David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for June, 2016

Howard Lyman, a redenção de um ex-pecuarista

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Eu vi o medo nos olhos desses animais, mas até então não me permitia pensar a respeito

Howard Lyman, o homem que abandonou tudo por amor aos animais (Foto: Reprodução)

Howard Lyman, o homem que abandonou tudo por amor aos animais (Foto: Reprodução)

Eu acordava cedo, fazia a roçada, ouvia os pássaros cantando e me sentia como o guardião do Éden. Meu sonho era ser um fazendeiro. Então fui para a Universidade Estadual de Montana [nos Estados Unidos] estudar agricultura. Comprei uma fazenda orgânica e com o passar dos anos eu já possuía mais de sete mil cabeças de gado e mais de 12 mil hectares. Lembro como se fosse hoje quando trouxemos os animais e demos a eles entre 7 e 21 vacinas.

Cortamos os chifres, castramos eles, injetamos hormônios e os alimentamos com resíduos e antibióticos. Na fazenda, eu via tantas moscas juntas que você podia pegá-las aos montes apenas abrindo e fechando as mãos. Por isso levantávamos cedo, quando não havia nevoeiro, e pulverizávamos inseticidas por toda a propriedade.

Havia sempre uma grande nuvem flutuando sobre o gado, sobre a água e sobre a comida, e o inseticida atingia tudo. Duas horas mais tarde, o gado se alimentava e bebia aquela água contaminada. Essas são as coisas que aprendi na Universidade Estadual de Montana.

E pensei que estava tudo bem. Mas em minha mente, quando eu observava os pássaros mortos, as árvores morrendo, o solo mudando, eu nem me atrevia a pensar em como eu estava gastando centenas de milhares de dólares em produtos químicos. Eu era o responsável por tudo isso.

Meu irmão faleceu aos 29 anos, e ainda hoje acho que ele morreu por causa desses produtos químicos que usamos na fazenda. Em 1979, quando eu estava no auge da minha carreira, fiquei paralisado da cintura para baixo. É preciso muita concentração para direcionar sua atenção para outra coisa que não seja a sua situação.

No hospital, os médicos disseram que eu tinha uma chance em um milhão de voltar a andar por causa de um tumor dentro da minha coluna [ele começa a chorar porque se sentiu da mesma forma que os bovinos antes de serem abatidos – também debilitados a ponto de não conseguirem se movimentar].

Fui levado para a sala de cirurgia e operado durante 12 horas. Eles removeram um tumor do tamanho do meu polegar. Saí do hospital depois de uma operação com uma chance de sucesso em um milhão. Me lembro de estar na fazenda após a operação.

Eu estava no banheiro e me olhei no espelho, e foi a primeira vez na minha vida que fui honesto comigo mesmo. Toda a minha vida eu disse que amava os animais. E então me perguntei: “Se você realmente ama os animais, se você se importa com eles tanto quanto diz, por que come eles?”

Eu nunca vi um animal pular e dizer que quer ser um hambúrguer. Estive em centenas de matadouros, vi milhares de animais morrerem, e sempre que eu os observava, eu notava que eles sabiam o que aconteceria com eles. Havia o cheiro de morte. Eu me questionava: “Existe alguma necessidade disso?”

Eu vi o medo nos olhos desses animais, mas até então não me permitia pensar a respeito, até que saí do hospital. E quando me questionei, quase derrubei a pia do banheiro. Eu não poderia ir até a minha esposa e discutir isso com ela. Como dizer que temos milhões de dólares investidos em um negócio baseado em alimentar e matar animais? Como eu poderia dizer: “Talvez o que devêssemos fazer é sair desse negócio!”

Como eu desabafaria com meus amigos quando todos eles estavam trabalhando no mesmo ramo que eu? Não tive nenhum apoio. Mesmo que eu tentasse recorrer ao meu sacerdote, seria em vão, porque ele também comia carne tanto quanto eu. Foi o momento mais difícil e mais solitário da minha vida quando abandonei tudo.

Howard Lyman, ativista dos direitos dos animais que passa 11 meses do ano realizando palestras e promovendo a nutrição vegana e a expansão de fazendas orgânicas sem exploração animal. Peaceable Kingdom.

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Peaceable Kingdom

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Peaceable Kingdom tem como cenário um santuário para animais (Foto: Reprodução)

“Depois de ser afastado da vaca para que o leite seja aproveitado pela indústria, o novilho é morto para a extração de sua carne. Na realidade, a indústria de carne de novilho só existe por causa da indústria de laticínios, é um subproduto.

Dão a eles uma dieta pobre em ferro e, como eles também são privados de se exercitar, logo ficam anêmicos. E tudo isso para que a carne fique mais macia. Em muitos casos, os bovinos não conseguem se movimentar porque estão muito fracos. Então são arrastados.

Há situações em que as vacas param de produzir leite porque estão de luto por causa dos seus bezerros. Já encontrei vacas com seus novilhos mortos em uma fazenda e fiquei espantado ao ver que elas mugiam por dias, chamando seus filhos, e ficavam sem comer e beber.

As outras vacas davam suporte, pastavam com elas. E as vacas fazem isso porque se importam com os seus, ficam de luto. Nós acreditamos que somos únicos porque somos racionais. Claro, nós também somos emocionais, mas vacas também são. Há uma grande ligação entre elas.”

Trechos de um diálogo do documentário Peaceable Kingdom, da estadunidense Jenny Stein, lançado em 2004.

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Como trocar a faca pelo garfo

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Documentário mostra como a dieta vegetariana tem transformado vidas

Com o lema “Que o seu alimento seja o seu remédio”, Forks Over Knives segue na mesma linha de documentários como Super Size Me (Arte: Divulgação)

Com o lema “Que o seu alimento seja o seu remédio”, Forks Over Knives surpreende pela riqueza de informações (Arte: Divulgação)

Lançado em 2011, Forks Over Knives, conhecido no Brasil como Troque a Faca pelo Garfo, é um documentário contundente e muito bem embasado, produzido pelo jornalista estadunidense Lee Fulkerson. Na obra, o espectador é convidado a conhecer as grandes transformações que uma dieta vegetariana proporcionou na vida de muitas pessoas com doenças graves, algumas até mesmo desenganadas pelos médicos. E mais, mostra como a indústria de produtos de origem animal é capaz de manipular a política a seu favor, atribuindo a esses alimentos qualidades que fazem a população acreditar que eles são insubstituíveis, quando na realidade não são.

