandaguari, de quem Paranavaí ainda era distrito. Na ocasião, pediu emprestado um cabo de comunicação da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Infelizmente, de Alto Paraná até Paranavaí não se ouvia praticamente nada por causa da chiadeira.

Ephraim Machado considera os anos 1950 e 1960 como os melhores do rádio local e regional. A justificativa é que naquele tempo o espectro não era tão carregado. “Depois de alguns anos, melhorou bem. Conseguíamos falar até com pessoas de Santa Isabel do Ivaí e Porto São José. Hoje, a rádio AM não atinge esses lugares com a mesma potência. Só se for FM. Há muita interferência de sinais de TV, comunicação amadora, etc. Não temos mais o espectro livre”, frisa. Até o final da década de 1950, pelo menos 50% da população de Paranavaí já possuía um aparelho de rádio em casa.

Para Machado, o rádio começou a se popularizar no Brasil em 1942 e só em 1954 deu um grande salto, liderando a comunicação de massa no país. A chegada da Companhia Paranaense de Energia (Copel) fez a diferença na cultura radiofônica local a partir de 1964. “Em 1962, vinha uma sobra de energia de Maringá que durava das 20h às 6h. Era limitada, mas melhor que nada”, avalia.

Rádio Cultura ainda sem a tradicional fachada nos anos 1950 (Foto: Toshikazu Takahashi)

Rádio Cultura ainda sem a tradicional fachada nos anos 1950 (Foto: Toshikazu Takahashi)

As instabilidades do rádio em Paranavaí surgiram nos anos 1970, exigindo melhores estratégias dos comunicadores e empresários para manterem-se no ramo. Ephraim Machado perseverou e ainda montou a Rádio Caiuá FM em 1980, emissora que começou a operar em 1984. Como a realidade já era bem diferente e o empresário contava com mais recursos, trouxe a Paranavaí os equipamentos mais sofisticados.

“Subia em postes, puxava fio, consertava aparelho, motor e microfone…”

O pioneiro Ephraim Machado começou a trabalhar com radiodifusão aos dez anos. A primeira função foi de trocador de discos. Anos mais tarde, quando surgiu a oportunidade de montar uma emissora, aprendeu a fazer de tudo. “Subia em postes, puxava fio, consertava aparelho, motor e microfone. Mexia no estúdio cortando som e reformava a acústica para dar mais eco. Fui até faxineiro e transportador de óleo. Minhas lembranças são boas porque passei por todos os setores”, relata o pioneiro que fazia questão de ocupar o tempo livre com trabalho.

Machado fala com preciosismo dos tempos de repórter, quando entrevistou os governadores Moisés Lupion e Bento Munhoz da Rocha Neto, além do presidente Juscelino Kubitschek. Embora só fosse para as ruas quando faltava algum repórter, o pioneiro adorava fazer entrevista política em época de eleição. Segundo Ephraim, era algo mais livre, diferente de hoje que o entrevistador precisa estar atento às exigências da justiça eleitoral.

Emissora recebeu artistas como Jorge Goulart, Nora Ney e Sivuca (Foto: Toshikazu Takahashi)

Emissora recebeu artistas como Jorge Goulart, Nora Ney e Sivuca (Foto: Toshikazu Takahashi)

“Atualmente, você corre muitos riscos quando entrevista uma autoridade política. Só tem liberdade se for falar com suspeito de crimes, daí é costumeiro o repórter fazer a típica escarrada de besteiras que vemos por aí. É triste ver como temos tanto lixo na radiodifusão brasileira”, critica o empresário que em algumas situações perdeu boas entrevistas por causa da falta de energia. Às vezes, o gravador parava de funcionar de repente.

Uma das linhas da Rádio Cultura, fundada pelo pioneiro, chegava até a sede do Atlético Clube Paranavaí (ACP), atual Praça dos Pioneiros. A fiação foi feita por Ephraim Machado que a ligava a um amplificador chamado de “maleta”, uma espécie de base do famoso microfone de fio comprimido. “Quando era ao vivo, a gente sempre preferia fazer tudo no estúdio, por questão de segurança”, pondera.

O primeiro operador de rádio amador de Paranavaí

O pioneiro Ephraim Machado foi o primeiro operador de rádio amador de Paranavaí. No final dos anos 1940, se comunicava até com pessoas do Rio Grande do Sul. Muita gente o procurava para dar recados aos parentes que viviam em outras cidades e estados. “Repassava mais notícias de falecimentos e de necessidades primárias da população. Era um serviço em prol da coletividade. Perdi as contas de quantas vezes saí de Paranavaí para levar recado em Paraíso do Norte, São João do Caiuá, Planaltina do Paraná, Amaporã, Tamboara, Alto Paraná e outras localidades”, afirma.

Machado considera o rádio amador um veículo que ajudou o interior do Brasil antes da implantação do telefone. Muitas vidas foram salvas graças ao aparelho. “Meu principal sinal vinha de uma empresa cafeeira que se comunicava com os portos de Paranaguá e Santos. Servi Paranavaí por muitos anos nessas condições”, garante. O pioneiro também se recorda de um rapaz que no final da década de 1940 trabalhava como rádio telegrafista na colônia, a serviço de uma companhia de terras.

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