Com o lema “Que o seu alimento seja o seu remédio”, inspirado em Hipócrates, Forks Over Knives segue na mesma linha intimista de documentários como Super Size Me, de 2004, ou seja, um filme em que o realizador participa como personagem. Fulkerson é um homem com sobrepeso que descobre que possui inúmeros problemas de saúde em decorrência de seus maus hábitos alimentares. Como muitos ocidentais, tem uma alimentação rica em produtos industrializados – principalmente carboidratos ruins, carnes e laticínios.

Fulkerson é um homem com sobrepeso que descobre que possui inúmeros problemas de saúde

Fulkerson é um homem com sobrepeso que descobre que possui inúmeros problemas de saúde (Foto: Divulgação)

Com o iminente risco de contrair doença arterial coronariana, o jornalista aceita o desafio de participar de um programa de reeducação alimentar baseado em uma dieta vegetariana. Em um mês, ele começa a perceber mudanças positivas. O mesmo acontece com muitas outras pessoas que participam do desafio proposto por profissionais como o cientista e bioquímico P.H.D. em nutrição T. Colin Campbell, o cardiologista Caldwell Esselstyn e o médico John McDougall, profissionais que se tornaram grandes autoridades do assunto nos Estados Unidos.

Para endossar os benefícios da dieta vegetariana, o documentário apresenta pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Ásia, trazendo informações alarmantes sobre a relação entre doenças e o grande consumo de carne e laticínios. Talvez um dos casos mais emblemáticos dos benefícios da dieta vegetariana seja o de uma atleta que após os 40 anos descobriu que tinha câncer de mama estado em avançado, atingindo os ossos e os pulmões.

Campbell deixa claro que isso é mito e que é possível sim encontrar em plantas, frutas e grãos tudo que o corpo humano precisa (Foto: Divulgação)

Campbell deixa claro que isso é mito e que é possível sim encontrar em plantas, frutas e grãos tudo que o corpo humano precisa (Foto: Divulgação)

Sem se deixar abater, ela adotou a dieta vegetariana e continuou praticando atividades físicas com a mesma intensidade, até que o câncer desapareceu, sem recidiva mesmo após décadas. Outros grandes exemplos são de homens e mulheres que se livraram do diabetes e de outras doenças que exigiam consumo regular de medicamentos. E tudo isso porque encontraram na dieta vegetariana a quantidade necessária de macro e micronutrientes que precisavam para ter uma vida realmente saudável.

Questionado sobre a deficiência de proteínas na alimentação vegetariana, Campbell deixa claro que isso é mito e que é possível sim encontrar em plantas, frutas e grãos tudo que o corpo humano precisa. A economia gerada pelo não consumo de produtos industrializados, carboidratos de baixa qualidade, carnes e laticínios também é outro ponto a se considerar, já que quem segue esse tipo de dieta acaba investindo em mais diversidade de alta qualidade.

Como trocar a faca pelo garfo - 04

Esselstyn, um cardiologista que acredita que a alimentação vegetariana é mais poderosa que qualquer remédio (Foto: Divulgação)

Forks Over Knives desvela que a chamada dieta ocidental, rica em carboidratos ruins e grandes quantidades de carnes e lácteos também invadiu a Ásia no período pós-moderno. Enquanto as populações das pequenas cidades e vilarejos preservavam os mesmos hábitos por gerações, os moradores dos grandes centros urbanos foram seduzidos pela praticidade do fast food e pelos excessos no consumo de carne e laticínios.

Através de pesquisa, T. Colin Campbell e outros pesquisadores descobriram que muitos chineses que seguiam uma dieta vegetariana continuavam totalmente saudáveis após os 90 anos. Surpreendente também é o depoimento do homem que possuía 27 problemas de saúde e após adotar o vegetarianismo conseguiu eliminar 26.

O triatleta Rip Esselstyn, inspirado pelo pai, mudou a vida dos bombeiros de um batalhão do Texas depois que entrou para a corporação. E tudo isso sem qualquer imposição, somente mostrando os benefícios práticos do vegetarianismo na vida de colegas de trabalho com altos níveis de mau colesterol. Logo todos concordaram com a inclusão de um cardápio vegetariano. Outros atletas, incluindo um boxeador, também dão depoimentos endossando os benefícios desse estilo de vida. Citam melhor rendimento, melhor recuperação, mais disposição e refutam a afirmação de que há deficiência proteica na alimentação.

Revelador também é o fato de que T. Colin Campbell perdeu espaço em uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos por causa do seu posicionamento. A instituição sofreu pressão de uma multinacional do ramo de laticínios e eles optaram por dispensar o cientista. A falácia de que o leite é o alimento mais rico em cálcio é apontada por Campbell como um fator cultural que atravessa décadas e justamente porque as grandes indústrias tiveram sucesso em disseminá-la.

Forks Over Knives prova que direta ou indiretamente os maiores produtores de carnes e lácteos controlam até mesmo o que a população consome nas escolas, em repartições públicas e nas empresas. Ou seja, a influência da indústria é tão grande que foi legitimada como se fosse uma prática aceitável, em prol de um bem maior.

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O livreiro da Rua Artur Bernardes

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De longe, ele parecia um personagem suspeitoso, saído de uma das histórias de Charles Dickens

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Primeira edição de David Copperfield, de Charles Dickens, publicada em 1849 (Foto: Reprodução)

Pelo menos uma vez por mês, o livreiro João Romani passava em casa, na Rua Artur Bernardes, quando eu tinha nove anos. Por entre os galhos da sete-copas, eu o via atravessando a Rua Silvio Meira e Sá Bezerra e descendo em minha direção, carregando a mesma mala acastanhada, adornada com nomes de dezenas de escritores.

De longe, ele parecia um personagem suspeitoso, saído de uma das histórias de Charles Dickens. Não tinha mais de 35 anos, estatura mediana, pele cor de oliva, um andar peculiar e se vestia como um homem da década de 1920, com seu chapéu fedora cuidadosamente alinhado e paletó cinturado. Junto à mala, sempre trazia um guarda-chuva que podia ser desmontado e usado como bengala.

Quando o conheci, ele estava no portão de casa conversando com minha mãe, oferecendo uma coleção de 16 volumes da Enciclopédia Barsa. Conforme o livreiro falava, num crescente paroxismo, tudo ganhava vida e se tornava mais importante do que realmente era. Ele sorria, gesticulava e movia os pés de um lado para o outro, fazendo da apresentação da enciclopédia uma performance teatralmente didática.

E foi assim que João Romani a convenceu a comprar a coleção numa negociação mais motivada pelos seus métodos de venda do que pela qualidade do produto. Seu poder de convencimento talvez só não superasse suas qualidades humanas mais virtuosas. E naquele dia, ele pediu autorização da minha mãe para descansar por alguns minutos na varanda. Ela consentiu sem pestanejar.

Convidado a entrar, ele sentou em uma cadeira com cordas de nylon e minha mãe foi até a cozinha buscar uma xícara de café enquanto a garoa resplandecia serena sobre o nosso jardim. Antes de abrir a mala, tirou o chapéu da cabeça e o manteve sobre a ponta do guarda-chuva escorado na grade da janela. Ajeitou os cabelos castanhos e ondulados e perguntou meu nome. Respondi e ele deu um grito entusiasmado:

“Uau! Estupendo! David! Será que se seus pais escolheram seu nome por causa do jovem David Copperfield? Você conhece a história dele?” Sorri e, entusiasmado com o seu carisma, questionei se ele falava do mágico ou do menino. “Isto! O menino!”, comentou. Com a simplicidade inerente às crianças, relatei que ele era órfão e sofreu muito porque vivia sozinho no mundo. Apesar disso, acreditava no ser humano, em um mundo melhor.

Muito bom! Sabe de uma coisa, David? Sou de origem romani, cigana, e nós nunca acreditamos que nomes são escolhidos ao acaso. Tenho certeza que o seu diz muito sobre quem você é e vai ser. David Copperfield era extremamente perseverante, um sonhador, e embora eu tenha conhecido você há pouco, acredito que você também será assim. Este nosso encontro tem um significado especial que um dia talvez faça mais sentido na sua vida – declarou o livreiro com uma expressão enigmática que destacou ainda mais seu rosto quadrado e seus olhos grandes e amendoados como o fruto da sete-copas.

Tão rápido minha mãe retornou com o café, João Romani agradeceu e o bebeu em silêncio, observando Happy e Chemmy brincando no jardim, rolando na grama úmida, com olência de jasmim, e teimosamente saltando sobre o canteiro de plantas. Com olhar curioso, o livreiro sorria diante do espetáculo da vida cotidiana. Perscrutava com tanto rigor o trivial que até a mais ordinária das cenas parecia transmitir algo de surreal.

Quando ameacei tirar Happy e Chemmy da grama, evitando que se sujassem mais, ouvi um som duplo e sincronizado. O livreiro estava abrindo a mala. No mesmo instante, me afastei dos dois poodles e me aproximei, intrigado em saber o que ele carregava.

“Olhe, vou contar um segredo. Não costumo mostrar para ninguém o tesouro que carrego comigo, mas como acredito que você seja um genuíno David Copperfield, sei que não há problema”, argumentou, em seguida pedindo que eu fechasse os olhos e estendesse os braços. Logo senti algo plastificado entre meus dedos pequenos.

Sobre as minhas mãos estava um exemplar esmerado de David Copperfield. A capa era esverdeada e trazia instigantes ilustrações das aventuras vividas pelo jovem órfão. Embora eu não entendesse em profundidade a importância daquele momento, fiquei muito feliz em segurar a obra nas mãos. E o semblante de Romani deixou subentendido que eu estava diante de uma oportunidade inestimável.

“É diferente do livro da Escola São Vicente de Paulo. Parece que esse é mais velho e menos colorido. Lembra uma revista antiga, uma cartilha”, comentei sem velar a inocência. O livreiro deu uma breve gargalhada, tirou a obra da embalagem que a protegia e pediu que eu lesse o que estava escrito na capa. “O senhor me desculpe, não sei tanto assim de inglês”, justifiquei. Então ele explicou que não era para eu ler tudo e me mostrou o ano grafado – 1849.

Aquela era a primeira edição de David Copperfield, o maior tesouro da família de João Romani. Seu bisavô Vladimir recebeu o exemplar das mãos do próprio Charles Dickens pouco tempo após o lançamento. “Ele fugiu para a Inglaterra em 1846 e mais tarde conheceu o autor na esquina da Editora Bradbury e Evans, em Londres. Meu bisavô trabalhava como engraxate, e um dia Charles Dickens conversou com ele. Se não me falhe a memória, falou o seguinte antes de entregar David Copperfield: ‘Aqui está uma semente. Quem sabe se torne um presente’”, narrou o livreiro sorrindo.

O jovem cigano encontrou Dickens mais três vezes. No último encontro, o autor fez o garoto de 15 anos chorar quando comentou que talvez tivesse escrito uma história melhor se David Copperfield fosse baseado na vida de Vladimir. Nascido na Romênia, o bisavô de João Romani foi um serf, escravo de um boiardo valaquiano – aristocrata da Transilvânia. Órfão, passou a maior parte da infância realizando serviços domésticos e trabalhando no garimpo em troca de comida, até que um dia conseguiu fugir.

Mesmo ainda criança, fiquei boquiaberto com o relato, e a desenvoltura do livreiro garantia mais realismo à história. O exemplar de David Copperfield, que segurei com as duas mãos, tinha uma dedicatória, e o nome de Vladimir escrito por Charles Dickens figurava sobre o nome do protagonista, num singelo gesto de afeição.

Houve um momento em que o notei com os olhos marejados, se esforçando para não lacrimejar. Fez tanta força que as veias do pescoço saltaram e revelaram uma tatuagem discreta, porém vivida, perto do pescoço. Era baseada em uma combinação de cores que não consegui identificar. Não havia desenho, somente duas palavras – Pacha Dron que descobri há alguns anos que significa O Caminho da Vida.

Logo que a garoa se dissipou, João Romani embalou novamente David Copperfield e o ajeitou dentro da mala com o mesmo esmero que uma mãe dedica ao filho na hora de colocá-lo para dormir no berço. Quando a mala se fechou, senti um ar morno e fugaz acariciando minhas maçãs. O livreiro se levantou, se despediu da minha mãe e eu o acompanhei até o portão. Lá fora, ele estalou os dedos, apontou para mim e falou: “Até logo, David Copperfield!” Deu uma piscadela e desceu a Rua Artur Bernardes como um singular personagem. Se na vinda, e de longe, ele me parecia um tipo de Uriah Heep, na volta, mais lembrava um híbrido de Ham Peggotty e Dr. Strong.

João Romani me visitou ao longo de um ano. Independente de clima e tempo, ele sempre retornava. Um dia, chovia muito quando o livreiro bateu palmas em frente de casa – estava encharcado, desprotegido pelo próprio guarda-chuva tornado arredio pela violência das águas. “Compromisso é compromisso!”, alegou sorrindo. Depois de ouvir uma boa reprimenda de minha mãe, dessas que os pais dão nos filhos mais travessos, ele velou o riso e aceitou cabisbaixo o reproche, até que começamos a rir.

Afeiçoado a um ofício que entrou na sua família por meio do seu bisavô Vladimir, sua maior satisfação era percorrer as ruas vendendo livros. Para ele, nada era mais importante do que o prazer de contar histórias e despertar sensações. Em uma ocasião, quando foi assaltado, entregou todo o dinheiro e se debruçou sobre a mala no meio do asfalto, protegendo os livros; até que os bandidos desapareceram como se nunca tivessem se aproximado dele.

No nosso último encontro, perto do Natal, João Romani me deixou como guardião de uma caneta Fountain que seu bisavô entregou ao seu avô horas antes de falecer. “David Copperfield, essa caneta foi usada por Charles Dickens no rascunho de Grandes Esperanças. Qual maior exemplo de esperança do que ter nas mãos algo que existe desde 1860 ou até antes? Pois é…”, enfatizou. Aquela foi a última vez que vi o livreiro para quem ainda guardo a Fountain.

Oxalá, quando a realidade cessar de existir para mim, como as sombras vaporosas de que a minha imaginação se separa voluntariamente nesta ocasião, eu possa encontrar o que há de verdadeiramente mais importante ao pé de mim, com o dedo levantado a apontar-me o céu! – escreveu Dickens em David Copperfield, num trecho transfigurado por mim.

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Dorian Gray e a homossexualidade de Oscar Wilde

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“De todos os homens na Inglaterra, sou o que menos necessita de propaganda”

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Relacionamento entre Wilde e Douglas custou a prisão do autor de O Retrato de Dorian Gray (Foto: Reprodução)

Sua frivolidade afeminada, sua insinceridade estudada, seu cinismo teatral, seu misticismo de mau gosto e sua filosofia irreverente estão deixando um rastro de vulgaridade espalhafatosa. Foi com estas palavras que os mais conservadores definiram o romance The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray), do irlandês Oscar Wilde, quando a obra apareceu pela primeira vez em 24 de abril de 1891 em uma edição da Lippincot’s Monthly Magazine, sediada na Filadélfia, nos Estados Unidos.

Na revisão para a publicação do livro, Wilde atenuou um pouco a evidente homossexualidade e a decadência enquanto tema, mas adicionou comentários introdutórios que foram vistos como ofensivos na Inglaterra pós-vitoriana. Ele escreveu que não existe tal coisa como um livro moral ou imoral. Livros são bem escritos ou mal escritos. Isso é tudo.

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John Gray, poeta londrino que inspirou Oscar Wilde (Foto: Reprodução)

Se por um lado, o livro vendeu bem. Por outro, Wilde se viu obrigado a aperfeiçoar a sua arte do desprezo, já que as pessoas começaram a apontar o dedo para ele nas ruas, tornando-o um dos escritores mais controversos da época. Sua esposa, Constance Lloyd, reclamava que desde que Oscar escreveu O Retrato de Dorian Gray, ninguém mais queria falar com eles.

O escritor pouco se importou com o fato. “Eu acredito que posso dizer sem vaidade que, de todos os homens na Inglaterra, eu sou o que menos necessita de propaganda. Estou extremamente cansado de toda essa propaganda. Não sinto nenhuma emoção quando vejo meu nome no papel, porque escrevi o livro inteiramente para o meu próprio prazer. Sou indiferente ao fato dele se tornar popular ou não”, declarou Oscar Wilde na época.

O nome do protagonista, Dorian Gray, foi inspirado no poeta inglês John Gray, definido pelo também dublinense George Bernard Shaw como “um dos mais abjetos discípulos de Wilde”. “Independente de qual era a imagem que Gray pintou de sua relação com Oscar Wilde, ele mal tinha começado a assinar suas cartas como ‘Dorian’ quando foi espetacularmente substituído pelo lorde Alfred [Bosie] Douglas, um poeta que viria a ser a mais famosa e fatal atração de Wilde”, declara o escritor canadense e professor de literatura Steve King
Além de ser mais jovem, mais rico e considerado mais bonito que John Gray, Douglas, que era filho do Marquês de Queensberry, tinha lido o romance de Oscar Wilde 14 vezes, depois de tê-lo ganhado de presente de um amigo em comum com o autor irlandês. O seu primeiro encontro com Wilde ocorreu em junho de 1891. E o relacionamento escuso dos dois durou até 1896, quando Wilde foi condenado por ser homossexual. A prova usada em seu julgamento foi uma carta de amor de Oscar para Douglas, apresentada pelo Marquês de Queensberry.

O escritor negou sua homossexualidade até que a correspondência veio à tona. Por causa do escândalo, sua família se mudou para a Suíça e trocou o sobrenome para Holland. Condenado a dois anos de prisão por “indecência grave”, Wilde escreveu na cadeia a obra The Ballad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading), eternizada através da citação: “Para cada homem que mata a coisa que ele ama.” Antes de falecer em 30 de novembro de 1900, aos 46 anos, Oscar Wilde passou os últimos meses de vida em completo abandono. Até mesmo Alfred Douglas virou-lhe as costas.

Saiba Mais

Oscar Wilde nasceu em Dublin em 16 de outubro de 1854.

Suas obras mais notáveis são The Picture of Dorian Gray, The Importance of Being Earnest, The Happy Prince and Other Tales e Salome.

Trecho de O Retrato de Dorian Gray (Página 59)

As cenas pintadas eram o meu mundo. Eu não conhecia nada além de sombras e acreditava que fossem reais. Você veio – oh, meu belo amor! – e libertou minha alma da prisão. Você me ensinou o que a realidade é, de fato. Esta noite, pela primeira vez em minha vida, vi além do vazio, do blefe, da puerilidade, da oca cerimônia que eu sempre interpretei. Esta noite, pela primeira vez, me tornei ciente de que Romeu era horrível, e velho, e pintado, que a luz da lua sobre o pomar era falsa, que o cenário era vulgar e que as palavras que eu tinha de falar eram irreais, não eram as minhas, não eram o que eu queria dizer. Você trouxe algo mais elevado, algo do qual a arte é apenas um reflexo. Você me fez entender o que é realmente o amor. Meu amor! Meu amor! Estou farta de sombras. Você é mais para mim do que toda arte pode ser. O que tenho eu a ver com as marionetes de uma peça? Quando cheguei esta noite, eu não podia entender como foi que tudo isso fugiu de mim. Subitamente, o significado disto amanheceu em minha alma.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

Pearce, Joseph. The unmasking of Oscar Wilde. Ignatius Press, 2004.

Oscar Fingal O’Fflahartie Wills Wilde, Alfred Waterhouse Somerset Taylor, Sexual Offences > sodomy, 20th May 1895“. Old Bailey Proceedings Online. Acessado em 3 de junho de 2016.

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Acidente numa noite de outono   

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As únicas luzes eram dos faróis danificados que iluminavam algo que eu não enxergava

Avenida Parigot de Souza, onde meu carro foi atingido e perdi o controle da direção (Foto: David Arioch)

Avenida Parigot de Souza, onde meu carro foi atingido por uma caminhonete preta (Foto: David Arioch)

Em junho de 2013, eu retornava para casa quando uma caminhonete preta em alta velocidade bateu no para-choque traseiro do meu carro na Avenida Parigot de Souza. Com o impacto violento e o som dos estilhaços, levei um baita susto. Só tive tempo de me esforçar para tentar manter o controle da direção, evitando que o veículo se chocasse contra uma carreta estacionada a poucos metros da entrada da Rua John Kennedy.

Depois do acidente, fiquei com a impressão de que bati em uma caçamba. Olhei para o meu irmão e perguntei se ele estava bem. Como ninguém tinha se machucado, desci do carro e não consegui entender o que aconteceu. Era como se não existisse mais nada diante de mim além da noite tenebrosa de outono. As únicas luzes eram dos faróis danificados que iluminavam algo que eu, desorientado, não enxergava naquele momento por causa da neurastenia.

Não vi casas, muros, pessoas, animais, nada. Só reconheci o som da minha própria mente, mais ruidosa do que nunca. Enleado, não me dei conta do estado do meu carro. Na esquina, a caminhonete continuava parada e dentro dela vi somente uma sombra sob o vidro escuro quase fechado. Me senti muito mal e, rendido a um desespero progressivo, notei meu corpo ligeiramente alheio à minha mente. Com pernas cambaleantes, voltei para o carro. Então meu irmão gritou que o motorista da picape fugiu. “Vamos atrás dele, David! Ele vai fugir!”, disse.

Liguei a chave do carro com a mão trêmula. Atravessei mais quatro quarteirões da Parigot de Souza quando a caminhonete a mais de 100 quilômetros por hora desapareceu no horizonte da Avenida Tancredo Neves. Com a visão turva, sem qualquer possibilidade de ver a placa, parei o carro ao final da Parigot, desci e levei às mãos ao rosto que ardia como se eu tivesse chocado a minha própria face contra o asfalto.

Meus sentimentos não estavam claros – tristeza, desalento e descrença no que vivi. Eu sentia tudo e ao mesmo tempo nada. Havia um vazio que me queimava por dentro como se meu interior fosse habitado pela mais excruciante das úlceras. “Será que estou acordado?”, pensei e pisquei com força três ou quatro vezes antes de entrar no meu carro novo ainda sem placa, comprado uma semana antes. Recebi algumas propostas de seguro na concessionária e fiquei de decidir qual escolheria no dia seguinte. Era tarde demais.

Sem música, voltei para casa ouvindo o som estrepitoso do veículo. Era agonizante, e o barulho se intensificava a cada quarteirão como panelas e talheres pendurados que balouçam com a incidência do vento. Meus olhos se encheram de lágrimas e o cheirinho de novo se desvaneceu. Dezenas de curiosos a pé e dentro de automóveis olhavam com atenção, na tentativa de interpretar o acontecido e talvez propagar suas versões de predição.

Chegando em casa, abri o portão e coloquei o carro para dentro. Não queria que vizinhos e passantes se aproximassem porque provavelmente multiplicariam boatos – a história mudaria de acordo com o anseio do narrador. Na garagem, vi como ele estava avariado, mais danificado do que eu pensava. Enquanto eu caminhava ao redor do carro, tentava entender por que o motorista da caminhonete fugiu e não assumiu a responsabilidade pela batida. Aquilo era o pior de tudo.

“Como ele conseguiu assistir tudo e ir embora como se nada tivesse acontecido? Que tipo de consciência uma pessoa assim pode ter? Será que é possível dormir bem? Talvez eu esteja enganado e ele me procure amanhã. Preciso ter calma…”, inferi. Em poucos minutos, ouvi vozes em frente ao Corpo de Bombeiros, inclusive uma referência à batida no cruzamento da Avenida Parigot de Souza com a Rua John Kennedy. Fui até lá. Havia bombeiros e outras pessoas.

Um dos homens disse que bati no carro dele e fugi. Notei olhares repreensíveis. Entre voz remansosa e agitada, tentei explicar que fui atingido por uma caminhonete e, em meio à escuridão, quando meu irmão mostrou que o responsável pelo acidente fugia, só pensei em ir atrás dele. Não imaginei que tivesse atingido outro carro. Por causa do impacto seco que não visualizei, achei que fosse uma caçamba.

E, assim como qualquer outra pessoa motivada pelo desespero, tentei anotar pelo menos a placa do veículo do causador. Não consegui. Ele saiu ileso e só quem me conhecia acreditou na minha história. Apesar de tudo, concordei em ir com o proprietário do outro carro até o 8º Batalhão da Polícia Militar na manhã do dia seguinte registrar o boletim de ocorrência.

Contei e escrevi exatamente o que vivi. No caso dele, não sei qual foi sua versão. Porém, só eu, meu irmão e o motorista da caminhonete estávamos naquela rua no momento do acidente. O carro atingido estava estacionado na rua. Não havia mais ninguém por perto. Retornei ao local na mesma manhã para avaliar seu prejuízo e levei um funileiro que eu considerava de confiança para fazer o orçamento.

Na primeira noite, acordei de madrugada e fui até a garagem me certificar dos danos. Sim! Era tudo verdade! Tive pesadelos por algumas noites. E envolviam situações em que eu tentava me aproximar da caminhonete preta e ela se desvanecia como se fosse a própria neblina arredia da madrugada caliginosa.

Meu coração palpitava com ferocidade conforme a picape se distanciava. Num desses rompantes oníricos, a picape se entranhou nas profundezas da terra e o asfalto se fechou impedindo a minha entrada. Outra vez minha imaginação fez uma associação com Christine, O Carro Assassino, de John Carpenter.

Passei duas semanas em vão tentando localizar a caminhonete. Percorri mais de 20 funilarias, pedi ajuda de amigos. Nada adiantou. Recorri até ao sistema de monitoramento de câmeras da prefeitura. Infelizmente, cobria somente a região central.

Aceitei a minha derrota e desisti. Como precisei de um bom tempo até reunir o dinheiro para custear o conserto do outro carro atingido na batida, o proprietário ficou impaciente, achou que eu não pagaria e recorreu a um advogado. Um dia, recebi uma proposta de acordo de um escritório de advocacia.

E o que mais me chamou a atenção era que lá constava que atingi seu carro enquanto eu disputava racha com outro veículo. Só consegui sentir um misto de tristeza e constrangimento, tanto que tive de reler três vezes para crer. Eles acusavam alguém com 29 anos, que nunca recebeu nenhuma multa por excesso de velocidade, de ser participante de rachas.

E para piorar, eu soube por meio de parentes que alguns de seus familiares estavam espalhando calúnias sobre mim. Ok. Não quis checar a veracidade disso. Somente lamentei e logo deixei de me importar. Dentro do prazo que me ofereceram, efetuei a transferência do dinheiro e evitei falar abertamente sobre o assunto com outras pessoas. Quando questionado, parei de me justificar e deixei cada um com suas interpretações. Afinal, minha consciência é a minha, não a dos outros.

Do motorista da caminhonete, eu jamais soube coisa alguma. Só imaginei como deve ser horrível conviver com a preocupação de que sempre que algum carro igual ao meu se aproximar, ele há de suspeitar que eu esteja lá dentro e, no seu ideário desconhecido, o culpando pelo acontecido. E quem garante que o causador do acidente não seja um conhecido?

A experiência não foi totalmente ruim. Endossei a crença do que eu não gostaria de ser ou fazer com os outros. Acredito que se o dinheiro se tornar mais importante do que a minha capacidade de empatia, provavelmente deixo de ser quem sou, perdendo a minha identidade e tornando-me um refém da empáfia.

E fui colocado à prova no ano seguinte. Em novembro de 2014, eu estava em frente a um mercado quando um motorista bateu à esquerda do meu carro e seguiu ziguezagueando pela rua. Quando vi o amassado pelo retrovisor, fui atrás dele. Sinalizei para que parasse e ele encostou o seu Corcel II bem deteriorado, com o escapamento arrastando no asfalto.

Desci e caminhei em sua direção. Embriagado, o sujeito mal falava. Sua esposa também desceu e expliquei que ele bateu no meu carro. Constrangida, a mulher se desculpou enquanto o marido fazia caretas, ria e tamborilava as mãos sobre o capô do carro. Ele parecia não se importar com a situação. No banco de trás, uma garotinha de tranças, com três ou quatro anos, assistia tudo em silêncio, segurando uma bonequinha inteiriça de plástico duro, dessas mais baratas.

A esposa do motorista me deu o número do seu telefone e implorou para não chamar a Polícia Militar. Na realidade, eu nem tinha essa intenção. Ela sugeriu que eu entrasse em contato para passar o orçamento do conserto. Antes de ir embora, perguntei de onde eles eram e o que faziam. “A gente mora e trabalha na roça dum homi aí, ‘samo lavrador’. Tamu ino visita o túmulo da minha mãe. Pedi pra ele não beber, mas é teimoso demais. Cê pode ligar qualquer hora”, se justificou constrangida.

Nunca liguei. Só assisti o sujeito serpentando o carro e desaparecendo dois quarteirões abaixo quando a fumaça do escapamento ocultou o veículo. A sinuosidade de suas vidas talvez fosse representada pelos traços sulcados no rosto daquela mulher precocemente envelhecida. Meu prejuízo material nem de longe se aproximava do seu padecimento existencial.

Sophia, uma mulher por trás de “Guerra e Paz”

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Título da obra mais importante de Liev Tolstói também definia o relacionamento do autor com a esposa

Liev Tolstói e sua esposa Sophia, também sua companheira de trabalho (Foto: Reprodução)

Liev Tolstói e sua esposa Sophia, também sua companheira de trabalho (Acervo: Corbis)

A imagem completa da vida humana, do zeitgeist russo, da história de luta das nações, de tudo que as pessoas consideravam como felicidade, grandeza, tristeza e humilhação sintetiza o significado e a importância do romance “Guerra e Paz”, do escritor russo Liev Tolstói, lançado em 17 de dezembro de 1867.

O anúncio do lançamento da obra que se tornou quase que imediatamente um dos maiores romances da história da literatura foi feito no Moscow News. Os quatro volumes foram vendidos ao preço de sete rublos. Os três primeiros foram entregues com um cupom para o quarto. Os leitores descobriram que viriam mais novidades nos próximos dois anos.

A repercussão da novela de Tolstói foi tão grande que os russos varreram as estantes das livrarias, inclusive para presentear amigos e depois trocarem cartas em que revelavam suas impressões dos personagens. Tolstói dizia que o livro consumiu cinco anos de sua vida, e a obra não era resultado de sua imaginação, mas sim de algo arrancado de suas entranhas. Naquela época, ele e Sophia eram recém-casados. Ela tinha 18 anos e ele 34. Para ajudá-lo, a jovem passava noites sob luz de velas decifrando e transcrevendo os manuscritos de Tolstói.

Além disso, também assumiu a responsabilidade de avaliar a obra e os sentimentos que ele transmitia por meio do livro. Como o russo era um escritor compulsivo e detalhista que não possuía uma boa caligrafia, Sophia teve de reescrever “Guerra e Paz” sete vezes até chegar à versão final. E ela fez tudo isso na esperança de ter um filho com ele. Mais tarde, também desempenhou o papel de secretária, revisora e gerente financeira enquanto o marido escrevia Anna Karenina, lançado em 1877.

Primeira edição integral de Guerra e Paz em russo (Foto: Reprodução)

Primeira edição integral de Guerra e Paz em russo (Foto: Reprodução)

Mas o relacionamento dos dois não era baseado somente em cumplicidade. Quando Liev Tolstói começou a escrever “Guerra e Paz”, Sophia registrou em um de seus diários a seguinte passagem: “Ele está escrevendo sobre a condessa fulana conversando com a princesa quem é. Insignificante”, reclamou. O autor russo se dedicou tanto ao livro que Sophia chegou a ortografar que ele provavelmente já “sentia o crime de matar na guerra”. Alguns pesquisadores afirmam que o casamento deles foi conturbado ao longo de 48 anos.

Em 1910, a saúde de Tolstói já estava bem debilitada, tornando-se uma recorrente preocupação familiar. Em seus últimos dias, pressentindo o pior, ele só escrevia e conversava sobre a experiência de morrer. Depois de muito tempo de renúncia ao seu estilo de vida aristocrata e adoção de uma vida simples, um dia ele saiu de casa com a intenção de se separar de Sophia. O motivo seria os ciúmes que ela começou a sentir quando testemunhou a atenção que o marido dispensava aos seus discípulos.

Talvez com razão e talvez também houvesse um motivo a mais, já que alguns pesquisadores apontam que alguns seguidores mais próximos de Liev Tolstói passaram a exercer influência sobre ele. Na fuga de 20 de novembro de 1910, aquele que foi considerado o homem mais famoso da Rússia faleceu em decorrência de pneumonia na Estação Ferroviária de Astapovo, na Província de Riazan, e talvez imerso na solitude final.

Trecho de “Guerra e Paz” – Volume I (Página 467)  

Pedro, silencioso, olhava, assombrado, o amigo, sem poder apartar os olhos dele, aturdido com a mudança que nele se operara. As suas palavras eram acolhedoras, tinha o sorriso nos lábios, mas aos olhos apagados, como mortos, por mais que fizesse não conseguia comunicar-lhes sombra de alegria. Não que tivesse emagrecido ou estivesse pálido, mas aquele seu olhar e aquela sua fronte sulcada de rugas, sinal de pensamentos concentrados, impressionavam Pedro e causavam-lhe como que uma sensação de repulsa, uma vez não habituado a vê-los no amigo.

Como sempre acontece depois de uma longa separação, não foi fácil encetarem desde logo uma boa conversa. As perguntas e as respostas eram breves, posto abordassem assuntos de que tanto um como outro estavam certos de ser dignos de mais larga explanação. Mas, por fim, voltaram a tratar dos assuntos a que apenas se haviam referido abreviadamente: o passado, os seus planos de futuro, a viagem de Pedro, as suas ocupações, a guerra, etc. A preocupação e o abatimento que Pedro notara no olhar do seu amigo refletiam-se agora mais pronunciadamente no sorriso com que ele acolhia as tiradas de Pedro, especialmente quando o ouviu falar com jovial emoção do passado e do futuro.

Obras mais importantes de Liev Tolstói

“Guerra e Paz”, “Anna Karenina”, “Confissão”, “O Reino de Deus está em Vós” e “Ressurreição”.

Saiba Mais

Liev Tolstói nasceu em 9 de setembro de 1828 em Yasnaya Polyana, a 12 quilômetros de Tula, na Rússia.

Sophia Andreyevna nasceu em 22 de agosto de 1844 e faleceu em 4 de novembro de 1919. Ela teve 13 filhos com Liev Tolstói, mas somente oito sobreviveram à infância.

Referências

http://www.todayinliterature.com/

V.G. Chertkov, The Last Days of Tolstoy. William Heinemann 1922.

Tolstaya, S.A. The Diaries of Sophia Tolstoy, Book Sales, 1987.

O dono da rua

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Rua onde tive que esperar a boa vontade do motorista da caminhonete (Foto: David Arioch)

Em Paranavaí, voltando para casa, passei por uma rua estreita onde os motoristas insistem em estacionar seus veículos dos dois lados, inviabilizando o tráfego. Até aí, tudo bem, nada de anormal. Passo por lá todos os dias e, sempre que vejo um carro vindo na mão oposta, costumo encostar o meu rente ao meio-fio e aguardo ele passar para seguir meu caminho.

Mas tem hora que é difícil não se surpreender com a falta de cortesia das pessoas. Exatamente em frente ao Salão do Reino das Testemunhas de Jeová, que fica no meio do quarteirão, um homem parou sua caminhonete importada e ficou lá bloqueando a passagem, pouco se importando se eu queria trafegar pela mesma rua.

Uma mulher e mais algumas pessoas desceram do veículo e o sujeito ainda continuou conversando. Depois de um tempinho, elas entraram no salão. Então o motorista passou por mim e seguiu seu caminho como se não houvesse mais ninguém naquela rua além dele e sua caminhonete. Talvez fosse doloroso demais pra ele ser gentil e fazer um aceno de mão em agradecimento.

Drácula, vegetarianismo e o homoerotismo de Bram Stoker

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Embora o livro seja conhecido no mundo todo, ele não trouxe fortuna ou sucesso ao autor dublinense

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“Em seu último ano de vida, ele ganhou tão pouco escrevendo que teve de recorrer ao Fundo Real Literário” (Foto: Reprodução)

Autor de três livros de contos, quatro livros de não ficção e 12 romances, o escritor irlandês Bram Stoker, contemporâneo de Oscar Wilde, sempre teve o seu nome associado à sua obra mais famosa – Drácula, publicada em 1897. Embora hoje o livro seja conhecido no mundo todo, a obra não trouxe fortuna ou sucesso ao autor dublinense. Nos seus últimos anos, ele ganhou tão pouco escrevendo que teve de recorrer ao Fundo Real Literário, segundo Paul Murray na biografia “From the Shadow of Dracula: A Life of Bram Stoker”, de 2004.

Bram Stoker encontrou um filão literário nas lendárias histórias de terror do século 18, quando contos sobre vampiros vieram à tona. Isso o motivou a trabalhar à sua maneira os mesmos elementos explorados previamente por Byron, Polidori, Goethe, Coleridge, Southey e Dumas.  Na literatura inglesa, o primeiro romance sobre o tema foi “The Vampyre”, do escritor inglês John Polidori, lançado em 1819.

A história surgiu por acaso quando Polidori estava hospedado na residência de Lord Byron na Vila Diodati, nas imediações do Lago de Genebra, na Suíça. Como choveu muito ao longo de três dias, Byron e seus convidados – Polidori, Claire Clairmont, Percy Shelley e Mary Wollstonecraft Shelley decidiram passar o tempo contando histórias. Ao final, o desafio era escrever um conto baseado nas histórias aterradoras que compartilharam. Uma curiosidade é que Byron e o casal Shelley eram vegetarianos.

Após a experiência, Polidori escreveu em apenas três manhãs a sua novela vampiresca inspirada em Byron e na narrativa de “Fragment of a Novel”, de Byron, publicada em 1816. Naquele tempo, Lord Byron condenava ostensivamente os excessos da burguesia na matança e na comilança de animais. Reação que foi poetizada em um excerto de “Canto XVIII”, de “Don Juan”.

Já Mary Wollstonecraft, com a colaboração de Percy Shelley, produziu a partir daquele encontro a obra que se tornaria uma das mais influentes da literatura gótica – “Frankenstein“, de 1818.  No livro, Mary moldou um anti-herói vegetariano que nada mais é do que o ser humano em seu estado mais impermisto e natural. A maior prova disso é que ainda isento dos vícios da civilização, o monstro vive na floresta, onde se alimenta estritamente de bagas e oleaginosas, não de carne, já que ele não vê sentido nem necessidade em matar animais para se alimentar.

Décadas mais tarde, Bram Stoker , influenciado por aquele encontro de escritores vegetarianos em 1818, na Vila Diodati, às imediações do Lago de Genebra, na Suíça, encontrou especialmente na história de Polidori, inspirada em Byron, uma inspiração para “Drácula”, de acordo com “Vampyres: Lord Byron to Count Dracula”, de Christopher Frayling, lançado em 1992.  Isso significa que o famoso personagem da cultura popular mundial foi inspirado em um controverso poeta britânico que não se alimentava de animais, já que segundo a biografia “Life of Lord Byron: with his letters and journals”, de Thomas Moore, em uma carta com data de 1811, Byron afirmou que havia se tornado vegetariano há vários anos.

Há biógrafos que defendem que Bram Stoker também levou para a literatura as suas insatisfações pessoais, como a sua velada homossexualidade, também partilhada por Wilde. Possivelmente, além do Byron de Polidori em “The Vampyre”, “Drácula” foi influenciado pelo relacionamento complexo e conturbado de Stoker com o famoso ator  inglês Henry Irving, de quem foi amigo e agente. Quem lê o livro com atenção percebe que “Drácula” manifesta uma transferência homoerótica, além de exercício de domínio e possessividade – como na passagem em que Drácula “defende” o personagem Jonathan Harker de três mulheres e afirma:

“Este homem pertence a mim!”, que, assim como inúmeras passagens, sustenta a perspectiva do vampiro de tê-lo numa relação de subserviência implicitamente sexual e existencial. O homoerotismo de “Drácula” não é nenhuma novidade entre pesquisadores da vida e obra de Bram Stoker. Barbara Belford escreveu a respeito na biografia “Bram Stoker: A Biography of the Author of Dracula,” de 1996; assim como Brigitte Boudreau em “Libidinal Life: Bram Stoker, Homosocial Desire and the Stokerian Biographical Project”, de 2011; e David K. Skal em “Something in the Blood: The Untold Story of Bram Stoker, the Man Who Wrote Dracula”, de 2016. Claro, além de outros diversos autores e pesquisadores.

Primeira edição de Drácula, lançado em 1897 (Foto: Reprodução)

Primeira edição de Drácula, lançado em 1897 (Foto: Reprodução)

Saiba Mais

Importante nome da literatura da era vitoriana, Bram Stoker nasceu em Dublin, na irlanda, em 8 de novembro de 1847 e faleceu no dia 20 de abril de 1912 em decorrência de sífilis terciária.

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A lição do malabarista

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Num reflexo inimaginável, o malabarista segurou a pedra no ar

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Sem mudar o semblante, o malabarista continuou movimentando as bolinhas (Foto: Reprodução)

Em frente a um semáforo no centro de Paranavaí, um artista de rua fazia malabarismo quando um rapaz dentro de um carro arremessou uma pedra em sua direção. Num reflexo inimaginável, o malabarista segurou a pedra no ar. Sem mudar o semblante, continuou movimentando as bolinhas que, mesmo com a inesperada adição do calhau, formaram um arco aéreo multicolorido e extremamente vívido.

O responsável pela pedrada agiu como se nada tivesse acontecido. Desviou o olhar, simulou expressão serena e fingiu que estava guardando alguma coisa dentro do porta-luvas. Faltando uma bolinha para o sinal ficar verde, o sorridente artista de rua finalizou a apresentação e, acompanhado de um amigo, se ajoelhou no asfalto gelado e áspero.

No mesmo instante, abriu os braços e pediu que os motoristas aguardassem um momento. “Por favor, esperem! Agora o sinal que está vermelho não vem do alto!”, disse. Todos ou quase todos entenderam o recado. Então ele se levantou e exibiu as palmas das mãos. Eu estava na primeira fileira e vi que as duas tinham inúmeras cicatrizes, mas somente a mão direita sangrava. O sangue escorria pelo seu braço e respingava na rua.

“Por favor, você aí, meu jovem! Venha aqui!”, falou o malabarista para o seu agressor, a poucos metros de distância de mim. O rapaz fingiu que não entendeu e virou o rosto para a calçada à sua direita. O artista de rua caminhou até ele e acenou gentilmente para que saísse do carro. Diante de tantos olhares curiosos e inquiridores, o jovem acabou cedendo.

Fora do automóvel, o agressor ficou constrangido e rubro. Mais do que isso, temeu a reação do malabarista. “Não se preocupe! Só vou dar a você a única coisa que tenho a oferecer. E ela não vem de baixo, não vem de cima, não vem da frente nem dos lados. Ela vem de dentro! É tão poderosa que toca até o intocado”, declarou o artista.

De repente, o malabarista apertou a mão direita do rapaz, fazendo com que ele sentisse o ferimento e o sangue que começava a engrossar em sua mão. Sem dizer mais nada, o abraçou com ternura e devolveu-lhe o calhau tornado vermelho por causa do sangue. “Que nenhum moribundo se entregue ao terror profundo! Porque sem gentileza só resta a aspereza!”, gritou o artista de rua, tão jovem quanto o próprio agressor, antes de subir na calçada.

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